{"id":22348,"date":"2019-02-15T23:12:52","date_gmt":"2019-02-16T01:12:52","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22348"},"modified":"2019-02-15T23:13:06","modified_gmt":"2019-02-16T01:13:06","slug":"brumadinho-o-modelo-mata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22348","title":{"rendered":"Brumadinho: o modelo mata"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7812\/47044787432_a51c4e05ed_z.jpg\"\/><!--more-->Crime da Vale corresponde a uma realidade hist\u00f3rica dentro de um modelo mineral de capital perif\u00e9rico dependente\n<\/p><p>\nBeni Carvalho* &#8211; Brasil de Fato\n<\/p><p>\nO genoc\u00eddio humano e ambiental criminoso mais uma vez praticado pela Vale, sendo neste momento em Brumadinho, Minas Gerais, al\u00e9m de provocar uma grande como\u00e7\u00e3o nacional, vem provocando reflex\u00f5es e a\u00e7\u00f5es por diversos setores da sociedade. Vem provocando tamb\u00e9m a solidariedade e consequ\u00eancia pol\u00edtica que \u00e9 dever das organiza\u00e7\u00f5es populares neste contexto em que a hist\u00f3ria se repete enquanto trag\u00e9dia criminosa. \u00c9 importante endossarmos a reflex\u00e3o sobre qual \u00e9 o problema estrutural e hist\u00f3rico que est\u00e1 por tr\u00e1s do rompimento da barragem de rejeito em Brumadinho.\n<\/p><p>\nO principal aspecto que devemos considerar, \u00e9 que o crime da Vale em Brumadinho corresponde a uma realidade hist\u00f3rica dentro de um modelo mineral de capital perif\u00e9rico dependente. N\u00e3o estamos diante apenas de um rompimento de uma barragem de rejeito, ou diante de uma trag\u00e9dia anunciada em decorr\u00eancia da aus\u00eancia de impunidade da Vale pelos seus crimes hist\u00f3ricos, sendo o mais recente o Crime provocado em Mariana e estendido a bacia do rio Doce de extens\u00e3o ambiental, econ\u00f4mico, social e cultural incalcul\u00e1vel.\n<\/p><p>\nO crime de Brumadinho \u00e9 resultado de um modelo mineral historicamente genocida. O projeto de coloniza\u00e7\u00e3o, dentro do qual se estrutura o projeto para a minera\u00e7\u00e3o no Brasil, tem como caracter\u00edsticas a viol\u00eancia contra o nosso povo, sendo que o exterm\u00ednio e super explora\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas e de boa parte do povo africano foi em grande medida impulsionado pela busca e explora\u00e7\u00e3o mineral. Tendo como objetivo o saque dos nossos min\u00e9rios para alimentar a gan\u00e2ncia e a sanha da classe dominante internacional.\n<\/p><p>\nAs transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais impulsionadas pela luta de classes dentro da sociedade brasileira n\u00e3o contaram com condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de politiza\u00e7\u00e3o e contesta\u00e7\u00e3o do modelo mineral brasileiro, permanecendo enquanto conflitos invizibilizados. Uma rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o permitiu por parte da sociedade brasileira questionar e exigir controle popular da minera\u00e7\u00e3o. Arranjando-se enquanto estrutura de permanente intensiva explora\u00e7\u00e3o mineral a partir da super explora\u00e7\u00e3o do trabalho e profunda face destrutiva das formas de vida e de produ\u00e7\u00e3o.\n<\/p><p>\nA Vale nasce em 1942 enquanto projeto umbilicalmente atrelado ao mercado exterior. Seu compromisso era de abastecer os aliados na Segunda Guerra Mundial. Fidelidade expressa em 98% das exporta\u00e7\u00f5es para o exterior entre 1942 e 1961. Nos anos seguintes, at\u00e9 1997, manteve uma m\u00e9dia de 80% das exporta\u00e7\u00f5es com o mesmo destino.\n<\/p><p>\nOs interesses hegemonizados pelo capital financeiro conduziram \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso. Alinhado ao projeto neoliberal tinha como objetivo a privatiza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico brasileiro, entre ele, a entrega do controle da Companhia Vale do Rio Doce ao capital privado. Materializado enquanto maior roubo da hist\u00f3ria brasileira no dia 06 de maio de 1997, tendo em vista um patrim\u00f4nio avaliado em mais de 100 bilh\u00f5es de reais, entregue por 3,3 bilh\u00f5es de reais.\n<\/p><p>\nNeste contexto, o neoliberalismo como express\u00e3o da hegemonia do capital financeiro, aprofunda a mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza e dos nossos min\u00e9rios. Como instrumento de intensifica\u00e7\u00e3o do saque dos bens prim\u00e1rios, em especial os min\u00e9rios, \u00e9 constitu\u00edda a lei Kandir, em 1996, como garantia de lucro extraordin\u00e1rio na explora\u00e7\u00e3o do capital mineral no Brasil, especialmente aos acionistas e investidores da Vale. A ger\u00eancia corporativa estatal vem se reduzindo desde a privatiza\u00e7\u00e3o, com vista ao controle da pol\u00edtica e explora\u00e7\u00e3o mineral por parte do capital internacional.