{"id":2251,"date":"2012-01-12T20:13:08","date_gmt":"2012-01-12T20:13:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2251"},"modified":"2015-06-09T00:29:03","modified_gmt":"2015-06-09T03:29:03","slug":"uma-entrevista-com-domenico-losurdo-no-chinese-social-sciences-today-2911201","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2251","title":{"rendered":"Uma entrevista com Domenico Losurdo no Chinese Social Sciences Today, 29.11.201"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747\" alt=\"\" align=\"right\" border=\"0\" \/><strong>O POVO (Fortaleza-CE) &#8211; 07.01.2012| 15:00 <\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo passado, o Brasil desenvolvia secretamente seu programa nuclear para fins militares. Para assegurar-lhe recursos financeiros, estabelecera parceria com o Iraque, que bancava os elevados investimentos necess\u00e1rios em troca de acesso aos conhecimentos tecnol\u00f3gicos brasileiros. O respons\u00e1vel pelo programa na Aeron\u00e1utica era o tenente-coronel aviador Jos\u00e9 Alberto Albano do Amarante, engenheiro eletr\u00f4nico formado pelo ITA.<!--more--><\/p>\n<p>Em outubro de 1981, Amarante foi atacado por uma leucemia arrasadora, que o matou em menos de duas semanas. Sua fam\u00edlia tem como certo que o cientista foi morto pelos servi\u00e7os secretos dos EUA e de Israel, com o objetivo de impedir a capacita\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de armas at\u00f4micas. Dando for\u00e7a \u00e0s suspeitas, foi identificado um agente israelense do Mossad, de nome Samuel Giliad, atuando \u00e0 \u00e9poca em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, e que fugiu do pa\u00eds logo ap\u00f3s a misteriosa morte do oficial brasileiro.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio d\u00e1 bem o tom da virul\u00eancia empregada pelos EUA e Israel para bloquear a entrada de outros pa\u00edses no fechado clube nuclear. N\u00e3o por coincid\u00eancia, apenas quatro meses antes da suposta a\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio brasileiro, Israel desfechara devastador ataque a\u00e9reo ao reator nuclear de Osirak, no Iraque, que vinha sendo constru\u00eddo pelos franceses.<\/p>\n<p>Tais fatos d\u00e3o credibilidade \u00e0s reiteradas den\u00fancias do governo iraniano de que seus cientistas est\u00e3o sendo alvo de atentados por parte dos servi\u00e7os secretos estadunidense, brit\u00e2nico e israelense. Somente em 2010, foram mortos os f\u00edsicos Masud Ali Mohamadi e Majid Shariari, que atuavam no desenvolvimento de reatores nucleares, ambos v\u00edtimas de explos\u00f5es de bombas em seus pr\u00f3prios autom\u00f3veis, enquanto o chefe da Organiza\u00e7\u00e3o de Energia At\u00f4mica do Ir\u00e3, Abbasi-Davanina, escapava por pouco da detona\u00e7\u00e3o de um carro-bomba, conforme ele pr\u00f3prio denunciou durante a confer\u00eancia anual da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica, em setembro \u00faltimo. Em julho de 2011, o f\u00edsico Daryush Rezaei, 35 anos, foi morto a tiros em frente a sua casa, em ataque que tamb\u00e9m feriu sua esposa. Esses s\u00e3o alguns dos muitos casos de assassinatos e desaparecimentos de cientistas e chefes militares iranianos nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Os crimes se d\u00e3o em paralelo \u00e0s intensas press\u00f5es do governo dos EUA para que a comunidade internacional aplique severas san\u00e7\u00f5es ao Ir\u00e3 sob o argumento de que o pa\u00eds descumpre o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP).<\/p>\n<p>Criado pela ONU em 1968, o acordo tem tr\u00eas objetivos principais: coibir o uso de tecnologia nuclear para produ\u00e7\u00e3o de armas, eliminar os armamentos nucleares existentes e regular o uso de energia nuclear para fins pac\u00edficos. Convenientemente, as grandes pot\u00eancias interpretam o acordo segundo seus pr\u00f3prios interesses: bloqueiam o desenvolvimento da pesquisa dos pa\u00edses n\u00e3o detentores de armas at\u00f4micas, mesmo quando para fins pac\u00edficos, e fazem letra morta dos dispositivos do tratado que determinam o desarmamento.