{"id":22369,"date":"2019-02-19T22:49:02","date_gmt":"2019-02-20T01:49:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22369"},"modified":"2019-02-19T22:49:07","modified_gmt":"2019-02-20T01:49:07","slug":"venezuela-quem-e-o-golpista-juan-guaido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22369","title":{"rendered":"Venezuela: quem \u00e9 o golpista Juan Guaid\u00f3"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i2.wp.com\/grayzoneproject.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Juan-Guaido-Asamblea-Nacional.jpg?w=593&#038;ssl=1\"\/><!--more-->por Max Blumenthal [*] e Dan Cohen [**]\n<\/p><p>\nAntes do fat\u00eddico dia 22 de janeiro, menos de um em cada cinco venezuelanos tinha ouvido falar de Juan Guaid\u00f3. H\u00e1 apenas alguns meses, este homem com 35 anos era um personagem obscuro de um grupo de extrema-direita politicamente marginal e associado a tenebrosos atos de viol\u00eancia nas ruas. Mesmo no seu pr\u00f3prio partido, Guaid\u00f3 n\u00e3o passara de uma figura de n\u00edvel m\u00e9dio na Assembleia Nacional dominada pela oposi\u00e7\u00e3o e que agora age como um \u00f3rg\u00e3o que despreza a Constitui\u00e7\u00e3o da Venezuela.\n<\/p><p>\nPor\u00e9m, ap\u00f3s um \u00fanico telefonema do vice-presidente dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, Michael Pence, Guaid\u00f3 proclamou-se presidente da Venezuela. Ungido em Washington como dirigente m\u00e1ximo do seu pa\u00eds, um personagem pol\u00edtico anteriormente desconhecido foi colocado nos palcos internacionais como chefe de uma na\u00e7\u00e3o que possui as maiores reservas petrol\u00edferas do mundo.\n<\/p><p>\nEcoando o consenso existente em Washington, o New York Times saudou Guaid\u00f3 como &#8220;um rival cred\u00edvel&#8221; para Maduro, com &#8220;um estilo refrescante e uma vis\u00e3o capaz de levar o pa\u00eds em frente&#8221;. O Conselho Editorial da Blooomberg aplaudiu-o por procurar a &#8220;restaura\u00e7\u00e3o da democracia&#8221; e o Wall Street Journal declarou-o &#8220;um novo l\u00edder democr\u00e1tico&#8221;. Enquanto isso, o Canad\u00e1, numerosos pa\u00edses europeus, o Parlamento Europeu, Israel e o bloco de pa\u00edses latino-americanos de direita conhecido como Grupo de Lima reconheceram Guaid\u00f3 como dirigente leg\u00edtimo da Venezuela.\n<\/p><p>\nMais de uma d\u00e9cada de prepara\u00e7\u00e3o\n<\/p><p>\nGuaid\u00f3 parece ter-se materializado do nada; ele \u00e9, no entanto, o produto de mais de uma d\u00e9cada de prepara\u00e7\u00e3o a cargo das f\u00e1bricas de mudan\u00e7as de regimes geridas pelo governo dos Estados Unidos.\n<\/p><p>\nJuntamente com um grupo de ativistas estudantis de direita, Juan Guaid\u00f3 foi treinado para minar o governo de orienta\u00e7\u00e3o socialista da Venezuela, desestabilizar o poder e, um dia, tomar o poder. Embora tenha sido uma figura menor na pol\u00edtica venezuelana, passou anos mostrando-se nos sal\u00f5es de poder em Washington.\n<\/p><p>\n&#8220;Juan Guaid\u00f3 \u00e9 um personagem criado para esta circunst\u00e2ncia&#8221;, afirmou Marco Teruggi, um soci\u00f3logo argentino e cronista da pol\u00edtica da venezuelana, \u00e0 publica\u00e7\u00e3o The Grayzone. &#8220;\u00c9 o produto de uma l\u00f3gica de laborat\u00f3rio: Guaid\u00f3 \u00e9 como uma mistura de v\u00e1rios elementos que d\u00e3o forma a um personagem que, com toda a honestidade, oscila entre o rid\u00edculo e o preocupante&#8221;.\n<\/p><p>\nDiego Sequera, jornalista e editor venezuelano da publica\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o Misi\u00f3n Verdad, concordou: &#8220;Guaid\u00f3 \u00e9 mais popular fora do que dentro da Venezuela, especialmente nos c\u00edrculos de elite da Ivy League [1] e Washington&#8221;, disse. &#8220;\u00c9 uma figura conhecida nesses meios, previsivelmente de direita e leal \u00e0s opini\u00f5es e tend\u00eancias que a\u00ed se manifestam&#8221;.\n<\/p><p>\nEmbora Juan Guaid\u00f3 seja vendido como o rosto da &#8220;restaura\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica&#8221;, passou a sua carreira interna dentro da fac\u00e7\u00e3o mais violenta da oposi\u00e7\u00e3o mais radical da Venezuela, colocando-se na vanguarda das campanhas de desestabiliza\u00e7\u00e3o, uma ap\u00f3s outra. O seu partido tornou-se amplamente desacreditado na Venezuela e \u00e9 parcialmente respons\u00e1vel por fragmentar uma oposi\u00e7\u00e3o enfraquecida.\n<\/p><p>\n&#8220;Esses dirigentes radicais n\u00e3o t\u00eam mais que 20% nas sondagens de opini\u00e3o&#8221;, escreveu Lu\u00eds Vicente Le\u00f3n, principal investigador nessa \u00e1rea. Segundo Le\u00f3n, o partido de Guaid\u00f3 continua isolado, porque a maioria da popula\u00e7\u00e3o &#8220;n\u00e3o quer guerra, o que pretende \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o&#8221;.\n<\/p><p>\nN\u00e3o \u00e9 democracia, \u00e9 colapso\n<\/p><p>\n\u00c9 precisamente por isso, por\u00e9m, que Guaid\u00f3 foi escolhido por Washington: n\u00e3o se espera que instaure a democracia na Venezuela, mas provoque o colapso de um pa\u00eds que, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, tem sido um baluarte da resist\u00eancia \u00e0 hegemonia dos Estados Unidos. A sua ascens\u00e3o significa o culminar de um projeto de duas d\u00e9cadas para destruir uma forte experi\u00eancia progressista.