{"id":2231,"date":"2012-01-06T03:09:35","date_gmt":"2012-01-06T03:09:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2231"},"modified":"2012-01-06T03:09:35","modified_gmt":"2012-01-06T03:09:35","slug":"ultima-sobrevivente-da-cela-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2231","title":{"rendered":"\u00daltima sobrevivente da cela 4"},"content":{"rendered":"\n<p>Morreu, aos 102 anos, Beatriz Bandeira, a \u00faltima sobrevivente da famosa cela 4 \u2013 onde foram presas, na Casa de Deten\u00e7\u00e3o, no Rio de Janeiro, ent\u00e3o Distrito Federal, as poucas mulheres que participaram da revolta comunista de 1935 no Brasil.<\/p>\n<p>Foi na cela 4 que ficaram confinadas Olga Ben\u00e1rio (esposa do l\u00edder da intentona, Luiz Carlos Prestes), a futura psicanalista Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck de Castro e as jornalistas Eneida de Moraes e Eug\u00eania \u00c1lvaro Moreyra.<\/p>\n<p>Por conta dessa passagem, Beatriz virou personagem de livros como \u201cMem\u00f3rias do C\u00e1rcere\u201d, o relato biogr\u00e1fico de Graciliano Ramos, que tamb\u00e9m esteve preso por causa da revolta.<\/p>\n<p>Pouco antes, como militante comunista e da Alian\u00e7a Nacional Libertadora (ANL), Beatriz conheceu seu marido, Raul, que viria a ser jornalista e secret\u00e1rio de Imprensa do governo Jo\u00e3o Goulart (1961-1964). Com ele se casou tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>Os dois foram exilados duas vezes. Em 1936, depois da liberta\u00e7\u00e3o, foram expulsos para o Uruguai. Em 1964, ap\u00f3s o golpe militar, receberam abrigo na Iugosl\u00e1via e, posteriormente, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao regressar ao Brasil, Beatriz continuou a milit\u00e2ncia pol\u00edtica nos anos 70 e 80. Foi uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democr\u00e1ticas, que lutou pelo fim da ditadura no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Beatriz nasceu em uma fam\u00edlia positivista. Seu pai, o coronel do ex\u00e9rcito Al\u00edpio Bandeira, foi abolicionista. Como militar, trabalhou no Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio (SPI) e ajudou o Marechal C\u00e2ndido Rondon na instala\u00e7\u00e3o de linhas telegr\u00e1ficas no interior do Pa\u00eds e no contato com tribos isoladas \u2013 Al\u00edpio liderou o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de militante pol\u00edtica, Beatriz foi poeta (publicou \u201cRoteiro\u201d e \u201cProfiss\u00e3o de F\u00e9\u201d) e professora (foi demitida pelo regime militar da cadeira de T\u00e9cnica Vocal do Conservat\u00f3rio Nacional de Teatro). Tamb\u00e9m escreveu cr\u00f4nicas e colaborou para o jornal A Manh\u00e3 e as revistas Leitura e Momento Feminino. H\u00e1 dez anos ela\u00a0<a href=\"http:\/\/www2.camara.gov.br\/tv\/materias\/MEMORIA-POLITICA\/159349-BEATRIZ-RYFF.html\" target=\"_blank\">contou um pouco de sua hist\u00f3ria<\/a> em uma entrevista \u00e0 TV C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Beatriz morreu na noite de segunda (dia 2) ap\u00f3s um AVC. Foi enterrada no final da tarde de hoje (dia 3) no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, em Botafogo.<\/p>\n<p><strong>Uma nota pessoal<\/strong><\/p>\n<p>Beatriz Bandeira Ryff era minha av\u00f3. Nos \u00faltimos anos de sua vida centen\u00e1ria a senilidade tinha lhe tirado totalmente a vis\u00e3o. Ela quase n\u00e3o falava e mal se comunicava com o mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns dez dias, fui visit\u00e1-la levado pelo meu filho de 8 anos que queria dar um beijo na \u201cbisa\u201d. Encontramos ela mais presente do que em todas as visitas nos anos anteriores. Chegou a cantarolar algumas m\u00fasicas que costumava embalar o sono dos netos quando pequenos, como os hinos revolucion\u00e1rios \u201cInternacional\u201d, \u201cA Marselhesa\u201d (embora ela tamb\u00e9m cantasse obras n\u00e3o pol\u00edticas, entre elas a \u201cBerceuse\u201d, de Brahms).<\/p>\n<p>Ao me despedir, perguntei-lhe se lembrava o trecho do poema \u201cCan\u00e7\u00e3o do Tamoio\u201d, de Gon\u00e7alves Dias, que ela costumava recitar. Ela assentiu levemente com a cabe\u00e7a e come\u00e7ou, puxando do fundo da mem\u00f3ria. Foram suas \u00faltimas palavras para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u201cN\u00e3o chores, meu filho;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">N\u00e3o chores, que a vida<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00c9 luta renhida:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Viver \u00e9 lutar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A vida \u00e9 combate<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Que os fracos abate,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Que os fortes, os bravos,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">S\u00f3 pode exaltar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">(\u201cCan\u00e7\u00e3o do Tamoio\u201d, Gon\u00e7alves Dias)<\/p>\n<p>Autor:\u00a0<a href=\"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/rio\/author\/luizryff\/\" target=\"_blank\" title=\"Posts de Luiz Antonio Ryff\">Luiz Antonio Ryff<\/a><\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/rio\/2012\/01\/03\/morre-a-ultima-sobrevivente-da-cela-4\/\">http:\/\/colunistas.ig.com.br\/rio\/2012\/01\/03\/morre-a-ultima-sobrevivente-da-cela-4\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: IG\n\n\n\n\n\n\n\n\nLuiz Antonio Ryff\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2231\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-2231","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-zZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2231\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}