{"id":22321,"date":"2019-02-12T21:04:58","date_gmt":"2019-02-12T23:04:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22321"},"modified":"2019-02-19T22:55:01","modified_gmt":"2019-02-20T01:55:01","slug":"a-luta-de-classes-e-a-saude-mental-dos-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22321","title":{"rendered":"A luta de classes e a sa\u00fade mental dos trabalhadores"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2019\/02\/quadro-operarios-de-tarsila-do-amaral-og.jpg\"\/><!--more-->Por Gilson Lima [i]\n<\/p><p>\nO adoecimento, o sofrimento e a dor, f\u00edsica e mental, fora os \u201cacidentes\u201d e \u201ctrag\u00e9dias\u201d, acompanham a hist\u00f3ria dos trabalhadores. S\u00e3o inclusive um ind\u00edcio de sua posi\u00e7\u00e3o de classe explorada e oprimida. \u201cA mis\u00e9ria, a inseguran\u00e7a, o excesso de trabalho e o seu car\u00e1ter for\u00e7ado destroem o corpo e o esp\u00edrito do oper\u00e1rio\u201d dizia Engels, em meados do s\u00e9culo XIX, em seu cl\u00e1ssico \u201cA situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra\u201d.\n<\/p><p>\nMas nos cabe entender melhor como a sa\u00fade do trabalhador se apresenta hoje, em nosso contexto, quais seus determinantes, suas caracter\u00edsticas e as melhores formas de defend\u00ea-la. Ora, e quando damos uma olhada nos notici\u00e1rios do jornal, ou prestamos aten\u00e7\u00e3o em nosso local de trabalho, o que nos salta aos olhos \u00e9 o crescimento do adoecimento mental dos trabalhadores. Como entend\u00ea-lo e combat\u00ea-lo?\n<\/p><p>\nN\u00e3o sou um especialista na \u00e1rea de sa\u00fade, adianto. Como trabalhador em um Banco venho acompanhando por algum tempo a quest\u00e3o do suic\u00eddio de trabalhadores banc\u00e1rios. A necessidade em abordar o assunto foi se colocando, principalmente, pela constante presen\u00e7a de um ou outro colega no ambiente de trabalho que apresentava alguma forma de transtorno mental, sobretudo, depress\u00e3o. Ao ler mat\u00e9rias sobre o tema ou receber not\u00edcias de morte ou de uma crise relacionada ao assunto, passei a temer que algu\u00e9m pr\u00f3ximo, surpreendentemente, pudesse vir a ser uma v\u00edtima fatal em virtude de problemas dessa natureza. Afinal, essas coisas n\u00e3o as percebemos t\u00e3o facilmente. E infelizmente, isso veio a acontecer[ii].\n<\/p><p>\nResolvi escrever tamb\u00e9m, primeiro no site da minha entidade[iii], depois nessa interven\u00e7\u00e3o, porque esse assunto est\u00e1, de um jeito ou de outro, na pauta de conversas entre amigos trabalhadores e militantes. Afinal, os n\u00fameros dessa forma de adoecimento est\u00e3o realmente preocupantes: s\u00e3o diversas as categorias afetadas direta ou indiretamente. Mas, de forma lament\u00e1vel, ainda n\u00e3o se tornou uma pauta de import\u00e2ncia para entidades e coletivos de classe, que ainda n\u00e3o contribuem de forma concreta para a luta e o enfrentamento no \u00e2mbito de nossa sa\u00fade mental.\n<\/p><p>\nAli\u00e1s, essa nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante ao diagn\u00f3stico da interessante interven\u00e7\u00e3o no site PassaPalavra[iv] de novembro do ano passado. O autor, que se identifica como Banc\u00e1rio, critica n\u00e3o s\u00f3 a falta de import\u00e2ncia dada a esse tema na forma\u00e7\u00e3o e luta sindical dos banc\u00e1rios hoje em dia, mas tamb\u00e9m as formas dessa forma\u00e7\u00e3o e luta:\n<\/p><p>\n\u201co livro [Sa\u00fade dos banc\u00e1rios] e as forma\u00e7\u00f5es promovidas pelo Sindicato dos Banc\u00e1rios de S\u00e3o Paulo tendem a ser pouco propositivos politicamente, suas campanhas n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m da agita\u00e7\u00e3o, o sindicato n\u00e3o tem avan\u00e7ado em formas de constru\u00e7\u00e3o de lutas coletivas em rela\u00e7\u00e3o a essas pautas, as a\u00e7\u00f5es do sindicato em torno dessa pauta s\u00e3o sobretudo cupulistas, nas greves a pauta da sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 priorizada.\n<\/p><p>\nAs forma\u00e7\u00f5es promovidas pelo sindicato tendem a ser voltadas sobretudo para os dirigentes sindicais e os pr\u00f3prios debates tendem a ser excessivamente acad\u00eamicos; ousamos dizer que s\u00e3o mesmo administrativos, ou gestoriais, mais preocupados em problemas t\u00e9cnicos e em administrar a caixa de sa\u00fade dos funcion\u00e1rios ou em como a empresa deve lidar com adoecimento que seus m\u00e9todos de gest\u00e3o provocam, e pouco preocupados em como promover lutas para resistir a esse adoecimento ou conquistar melhores condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e assist\u00eancia m\u00e9dica.\u201d\n<\/p><p>\nPois bem, vejamos mais de perto esses dados sobre adoecimento ps\u00edquico dos trabalhadores. Depois, quais suas causas, de acordo com alguns estudiosos. Por fim, responderemos a famosa quest\u00e3o do que fazer \u2014 ao menos a partir das pistas e achados dispon\u00edveis aqui. Nesse \u00faltimo momento, voltaremos inclusive a uma cr\u00edtica \u00e0 linha pol\u00edtica sindical majorit\u00e1ria j\u00e1 exposta acima pelo companheiro Banc\u00e1rio.\n<\/p><p>\nA sa\u00fade mental dos trabalhadores est\u00e1 em baixa\n<\/p><p>\nEm outubro de 2018, o Globo[v] divulgou um relat\u00f3rio alarmante sobre sa\u00fade mental no mundo. O relat\u00f3rio, escrito por 28 cientistas e publicado na prestigiada revista de medicina The Lancet, fala de um aumento dram\u00e1tico de transtornos depressivos e de ansiedade nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Hoje a OMS estima 300 milh\u00f5es de pessoas no mundo com depress\u00e3o, e a previs\u00e3o \u00e9 que se torne a doen\u00e7a mais incapacitante j\u00e1 em 2020.