\n<\/p><p>\nDesde a elei\u00e7\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez, em 1998, os Estados Unidos lutaram para restabelecer o controle sobre a Venezuela e as suas vastas reservas de petr\u00f3leo. Os programas sociais de Ch\u00e1vez podem ter redistribu\u00eddo a riqueza do pa\u00eds e ajudado a tirar milh\u00f5es da pobreza, mas tornaram-no um alvo a abater. \n<\/p><p>\nEm 2002, a oposi\u00e7\u00e3o de direita conseguiu derrubar Ch\u00e1vez com apoio e reconhecimento dos Estados Unidos, mas s\u00f3 at\u00e9 que as for\u00e7as armadas restabelessem a sua presid\u00eancia, ap\u00f3s uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular de massas. Durante as administra\u00e7\u00f5es norte-americanas de George W. Bush e Barack Obama, Ch\u00e1vez sobreviveu a v\u00e1rios planos para o assassinarem, antes de sucumbir de c\u00e2ncer em 2013. O seu sucessor, Nicol\u00e1s Maduro, sobreviveu a tr\u00eas tentativas de assassinato.\n<\/p><p>\nA administra\u00e7\u00e3o Trump elevou imediatamente a Venezuela at\u00e9 o topo da lista de alvos da mudan\u00e7a de regime a conseguir por Washington, qualificando o pa\u00eds como o principal da &#8220;troika da tirania&#8221;. No ano passado, a equipe de seguran\u00e7a a servi\u00e7o de Trump tentou recrutar militares para montar uma junta ditatorial, mas o esfor\u00e7o falhou.\n<\/p><p>\nDe acordo com o governo venezuelano, os Estados Unidos tamb\u00e9m estiveram envolvidos numa conspira\u00e7\u00e3o com o nome-c\u00f3digo de &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Constitui\u00e7\u00e3o&#8221; para capturar Maduro no pal\u00e1cio presidencial de Miraflores; e numa outra a\u00e7\u00e3o, designada Opera\u00e7\u00e3o Armagedon, para o assassinar em julho de 2017, durante uma parada militar. Pouco mais de um ano depois, chefes da oposi\u00e7\u00e3o exilados tentaram matar Maduro com bombas instaladas num drone numa parada militar em Caracas.\n<\/p><p>\nExperi\u00eancia no &#8220;a\u00e7ougue dos B\u00e1lc\u00e3s&#8221;\n<\/p><p>\nMais de uma d\u00e9cada antes destes acontecimentos, um grupo de estudantes da oposi\u00e7\u00e3o de direita foi selecionado e preparado com pormenores por uma academia de treino de mudan\u00e7as de regime, financiada pelos Estados Unidos para derrubar o governo da Venezuela e restaurar a ordem neoliberal. Tratou-se de um processo de treino inserido no quadro de &#8220;exporta\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o&#8221; e que semeou v\u00e1rias &#8220;revolu\u00e7\u00f5es coloridas&#8221;.\n<\/p><p>\nEm 5 de outubro de 2005, com a popularidade de Hugo Ch\u00e1vez no auge e o seu governo concretizando programas sociais, cinco dirigentes estudantis venezuelanos chegaram a Belgrado, S\u00e9rvia, onde come\u00e7aram a ser treinados para uma insurrei\u00e7\u00e3o.\n<\/p><p>\nOs estudantes viajaram por cortesia do Centro de A\u00e7\u00e3o e Estrat\u00e9gias N\u00e3o-Violentas Aplicadas ou CANVAS na sigla anglo-sax\u00f4nica. Esta organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 financiada em grande parte pelo National Endowment for Democracy (NED), uma inst\u00e2ncia da CIA que funciona como o principal bra\u00e7o do governo dos Estados Unidos para promover mudan\u00e7as de regime; cofinanciam-na tamb\u00e9m o Instituto Internacional Republicano e o Instituto Nacional Democrata para Assuntos Internacionais, organiza\u00e7\u00f5es dos dois partidos norte-americanos. De acordo com e-mails internos dados a conhecer pela Stratfor, uma empresa de intelig\u00eancia conhecida como &#8220;a sombra da CIA&#8221;, o CANVAS &#8220;tamb\u00e9m pode ter recebido financiamento e treinamento da CIA durante a luta anti-Milosevic em 1999\/2000&#8221;.\n<\/p><p>\nA rede dos EUA para promover &#8220;revolu\u00e7\u00f5es coloridas&#8221;, CANVAS, \u00e9 um ramo do Otpor, um grupo insurrecional s\u00e9rvio fundado por Srdja Popovic em 1998 na Universidade de Belgrado. Otpor significa &#8220;resist\u00eancia&#8221; em servo-croata e ganhou fama internacional \u2013 e promo\u00e7\u00e3o no n\u00edvel de Hollywood \u2013 ao mobilizar os movimentos que conduziram \u00e0 queda de Slobodan Milosevic.\n<\/p><p>\nEsta c\u00e9lula de especialistas em mudan\u00e7as de regime opera de acordo com as teorias do falecido Gene Sharp [2] , o chamado &#8220;Clausewitz da luta n\u00e3o-violenta&#8221;. Sharp trabalhou com um ex-analista dos servi\u00e7os de espionagem militares norte-americanos, o coronel Robert Helvey, para conceber um projeto estrat\u00e9gico que transforma os protestos numa forma de guerra h\u00edbrida, projeto esse para aplicar nos Estados que n\u00e3o se acomodam ao dom\u00ednio unipolar de Washington.\n<\/p><p>\nO Otpor foi apoiado pelo National Endowment for Democracy, a USAID e o Instituto Albert Einstein de Gene Sharp. Sinisa Jikman, um dos principais &#8220;formadores&#8221; do Otpor, revelou uma vez que o grupo chegou a receber financiamento direto da CIA.