<\/p>\n<p>Como previa o embaixador do Brasil na ONU, em 1968, Jos\u00e9 Augusto Ara\u00fajo de Castro, quando atuou para impedir a ades\u00e3o do Brasil ao TNP, o tratado \u00e9 apenas um instrumento para perpetuar o poder das grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>Documentos divulgados pelo Wikileaks deixam clara a disposi\u00e7\u00e3o dos EUA em n\u00e3o reduzir o n\u00famero de ogivas nucleares instaladas na Europa. Por outro lado, enquanto todos os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio fazem parte do TNP, Israel, \u00fanico detentor de armas nucleares na regi\u00e3o, nega-se a aderir ao acordo e repudiou as censuras de que foi alvo no relat\u00f3rio final da \u00faltima reuni\u00e3o quinquenal do TNP, em 2010, gerando a amea\u00e7a dos demais governos vizinhos de abandonar o tratado na pr\u00f3xima reuni\u00e3o, marcada para 2012.<\/p>\n<p>As guerras contra o Afeganist\u00e3o, Iraque e L\u00edbia, mais as amea\u00e7as contra a S\u00edria, Coreia e Ir\u00e3, parecem evidenciar que somente a capacidade de retalia\u00e7\u00e3o at\u00f4mica intimida o imp\u00e9rio, j\u00e1 que a assimetria das for\u00e7as alimenta aventuras dos Estados Unidos e de seus s\u00f3cios de rapina, todos em busca de conflitos b\u00e9licos, seja para assegurar dom\u00ednios seja para encobrir seus graves problemas dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>A conjuntura estrat\u00e9gica do Oriente M\u00e9dio indica que, para sua sobreviv\u00eancia, o Ir\u00e3 n\u00e3o tem outra alternativa que a de construir sua bomba e, nesse sentido, corre contra o tempo, dado o cerco que se fecha contra o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como analisa o cientista pol\u00edtico paquistan\u00eas Tariq Ali, n\u00e3o \u00e9 despropositado considerar que o surgimento de outra pot\u00eancia nuclear no Oriente M\u00e9dio possa propiciar estabilidade pol\u00edtica \u00e0 regi\u00e3o e ao mundo, por contradit\u00f3rio que possa parecer.<\/p>\n<p>Se Marx nos ensinou que a luta pela supera\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o patriarcal do trabalho \u00e9\u00a0uma luta revolucion\u00e1ria, seria muito estranho que a luta no plano internacional para romper com a divis\u00e3o internacional do trabalho imposta pelo capitalismo e pelo imperialismo, que a luta para acabar com e liquidar definitivamente este monop\u00f3lio ocidental da tecnologia \u2013 que n\u00e3o \u00e9 uma oferta da natureza mas o resultado de s\u00e9culos de opress\u00e3o e de domina\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o seja uma luta emancipadora.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mail-attachment.googleusercontent.com\/attachment?name=d33be9805ff33117.jpg&amp;attid=0.1&amp;disp=vahi&amp;view=att&amp;th=134d27555ef9847e\" alt=\"\u00c9 poss\u00edvel que seu navegador n\u00e3o suporte a exibi\u00e7\u00e3o desta imagem.\" width=\"1\" height=\"1\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p><em>Publicou em 2005 o seu livro \u201cFuga da Hist\u00f3ria? A revolu\u00e7\u00e3o russa e a revolu\u00e7\u00e3o chinesa hoje\u201d. O que \u00e9 que o levou a escrever este livro?