\n<\/p><p>\nSegundo mat\u00e9ria do Estad\u00e3o[vi] do mesmo per\u00edodo, \u201co Brasil \u00e9 campe\u00e3o de casos de depress\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Quase 6% da popula\u00e7\u00e3o, um total de 11,5 milh\u00f5es de pessoas, sofrem com a doen\u00e7a, segundo dados da OMS. Por\u00e9m, a psiquiatra Nad\u00e8ge Herdy alerta para o aumento do n\u00famero de registros de Transtornos de Ansiedade. \u2018Os mais comuns s\u00e3o os transtornos de ansiedade generalizada e s\u00edndrome do p\u00e2nico. Em 2015, 18,6 milh\u00f5es de pessoas sofriam com transtorno de ansiedade no Brasil\u2019\u201d.\n<\/p><p>\nJ\u00e1 \u201cdados de relat\u00f3rios anuais da ANS (Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar) compilados pela Folha[vii] revelam que o n\u00famero de consultas psiqui\u00e1tricas cobertas pelos planos saltou de 2,9 milh\u00f5es em 2012 para 4,5 milh\u00f5es em 2017. O aumento de 54% \u00e9 o qu\u00edntuplo dos 10% registrados no mesmo per\u00edodo pelas consultas ambulatoriais de forma geral. (\u2026) Embora permane\u00e7am em terceiro lugar entre as doen\u00e7as causadas pelo pr\u00f3prio emprego \u2014 atr\u00e1s de les\u00f5es e problemas musculares \u2014, a parcela de afastamentos por transtornos mentais tem aumentado.\u201d Isso, ressaltamos, levando em conta que os dados n\u00e3o abrangem o conjunto dos trabalhadores informais, al\u00e9m do vi\u00e9s pela descaracteriza\u00e7\u00e3o do nexo com trabalho (desigual entre categorias profissionais) para os trabalhadores com cobertura previdenci\u00e1ria.\n<\/p><p>\nNo caso da minha categoria, trabalhadores empregados em bancos, o problema parece ser mais grave. Segundo o Sindicato de Banc\u00e1rios de S\u00e3o Paulo[viii]:\n<\/p><p>\n\u201cOs transtornos psiqui\u00e1tricos j\u00e1 superaram as doen\u00e7as osteomusculares que por muitos anos foram campe\u00e3s de incid\u00eancia entre os trabalhadores banc\u00e1rios. (\u2026) nos Centros de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador (CRST) do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, somente de junho a novembro de 2015, dos 102 atendimentos a banc\u00e1rios realizados nos centros, 54% apresentavam transtornos metais. Em seguida est\u00e3o problemas como LER e Dort (Les\u00f5es por Esfor\u00e7os Repetitivos e Doen\u00e7as Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho) com 30,39% dos atendimentos. [\u2026] Os bancos nem negam mais que o trabalho banc\u00e1rio adoece. Ainda querem atribuir as press\u00f5es aos gestores, mas estes tamb\u00e9m adoecem e s\u00e3o afastados. A recente intensifica\u00e7\u00e3o das demiss\u00f5es nos bancos privados e as reestrutura\u00e7\u00f5es nos bancos p\u00fablicos aumentou a ang\u00fastia dos trabalhadores e o n\u00famero de casos extremos tamb\u00e9m aumentou. [\u2026] Outro dado alarmante de sa\u00fade mental \u00e9 de que no ano passado, 75,3 mil trabalhadores foram afastados em raz\u00e3o de depress\u00e3o, com direito a recebimento de aux\u00edlio-doen\u00e7a em casos epis\u00f3dicos ou recorrentes. Eles representaram 37,8% de todas as licen\u00e7as em 2016 motivadas por transtornos mentais e comportamentais, que incluem n\u00e3o s\u00f3 a depress\u00e3o, como estresse, ansiedade, transtornos bipolares, esquizofrenia e transtornos mentais relacionados ao consumo de \u00e1lcool e coca\u00edna.\u201d\n<\/p><p>\nA quest\u00e3o do suic\u00eddio, como comentei, \u00e9 um problema grave entre n\u00f3s. Em mar\u00e7o de 2017 a situa\u00e7\u00e3o no Banco do Brasil ficou alarmante, segundo a AGEBB (Associa\u00e7\u00e3o dos Gerentes do Banco do Brasil)[ix]:\n<\/p><p>\n\u201cChega \u00e0 AGEBB a informa\u00e7\u00e3o da morte, por suic\u00eddio, de um colega da \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o da Super PE. No dia 10 de fevereiro, outro, da Superintend\u00eancia Super Leste (Campinas\/SP), tamb\u00e9m dava cabo da pr\u00f3pria vida. Esses s\u00e3o os registros de apenas dois casos muito recentes de colegas do BB que chegaram ao extremo do estresse, perda do sentido da vida ou seja l\u00e1 qual for o motivo que leve algu\u00e9m \u00e0 atitude de tirar a pr\u00f3pria vida. Um levantamento realizado por uma comunidade de funcion\u00e1rios do BB nas redes sociais revela que 64 colegas se suicidaram nos \u00faltimos meses.\u201d\n<\/p><p>\nEis uma realidade que n\u00e3o tem como esconder: nossa sa\u00fade mental vai mal. Quase todos n\u00f3s, trabalhadores, acompanhamos nos nossos locais de trabalho a exist\u00eancia e o crescimento do sofrimento ps\u00edquico de nossos amigos (e\/ou de n\u00f3s mesmos[x]).\n<\/p><p>\nO isolamento como uma das causas centrais\n<\/p><p>\nNo \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, uma vis\u00e3o corrente entre alguns estudiosos e de algumas entidades sindicais \u00e9 a de que o problema est\u00e1 relacionado com as reestrutura\u00e7\u00f5es dos processos produtivos. Isso quer dizer que, as extin\u00e7\u00f5es de vagas\/terceiriza\u00e7\u00e3o, o aumento da intensidade no processo de trabalho, inclusive com aux\u00edlio das novas tecnologias, jornadas abusivas, avalia\u00e7\u00f5es competitivas e individuais de desempenho, metas, etc. figuram entre as principais causas dos adoecimentos.