\n<\/p><p>\nDe acordo com um dos e-mails que um funcion\u00e1rio da Stratfor deu a conhecer, depois de contribu\u00edrem para derrubar Milosevic, &#8220;os jovens que geriam o Otpor cresceram, passaram a vestir terno e gravata e projetaram o CANVAS\u2026 Ou, por outras palavras, um grupo de &#8216;exporta\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o&#8217; que lan\u00e7ou as sementes para v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es coloridas. Ainda recebem financiamento dos Estados Unidos e, basicamente, percorrem o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocr\u00e1ticos (aqueles dos quais os Estados Unidos n\u00e3o gostam)&#8221;.\n<\/p><p>\nA Stratfor revelou que o CANVAS &#8220;voltou a sua aten\u00e7\u00e3o para a Venezuela&#8221; em 2005, depois de treinar movimentos de oposi\u00e7\u00e3o que lideraram opera\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7as de regime favor\u00e1veis \u00e0 OTAN em toda a Europa Oriental.\n<\/p><p>\nA Stratfor estudou o programa de treinamento do CANVAS e descreveu a sua agenda insurrecional numa linguagem surpreendentemente contundente:\n<\/p><p>\n&#8220;O \u00eaxito n\u00e3o est\u00e1 de forma alguma garantido e os movimentos estudantis s\u00e3o apenas o come\u00e7o do que poder\u00e1 ser um esfor\u00e7o de anos para desencadear uma revolu\u00e7\u00e3o na Venezuela, mas os formadores s\u00e3o pessoas que adquiriram experi\u00eancia no &#8216;A\u00e7ougue dos Balc\u00e3s&#8217;. T\u00eam aptid\u00f5es fora do comum. Quando virem cinco estudantes em cinco universidades venezuelanas realizando manifesta\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas \u00e9 sinal de que o treinamento acabou e o trabalho real come\u00e7ou&#8221;.\n<\/p><p>\nPassagem ao &#8220;trabalho real&#8221;\n<\/p><p>\nO &#8220;trabalho real&#8221; come\u00e7ou dois anos depois, em 2007, quando Guaid\u00f3 se licenciou na Universidade Cat\u00f3lica Andr\u00e9s Bello de Caracas. Mudou-se para Washington e inscreveu-se no Programa de Governan\u00e7a e Gest\u00e3o Pol\u00edtica da Universidade George Washington, sob tutela do venezuelano Lu\u00eds Enrique  Berrizbeitia, um dos principais economistas neoliberais da Am\u00e9rica Latina. Berrizbeitia \u00e9 ex-diretor executivo do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) e passou mais de uma d\u00e9cada trabalhando no setor energ\u00e9tico venezuelano sob o regime olig\u00e1rquico que foi derrubado por Ch\u00e1vez.\n<\/p><p>\nNesse ano, Guaid\u00f3 contribuiu para promover com\u00edcios contra o governo depois de este n\u00e3o ter renovado a licen\u00e7a da Radio Caracas Televisi\u00f3n (RCTV). Esta esta\u00e7\u00e3o privada desempenhou um papel de lideran\u00e7a no golpe de 2002 contra Hugo Ch\u00e1vez. A RCTV mobilizou manifesta\u00e7\u00f5es antigovernamentais, falsificou informa\u00e7\u00f5es atribuindo a apoiantes do governo a responsabilidade por atos de viol\u00eancia praticados por membros da oposi\u00e7\u00e3o e proibiu reportagens favor\u00e1veis ao executivo durante o golpe. O papel da RCTV e de outras esta\u00e7\u00f5es pertencentes a oligarcas na condu\u00e7\u00e3o da frustrada tentativa de golpe foi revelado no aclamado document\u00e1rio The Revolution Will Not Be Televised.\n<\/p><p>\nNo mesmo ano, os estudantes reclamaram os louros por terem contribu\u00eddo para derrotar o referendo constitucional sobre o programa do governo de Chavez para &#8220;Um socialismo do s\u00e9c. XXI&#8221;, mediante o qual se previa &#8220;estabelecer o quadro legal para a reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social do pa\u00eds, dando poder direto \u00e0s comunidades organizadas como um pr\u00e9-requisito para o desenvolvimento de um novo sistema econ\u00f4mico&#8221;.\n<\/p><p>\n&#8220;Gera\u00e7\u00e3o 2007&#8221;\n<\/p><p>\nDos protestos em torno da RCTV e do referendo nasceu um grupo especializado de ativistas para a mudan\u00e7a do regime apoiado pelos Estados Unidos. Chamou-se &#8220;Gera\u00e7\u00e3o 2007&#8221;.\n<\/p><p>\nOs formadores do CANVAS e os meios de divulga\u00e7\u00e3o da Stratfor identificaram o aliado de Guaid\u00f3 \u2013 um organizador de arrua\u00e7as chamado Yon Goicoechea \u2013 como um &#8220;fator-chave&#8221; para derrotar o referendo constitucional. No ano seguinte, Goicoechea foi recompensado pelos seus esfor\u00e7os com o Pr\u00eamio Milton Friedman do Cato Institute for Advancing Liberty no valor de 500 mil d\u00f3lares, que ele investiu na constru\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria rede pol\u00edtica Primero Justicia.\n<\/p><p>\nFriedman, claro, foi o patrono dos neoliberais Chicago Boys importados no Chile pelo ditador Augusto Pinochet para aplicar o programa econ\u00f4mico do regime. O Cato Institute \u00e9 o think tank libert\u00e1rio baseado em Washington e fundado pelos irm\u00e3os Koch, os dois principais doadores do Partido Republicano e que se tornaram agressivos defensores da direita em toda a Am\u00e9rica Latina.