{"id":22498,"date":"2019-03-06T21:22:40","date_gmt":"2019-03-07T00:22:40","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22498"},"modified":"2019-03-06T21:22:46","modified_gmt":"2019-03-07T00:22:46","slug":"mpb4-lembra-os-tempos-da-barra-pesada-da-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22498","title":{"rendered":"MPB4 lembra os tempos da &#8220;barra pesada&#8221; da censura"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.redebrasilatual.com.br\/revistas\/149\/o-mpb4-lembra-os-tempos-da-barra-pesada-da-censura\/mpb4\/@@images\/89242480-bab3-4f8a-a132-15567b5cbc69.jpeg\"\/><!--more-->por Vitor Nuzzi, da Rede Brasil Atual\n<\/p><p>\nConjunto de CDs traz shows do grupo proibidos pela censura nos anos 1970\n<\/p><p>\nS\u00e3o Paulo \u2013 A cria\u00e7\u00e3o do MPB4 coincidiu com o golpe de 1964: um ano antes, eles formavam o Quarteto do CPC, o Centro Popular de Cultura, vinculado \u00e0 Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), que teve vida breve. Estava chegando a &#8220;barra pesada&#8221;, express\u00e3o que d\u00e1 nome a um conjunto de cinco CDs lan\u00e7ado agora pelo selo Discobertas, com shows do grupo censurados entre 1973 e 1976. Tempos em que os artistas tinham de se &#8220;apresentar&#8221; primeiro aos censores, e s\u00f3 depois ao p\u00fablico. Se pudessem.\n<\/p><p>\nIntegrante da forma\u00e7\u00e3o original, quando o grupo ainda era um trio, Aquiles Rique Reis lembra de uma dessas exibi\u00e7\u00f5es, feitas para libera\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo. &#8220;Era terr\u00edvel. Mas a gente fazia isso da pior maneira poss\u00edvel. Cantava mais r\u00e1pido, falava os textos sem a menor emo\u00e7\u00e3o&#8230; Para eles, devia ser uma tortura&#8221;, recorda. E os artistas conseguiam ser convincentes. Tanto que, certa vez, depois de ver o ensaio, a censora dirigiu-se ao produtor do espet\u00e1culo, preocupada: &#8220;Mas eles v\u00e3o estrear amanh\u00e3? N\u00e3o est\u00e3o bem ensaiados&#8221;. \n<\/p><p>\nO pessoal da divis\u00e3o de censura do governo tamb\u00e9m tinha lugares reservados nas apresenta\u00e7\u00f5es, conta Aquiles. &#8220;A gente sabia onde eles sentavam&#8221;. Assentos nas primeiras fileiras. Nos dias de censor na plateia, &#8220;a gente amenizava&#8221;, diz o vocalista.\n<\/p><p>\nApesar de certo humor para lembrar desses hist\u00f3rias, Aquiles afirma que as lembran\u00e7as daqueles tempos &#8220;s\u00e3o as piores poss\u00edveis&#8221;, mas havia algum alento. &#8220;Eram momentos em que a gente estava empenhado em cantar aquilo que sempre cantou. A gente mais perdeu do que ganhou. Mas cada vit\u00f3ria era singular, no caminho da redemocratiza\u00e7\u00e3o.&#8221; \n<\/p><p>\nEm 1973, o grupo estreou no Teatro Fonte da Saudade, no Rio, o show MPB4 na Rep\u00fablica do Peru, com roteiro escrito pelo quarteto em parceria com Chico Buarque e Antonio Pedro e vetado depois de sete apresenta\u00e7\u00f5es, por &#8220;inobserv\u00e2ncia da programa\u00e7\u00e3o aprovada&#8221;. Foi gravado ao vivo em outubro daquele ano. Ficou apenas o repert\u00f3rio musical. Aquiles observa que muitas vezes os shows eram &#8220;proibidos na \u00edntegra n\u00e3o s\u00f3 pela m\u00fasica, mas pela encena\u00e7\u00e3o que a gente fazia, isso acontecia muito&#8221;. \n<\/p><p>\nFoi o que houve em 1976, quando MPB4 no Pa\u00eds das Maravilhas, com texto de Carlos Eduardo Novaes, foi substitu\u00eddo por Jornal Depois de Amanh\u00e3, dirigido por Ant\u00f4nio Pedro e escrito por Aldir Blanc.