\n<\/p><p>\nSem d\u00favida esses fatores s\u00e3o de suma import\u00e2ncia. Mas quer\u00edamos chamar aten\u00e7\u00e3o para um aspecto que nos parece muito relevante: o do isolamento dos trabalhadores. Ou seja, do esfacelamento de coletivos de trabalhadores, de suas identidades coletivas, suas redes e rela\u00e7\u00f5es de ajuda m\u00fatua e solidariedade, como uma das caracter\u00edsticas centrais desse \u201cnovo\u201d \u201cmundo do trabalho\u201d.\n<\/p><p>\nEssa caracter\u00edstica, notemos, d\u00e1 \u00eanfase aos aspectos mais pol\u00edtico e ideol\u00f3gico da luta de classes, apesar de seu car\u00e1ter econ\u00f4mico ser evidente. E por se tratar de luta de classes, devemos analisar tanto o lado de \u201cl\u00e1\u201d, quanto o lado de \u201cc\u00e1\u201d, de forma relacional, ou dizendo de outra maneira, olhar um oponente em fun\u00e7\u00e3o do outro. Tanto os ataques que visam desfazer esses coletivos, quanto sua defesa e contra-ataque.\n<\/p><p>\nDeixemos as coisas mais claras. No capitalismo, os trabalhadores s\u00e3o \u201corganizados\u201d e formam um coletivo enquanto capital vari\u00e1vel, como for\u00e7a de trabalho comprada e consumida no processo produtivo, ao mesmo tempo em que \u00e9 agente na reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital, na produ\u00e7\u00e3o da mais-valia, sua forma espec\u00edfica de explora\u00e7\u00e3o. Mas, ao mesmo tempo, tendem, atrav\u00e9s e durante lutas espont\u00e2neas e cotidianas de resist\u00eancia, a uma unidade pol\u00edtica-ideol\u00f3gica, com constitui\u00e7\u00e3o de uma vanguarda e poss\u00edvel eleva\u00e7\u00e3o dos patamares de suas lutas. Esse desenvolvimento do proletariado enquanto for\u00e7a real e aut\u00f4noma na luta de classes, atrav\u00e9s de suas organiza\u00e7\u00f5es, ideologia e lutas, \u00e9 alvo de constante ataque da burguesia. Em determinadas conjunturas, o direito \u00e0 associa\u00e7\u00e3o foi vedado aos trabalhadores como forma de romper\/quebrar essa unidade, em outras foram \u201cassimilados\u201d para, atrav\u00e9s da subjuga\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, cumprir o papel desagregador como aparelhos do pr\u00f3prio estado capitalista. O primeiro, principalmente como resist\u00eancia\/resposta \u00e0 ofensiva dos trabalhadores, o segundo, principalmente como recuo dos trabalhadores.\n<\/p><p>\nAli\u00e1s, a pr\u00f3pria din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o jogam uns trabalhadores contra os outros. Sendo apenas possuidores de uma mercadoria, sua for\u00e7a de trabalho, para poder sobreviver, os trabalhadores necessitam entrar em concorr\u00eancia com seus semelhantes para ser empregado pelos detentores dos meios de produ\u00e7\u00e3o. A explora\u00e7\u00e3o que da\u00ed decorre, a ideologia jur\u00eddica do contrato de assalariamento a esconde. Ideologia refor\u00e7ada, sobretudo hoje, pelas bonifica\u00e7\u00f5es por produtividade, sistema de metas por \u201ccolaborador\u201d, sem falar no dito \u201cempreendedorismo\u201d.\n<\/p><p>\nSendo assim, e de uma forma bem geral e concisa, a \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d das classes trabalhadoras \u00e9 fruto de uma longa e complexa luta contra essas tend\u00eancias que visam constantemente desarticul\u00e1-las como resist\u00eancia e ao mesmo tempo articul\u00e1-las apenas sob uma forma espec\u00edfica de explora\u00e7\u00e3o: a capitalista (e sua necess\u00e1ria sombra: o ex\u00e9rcito industrial de reserva). E muitos foram e s\u00e3o os instrumentos usados nessa forma\u00e7\u00e3o e seu fortalecimento: sociedades oper\u00e1rias e de apoio m\u00fatuo, os sindicatos, os partidos etc. Fora in\u00fameros coletivos e institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u201cformais\u201d de trabalhadores tamb\u00e9m[xi].\n<\/p><p>\nO jovem Engels, no cl\u00e1ssico j\u00e1 referido, coloca as coisas da seguinte forma:\n<\/p><p>\n\u201cA concorr\u00eancia \u00e9 a express\u00e3o mais completa da guerra de todos contra todos que impera na moderna sociedade burguesa. [\u2026] Os oper\u00e1rios concorrem entre si tal como os burgueses. [\u2026] Essa concorr\u00eancia entre os trabalhadores, no entanto, \u00e9 o que existe de pior nas atuais condi\u00e7\u00f5es de vida do proletariado: constitui a arma mais eficiente da burguesia em sua luta contra ele. Da\u00ed os esfor\u00e7os do proletariado para suprimir tal concorr\u00eancia por meio da associa\u00e7\u00e3o e da\u00ed o furor da burguesia contra essas associa\u00e7\u00f5es e seu grande j\u00fabilo a cada derrota que consegue impor-lhes.\u201d\n<\/p><p>\nOra, se formos procurar esse aspecto na literatura recente, h\u00e1 a\u00ed uma \u00eanfase importante para se pensar a sa\u00fade do trabalhador. No mais novo livro de Ricardo Antunes, Privil\u00e9gio da Servid\u00e3o, ele faz um resgate de v\u00e1rios grandes autores de hoje que enxergam \u201co crescente processo de isolamento do trabalho e a ruptura do tecido de solidariedade antes presente entre os trabalhadores\u201d como causas fundamentais para o adoecimento no trabalho.\n<\/p><p>\nEssa tese \u00e9 refor\u00e7ada quando se v\u00ea pesquisas sobre suic\u00eddio e sua rela\u00e7\u00e3o com o trabalho[xii]. De novo Antunes:\n<\/p><p>\n\u201c\u00c9 essa quebra dos la\u00e7os de solidariedade e, por conseguinte, da capacidade do acionamento das estrat\u00e9gias coletivas de defesa entre os trabalhadores que se encontra na base do aumento dos processos de adoecimento ps\u00edquico e de sua express\u00e3o mais contundente, o suic\u00eddio no local de trabalho.