\n<\/p><p>\nWikiLeaks divulgou um e-mail de 2007 enviado para o Departamento de Estado, o Conselho de Seguran\u00e7a Nacional e o Departamento da Defesa pelo embaixador norte-americano na Venezuela, William Brownfield. Nele elogia a &#8220;Gera\u00e7\u00e3o 2007&#8221; por &#8220;ter derrotado o presidente venezuelano, acostumado a estabelecer a agenda pol\u00edtica&#8221;. Entre os &#8220;l\u00edderes emergentes&#8221;, Brownfield identificou Freddy Guevara e Yon Goicoechea, este \u00faltimo &#8220;um dos mais articulados defensores das liberdades civis dos estudantes&#8221;.\n<\/p><p>\nDas n\u00e1degas nuas ao Vontade Popular\n<\/p><p>\nCheios de dinheiro doado pelos oligarcas libert\u00e1rios, os grupos radicais venezuelanos levaram para as ruas as suas t\u00e1ticas aprendidas com o Otpor.\n<\/p><p>\nEm 2009, os jovens ativistas da Gera\u00e7\u00e3o 2007 montaram a sua manifesta\u00e7\u00e3o mais provocat\u00f3ria baixando as cal\u00e7as em p\u00fablico e recorrendo \u00e0s ultrajantes t\u00e1ticas de guerrilha delineadas por Gene Sharp nos seus manuais para mudan\u00e7as de regime. Os manifestantes mobilizaram-se contra a pris\u00e3o de um aliado de um outro grupo juvenil, o JAVU. Este grupo de extrema-direita &#8220;reuniu fundos de uma variedade de fontes do governo dos Estados Unidos, o que lhe permitiu ganhar uma r\u00e1pida notoriedade como linha dura dos movimentos de oposi\u00e7\u00e3o&#8221;, segundo o livro &#8220;Construindo a Comuna&#8221; do acad\u00eamico George Ciccarello-Maher.\n<\/p><p>\nEmbora o v\u00eddeo do protesto n\u00e3o esteja dispon\u00edvel, muitos s\u00e3o os venezuelanos que testemunham a presen\u00e7a de Guaid\u00f3 como um dos principais participantes. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confirmar estas declara\u00e7\u00f5es, as quais, no entanto, s\u00e3o plaus\u00edveis: os manifestantes com as n\u00e1degas a descoberto eram membros do n\u00facleo duro da Gera\u00e7\u00e3o 2007, a que Guaid\u00f3 pertencia, e envergavam camisetas com a sua marca registada &#8220;Resist\u00eancia!&#8221;.\n<\/p><p>\nEm 2009, Juan Guaid\u00f3 exp\u00f4s-se ao p\u00fablico de outra maneira, fundando um partido pol\u00edtico para canalizar a din\u00e2mica anti-Ch\u00e1vez que a sua Gera\u00e7\u00e3o 2007 tinha desencadeado. Chamado Vontade Popular, o grupo \u00e9 dirigido por Leopoldo L\u00f3pez, um ativista de direita educado em Princeton, fortemente envolvido em programas do New Endowment for Democracy e eleito como presidente da C\u00e2mara de um munic\u00edpio de Caracas que era um dos mais ricos do pa\u00eds. Lopez \u00e9 uma figura da aristocracia pol\u00edtica venezuelana, descendente direto do primeiro presidente do pa\u00eds. \u00c9 tamb\u00e9m primo direto de Thor Halvorssen, fundador da Funda\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos e que funciona como centro de marketing para ativistas apoiados pelos Estados Unidos em pa\u00edses que s\u00e3o alvos de Washington para mudan\u00e7as de regime.\n<\/p><p>\nEmbora os interesses de Leopoldo Lopez estivessem perfeitamente alinhados com os de Washington, as comunica\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas norte-americanas divulgadas por WikiLeaks salientavam as suas tend\u00eancias fan\u00e1ticas que acabariam por lev\u00e1-lo a uma marginaliza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tend\u00eancias populares. Um e-mail tornado p\u00fablico qualifica-o como &#8220;uma figura de divis\u00e3o dentro da oposi\u00e7\u00e3o (\u2026) frequentemente descrita como arrogante, vingativa e faminta de poder&#8221;. Outros destacavam a sua obsess\u00e3o pelos &#8220;confrontos de rua&#8221; e as suas &#8220;opini\u00f5es inflex\u00edveis&#8221; como fontes de tens\u00e3o com outros dirigentes da oposi\u00e7\u00e3o que davam prioridade \u00e0 unidade e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas do pa\u00eds.\n<\/p><p>\nExplorando a seca contra o povo\n<\/p><p>\nEm 2010, o Vontade Popular e os seus apoiantes estrangeiros mobilizaram-se para tirar partido da maior seca que atingiu a Venezuela em d\u00e9cadas. Profunda escassez de energia el\u00e9ctrica atingiu o pa\u00eds devido \u00e0 falta de \u00e1gua nas barragens. A recess\u00e3o econ\u00f4mica global e o decl\u00ednio dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo agravaram a crise, provocando um alastramento do descontentamento popular.\n<\/p><p>\nStratfor e CANVAS \u2013 conselheiros essenciais de Guaid\u00f3 e dos quadros anti-governamentais \u2013 elaboraram um plano de elevado cinismo para apunhalarem o cora\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana. O esquema dependia de um colapso de 70% do sistema el\u00e9trico do pa\u00eds, em abril de 2010.\n<\/p><p>\n&#8220;Este poderia ser o divisor de \u00e1guas, pois h\u00e1 pouco que Ch\u00e1vez possa fazer para proteger os pobres do fracasso deste sistema&#8221;, l\u00ea-se num memorando interno da Stratfor. Tais condi\u00e7\u00f5es provavelmente &#8220;teriam o impacto de galvanizar a agita\u00e7\u00e3o p\u00fablica de uma forma que nenhum grupo de oposi\u00e7\u00e3o poderia esperar alcan\u00e7ar. Naquele momento, um grupo de oposi\u00e7\u00e3o que melhor soubesse tirar partido da situa\u00e7\u00e3o e vir\u00e1-la contra Ch\u00e1vez ficaria mais perto dos seus objetivos&#8221;, salienta ainda o memorando.