\n<\/p><p>\nAntes, em 1975, o MPB4 faria o show Ugunga, Rep\u00fablica Monarquista do Quarto Mundo, tamb\u00e9m dirigido por Antonio Pedro e com roteiro de Chico Buarque juntamente com o grupo, e colabora\u00e7\u00e3o de Ruy Guerra. Haveria uma &#8220;homenagem p\u00f3stuma&#8221; a Julinho da Adelaide, pseud\u00f4nimo usado por Chico para driblar a censura e &#8220;autor&#8221; do sucesso Acorda Amor. A censura s\u00f3 aprovou o t\u00edtulo Rep\u00fablica de Ugunga. Foi gravado em 20 de junho, e a apresenta\u00e7\u00e3o durou cinco meses. O show ia continuar, em teatro maior, mas foi proibido em todo o territ\u00f3rio nacional.\n<\/p><p>\nAs grava\u00e7\u00f5es t\u00eam boa qualidade t\u00e9cnica. Aquiles s\u00f3 lamenta que, no processo de remasteriza\u00e7\u00e3o comandado pelo pesquisador Marcelo Froes, n\u00e3o foi poss\u00edvel recuperar todas as falas. &#8220;\u00c0s vezes a gente falava fora do microfone.&#8221;\n<\/p><p>\nNos encartes que acompanham os CDs, conta-se que Ruy (formado em Direito) e Aquiles foram a Bras\u00edlia conversar com o chefe da Censura Federal. O espet\u00e1culo de duas horas perdeu as falas e transformou-se em um &#8220;recital&#8221; sucinto. &#8220;S\u00f3 que nenhum censor quis assinar o parecer que, finalmente aprovado, permitiria a estreia &#8216;legal&#8217; do show no Teatro Gl\u00f3ria em 13 de janeiro de 1976. Os rapazes bolaram ent\u00e3o falas bastante formais para apresentar as can\u00e7\u00f5es, mas sempre fazendo cita\u00e7\u00f5es do refr\u00e3o de Passaredo para avisar que &#8216;o homem vem a\u00ed&#8217;. E assim o &#8216;Recital&#8217; teve vida breve e o grupo come\u00e7ou a pensar em algo novo.&#8221;\n<\/p><p>\nMas alguma coisa acabava passando. &#8220;Por sorte nossa, os censores eram muito burros e \u00e0s vezes n\u00e3o percebiam&#8221;, lembra Aquiles. Assim como n\u00e3o era raro o p\u00fablico identificar, em alguma can\u00e7\u00e3o, uma mensagem subliminar que o pr\u00f3prio grupo n\u00e3o havia pensado. \n<\/p><p>\nN\u00e3o foi o caso de uma das m\u00fasicas mais emblem\u00e1ticas daquele per\u00edodo, Pesadelo, parceria de Maur\u00edcio Tapaj\u00f3s (melodia) e Paulo C\u00e9sar Pinheiro (letra). Foi lan\u00e7ada em 1972, no LP Cicatrizes. Um disco antol\u00f3gico, com interpreta\u00e7\u00f5es de O Navegante (Sidney Miller), San Vicente (Milton Nascimento\/Fernando Brant), Partido Alto (Chico Buarque) e Ilu Ay\u00ea Terra da Vida (samba-enredo da Portela naquele ano), entre outras.\n<\/p><p>\n \nVoc\u00ea corta um verso, \neu escrevo outro\nVoc\u00ea me prende vivo, \neu escapo morto\n<\/p><p>\n \n<\/p><p>\n&#8220;Esse \u00e9 o grande mist\u00e9rio&#8221;, comenta Aquiles. &#8220;Por que e como ela nunca foi censurada&#8221;, completa. Os versos de Paulo C\u00e9sar Pinheiro eram expl\u00edcitos. &#8220;Quase uma can\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 censura&#8221;, brinca o integrante do MPB4. O truque do autor, que acabou dando certo, foi mandar v\u00e1rias m\u00fasicas ao mesmo tempo, para tentar liberar Pesadelo. \n<\/p><p>\nO fato \u00e9 que a censura &#8220;cochilou&#8221; nesse caso, assim como havia acontecido com Apesar de Voc\u00ea, a \u00fanica composi\u00e7\u00e3o que Chico Buarque admite ter feito contra a ditadura, uma &#8220;can\u00e7\u00e3o de protesto&#8221;, como se dizia. A obra, de 1970, tamb\u00e9m foi liberada e fez enorme sucesso. Por pouco tempo, lembra Aquiles. &#8220;Depois proibiram e mandaram quebrar os discos.&#8221;\n<\/p><p>\nExiste uma &#8220;barra pesada&#8221; tamb\u00e9m nos tempos atuais, mas o cantor do MPB4 faz ressalva \u00e0 compara\u00e7\u00e3o, considerando que o pa\u00eds est\u00e1 em uma democracia. &#8220;Era um censura aberta, expl\u00edcita (naquela \u00e9poca). Hoje, eles foram eleitos. N\u00e3o \u00e9 uma ditadura&#8221;, afirma. Do atual governo, Aquiles lamenta &#8220;medidas de extrema-direita que, para mim, s\u00e3o inconceb\u00edveis, ministros sem o menor jeito, sem a menor compet\u00eancia&#8221;.