{"id":22467,"date":"2019-03-03T10:57:28","date_gmt":"2019-03-03T13:57:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22467"},"modified":"2019-03-03T10:57:33","modified_gmt":"2019-03-03T13:57:33","slug":"enredos-de-escolas-de-samba-trazem-temas-de-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22467","title":{"rendered":"Enredos de escolas de samba trazem temas de luta"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7830\/47189782302_ce960de239_z.jpg\"\/><!--more-->Entre os temas do carnaval 2019 aparecem: candidaturas laranjas, lideran\u00e7as negras hist\u00f3ricas, racismo e resist\u00eancia\n<\/p><p>\nBruna Caetano\nBrasil de Fato\n<\/p><p>\nO samba, como express\u00e3o cultural do povo negro brasileiro, \u00e9 marcado em sua hist\u00f3ria pelo s\u00edmbolo de luta, uma caracter\u00edstica tamb\u00e9m presente na festa mais popular do pa\u00eds: o carnaval. As escolas de samba, com a visibilidade que adquirem nessa \u00e9poca do ano, muitas vezes usam os holofotes sob a festa para pautar quest\u00f5es relacionadas aos grupos marginalizados e \u00e0 pol\u00edtica institucional.\n<\/p><p>\nA escola do grupo especial do Rio de Janeiro, Para\u00edso do Tuiuti, ganhou destaque no carnaval passado ao levar para a Sapuca\u00ed o enredo sobre os 130 anos da Lei \u00c1urea, onde questionava se a escravid\u00e3o est\u00e1 realmente extinta. A escola causou pol\u00eamica ao denunciar o golpe de 2016 colocando na avenida um vampiro com faixa presidencial, em alus\u00e3o a Michel Temer, que ocupava o posto da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.\n<\/p><p>\nNeste ano, a vice-campe\u00e3 traz o samba-enredo O Salvador da P\u00e1tria, e no \u00faltimo ensaio t\u00e9cnico, exibiu na Comiss\u00e3o de Frente homens engravatados representando pol\u00edticos, e bailarinas com roupas e perucas na cor mais comentada do ano: a laranja, representando as recentes pol\u00eamicas de candidaturas do PSL, partido de Jair Bolsonaro.\n<\/p><p>\nTamb\u00e9m do Rio de Janeiro, a Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira vai contar a hist\u00f3ria de her\u00f3is populares atrav\u00e9s do samba Hist\u00f3ria pra Ninar Gente Grande, enaltecendo o legado de pessoas como Lu\u00edsa Mahin, Dandara e Marielle: \u201cBrasil, meu dengo \/ A Mangueira chegou \/ Com versos que o livro apagou \/ Desde 1500 tem mais invas\u00e3o do que descobrimento \/ Tem sangue retinto pisado \/ Atr\u00e1s do her\u00f3i emoldurado \/ Mulheres, tamoios, mulatos \/ Eu quero um pa\u00eds que n\u00e3o est\u00e1 no retrato\u201d canta o enredo.\n<\/p><p>\nDe acordo com Tiaraju Pablo, coordenador do Centro de Estudos Perif\u00e9ricos (CEP) e pesquisador sobre carnaval, os sambas-enredo sempre incomodaram o poder pol\u00edtico exatamente por trazer esse car\u00e1ter cr\u00edtico. Em 1969, por exemplo, o Imp\u00e9rio Serrano teve seu desfile cerceado por helic\u00f3pteros por criticar a ditadura militar na avenida, com o samba Her\u00f3is da Liberdade.\n<\/p><p>\nEntre os anos 80 e 90, houve um \u00e1pice de enredos com esse car\u00e1ter atrav\u00e9s de s\u00e1tiras, ou de den\u00fancia das mazelas sociais como fazia a escola S\u00e3o Clemente. Em 1988, a Unidos de Vila Isabel e a Mangueira questionavam o mito da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, e em 1989, a Beija-Flor emplacou o samba Ratos e Urubus Larguem Minha Fantasia, conquistando o segundo lugar, atr\u00e1s da Imperatriz Leopoldinense com Liberdade, Liberdade.