\u201d\n<\/p><p>\nEm um artigo da Psic\u00f3loga, Mestre e Professora Marselle Fernandes, publicado em setembro de 2018, no Sindicato dos Banc\u00e1rios do Cear\u00e1[xiii], aponta um diagn\u00f3stico semelhante:\n<\/p><p>\n\u201cO suic\u00eddio de trabalhadores representa o mais elevado n\u00edvel de sofrimento. De acordo com Christophe Dejours, um dos principais estudiosos sobre a tem\u00e1tica suic\u00eddio e trabalho, o aumento de casos de suic\u00eddios relacionados ao trabalho se deve a fatores como o aumento do individualismo, a competi\u00e7\u00e3o desmedida, a press\u00e3o constante, as avalia\u00e7\u00f5es de produtividade e a gest\u00e3o por metas. Muitas vezes, exclui o fator trabalho da investiga\u00e7\u00e3o acerca dos motivos do suic\u00eddio. Contudo, os modelos de gest\u00e3o adotados por grande parte das institui\u00e7\u00f5es financeiras, favorecem o sentimento de inseguran\u00e7a, medo, autoexig\u00eancia e a solid\u00e3o por parte dos trabalhadores. Nesse sentido, o trabalho deixa de ser um elemento coadjuvante e, torna-se protagonista do sofrimento ps\u00edquico dos banc\u00e1rios. Essas novas formas de gest\u00e3o desestabilizam o coletivo de trabalhadores e, com isso, reduzem a possibilidade de construir formas de transformar o cotidiano laboral em um espa\u00e7o produtor de sa\u00fade.\u201d\n<\/p><p>\n\u00c9 bom ressaltar essa frase da pesquisadora: \u201cEssas novas formas de gest\u00e3o desestabilizam o coletivo de trabalhadores e, com isso, reduzem a possibilidade de construir formas de transformar o cotidiano laboral em um espa\u00e7o produtor de sa\u00fade\u201d. Para isso podemos citar um exemplo do Dr. Marcelo Augusto Finazzi Santos, pesquisador na \u00e1rea de recursos humanos pela Universidade de Bras\u00edlia (UNB) feito no audit\u00f3rio da Casa dos Banc\u00e1rios em Porto Alegre em 12 de dezembro de 2014 sobre como se manifesta o problema na cabe\u00e7a de um trabalhador banc\u00e1rio[xiv]:\n<\/p><p>\n\u201cCaio come\u00e7ou a sentir que estava sozinho. Cada um dos colegas em seu departamento era um concorrente. Ele n\u00e3o podia comentar uma ideia que teve, alguma solu\u00e7\u00e3o que pensou para resolver algum problema de rotina, porque podiam roubar sua ideia, levar ao gerente e ganhar prest\u00edgio. Ele ent\u00e3o passou a sofrer. Cansou de receber trabalho por volta das seis horas, perto do t\u00e9rmino da sua jornada e ter que ficar mais quatro, cinco, seis horas para finalizar a tarefa: nada podia ficar para o outro dia. Um dia, ao dirigir seu carro para o trabalho, remoendo as rela\u00e7\u00f5es em frangalhos com colegas, e a sua pr\u00f3pria sanidade perdida, Caio pensou em se matar.\u201d\n<\/p><p>\nNossos colegas (ou n\u00f3s) ao se sentirem dessa forma indica, de certa forma, o qu\u00e3o cr\u00edtica est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do lado de \u201cc\u00e1\u201d. Ora, estamos falhando em criar redes de solidariedade nos locais de trabalho, sendo derrotados pelos ataques novos da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e dos velhos ataques do capital. A forma desesperada de denunciar a barb\u00e1rie vivida no trabalho tem sido a individual e autodestrutiva, com suic\u00eddio ou sofrimento ps\u00edquico. Uma resposta que \u00e9 incapaz de, por si s\u00f3, alterar a situa\u00e7\u00e3o de fato.\n<\/p><p>\nOs erros do lado de c\u00e1 e caminhos para san\u00e1-los\n<\/p><p>\nA luta contra a ofensiva dos capitalistas, as reformas no Estado que visam retomar taxas mais elevadas de lucro, a luta por melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho etc. s\u00e3o essenciais, e tamb\u00e9m dizem de nossa sa\u00fade. Mas os coletivos de trabalhadores e entidades sindicais n\u00e3o podem se encerrar nisso. \u00c9 preciso agir diretamente, enquanto coletivo, em defesa de nossa sa\u00fade mental. Esta pode ser uma pauta fundamental inclusive para refor\u00e7ar as lutas citadas acima. Pois, no fundo, s\u00e3o lutas no mesmo terreno: a luta de classes.\n<\/p><p>\nNesse sentido, a luta contra o adoecimento ps\u00edquico e o suic\u00eddio relacionado ao trabalho \u00e9 coletiva. Ali\u00e1s, quem diz isso \u00e9 a pr\u00f3pria OMS: \u201cal\u00e9m do apoio dos servi\u00e7os de sa\u00fade, pessoas com transtornos mentais precisam de apoio e cuidados sociais\u201d[xv].\n<\/p><p>\nE como realizar concretamente esse apoio?  Como (re)criar estrat\u00e9gias coletivas de defesa poss\u00edveis no atual quadro da luta de classes?\n<\/p><p>\nAlgumas entidades sindicais atualmente movem-se em v\u00e1rios sentidos: oferecendo assist\u00eancia psiqui\u00e1trica e psicol\u00f3gica; levantamentos estat\u00edsticos de adoecimento; promo\u00e7\u00e3o, apoio e divulga\u00e7\u00e3o de estudos, semin\u00e1rios, etc. Tudo isso \u00e9 \u00fatil, necess\u00e1rio, urgente, e a entidade que ainda n\u00e3o faz precisa iniciar. Mas ser\u00e1 insuficiente se n\u00e3o vier acompanhado de algo que transcenda a entidade sindical, ao pr\u00f3prio sindicalismo, que expresse a pr\u00e1tica de uma outra linha de massas ajustada aos interesses concretos e reais, de classe, em sua luta contra o capital.