\n<\/p><p>\nPor essa altura, a oposi\u00e7\u00e3o venezuelana recebia as generosas verbas de 40 a 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano de organiza\u00e7\u00f5es governamentais dos Estados Unidos, tanto a USAID como a NED, de acordo com um think tank espanhol, o Instituto Fride. Al\u00e9m disso, extra\u00eda vantagens das suas pr\u00f3prias contas banc\u00e1rias, existentes sobretudo no exterior do pa\u00eds.\n<\/p><p>\nEmbora o cen\u00e1rio descrito pela Stratfor n\u00e3o se tenha concretizado, os ativistas do partido Vontade Popular e os seus aliados puseram ent\u00e3o de lado quaisquer pretens\u00f5es de n\u00e3o-viol\u00eancia e aderiram ao plano mais radical para desestabilizar o pa\u00eds.\n<\/p><p>\nNova &#8220;forma\u00e7\u00e3o&#8221;, agora no M\u00e9xico\n<\/p><p>\nEm novembro de 2010, segundo e-mails obtidos pelos servi\u00e7os de seguran\u00e7a venezuelanos e apresentados pelo ex-ministro da Justi\u00e7a Miguel Rodriguez Torres, Guaid\u00f3, Goicoechea e v\u00e1rios outros ativistas estudantis participaram num treinamento de cinco dias no hotel Fiesta Mexicana na Cidade do M\u00e9xico. As sess\u00f5es foram conduzidas pelo Otpor, a institui\u00e7\u00e3o para mudan\u00e7as de regime baseada em Belgrado e apoiada pelo governo dos Estados Unidos. A iniciativa teve a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Otto Reich, um exilado cubano e fan\u00e1tico anticastrista que trabalhava no Departamento de Estado norte-americano da administra\u00e7\u00e3o de George W. Bush, e do ex-presidente colombiano de extrema-direita \u00c1lvaro Uribe.\n<\/p><p>\nNo hotel Fiesta Mexicana, segundo os e-mails, Guaid\u00f3 e os seus colegas ativistas tra\u00e7aram um plano para derrubar o presidente Hugo Ch\u00e1vez gerando o caos violento e permanente nas ruas.\n<\/p><p>\nTr\u00eas figuras de proa do setor do petr\u00f3leo \u2013 Gustavo Torrer, El\u00edgio Cede\u00f1o e Pedro Burelli \u2013 ter\u00e3o coberto as despesas no hotel mexicano, da ordem dos 52 mil d\u00f3lares. Torrer \u00e9 um autodenominado &#8220;ativista dos direitos humanos&#8221; e um &#8220;intelectual&#8221;, cujo irm\u00e3o mais novo, Reynaldo Torrer Arroyo, \u00e9 o representante na Venezuela da empresa privada de petr\u00f3leo e g\u00e1s mexicana Petroqu\u00edmica do Golfo, que tem um contrato com o Estado venezuelano.\n<\/p><p>\nCede\u00f1o, por sua vez, \u00e9 um empres\u00e1rio venezuelano tr\u00e2nsfuga que pediu asilo nos Estados Unidos; e Pedro Burelli \u00e9 um ex-executivo do JP Morgan e ex-diretor da empresa estatal petrol\u00edfera da Venezuela (PDVSA), que abandonou em 1998 quando Hugo Ch\u00e1vez assumiu o poder. \u00c9 membro do Comit\u00ea Consultivo do Programa de Lideran\u00e7a na Am\u00e9rica Latina da Universidade norte-americana de Georgetown.\n<\/p><p>\nBurelli insistiu que os e-mails pormenorizando a sua participa\u00e7\u00e3o foram fabricados e contratou at\u00e9 um detetive particular para alegadamente o comprovar. O investigador declarou que os registos do Google revelaram que os e-mails em causa nunca foram transmitidos.\n<\/p><p>\nAinda hoje, por\u00e9m, Burelli n\u00e3o esconde o seu desejo de ver o atual presidente da Venezuela, Nicol\u00e1s Maduro, deposto \u2013 e at\u00e9 arrastado pelas ruas e sodomizado com uma baioneta, como aconteceu com o dirigente l\u00edbio Muammar Khadaffi, v\u00edtima de terroristas apoiados pela OTAN.\n<\/p><p>\nAs sangrentas &#8220;guarimbas&#8221;\n<\/p><p>\nA trama do Fiesta Mexicana evoluiu para outro plano de desestabiliza\u00e7\u00e3o revelado numa s\u00e9rie de documentos divulgados pelo governo venezuelano. Em maio de 2014, meios governamentais mostraram provas de uma trama de assassinato de Nicol\u00e1s Maduro encabe\u00e7ada por Maria Corina Machado, de Miami, uma dirigente de linha dura, com tend\u00eancias para a ret\u00f3rica extremista, que tem funcionado como um elo internacional da oposi\u00e7\u00e3o e foi recebida em 2005 pelo presidente norte-americano George W. Bush.\n<\/p><p>\n&#8220;Acho que \u00e9 hora de reunir esfor\u00e7os; fa\u00e7a os telefonemas necess\u00e1rios e obtenha financiamento para liquidar Maduro, porque o resto ir\u00e1 desmoronar-se&#8221;, escreveu Corina Machado num e-mail dirigido ao ex-diplomata venezuelano Diego Arria, em 2014.\n<\/p><p>\nNum outro e-mail, Machado afirmou que a op\u00e7\u00e3o violenta teve a b\u00ean\u00e7\u00e3o do embaixador dos Estados Unidos na Col\u00f4mbia, Kevin Whitaker. &#8220;Eu j\u00e1 me decidi, a luta continuar\u00e1 at\u00e9 que este regime seja derrubado e entregarmo-nos aos nossos amigos no mundo. Se fui a San Cristobal e me expus com a presen\u00e7a na OEA, ent\u00e3o nada temo. Kevin Whitaker j\u00e1 reconfirmou o seu apoio e definiu os novos passos. Temos um tal\u00e3o de cheques mais forte do que o do regime para quebrar o anel de seguran\u00e7a internacional&#8221;.