\n<\/p><p>\nPara o especialista, as escolas de samba retornam a essa voca\u00e7\u00e3o cr\u00edtica a partir de 2016. A Imperatriz Leopoldinense, por exemplo, foi perseguida em 2017 pelo agroneg\u00f3cio por tratar dos povos do Xingu em seu desfile. \u201cJardim sagrado, o cara\u00edba descobriu \/ Sangra o cora\u00e7\u00e3o do meu Brasil \/ O belo monstro rouba as terras dos seus filhos \/ Devora as matas e seca os rios \/ Tanta riqueza que a cobi\u00e7a destruiu!\u201d diz o samba Xingu, o Clamor Que Vem da Floresta.\n<\/p><p>\nO samba sempre foi negro, e colocar em pauta as africanidades \u00e9 um papel que as escolas desempenham desde sempre. Isso acontece, principalmente, nas escolas que possuem uma raiz ainda mais popular como a Nen\u00ea de Vila Matilde, Camisa Verde e Branco e Unidos do Peruche, que esse ano traz o samba Nascem do Ventre Africano, Os Valores do Mundo. \u00c1frica, um Passado Presente no Futuro da Humanidade. Segundo a historiografia, o primeiro tema afro foi o do Salgueiro, no carnaval de 1960, falando de Zumbi dos Palmares. Mas, em 1956, a Nen\u00ea de Vila Matilde j\u00e1 havia levado o enredo Casa Grande Senzala, como explica Tiaraju.\n<\/p><p>\nEle acredita que, atualmente, os enredos sobre negritude e africanidades est\u00e3o em alta por tr\u00eas motivos: os setores progressistas da sociedade passaram a notar o potencial cr\u00edtico das escolas, o debate racial est\u00e1 em um n\u00edvel avan\u00e7ado e existem cr\u00edticas de setores conservadores da sociedade sobre as religi\u00f5es de matriz africana. \u201cQuando as escolas de samba e as religi\u00f5es afrobrasileiras estavam sob ataque, por volta de 2016, perceberam que s\u00f3 sobreviveriam se incorporassem essa vertente cr\u00edtica. Elas foram para o ataque.\u201d\n<\/p><p>\nPara o pesquisador, as escolas de samba se tornam ainda mais importantes quando retratam o pa\u00eds de forma cr\u00edtica. \u201cO carnaval \u00e9 irreverente, cr\u00edtico e um momento de den\u00fancia. As escolas de samba s\u00e3o uma s\u00edntese do Brasil, e s\u00e3o capazes de retratar sensa\u00e7\u00f5es e passar uma mensagem de maneira \u00e9pica e atrav\u00e9s de um cortejo. Quando ela se reencontra com esse Brasil profundo e consegue levar isso para a avenida, \u00e9 quando a escola de samba cumpre ao m\u00e1ximo seu papel.\u201d\n<\/p><p>\nEsse ano, a Vai-Vai, Unidos do Peruche, Mancha Verde, P\u00e9rola Negra, Para\u00edso do Tuiuti e Mangueira s\u00e3o algumas das escolas colocam no Samb\u00f3dromo do Anhembi e na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed a cultura afrobrasileira e as den\u00fancias das mazelas da pol\u00edtica nacional.\n<\/p><p>\nEdi\u00e7\u00e3o: Mauro Ramos\n<\/p><p>\nIlustra\u00e7\u00e3o: Ala dos patos amarelos da Tuiut\u00ed em 2018 fez alus\u00e3o ao pato infl\u00e1vel da FIESP, entidade que apoiou o golpe contra Dilma Rousseff. T\u00e2nia R\u00eago. Ag\u00eancia Brasil\n<\/p><p>\nhttps:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/03\/01\/diante-de-cenario-de-retrocessos-enredos-de-escolas-de-samba-trazem-temas-de-luta\/\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22467\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,13],"tags":[224],"class_list":["post-22467","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-s14-cultura","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Qn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22467"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22467\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}