\n<\/p><p>\nIsso significa que ao organizar a luta dos trabalhadores com base nas suas formas espec\u00edficas, concretas, de resist\u00eancia \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, os resultados econ\u00f4micos sejam medidos levando em conta os efeitos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos que acentuem a participa\u00e7\u00e3o efetiva dos trabalhadores como exerc\u00edcio embrion\u00e1rio de poder (aspecto pol\u00edtico), bem como, a coopera\u00e7\u00e3o e solidariedade entre os trabalhadores e\/ou em sentido contr\u00e1rio do caminhar para debaixo das ideias burguesas e da tutela do seu estado (aspecto ideol\u00f3gico). Ou dizendo mais claramente, n\u00e3o nos interessa luta que n\u00e3o tenha como efeito solidariedade, coletividade, sentimento de for\u00e7a e poder nos trabalhadores.\n<\/p><p>\nNessa quest\u00e3o, importante lembrar o que dizia Louis Althusser. Ele refor\u00e7ava que a luta de classes se desdobra em tr\u00eas aspectos, o econ\u00f4mico, o pol\u00edtico e o ideol\u00f3gico[xvi]:\n<\/p><p>\n\u201cA pr\u00e1tica do movimento oper\u00e1rio, mesmo em suas formas de organiza\u00e7\u00e3o utopistas e reformistas, desenvolve-se em tr\u00eas planos, correspondentes aos tr\u00eas \u201cn\u00edveis\u201d que constituem a sociedade: o plano econ\u00f4mico, o plano pol\u00edtico, o plano ideol\u00f3gico. [\u2026] A a\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio toma, pois, necessariamente a forma de uma tr\u00edplice luta: luta econ\u00f4mica, luta pol\u00edtica e luta ideol\u00f3gica. (p\u00e1g. 70) [\u2026] a pr\u00f3pria natureza do movimento oper\u00e1rio, independentemente de qualquer influ\u00eancia da teoria de Marx, engaja-o em uma tr\u00edplice luta: luta econ\u00f4mica, luta pol\u00edtica, luta ideol\u00f3gica. (p\u00e1g. 74)\u201d\n<\/p><p>\nTentando colocar para trabalhar esse racioc\u00ednio, podemos deduzir, com Althusser que, se a luta se desdobra correspondendo aos tr\u00eas \u201cn\u00edveis\u201d da sociedade, os limites econ\u00f4micos, n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos determinantes no processo:\n<\/p><p>\n\u201c[\u2026] toda luta implica interven\u00e7\u00e3o da \u201cconsci\u00eancia\u201d dos homens, toda luta gera um conflito entre convic\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as, representa\u00e7\u00f5es do mundo. Tamb\u00e9m a luta econ\u00f4mica e a luta pol\u00edtica implicam esses conflitos da luta ideol\u00f3gica. [\u2026] a luta ideol\u00f3gica abra\u00e7a o conjunto dos campos de sua luta. [\u2026] N\u00e3o pode haver luta econ\u00f4mica ou pol\u00edtica sem que os homens engajem nela suas ideias e, ao mesmo tempo, as suas for\u00e7as. (p\u00e1g. 73) [\u2026] A orienta\u00e7\u00e3o geral depende, portanto, da ideologia do movimento oper\u00e1rio. \u00c9 essa ideologia que comanda diretamente a concep\u00e7\u00e3o que ele tem de sua luta ideol\u00f3gica e, portanto, a maneira como ele a conduz para transformar a ideologia existente. \u00c9 essa ideologia que comanda diretamente a concep\u00e7\u00e3o que ele tem de sua luta econ\u00f4mica e pol\u00edtica, de suas rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e, por conseguinte, a maneira como conduz essas lutas.\u201d (p\u00e1g. 75)\n<\/p><p>\nPodemos com isso dizer que, os adoecimentos mentais, dentro da dicotomia das novas formas de processo de trabalho\/explora\u00e7\u00e3o e seu efeito de desagrega\u00e7\u00e3o dos coletivos de trabalhadores, de um lado, e de outro a aus\u00eancia de uma luta contra essa desagrega\u00e7\u00e3o inserida na luta contra a pr\u00f3pria explora\u00e7\u00e3o, apesar de relacionados, possuem o segundo aspecto como dominante. E nos remete a dizer que, se temos um efeito desagregador, e o lado de c\u00e1 n\u00e3o responde, n\u00e3o combate e, no mais das vezes, acentua a ideologia dominante na disputa individualista, no ego\u00edsmo, acreditamos que isso est\u00e1 contido na longa aus\u00eancia de uma linha de massas que combata, nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias, a ideologia das classes dominantes, no recuo ideol\u00f3gico, na crise ideol\u00f3gica que determina esse recuo.\n<\/p><p>\nPartimos da afirma\u00e7\u00e3o que, uma crise ideol\u00f3gica, para o movimento oper\u00e1rio, se manifesta como recuo sob a ideologia dominante, na perda e subvers\u00e3o de espa\u00e7os pol\u00edticos, que a desagrega\u00e7\u00e3o de coletivos de trabalhadores \u00e9 a express\u00e3o da desagrega\u00e7\u00e3o de sua pol\u00edtica e sua ideologia, espa\u00e7o ocupado por outras \u201cvis\u00f5es de mundo\u201d que sustentam formas acentuadas de dom\u00ednio e opress\u00e3o dos trabalhadores para retirar mais sobretrabalho.\n<\/p><p>\nO ataque do outro lado nos desarticula. Mas nosso contra-ataque \u00e9 ineficaz porque se d\u00e1 sob os comandos do pr\u00f3prio inimigo, o que nos coloca diante da linha pol\u00edtica-ideol\u00f3gica do movimento e sua rela\u00e7\u00e3o com a resist\u00eancia espont\u00e2nea e desarticulada dos trabalhadores.