\n<\/p><p>\nA minera\u00e7\u00e3o enquanto ind\u00fastria de moer gente, vide Itabira, Minas Gerais; Serra Pelada, Par\u00e1;  Santo Amaro, Bahia, s\u00e3o exemplos hist\u00f3ricos, entre muitos que caracterizam Mariana e Brumadinho, n\u00e3o como exce\u00e7\u00e3o, mas como regra tr\u00e1gica criminosa, enquanto car\u00e1ter permanente destrutivo do modelo mineral. Neste momento, pela necessidade do capital de se reproduzir na sua fase financeirizada, os acionistas, em luxuosas su\u00edtes bem distantes da lama de sangue, e diante uma crise internacional profunda, pressionam cada vez mais por lucros, organizam um modelo mineral ainda mais perverso e violento.\n<\/p><p>\nA crise ambiental no bojo da atual crise brasileira (econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social) \u00e9 resultado da necessidade do aprofundamento da mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza, no caso especifico, por parte do capital mineral. Por isso a burguesia mineral como setor beneficiado pelo golpe de Estado atua no sucateamento dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o, flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o ambiental, e na prote\u00e7\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o mineral em terra de fronteiras, ind\u00edgenas e quilombolas, com vista a permitir caminho livre para intensiva explora\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter predat\u00f3rio dos bens minerais.\n<\/p><p>\nEste modelo \u00e9 movimentado por um ex\u00e9rcito de terceirizados e quarteirzados, para serem v\u00edtimas do setor que mais mata e mutila no mundo e no Brasil. N\u00e3o \u00e9 casual que dos 14 trabalhadores assassinados pela Vale em Mariana, 11 eram terceirizados, e no caso de Brumadinho, as informa\u00e7\u00f5es at\u00e9 agora publicadas expressam que \u00e9 essa categoria representante da maioria dos corpos devorados por este capital mineral, al\u00e9m de outros\/as milhares de trabalhadores, camponeses e camponesas, muitos destes ind\u00edgenas, negros\/negras, sem-terra violentados por este modelo mineral, espalhados pelos 2800 munic\u00edpios minerados deste Brasil. A Vale, enquanto express\u00e3o da sanha capitalista na disputa dos nossos min\u00e9rios, \u00e9 uma criminosa reincidente no segundo territ\u00f3rio mais minerado deste pa\u00eds.\n<\/p><p>\nO que est\u00e1 por tr\u00e1s de Brumadinho n\u00e3o \u00e9 somente o rompimento de uma barragem de rejeito, mas um complexo miner\u00e1rio (barragens, ferrovias portos\u2026) que viabiliza o saque dos nossos min\u00e9rios \u00e0s custas de muito sangue. \u00c9 uma express\u00e3o hist\u00f3rica de um modelo constru\u00eddo sem e contra o povo. O desafio das for\u00e7as populares neste momento \u00e9 construir for\u00e7a social para denunciar mais um crime cometido pela Vale, e exigir justi\u00e7a. Mas, para al\u00e9m disso, a permanente constru\u00e7\u00e3o de for\u00e7a deve garantir condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de den\u00fancia a este modelo genocida que matou\/mata e segue impune ao longo da hist\u00f3ria.\n<\/p><p>\nA \u00fanica den\u00fancia consequente ser\u00e1 a organiza\u00e7\u00e3o do povo em uma estrat\u00e9gia que conteste e supere o atual modelo mineral. A tarefa hist\u00f3rica dos lutadores e lutadoras \u00e9 canalizar essa como\u00e7\u00e3o social para uma profunda reflex\u00e3o sobre o modelo mineral, e de edifica\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia de soberania popular na minera\u00e7\u00e3o fortalecendo um projeto popular que al\u00e9m da den\u00fancia seja an\u00fancio do novo, e contraponto ao velho, expresso em um projeto antinacional, antidemocr\u00e1tico, antipopular, e assumindo neste momento caracter\u00edsticas neofascistas.\n<\/p><p>\n*Militante do Movimento Pela Soberania Popular na Minera\u00e7\u00e3o &#8211; MAM\n<\/p><p>\nEdi\u00e7\u00e3o: Mauro Ramos\n<\/p><p>\nhttps:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/02\/14\/brumadinho-o-modelo-mata\/\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22348\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[221],"class_list":["post-22348","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Os","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22348"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22348\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}