<\/em><\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o do livro foi publicada em 1999. Era o momento em que o fim da guerra-fria era interpretado como a impossibilidade irremedi\u00e1vel de qualquer tentativa de construir uma sociedade socialista, com o triunfo definitivo do capitalismo e o \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d. No Ocidente esta forma de ver os acontecimentos provocou uma brecha no pr\u00f3prio seio da esquerda: mesmo os comunistas, declarando-se embora fi\u00e9is aos ideais do socialismo, acrescentaram entretanto nada ter a ver com a hist\u00f3ria da URSS ou da China onde, afirmavam, se tinha produzido a \u201crestaura\u00e7\u00e3o do capitalismo\u201d. Propus-me explicar a hist\u00f3ria do movimento comunista desde a revolu\u00e7\u00e3o russa de Outubro at\u00e9 a China nascida das reformas de Deng Xiaoping em contraposi\u00e7\u00e3o a essa \u201cfuga para fora da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p><em>Quais s\u00e3o, na sua opini\u00e3o, as raz\u00f5es que provocaram a \u201cdesintegra\u00e7\u00e3o\u201d da URSS?<\/em><\/p>\n<p>Em 1947, quando foi formulada a pol\u00edtica do containment, o seu teorizador, George F. Kennan, explicava que era essencial \u201caumentar as tens\u00f5es (strains) que incidam sobre a pol\u00edtica sovi\u00e9tica\u201d, de modo a \u201cpromover tend\u00eancias que possam vir a abalar ou a amaciar o poder sovi\u00e9tico\u201d. Nos dias de hoje a pol\u00edtica dos EUA em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China n\u00e3o \u00e9 muito diferente desta, embora a China tenha entretanto acumulado uma grande experi\u00eancia pol\u00edtica. Mas para al\u00e9m da pol\u00edtica do containment, o que foi determinante no colapso da URSS foram as suas graves fraquezas internas. \u00c9 necess\u00e1rio revisitar a c\u00e9lebre tese de L\u00e9nine segundo a qual \u201cn\u00e3o h\u00e1 ac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria sem teoria revolucion\u00e1ria\u201d. O partido bolchevique tinha, sem qualquer d\u00favida, uma teoria para a tomada do poder, mas se por revolu\u00e7\u00e3o n\u00f3s entendemos n\u00e3o apenas a destrui\u00e7\u00e3o da ordem antiga mas igualmente a constru\u00e7\u00e3o do novo, os bolcheviques e o movimento comunista encontravam-se substancialmente desguarnecidos no que diz respeito a uma teoria revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista, n\u00f3s n\u00e3o podemos considerar como suficiente que a teoria da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade p\u00f3s-capitalista se reduza \u00e0 esperan\u00e7a messi\u00e2nica de um mundo no qual tivessem desaparecido completamente os Estados, as na\u00e7\u00f5es, o mercado, o dinheiro, etc. O PCUS cometeu o grave erro de n\u00e3o se ter empenhado em preencher esta lacuna.<\/p>\n<p><em>Quais s\u00e3o, em sua opini\u00e3o, as caracter\u00edsticas e o significado da revolu\u00e7\u00e3o chinesa? <\/em><\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX a China fazia parte do mundo colonial e semi-colonial, submetida ao colonialismo e ao imperialismo. A revolu\u00e7\u00e3o de Outubro constituiu uma viragem hist\u00f3rica que desencadeou e impulsionou uma vaga anti-colonialista de dimens\u00e3o planet\u00e1ria. Em resposta a esta vaga, o fascismo e o nazismo representaram uma tentativa de revitaliza\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o colonial. Em particular, as guerras desencadeadas pelo imperialismo hitleriano e japon\u00eas respectivamente contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e contra a China foram as maiores guerras coloniais da hist\u00f3ria. De forma que Estalinegrado na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a Longa Marcha e a guerra de resist\u00eancia contra o Jap\u00e3o na China formam grandiosas lutas de classe, que impediram o imperialismo mais b\u00e1rbaro de impor uma divis\u00e3o do trabalho assente sobre a redu\u00e7\u00e3o dos grandes povos a uma massa de escravos ao servi\u00e7o de uma suposta ra\u00e7a de senhores.