\n<\/p><p>\nNaquele m\u00eas de fevereiro, manifestantes estudantis que agiam como tropa de choque da oligarquia exilada ergueram violentas barricadas em todo o pa\u00eds, transformando bairros controlados pela oposi\u00e7\u00e3o em fortalezas violentas conhecidas como &#8220;guarimbas&#8221;. Enquanto os meios de comunica\u00e7\u00e3o internacionais retratavam a revolta como um protesto espont\u00e2neo contra o governo de m\u00e3o de ferro de Maduro, havia provas de que o Vontade Popular orquestrava o espet\u00e1culo.\n<\/p><p>\n&#8220;Nenhum dos manifestantes usavam camisetas das universidades, mas sim do Vontade Popular e do Primero Justicia&#8221;, declarou agora um dos participantes nas guarimbas. &#8220;Podem ter sido grupos de estudantes, mas os conselhos estudantis eram manipulados pelos partidos de oposi\u00e7\u00e3o e s\u00e3o respons\u00e1veis por eles&#8221;.\n<\/p><p>\nInterrogado sobre quem eram os l\u00edderes do movimento, o mesmo participante nas guarimbas disse: &#8220;Bem, para ser completamente honesto, eles agora s\u00e3o legisladores&#8221;.\n<\/p><p>\nA m\u00e3o de Guaid\u00f3\n<\/p><p>\nQuarenta e tr\u00eas pessoas foram mortas durante as guarimbas de 2014. Tr\u00eas anos depois irromperam de novo, provocando destrui\u00e7\u00f5es massivas nas infraestruturas p\u00fablicas, o assassinato de apoiantes do governo e a morte de 126 pessoas, muitas das quais chavistas. Em v\u00e1rios casos, partid\u00e1rios do governo foram queimados vivos por gangues armados.\n<\/p><p>\nGuaid\u00f3 esteve diretamente envolvido nas guarimbas de 2014. Na verdade, twittou um v\u00eddeo em que se exibia envergando um capacete e m\u00e1scara de g\u00e1s, cercado por figuras encapuzadas e armadas que tinham fechado uma estrada onde ocorria um confronto violento com a pol\u00edcia. Referindo-se \u00e0 sua participa\u00e7\u00e3o na Gera\u00e7\u00e3o 2007, proclamou: &#8220;Lembro-me que em 2007 grit\u00e1vamos &#8216;Estudantes!&#8217; Agora gritamos: &#8216;Resist\u00eancia! Resist\u00eancia!'&#8221;\n<\/p><p>\nGuaid\u00f3 apagou o twitt, manifestando aparente preocupa\u00e7\u00e3o com a sua imagem como defensor da democracia.\n<\/p><p>\nEm 12 de fevereiro de 2014, no auge das guarimbas de ent\u00e3o, Guaid\u00f3 juntou-se a Lopez no palco de um com\u00edcio do Vontade Popular e Primero Justicia. Numa longa diatribe contra o governo, Lopez instou a multid\u00e3o a marchar at\u00e9 as instala\u00e7\u00f5es da procuradora-geral, Lu\u00edsa Ortega Diaz. Logo depois, essas instala\u00e7\u00f5es foram atacadas por gangues armadas que tentaram queimar a procuradora depois de a jogarem no solo. A v\u00edtima denunciou o que qualificou como &#8220;viol\u00eancia planejada e premeditada&#8221;.\n<\/p><p>\nDurante uma entrevista na TV, em 2016, Guaid\u00f3 desvalorizou as mortes resultantes de &#8220;guayas&#8221; \u2013 pr\u00e1tica de guarimba que consiste em estender um cabo de a\u00e7o atravessando de um lado ao outro de uma estrada para ferir ou matar motociclistas \u2013 como &#8220;um mito&#8221;. Estes coment\u00e1rios tentaram retirar o aspecto tenebroso de uma armadilha mortal que assassinou civis desarmados como Santiago Pedroza e decapitou Elvis Dur\u00e1n, entre outros.\n<\/p><p>\nEsta indiferen\u00e7a e insensibilidade perante a vida humana viria a caracterizar a Vontade Popular aos olhos de grande parte do p\u00fablico, incluindo muitos opositores de Maduro.\n<\/p><p>\nGuaid\u00f3 n\u00e3o prestou contas \u00e0 Justi\u00e7a\n<\/p><p>\n\u00c0 medida que a viol\u00eancia e a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aumentavam em todo o pa\u00eds, o governo come\u00e7ou a agir contra os dirigentes do Vontade Popular que contribu\u00edram para a situa\u00e7\u00e3o.\n<\/p><p>\nFreddy Guevara, vice-presidente da Assembleia Nacional e segundo no comando do Vontade Popular, foi o principal l\u00edder dos dist\u00farbios de 2017 nas ruas. Foi julgado por esse fato; refugiou-se na Embaixada do Chile, onde permanece.\n<\/p><p>\nLester Toledo, membro da Assembleia do Estado de Zulia eleito pelo Vontade Popular, foi procurado pela Justi\u00e7a em setembro de 2016 sob a acusa\u00e7\u00e3o de financiar o terrorismo e planejar assassinatos, em colabora\u00e7\u00e3o com o ex-presidente colombiano, \u00c1lvaro Uribe. Toledo fugiu da Venezuela, fez viagens e palestras organizadas por Human Rights Watch, a Casa da Liberdade, apoiada pelo governo norte-americano, o Congresso dos Deputados de Espanha e o Parlamento Europeu.\n<\/p><p>\nCarlos Graffe, outro membro da Gera\u00e7\u00e3o 2007 treinado pelo Otpor e tamb\u00e9m membro do Vontade Popular, foi preso em julho de 2017. Segundo a pol\u00edcia, tinha consigo um saco de pregos, explosivos C4 e um detonador. Foi libertado em 27 de dezembro de 2017.\n<\/p><p>\nLeopoldo Lopez, l\u00edder de longa data do Vontade Popular, est\u00e1 sob pris\u00e3o domiciliar, acusado de ter um papel fundamental na morte de 13 pessoas durante as guarimbas de 2014. A Anistia Internacional definiu Lopez como &#8220;prisioneiro de consci\u00eancia&#8221; e declarou &#8220;insuficiente&#8221; a sua transfer\u00eancia para o regime de deten\u00e7\u00e3o na resid\u00eancia. Enquanto isto, familiares das v\u00edtimas das guarimbas apresentaram uma queixa com mais acusa\u00e7\u00f5es contra Lopez.