\n<\/p><p>\nNessa crise ideol\u00f3gica, a resist\u00eancia espont\u00e2nea, inclusive passa a n\u00e3o ser vista pelas vanguardas que est\u00e3o saturadas pela ideologia trade-unionista, reformista, portanto afastadas das massas. Afastamento que, importante ressaltar em nossa conjuntura, ao mesmo tempo conformam a base da ocupa\u00e7\u00e3o de um processo de fascisza\u00e7\u00e3o (sic), como diz Poulantzas[xvii]:\n<\/p><p>\n\u201cO processo de Fascisza\u00e7\u00e3o corresponde a uma crise ideol\u00f3gica da classe oper\u00e1ria e a uma crise caracter\u00edstica das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. [\u2026] O in\u00edcio do processo de fasciz\u00e7\u00e3o corresponde a um pronunciado corte dos partidos comunistas alem\u00e3o e italiano com a classe oper\u00e1ria. Pode-se dizer, suscintamente, que estes partidos est\u00e3o cortados das massas. A massa oper\u00e1ria, em sua massa, n\u00e3o segue a dire\u00e7\u00e3o que estes partidos, sem nenhuma linha de massa, tentam impor a luta. Estes partidos est\u00e3o longe de ter capitulado, em sentido rigoroso, face ao fascismo, como quereria faz\u00ea-lo crer uma tradi\u00e7\u00e3o \u201canticomunista\u201d solidamente estabelecida. [\u2026] A ideologia marxista-leninista est\u00e1 profundamente abalada no pr\u00f3prio seio da classe oper\u00e1ria: n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o consegue conquistar as grandes massas como \u00e9 ainda vivamente combatida nos lugares onde tinha conseguido implantar-se. [\u2026] s\u00e3o a ideologia burguesa e a ideologia pequeno-burguesa quem, sob formas espec\u00edficas, invade o vazio deixado pela retirada da ideologia marxista-leninista. A influ\u00eancia da ideologia burguesa sobre a classe oper\u00e1ria, nesta situa\u00e7\u00e3o de crise ideol\u00f3gica, manifesta-se sob a forma cl\u00e1ssica do trade-unionismo e do reformismo\u201d. (p\u00e1g. 154, 155)\n<\/p><p>\nComo podemos ver isso, de forma mais concreta, no local de trabalho? Em uma entrevista[xviii], o estudioso Dejours nos deixa um exemplo: \u201cQuando algu\u00e9m era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora est\u00e3o s\u00f3s perante o assediador \u2013 \u00e9 isso que \u00e9 particularmente dif\u00edcil de suportar. O mais dif\u00edcil em tudo isto n\u00e3o \u00e9 o fato de ser assediado, mas o fato de viver uma trai\u00e7\u00e3o \u2013 a trai\u00e7\u00e3o dos outros\u201d. A primeira coisa a se pensar \u00e9 que devemos fomentar rela\u00e7\u00f5es de amizade, companheirismo e afetividade nos locais de trabalho, o que n\u00e3o \u00e9 um mero detalhe, para montar uma rede de sustenta\u00e7\u00e3o com conversas regulares, empatia, conviv\u00eancia fora do local de trabalho, etc. Mas como espalhar isso? Jogando essa ideia em um panfleto? Ou isso ser\u00e1 efeito de uma luta geral, que cerque, se insira, parta desse ambiente de trabalho?\n<\/p><p>\nDiante do extremo controle e press\u00e3o dos locais de trabalho, \u00e9 tarefa imediata saber enxergar as brechas e investir nelas. Criar, a partir delas, outras rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, que tornem suport\u00e1veis o cotidiano e te\u00e7am la\u00e7os de um coletivo, \u00fanico com for\u00e7a e capacidade de lutar contra as causas mais profundas desse sofrimento ao qual estamos nos referindo. Remapear quem se entende como inimigo ou concorrente; fazer nascer for\u00e7a onde havia fraqueza.\n<\/p><p>\nMas isso ser\u00e1 sempre um conjunto de palavras ou microa\u00e7\u00f5es sem muito ac\u00famulo se n\u00e3o houver uma retomada de uma linha de massas por organismos que concentrem a ideologia e a pol\u00edtica oper\u00e1ria. At\u00e9 porque esses exemplos de resist\u00eancia j\u00e1 existem, s\u00f3 n\u00e3o se reproduzem de forma ampliada por serem n\u00e3o-vistos\/reprimidos pelos aparelhos de estado, inclusos nisso, os pr\u00f3prios sindicatos e partidos pol\u00edticos autoproclamados dos trabalhadores, por estarem hoje obnubilados pela ideologia pequeno-burguesa e burguesa.\n<\/p><p>\nEduardo Stotz e Jos\u00e9 Augusto Pina, mostram que subterraneamente aos aparelhos de estado sindical, os trabalhadores constroem suas formas de resist\u00eancia[xix]. Quando vistos por suas \u201cvanguardas\u201d, essas formas de luta concretas s\u00e3o um mero ponto de tang\u00eancia nos objetivos de conformar os trabalhadores ao estado e a \u201cmonetiza\u00e7\u00e3o do risco \u00e0 sa\u00fade\u201d nas formas espec\u00edficas de explora\u00e7\u00e3o moderna.\n<\/p><p>\n\u201c[\u2026] essas pr\u00e1ticas de explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o insepar\u00e1veis das m\u00faltiplas formas de resist\u00eancia, veladas ou abertas, desenvolvidas pelos trabalhadores. [\u2026] Guardada as devidas propor\u00e7\u00f5es, assim como na experi\u00eancia italiana, entre n\u00f3s na atualidade, as ideias mais avan\u00e7adas no que concerne \u00e0 rela\u00e7\u00e3o trabalho-sa\u00fade, ainda que em estado pr\u00e1tico, emergem da experi\u00eancia de luta dos trabalhadores de base, e n\u00e3o das c\u00fapulas sindicais dos setores majorit\u00e1rios do sindicalismo no pa\u00eds.\u201d\n<\/p><p>\nNo mesmo texto, os mesmos autores citam R. J. Penkal que, na sua disserta\u00e7\u00e3o: Quando a l\u00f3gica do capital contagia o movimento sindical: qualidade total e o sindicalismo moderado produtivo nos metal\u00fargicos da Grande Curitiba, mostra que uma greve contra a PLR e o banco de horas\n<\/p><p>\n\u201c[\u2026] teve como principal causa, n\u00e3o a PLR e o banco de horas, mas o ritmo intenso de trabalho. Os trabalhadores utilizaram a greve para ganhar f\u00f4lego. [\u2026] a pauta de negocia\u00e7\u00e3o da greve foi apenas uma forma de dar car\u00e1ter reivindicat\u00f3rio e palp\u00e1vel \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da empresa.