<\/p>\n<p>Mas a luta de emancipa\u00e7\u00e3o dos povos em situa\u00e7\u00e3o colonial e semi-colonial n\u00e3o fica conclu\u00edda com a obten\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia pol\u00edtica. A partir de 1949, quando estava j\u00e1\u00a0pr\u00f3ximo da tomada do poder, Mao Zedong vinha insistindo na import\u00e2ncia da quest\u00e3o da edifica\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica: Washington desejaria que a China se contentasse \u201cem viver da farinha estado-unidense\u201d naquilo que seria \u201cuma col\u00f3nia americana\u201d. \u00c9 evidente que sem a vit\u00f3ria na luta pela produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e industrial a vit\u00f3ria militar acabar\u00e1 por ser fr\u00e1gil e v\u00e3. De certo modo, Mao previra a passagem da fase militar \u00e0 fase econ\u00f3mica da luta pela revolu\u00e7\u00e3o anti-colonialista e anti-imperialista.<\/p>\n<p>O que \u00e9\u00a0que est\u00e1\u00a0 a acontecer nos dias de hoje? Os EUA est\u00e3o em vias de relocalizar o seu arsenal militar na \u00c1sia. Em 28 de Outubro de 2011 a ag\u00eancia Reuters escrevia que uma das acusa\u00e7\u00f5es de Washington em rela\u00e7\u00e3o aos dirigentes de Pequim era de que estes fomentavam ou impunham uma transfer\u00eancia de tecnologia do ocidente para a China. Est\u00e1 claro: os EUA pretendem conservar o monop\u00f3lio da tecnologia para continuar a exercer a sua hegemonia, que inclui uma domina\u00e7\u00e3o neocolonial indirecta; por outras palavras, ainda nos nossos dias, a luta contra a hegemonia trava-se igualmente ao n\u00edvel do desenvolvimento econ\u00f3mico e tecnol\u00f3gico. Trata-se de um aspecto que, lamentavelmente, a esquerda ocidental continua a n\u00e3o compreender.<\/p>\n<p>N\u00f3s devemos reafirmar com vigor: n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0apenas a longa luta atrav\u00e9s da qual o povo chin\u00eas p\u00f4s termo a um s\u00e9culo de humilha\u00e7\u00e3o e fundou uma Rep\u00fablica popular e revolucion\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 apenas a constru\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e social atrav\u00e9s da qual o Partido comunista chin\u00eas libertou da fome centenas de milh\u00f5es de homens que \u00e9 revolucion\u00e1ria em si mesma, \u00e9-o tamb\u00e9m a sua luta para quebrar o monop\u00f3lio imperialista da tecnologia. Marx ensinou-nos isso. Se ele nos ensinou que a luta pela supera\u00e7\u00e3o, no seio da fam\u00edlia, da divis\u00e3o patriarcal do trabalho, \u00e9 uma luta revolucion\u00e1ria, seria muito estranho que a luta no plano internacional para romper com a divis\u00e3o internacional do trabalho imposta pelo capitalismo e pelo imperialismo, que a luta para acabar com e liquidar definitivamente este monop\u00f3lio ocidental da tecnologia \u2013 que n\u00e3o \u00e9 uma oferta da natureza mas o resultado de s\u00e9culos de opress\u00e3o e de domina\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o seja uma luta emancipadora.<\/p>\n<p><em>Publicou em 2005 o seu livro \u201cUma contra-hist\u00f3ria do liberalismo\u201d que teve um grande sucesso (foi reeditado 3 vezes no mesmo ano e foi traduzido em diversas l\u00ednguas). O que significa este t\u00edtulo?<\/em><\/p>\n<p>O meu livro n\u00e3o nega os m\u00e9ritos do liberalismo, que coloca em destaque o papel do mercado no desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e sublinha a necessidade de limitar o poder (embora apenas a favor de uma comunidade reduzida de privilegiados). A minha contra-hist\u00f3ria do liberalismo contrap\u00f5e-se ao auto-elogio e \u00e0 vis\u00e3o apolog\u00e9tica \u00e0s quais se entregam o liberalismo e o Ocidente liberal. Trata-se de uma tradi\u00e7\u00e3o de pensamento na qual a exalta\u00e7\u00e3o da liberdade vai a par de terr\u00edveis cl\u00e1usulas de exclus\u00e3o em detrimento da classe oper\u00e1ria e, sobretudo, dos povos colonizados.<\/p>\n<p>John Locke, o pai do liberalismo, legitima a escravatura nas col\u00f3nias e \u00e9\u00a0acionista da Royal African Company, a empresa inglesa que gere o tr\u00e1fico e o com\u00e9rcio de escravos negros. Mas para al\u00e9m das personalidades individuais, o que \u00e9 importante \u00e9 o papel dos pa\u00edses que melhor encarnam a tradi\u00e7\u00e3o liberal. Um dos primeiros actos de pol\u00edtica internacional da Inglaterra liberal, nascida da Gloriosa Revolu\u00e7\u00e3o de 1688-1689, \u00e9 garantir para si pr\u00f3pria o monop\u00f3lio do tr\u00e1fico de escravos negros.