\n<\/p><p>\nMas \u00e9 um momento &#8220;dif\u00edcil de engolir&#8221;, completa o artista, sem deixar de se lamentar pela amea\u00e7a a tantas conquistas. &#8220;A gente vai ter de aprender como se contrapor. Eu, que dentro do MPB4, tanto lutei pela redemocratiza\u00e7\u00e3o, estou vendo tudo escorrer pelos dedos, indo para o ralo. S\u00e3o coisas de extrema estupidez que a gente tem de aguentar.&#8221;\n<\/p><p>\nAquiles tamb\u00e9m v\u00ea com preocupa\u00e7\u00e3o o acirramento dos \u00e2nimos no pa\u00eds, em parte alimentado pelo que ele chama de &#8220;esp\u00edrito belicoso&#8221; do atual presidente e tamb\u00e9m certa decep\u00e7\u00e3o de parte da esquerda principalmente com o governo Dilma. &#8220;Fica uma coisa em que sobressai a viol\u00eancia, isso torna o momento muito perigoso sob um certo aspecto.&#8221;\n<\/p><p>\nEle tamb\u00e9m lembra da libera\u00e7\u00e3o parcial das armas de fogo, uma das primeiras medidas do governo, e teme que isso aconte\u00e7a tamb\u00e9m com o porte. &#8220;Uma pequena batidinha de tr\u00e2nsito, um puxa uma arma, o outro tamb\u00e9m, e salve-se quem puder.&#8221; Para Aquiles, o presidente da Rep\u00fablica parece ainda estar em campanha.\n<\/p><p>\nDa forma\u00e7\u00e3o original, ficaram dois integrantes: Aquiles e Miltinho. Em 2004, Ruy Farias saiu, ap\u00f3s desentendimentos internos, e foi substitu\u00eddo por Dalmo Medeiros, ex-componente do grupo vocal C\u00e9u da Boca. Em 2012, o quarteto perdeu Magro Waghabi, que morreu aos 68 anos. Em seu ligar, entrou Paulo Malaguti, tamb\u00e9m do C\u00e9u da Boca. Ruy morreu no ano passado, aos 80. O grupo segue na estrada, fazendo shows. Em 2016, lan\u00e7aram pelo selo Sesc o CD 50 Anos \u2013 MPB4: o sonho, a vida, a roda viva!.\n<\/p><p>\nRoda Viva, can\u00e7\u00e3o de Chico Buarque, ficou em terceiro lugar no festival da Record em 1967, interpretada pelo quarteto e pelo autor. A vencedora foi Ponteio (Edu Lobo\/Capinan), com Edu e Mar\u00edlia Medalha.\n<\/p><p>\nO resgate do MPB4 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 censura j\u00e1 vem sendo ensaiado h\u00e1 algum tempo. O grupo j\u00e1 apresentou, por exemplo, o espet\u00e1culo Voc\u00ea corta um verso, eu escrevo outro, contando um pouco da hist\u00f3ria dos vetos impostos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o musical no Brasil \u2013 que, como lembra Aquiles, n\u00e3o se restringe ao conte\u00fado pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m ao comportamento, caso de Odair Jos\u00e9, que tamb\u00e9m enfrentou a caneta da proibi\u00e7\u00e3o. Em mais de cinco d\u00e9cadas, eles continuam cantando o que querem, acima das proibi\u00e7\u00f5es.\n<\/p><p>\nImagem: MPB4\nA forma\u00e7\u00e3o original do quarteto, com Magro e Ruy (respectivamente o primeiro e o segundo agachados)\n<\/p><p>\nmpb4.com.br\/ divulga\u00e7\u00e3o\n<\/p><p>\nhttps:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/revistas\/149\/o-mpb4-lembra-os-tempos-da-barra-pesada-da-censura\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22498\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[222],"class_list":["post-22498","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5QS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22498"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22498\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}