\u201d\n<\/p><p>\nE isso absurdamente n\u00e3o foi enxergado pelos sindicalistas por conta de sua cegueira ideol\u00f3gica para constatar que a luta concreta contra o intenso ritmo de trabalho (e por isso, pela sa\u00fade mental) \u00e9 ao mesmo tempo, luta contra o seu processo de trabalho\/explora\u00e7\u00e3o \u2013 algo irreal, impercept\u00edvel ao reformismo.\n<\/p><p>\nFinalizando, gostar\u00edamos de ressaltar que \u00e9 na reaproxima\u00e7\u00e3o com e dos trabalhadores, em ambientes e situa\u00e7\u00f5es concretas que n\u00e3o s\u00f3 temos um rem\u00e9dio imediato e provis\u00f3rio para nosso sofrimento no\/do trabalho. Se isso n\u00e3o possibilita sua absoluta elimina\u00e7\u00e3o, ao menos representa sua ressignifica\u00e7\u00e3o, em um novo espa\u00e7o coletivo, onde esse sofrimento pode ser pronunciado e trabalhado, por n\u00e3o estarmos mais entre concorrentes, e sim entre camaradas. Mas, tamb\u00e9m, \u00e9 a partir e atrav\u00e9s dessa a\u00e7\u00e3o de reaproxima\u00e7\u00e3o que teremos as sementes de uma nova linha pol\u00edtica-ideol\u00f3gica para combater e superar a crise que nos assola e nos enfraquece frente ao inimigo. E assim poder de fato, um dia, tomar nossas sa\u00fades e nossas vidas em nossas m\u00e3os.\n<\/p><p>\nE quem fala de reaproxima\u00e7\u00e3o, fala em perseveran\u00e7a, como nos ensina Mao[xx]:\n<\/p><p>\n\u201cTodo o trabalho para as massas deve partir das necessidades destas, e n\u00e3o do desejo deste ou daquele indiv\u00edduo, ainda que bem-intencionado. Acontece frequentes vezes que, objetivamente, as massas necessitam de certa mudan\u00e7a mas, subjetivamente, n\u00e3o est\u00e3o ainda conscientes dessa necessidade, n\u00e3o a desejam ou ainda n\u00e3o est\u00e3o determinadas a realiz\u00e1-la. Nesse caso devemos esperar pacientemente. N\u00e3o devemos realizar tal mudan\u00e7a sen\u00e3o quando, em virtude do nosso trabalho, a maioria das massas se tenha tomado consciente dessa necessidade e esteja desejosa e determinada a realiz\u00e1-la. Doutro modo, isolamo-nos das massas. Enquanto as massas n\u00e3o est\u00e3o conscientes e desejosas, toda a esp\u00e9cie de trabalho que requer a sua participa\u00e7\u00e3o resulta em mera formalidade e termina num fracasso. O \u201cdevagar se vai ao longe\u201d n\u00e3o traduz uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 rapidez, mas sim ao putschismo. O putschismo \u00e9 que conduz inevitavelmente ao fracasso. Isso \u00e9 justo para todos os trabalhos, sobretudo para o trabalho cultural e educativo, transformador da ideologia das massas.\u201d\n<\/p><p>\n[i] Empregado no Banco da Amaz\u00f4nia desde dezembro de 2001.\n<\/p><p>\n[ii]  Este texto tem como base outro feito para a AEBA, Associa\u00e7\u00e3o dos Empregados do Banco da Amaz\u00f4nia, onde estou como diretor, que, como diz a sua apresenta\u00e7\u00e3o, foi \u201cescrito na como\u00e7\u00e3o da not\u00edcia de uma colega que abra\u00e7ou a morte pulando de um hotel ao lado do pr\u00e9dio onde trabalhava\u201d. \u00c9 uma tentativa de colocar para trabalhar uma vis\u00e3o, cient\u00edfica, portanto, marxista, de fundo, sobre o adoecimento e o sofrimento ps\u00edquico dos banc\u00e1rios. Ideias ainda em forma\u00e7\u00e3o, sujeitas as cr\u00edticas necess\u00e1rias para aproxim\u00e1-las da realidade concreta da luta da classe oper\u00e1ria e demais classes trabalhadoras.\n<\/p><p>\n[iii] A luta contra o suic\u00eddio \u00e9 coletiva. Encontrado em http:\/\/www.aeba.org.br\/2018\/12\/26\/a-luta-contra-o-suicidio-e-coletiva\/ publicado em 26\/12\/2018 e acessado em 26\/12\/2018.\n<\/p><p>\n[iv] Adoecimento no trabalho \u2013 um debate da milit\u00e2ncia banc\u00e1ria. Encontrado em: https:\/\/passapalavra.info\/2018\/11\/123510\/, publicado em 09\/11\/2018 e acessado em 08\/01\/2019.\n<\/p><p>\n[v] Dist\u00farbios de sa\u00fade mental aumentam em todos os pa\u00edses do mundo, alerta relat\u00f3rio. Encontrado em https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/saude\/disturbios-de-saude-mental-aumentam-em-todos-os-paises-do-mundo-alerta-relatorio-23146088  publicado em 10\/10\/2018 e acessado em 26\/12\/2018.\n<\/p><p>\n[vi] Depress\u00e3o ser\u00e1 a doen\u00e7a mental mais incapacitante do mundo at\u00e9 2020. Encontrado em: https:\/\/emais.estadao.com.br\/noticias\/bem-estar,depressao-sera-a-doenca-mental-mais-incapacitantes-do-mundo-ate-2020,70002542030, publicado em 10\/10\/2018, acessado em 26\/12\/2018.\n<\/p><p>\n[vii] Crise no emprego eleva em 1,6 milh\u00e3o o n\u00famero de consultas psiqui\u00e1tricas. Acessado em: https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2018\/11\/crise-no-emprego-eleva-em-14-milhao-o-numero-de-consultas-psiquiatricas.shtml, Publicado em 28\/11\/2018 e acessado em 25\/12\/2018.\n<\/p><p>\n[viii] Adoecimento mental na rotina dos banc\u00e1rios \u2013 Situa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 era grave, ficou pior com a reestrutura\u00e7\u00e3o em bancos p\u00fablicos e com a demiss\u00e3o em massa nos bancos privados. Encontrado em: http:\/\/spbancarios.com.br\/02\/2017\/adoecimento-mental-na-rotina-bancarios . Publicado em 14\/02\/2017, acessado em 15\/12\/2018\n<\/p><p>\n[ix] Suic\u00eddio: desfecho tr\u00e1gico de banc\u00e1rios que sucumbem \u00e0s viol\u00eancias do trabalho. Encontrado em : http:\/\/www.agebb.com.br\/suicidio-desfecho-tragico-de-bancarios-que-sucumbem-as-violencias-do-trabalho\/  Publicado em 30\/03\/2017, acessado em 19\/11\/2018.