<\/p>\n<p>O papel da escravatura na hist\u00f3ria dos EUA \u00e9\u00a0ainda mais importante. Durante 32 dos primeiros 36 anos da vida dos Estados Unidos a presid\u00eancia do pa\u00eds foi desempenhada por propriet\u00e1rios de escravos. E isto n\u00e3o \u00e9 tudo. Durante v\u00e1rias d\u00e9cadas o pa\u00eds consagrou-se \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o da escravatura com o mesmo zelo com o qual exportam hoje a \u201cdemocracia\u201d: em meados do s\u00e9c. XIX tinham reintroduzido a escravatura no Texas, pouco antes arrebatado em guerra com o M\u00e9xico.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a Inglaterra primeiro e os Estados Unidos depois se vir\u00e3o obrigados a abolir a escravatura, mas o lugar onde anteriormente estavam os escravos negros foi ocupado pelos coolies chineses e indianos, por sua vez submetidos a uma forma pouco mitigada de escravatura. Para al\u00e9m disso, e ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o formal da escravatura, os afro-americanos continuaram a ser sujeitos a uma opress\u00e3o t\u00e3o feroz que o eminente historiador americano George M. Fredrickson escreveu: \u201cOs esfor\u00e7os para preservar a \u201cpureza da ra\u00e7a\u201d no Sul do Estados Unidos foram, em certos aspectos, o prel\u00fadio da persegui\u00e7\u00e3o desencadeada pelo regime nazi contra os judeus nos anos 30 do s\u00e9culo vinte\u201d.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7a ent\u00e3o a abrir brechas nos Estados Unidos o regime de supremacia branca, de opress\u00e3o e de descrimina\u00e7\u00e3o racial? Em Dezembro de 1952, o ministro americano da justi\u00e7a envia ao supremo tribunal, na altura em pleno debate sobre a integra\u00e7\u00e3o nas escolas p\u00fablicas, uma eloquente carta: \u201cA discrimina\u00e7\u00e3o racial leva a \u00e1gua ao moinho da propaganda comunista, e semeia igualmente d\u00favidas junto de outras na\u00e7\u00f5es amigas no que diz respeito \u00e0 nossa devo\u00e7\u00e3o pela democracia\u201d. Washington, segundo o historiador que revelou este epis\u00f3dio (C. Vann Woodward), arriscava a perda das simpatias das \u201cra\u00e7as de cor\u201d, n\u00e3o apenas no Oriente e no Terceiro-Mundo, mas igualmente no seu pr\u00f3prio pa\u00eds. \u00c9 apenas ent\u00e3o que o Supremo Tribunal decide declarar inconstitucional a segrega\u00e7\u00e3o racial nas escolas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>H\u00e1\u00a0nesta hist\u00f3ria um paradoxo. Nos dias de hoje Washington insiste em censurar a China pela sua falta de democracia; mas \u00e9 conveniente referir que um elemento essencial na democracia, a supera\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o racial, apenas foi poss\u00edvel nos Estados Unidos gra\u00e7as ao desafio que o movimento anti-colonial representou, movimento do qual a China fazia e continua a fazer parte integrante.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o h\u00e1\u00a0 tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es que se destacam\u00a0 entre as numerosas edi\u00e7\u00f5es italianas do Manifesto do Partido Comunista: a de Antonio Labriola, a de Palmiro Togliatti e a sua, de 1999. A seu ver, que sentido faz para os marxistas de hoje essa obra-prima de Marx e Engels?