\n<\/p><p>\nYon Goicoechea, o \u00edcone de propaganda dos irm\u00e3os Koch e fundador do Primero Justicia, com apoio dos Estados Unidos, foi preso em 2016 pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a, que alegaram ter encontrado um quilo de explosivos no seu ve\u00edculo. Num artigo no New York Times, Goicoechea protestou contra as acusa\u00e7\u00f5es como &#8220;uma inven\u00e7\u00e3o&#8221; e afirmou que tinha sido preso simplesmente devido ao seu &#8220;sonho de uma sociedade democr\u00e1tica, livre do comunismo&#8221;. Foi libertado em novembro de 2017.\n<\/p><p>\nDavid Smolansky, igualmente membro da Gera\u00e7\u00e3o 2007, treinada pela Otpor, tornou-se o mais jovem presidente de munic\u00edpio da Venezuela quando foi eleito em 2013, no sub\u00farbio de El Hatillo. Foi destitu\u00eddo e condenado a 15 meses de pris\u00e3o pelo Supremo Tribunal Federal por incitar \u00e0 viol\u00eancia nas guarimbas.\n<\/p><p>\nFugiu da pris\u00e3o, raspou a barba e com \u00f3culos escuros entrou no Brasil disfar\u00e7ado de padre, com uma B\u00edblia na m\u00e3o e um ros\u00e1rio ao pesco\u00e7o. Vive em Washington, onde foi pessoalmente escolhido pelo secret\u00e1rio da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA), Lu\u00eds Almagro, para dirigir o grupo de trabalho sobre a crise migrat\u00f3ria e dos refugiados da Venezuela.\n<\/p><p>\nEm 26 de julho, Smolansky realizou o que qualificou como &#8220;uma reuni\u00e3o cordial&#8221; com Elliot Abrams, o criminoso do esc\u00e2ndalo Ir\u00e3-Contras agora escolhido por Trump como enviado especial norte-americano para a Venezuela. Abrams \u00e9 conhecido por supervisionar a pol\u00edtica clandestina dos Estados Unidos para armar esquadr\u00f5es da morte durante os anos oitenta na Nicar\u00e1gua, em El Salvador e na Guatemala.\n<\/p><p>\nO papel que agora lhe foi atribu\u00eddo no golpe venezuelano faz temer o lan\u00e7amento de outra guerra por procura\u00e7\u00e3o banhada em sangue.\n<\/p><p>\nQuatro dias antes, Corina Machado proferira outra amea\u00e7a violenta contra Maduro declarando que &#8220;se quer salvar a vida tem de perceber que o seu tempo acabou&#8221;.\n<\/p><p>\nO colapso do Vontade Popular devido \u00e0 viol\u00eancia da campanha de desestabiliza\u00e7\u00e3o afastou grandes setores do p\u00fablico apoiante e feriu parcialmente a sua lideran\u00e7a.\n<\/p><p>\nPresid\u00eancias sem elei\u00e7\u00f5es\n<\/p><p>\nGuaid\u00f3 continuava a ser uma figura relativamente menor, tendo passado a maior parte dos nove anos de carreira na Assembleia Nacional como membro suplente. Oriundo de um dos Estados menos populosos da Venezuela, Guaid\u00f3 ficou em segundo lugar na sua lista das elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 2015, conquistando apenas 26% para assegurar o seu lugar na Assembleia Nacional. Na verdade, at\u00e9 agora, talvez as suas n\u00e1degas fossem mais identific\u00e1veis do que o seu rosto.\n<\/p><p>\nGuaid\u00f3 \u00e9 conhecido como presidente da Assembleia Nacional, dominada pela oposi\u00e7\u00e3o, mas nunca foi eleito para o cargo. Os quatro partidos da oposi\u00e7\u00e3o que comp\u00f5em a Mesa de Unidade Democr\u00e1tica na Assembleia decidiram estabelecer uma presid\u00eancia rotativa. A vez do Vontade Popular era a seguinte, mas o seu presidente, Leopoldo Lopez, est\u00e1 em pris\u00e3o domiciliar; o segundo na chefia, Freddy Guevara, est\u00e1 refugiado na Embaixada do Chile; o seguinte na ordem eleitoral seria Juan Andr\u00e9s Mej\u00eda, mas, por raz\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o claras, Juan Guaid\u00f3 foi o selecionado.\n<\/p><p>\n&#8220;H\u00e1 uma hip\u00f3tese que pode explicar a ascens\u00e3o de Guaid\u00f3&#8221;, admite Diego Sequera, analista venezuelano. &#8220;Mej\u00eda \u00e9 de classe alta, estudou numa das universidades privadas mais caras da Venezuela e \u00e9 dif\u00edcil populariz\u00e1-lo, ao contr\u00e1rio de Guaid\u00f3&#8221;, diz. &#8220;Por um lado, Guaid\u00f3 tem caracter\u00edsticas mesti\u00e7as comuns, como a maioria dos venezuelanos, e parece mais um homem do povo. Al\u00e9m disso, Mej\u00eda n\u00e3o fora exposto na m\u00eddia, n\u00e3o poderia ser constru\u00eddo a partir do nada.\n<\/p><p>\nEm dezembro de 2018, Guaid\u00f3 passou clandestinamente a fronteira e foi a Washington, \u00e0 Col\u00f4mbia e ao Brasil coordenar o plano de manifesta\u00e7\u00f5es em massa durante a posse do novo mandato de Maduro. Na noite anterior \u00e0 cerim\u00f4nia de posse de Maduro, o vice-presidente norte-americano, Michael Pence, e a ministra dos Neg\u00f3cios Estrangeiros do Canad\u00e1, Chrystia Freeland, telefonaram a Guaid\u00f3 para lhe manifestarem o seu apoio.\n<\/p><p>\nUma semana depois, o senador Marco Rubio, o senador Rick Scott e o congressista Mario Diaz-Balart \u2013 todos oriundos da base de exilados cubanos de direita \u2013 juntaram-se ao presidente Trump e ao vice-presidente Pence na Casa Branca. A pedido deles, Trump concordou que, se Guaid\u00f3 se proclamasse presidente, ele apoiaria.\n<\/p><p>\nO secret\u00e1rio de Estado, Michael Pompeo, encontrou-se pessoalmente com Guaid\u00f3 em 10 de janeiro, segundo o Wall Street Journal. No entanto, Pompeo n\u00e3o conseguiu pronunciar o nome de Juan Guaid\u00f3 quando o mencionou numa confer\u00eancia de imprensa em 25 de janeiro, referindo-se-lhe como &#8220;Juan Guido&#8221;.