\n<\/p><p>\nOs dados acima foram levantados por empregados e citados aqui: http:\/\/direitofacil.net\/reestruturacao-do-bb-teria-gerado-onda-de-suicidios-entre-funcionarios\/ , texto publicado em 17\/03\/2017 e acessado em 19\/11\/2018. \u00c9 bom ressaltar que \u00e9 um levantamento feito por banc\u00e1rios feito em redes sociais, portanto sem um crit\u00e9rio cient\u00edfico, mas ao mesmo tempo, se esses n\u00fameros n\u00e3o forem exatos, nos trazem a dimens\u00e3o do problema em que vivem os trabalhadores do Banco do Brasil.\n<\/p><p>\n[x] Aqui trataremos do adoecimento mental dos trabalhadores decorrente sua atividade, o trabalho, de forma geral. Caberia depois nos debru\u00e7armos n\u00f3s sobre a especificidade do adoecimento e sofrimento ps\u00edquico de trabalhadores que tamb\u00e9m s\u00e3o militantes. Alguns textos recentes t\u00eam chamado aten\u00e7\u00e3o para esse aspecto. Um exemplo \u00e9 esse texto da UJC: https:\/\/ujc.org.br\/adoecimento-mental-umdebate-necessario\/ , que possui uma parte abordando adoecimento e milit\u00e2ncia. No pr\u00f3prio texto j\u00e1 citado, do PassaPalavra, encontramos \u201cO alto n\u00edvel de adoecimento mental \u00e9 comum hoje mesmo entre os militantes, me sinto inclusive desconfort\u00e1vel em falar sobre isso aqui, j\u00e1 que esse \u00e9 um tema tabu nas organiza\u00e7\u00f5es e que envolve quest\u00f5es muito intimas, ainda assim o assunto \u00e9 pouco debatido por n\u00e3o ter gravidade. Grande quantidade de uso medicamentos, toda sorte de complica\u00e7\u00f5es destrutivas para as rela\u00e7\u00f5es pessoais, surtos, interna\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo tentativas de suic\u00eddio, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que presencio e tenho tido que lidar nos \u00faltimos anos, tanto com colegas de trabalho como com camaradas militantes dentro e fora do meio sindical. Presenciei situa\u00e7\u00f5es extremas dessas desde com estudantes secundaristas e at\u00e9 com idosos trabalhadores banc\u00e1rios\u201c. A nosso ver, nossa interven\u00e7\u00e3o aqui pode trazer contribui\u00e7\u00f5es, mas talvez mais indiretas e gerais.\n<\/p><p>\n[xi] V\u00e1rios deles, sabemos, em profunda crise hoje, como express\u00e3o de uma crise na pr\u00f3pria ideologia que os articula como uma pol\u00edtica e uma teoria pr\u00f3pria dos trabalhadores, que afastou e afasta os interesses da classe oper\u00e1ria do seu centro, que por ora n\u00e3o nos aprofundaremos.\n<\/p><p>\n[xii] Seguindo, de novo, Engels, questionamo-nos se devemos mesmo continuar a chamar de suic\u00eddio tais situa\u00e7\u00f5es: \u201ccabe-me demonstrar que na Inglaterra a sociedade comete, a cada dia e a cada hora, o que a imprensa oper\u00e1ria designa, a justo t\u00edtulo, como assassinato social; que ela p\u00f4s os oper\u00e1rios numa situa\u00e7\u00e3o tal que n\u00e3o podem conservar a sa\u00fade nem viver muito tempo; que ela, pouco a pouco, debilita a vida desses oper\u00e1rios, levando-os ao t\u00famulo prematuramente.\u201d\n<\/p><p>\n[xiii] Trabalho banc\u00e1rio, adoecimento e suic\u00eddio. Encontrado em: http:\/\/www.bancariosce.org.br\/noticias_detalhes.php?cod_noticia=21654&#038;cod_secao=1 . \u00daltima atualiza\u00e7\u00e3o em 18\/09\/2018, acessado em 20\/11\/2018.\n<\/p><p>\n[xiv] Pesquisador e banc\u00e1rio diz que \u00e9 preciso falar sobre o suic\u00eddio para preven\u00e7\u00e3o. Encontrado em: http:\/\/bancariosce.org.br\/jornal_detalhes.php?cod_noticia=23088&#038;cod_jornal=3016&#038;cod_jornal_secao=2, Publicado em 15\/12\/2014 e acessado em 26\/12\/2018.\n<\/p><p>\n[xv] OPAS Brasil \u2013 Folha Informativa \u2013 Transtornos Mentais. Encontrado em: https:\/\/www.paho.org\/bra\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=5652:folha-informativa-transtornos-mentais&#038;Itemid=839, Atualizada em abril de 2018, acessado em 26\/12\/2018.\n<\/p><p>\n[xvi] ALTHUSSER, Louis, em \u201cTeoria, Pr\u00e1tica Te\u00f3rica e Forma\u00e7\u00e3o Te\u00f3rica. Ideologia e Luta Ideol\u00f3gica\u201d do livro \u201cTeoria Marxista e An\u00e1lise Concreta, Textos de Louis Althusser e Etienne Balibar organizados por Thiago Barison, Editora Express\u00e3o Popular, 1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo-Brasil, 2017\n<\/p><p>\n[xvii] POULANTZAS, Nicos. Fascismo e Ditadura. Editora Martins Fontes. 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o brasileira, agosto de 1978.\n<\/p><p>\n[xviii] https:\/\/www.publico.pt\/2010\/02\/01\/sociedade\/noticia\/um-suicidio-no-trabalho-e-uma-mensagem-brutal-1420732\n<\/p><p>\n[xix] STOTZ, Eduardo Navarro; PINA, Jos\u00e9 Augusto. Experi\u00eancia oper\u00e1ria e ci\u00eancia na luta pela sa\u00fade e a emancipa\u00e7\u00e3o social. Encontrado em: http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbso\/v42\/2317-6369-rbso-e12.pdf, acessado em 30\/12\/2018\n<\/p><p>\n[xx] TSE-TUNG, Mao. A frente \u00fanica no trabalho cultural. Encontrado em:  https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/mao\/1944\/10\/30.htm, acessado em 30\/12\/2018.\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22321\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[197,31],"tags":[223],"class_list":["post-22321","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-saude","category-c31-unidade-classista","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5O1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22321"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22321\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}