<\/p>\n<p>Na introdu\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0 edi\u00e7\u00e3o italiana do Manifesto do Partido Comunista tentei reconstituir o s\u00e9culo e meio de hist\u00f3ria percorrido desde a publica\u00e7\u00e3o, em 1848, desse texto extraordin\u00e1rio. H\u00e1 uma compara\u00e7\u00e3o que nos pode permitir compreender o seu significado. Oito anos antes uma outra grande personalidade da Europa do s\u00e9c. XIX, Alexis de Tocqueville, publicava o segundo volume de \u201cA democracia na Am\u00e9rica\u201d, e num cap\u00edtulo central afirmava em t\u00edtulo que \u201cas grandes revolu\u00e7\u00f5es ser\u00e3o cada vez menos frequentes\u201d. Mas se n\u00f3s olharmos o s\u00e9culo ou s\u00e9culo e meio posteriores ao ano (1840) no decurso do qual o liberal franc\u00eas faz esta afirma\u00e7\u00e3o, n\u00f3s verificamos que \u00e9 provavelmente o s\u00e9culo da hist\u00f3ria universal mais abundante em revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isto \u00e9\u00a0indubit\u00e1vel: tendo previsto a revolta contra o capitalismo, contra um sistema que comporta a \u201ctransforma\u00e7\u00e3o em m\u00e1quinas\u201d dos prolet\u00e1rios e a sua degrada\u00e7\u00e3o em \u201cinstrumentos de trabalho\u201d, em \u201cacess\u00f3rios da m\u00e1quina\u201d, como ap\u00eandices \u201cdependentes e impessoais\u201d do capital \u201cindependente e pessoal\u201d, tendo previsto a revolta contra este sistema, o Manifesto do Partido Comunista soube ver mais al\u00e9m. Quando Marx e Engels descrevem, com extraordin\u00e1ria lucidez e clarivid\u00eancia, aquilo a que hoje se chama globaliza\u00e7\u00e3o, eles sabem bem que se trata de um processo contradit\u00f3rio, caracterizado (no interior do capitalismo) por colossais crises de sobreprodu\u00e7\u00e3o que conduzem \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de quantidades enormes de riqueza social e \u00e0 mis\u00e9ria de massas indigentes de homens e mulheres. \u00c9 igualmente um processo carregado de conflitos que podem mesmo desembocar numa \u201cguerra de exterm\u00ednio entra as na\u00e7\u00f5es industriais\u201d. O que nos leva a pensar na Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Contra este mundo, o Manifesto comunista evoca tanto as revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias como as \u201crevolu\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias\u201d e de \u201cliberta\u00e7\u00e3o nacional\u201d. Marx e Engels est\u00e3o assim antecipando o que mais tarde ir\u00e1 acontecer no Terceiro-Mundo, como por exemplo na China.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da China, podemos fazer uma \u00faltima observa\u00e7\u00e3o. O Manifesto do Partido Comunista prev\u00ea\u00a0a emerg\u00eancia de uma economia globalizada caracterizada por \u201cnovas ind\u00fastrias, cuja instala\u00e7\u00e3o se torna uma quest\u00e3o de vida ou de morte para todas as na\u00e7\u00f5es civilizadas, ind\u00fastrias que n\u00e3o produzem j\u00e1 a partir de mat\u00e9rias-primas locais, mas a partir de mat\u00e9rias-primas oriundas das regi\u00f5es mais distantes, e cujos produtos s\u00e3o consumidos n\u00e3o apenas no interior do pa\u00eds mas em toda a parte do mundo\u201d. Em consequ\u00eancia, e se bem que o seu olhar se concentre na Europa, o texto de Marx e Engels d\u00e1-nos indica\u00e7\u00f5es preciosas para todos os pa\u00edses do Terceiro-Mundo que procuram alcan\u00e7ar um desenvolvimento econ\u00f3mico independente<\/p>\n<p>Quais foram, na sua opini\u00e3o, os contributos de Antonio Gramsci para a teoria marxista?<\/p>\n<p>Penso que os contributos da obra deste grande pensador foram pelo menos quatro:<\/p>\n<p>a) Gramsci p\u00f4s em destaque a import\u00e2ncia da \u201chegemonia\u201d para a conquista e a conserva\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico. Num texto de 1926 ele explica que o prolet\u00e1rio atinge a maturidade da consci\u00eancia de classe quando se sente membro da sua classe e ao mesmo tempo considera a sua classe de perten\u00e7a (o proletariado) como o n\u00facleo dirigente de um bloco social muito mais vasto, chamado a conduzir a revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>b) Em segundo lugar, Gramsci mostra-se plenamente consciente da complexidade intr\u00ednseca ao processo de