\n<\/p><p>\nNo dia 11 de janeiro, a p\u00e1gina da Wikipedia de Guaid\u00f3 tinha sido editada 37 vezes, o que revela um esfor\u00e7o para moldar uma figura at\u00e9 ent\u00e3o mal conhecida e que agora se tornara um quadro nas dilig\u00eancias de Washington para mudar o governo da Venezuela. No final, a supervis\u00e3o editorial da sua p\u00e1gina foi remetida ao Conselho de Elite de &#8220;enciclopedistas&#8221; da Wikipedia, que o definiu como &#8220;presidente contestado da Venezuela&#8221;.\n<\/p><p>\nGuaid\u00f3 pode ter sido uma figura obscura, mas a sua combina\u00e7\u00e3o de radicalismo e oportunismo satisfez as exig\u00eancias de Washington. &#8220;Esta pe\u00e7a interna estava em falta&#8221;, disse um membro da administra\u00e7\u00e3o Trump a prop\u00f3sito de Guaid\u00f3. &#8220;Ele era a pe\u00e7a de que necessit\u00e1vamos para que a nossa estrat\u00e9gia fosse coerente e completa&#8221;.\n<\/p><p>\n&#8220;Pela primeira vez&#8221;, disse William Brownfield, o embaixador norte-americano na Venezuela, &#8220;temos um l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 claramente dando sinal \u00e0s for\u00e7as armadas e \u00e0 pol\u00edcia de que pretende mant\u00ea-las ao seu lado&#8221;.\n<\/p><p>\nVenha a &#8220;interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria&#8221;\n<\/p><p>\nNo entanto, o partido da Vontade Popular de Guaid\u00f3 criou as suas tropas de choque das guarimbas, que provocaram a morte a policiais e cidad\u00e3os comuns. O pr\u00f3prio Guaid\u00f3 vangloriou-se da sua participa\u00e7\u00e3o em violentas arrua\u00e7as. Agora, para conquistar os cora\u00e7\u00f5es e as mentes dos militares e da pol\u00edcia, Guaid\u00f3 teve de apagar essa hist\u00f3ria banhada em sangue.\n<\/p><p>\nEm 21 de janeiro, um dia antes do golpe, a esposa de Guaid\u00f3 divulgou um discurso em v\u00eddeo no qual apelou aos militares para se levantarem contra Maduro. A sua performance foi tosca e desinspirada, ecoando as perspectivas pol\u00edticas limitadas do marido.\n<\/p><p>\nNuma confer\u00eancia de imprensa perante os seus apoiadores, quatro dias depois, Guaid\u00f3 anunciou a sua solu\u00e7\u00e3o para a crise: a realiza\u00e7\u00e3o de &#8220;uma interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria&#8221;.\n<\/p><p>\nEnquanto aguarda assist\u00eancia direta, Guaid\u00f3 continua a ser o que sempre foi \u2013 um projeto de estima\u00e7\u00e3o das c\u00ednicas for\u00e7as externas. &#8220;N\u00e3o interessa se cai e se queima com todas estas desventuras&#8221;, declarou Sequera sobre a figura do golpe. &#8220;Para os americanos, ele \u00e9 descart\u00e1vel&#8221;.\n<\/p><p>\n(1) Tem uma conota\u00e7\u00e3o essencialmente desportiva mas, em geral, significa o conjunto das oito universidades de elite do Nordeste dos Estados Unidos: Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Pensilv\u00e2nia e Yale.\n<\/p><p>\n(2) Professor de Ci\u00eancias Pol\u00edticas da Universidade de Massachusetts defensor da &#8220;desobedi\u00eancia pol\u00edtica&#8221; e da &#8220;n\u00e3o viol\u00eancia&#8221;, cujas teses t\u00eam sido aproveitadas para desestabilizar regimes que o establishment norte-americano pretende derrubar. As institui\u00e7\u00f5es por ele fundadas s\u00e3o financiadas por organismos da CIA, como a NED, sobretudo quando se trata de organizar opera\u00e7\u00f5es do tipo da que ocorre na Venezuela.\n<\/p><p>\n[*] Jornalista premiado, autor de v\u00e1rios livros, entre eles o best-seller Gomorra Republicano, e document\u00e1rios, designadamente Killing Gaza. Fundador, em 2015, de The Grayzone Project .\n[**} Jornalista e cineasta; autor de document\u00e1rios e podcasts com ampla distribui\u00e7\u00e3o, designadamente sobre o conflito israelense-palestino.\n<\/p><p>\nVer tamb\u00e9m:\n&#8220;President&#8221; Juan Guaido, a Neocon Tool for Unlocking Venezuela&#8217;s Vast Resources\n\u00bfQui\u00e9n es qui\u00e9n en la &#8220;nueva directiva&#8221; de Citgo designada por Guaid\u00f3?\nNED, a janela legal da CIA\nO imp\u00e9rio ataca de novo\nWill you support genocide in Venezuela?: Congress member challenges notorious coup-monger Elliott Abrams\n<\/p><p>\nO original encontra-se em grayzoneproject.com\/&#8230; e a tradu\u00e7\u00e3o em www.oladooculto.com\/noticias.php?id=235\n<\/p><p>\nEste artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/ . \n<\/p><p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22369\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[227],"class_list":["post-22369","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5ON","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22369","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22369"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22369\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22369"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22369"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22369"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}