constru\u00e7\u00e3o do socialismo. No in\u00edcio, ser\u00e1\u00a0\u201co colectivismo da mis\u00e9ria, do sofrimento\u201d. Mas n\u00e3o podemos deter-nos nesse ponto, temos que lan\u00e7ar ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. Nesse contexto, \u00e9 necess\u00e1rio situar a import\u00e2ncia da posi\u00e7\u00e3o de Gramsci no que diz respeito \u00e0 NEP (Nova Pol\u00edtica Econ\u00f3mica, empreendida ap\u00f3s o \u201ccomunismo de guerra\u201d). A realidade da URSS da \u00e9poca coloca-nos em presen\u00e7a de um fen\u00f3meno \u201cnunca anteriormente visto na hist\u00f3ria\u201d: uma classe politicamente \u201cdominante\u201d vive, no seu conjunto, em \u201ccondi\u00e7\u00f5es globalmente inferiores \u00e0quelas em que vivem certos elementos das camadas da classe dominada e submetida\u201d. As massas populares, que continuam a enfrentar uma vida de priva\u00e7\u00f5es, ficam desconcertadas perante o espect\u00e1culo do \u201cnepman\u201d [o homem da NEP] que ostenta o seu casaco de peles e tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o todos os bens deste mundo, mas isso n\u00e3o deve constituir nem motivo de esc\u00e2ndalo nem de recusa; para o proletariado, a conserva\u00e7\u00e3o do poder ser\u00e1 imposs\u00edvel se n\u00e3o for capaz de sacrificar os seus interesses imediatos ao \u201cinteresse geral e permanente da classe\u201d. Trata-se, bem entendido, de uma situa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria. O que Gramsci sugeriu aqui pode ser \u00fatil \u00e0 esquerda ocidental, para compreender a realidade de um pa\u00eds como a China de hoje.<\/p>\n<p>c) Gramsci d\u00e1-nos algumas indica\u00e7\u00f5es preciosas acerca de um outro aspecto. Dever\u00edamos pensar o comunismo n\u00e3o s\u00f3\u00a0como o desaparecimento total dos antagonismos de classe, mas tamb\u00e9m do poder de Estado e pol\u00edtico, das religi\u00f5es, das na\u00e7\u00f5es, da divis\u00e3o do trabalho, do mercado, de todas as fontes de conflito potenciais? Questionando o mito do desaparecimento do Estado e da sua dissolu\u00e7\u00e3o na sociedade civil, Gramsci nota que a sociedade civil \u00e9 ela mesma uma forma de Estado e sublinha igualmente que o internacionalismo n\u00e3o tem nada a ver com a nega\u00e7\u00e3o das particularidades e das identidades nacionais, que subsistir\u00e3o muito tempo depois do derrube do capitalismo; quanto ao mercado, Gramsci considera que seria mais \u00fatil falar de \u201cmercado determinado\u201d do que de mercado abstrato. Gramsci ajuda-nos a superar o messianismo, que bloqueia gravemente a constru\u00e7\u00e3o da sociedade p\u00f3s-capitalista.<\/p>\n<p>d) Finalmente. Mantendo sempre a condena\u00e7\u00e3o do capitalismo, os cadernos da pris\u00e3o evitam uma interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria moderna e das revolu\u00e7\u00f5es burguesas como um tratado de \u201cteratologia\u201d, ou seja, de um tratado que tem monstros por objeto. Os comunistas devem saber criticar os erros, por vezes graves, de Stalin, Mao e outros dirigentes, sem reduzir esses cap\u00edtulos da hist\u00f3ria do movimento comunista a uma \u201cteratologia\u201d, a uma hist\u00f3ria de monstros.<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2332\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2332<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiarioB\n\n\n\n\n\n\n\n\nTian Shigang\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2251\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[104],"tags":[],"class_list":["post-2251","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c117-outras-opinioes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Aj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2251","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2251"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2251\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}