{"id":22533,"date":"2019-03-10T22:14:07","date_gmt":"2019-03-11T01:14:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22533"},"modified":"2019-03-12T19:34:38","modified_gmt":"2019-03-12T22:34:38","slug":"venezuela-e-peca-chave-no-atual-xadrez-geopolitico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22533","title":{"rendered":"Venezuela \u00e9 pe\u00e7a-chave no atual xadrez geopol\u00edtico"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/geocomentario.files.wordpress.com\/2019\/03\/depositphotos_99650492-stock-photo-digital-world-map-chess-board.jpg?w=440\"\/><!--more-->Caio Andrade\n<\/p><p>\nQuanto mais se aprofunda a crise pol\u00edtica na Venezuela, mais fica evidente a import\u00e2ncia mundial dos acontecimentos naquele pa\u00eds. O conflito em quest\u00e3o vai muito al\u00e9m de uma simples disputa pelo poder entre o Nicol\u00e1s Maduro, Presidente da Rep\u00fablica reeleito em maio do ano passado, e Juan Guaid\u00f3, l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, presidente da Assembleia Nacional e, desde 23 de janeiro, autoproclamado chefe do poder executivo. H\u00e1 muitos outros elementos envolvidos neste processo. Al\u00e9m do mais, a clara vincula\u00e7\u00e3o entre a luta de classes na Venezuela e a evolu\u00e7\u00e3o da ordem internacional, bem como as preocupa\u00e7\u00f5es com o destino do pa\u00eds n\u00e3o s\u00e3o exatamente fen\u00f4menos recentes. \n<\/p><p>\nCom efeito, desde o final da d\u00e9cada de 1990, a Venezuela tem se tornado objeto de aten\u00e7\u00e3o especial por parte das tradicionais pot\u00eancias do Ocidente. Naquele per\u00edodo, a grande burguesia ainda comemorava a derrota do assim chamado socialismo real, proclamando o que Francis Fukuyama designaria como \u201cO Fim da Hist\u00f3ria\u201d. Acreditava-se que, com a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS), teria chegado ao fim a busca por uma sociedade mais avan\u00e7ada e o slogan There Is No Alternative \u00b9, atribu\u00eddo a Margareth Tatcher, passou a ser o lema da Nova Ordem Mundial. Ou seja, a combina\u00e7\u00e3o entre democracia liberal e economia de mercado representaria o \u00e1pice da evolu\u00e7\u00e3o humana, sendo in\u00fatil ou mesmo prejudicial insistir na procura por novos modelos.  \n<\/p><p>\nTodavia, antes mesmo da chegada do s\u00e9culo XXI, a realidade j\u00e1 come\u00e7ava a frustrar a euforia ideol\u00f3gica burguesa, colocando em xeque os postulados do Consenso de Washington. Enquanto os pa\u00edses que seguiram o receitu\u00e1rio do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) enfrentaram s\u00e9rias crises econ\u00f4micas e sociais, com grave eleva\u00e7\u00e3o do desemprego e da concentra\u00e7\u00e3o de renda, a China, que nunca aderiu ao pressuposto neoliberal do estado m\u00ednimo, manteve as maiores taxas de crescimento econ\u00f4mico do mundo.    \n<\/p><p>\nNeste per\u00edodo, a vit\u00f3ria eleitoral de Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela, em 1998, constituiu um marco fundamental para a derrota do neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina. A chegada do coronel socialista ao Pal\u00e1cio Miraflores inaugurou uma virada na correla\u00e7\u00e3o regional de for\u00e7as, dando in\u00edcio a uma guinada \u00e0 esquerda que foi muito al\u00e9m das fronteiras venezuelanas.\n<\/p><p>\nNa sequ\u00eancia, diversos l\u00edderes da esquerda propriamente dita e de um campo progressista mais amplo tamb\u00e9m venceram elei\u00e7\u00f5es presidenciais nos pa\u00edses vizinhos, fortalecendo o que alguns pesquisadores chamaram de \u201cOnda Rosa\u201d: Lagos e Bachelet (Chile), Lula e Dilma (Brasil), N\u00e9stor e Cristina Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bol\u00edvia), Rafael Correa (Equador), Mauricio Funes (El Salvador), Manuel Zelaya (Honduras), Daniel Ortega (Nicar\u00e1gua), Fernando Lugo (Paraguai), V\u00e1squez e Mujica (Uruguai).\n<\/p><p>\nDepois de frustrar uma tentativa de golpe \u00b2 da oposi\u00e7\u00e3o em 2002, Ch\u00e1vez foi protagonista de importantes iniciativas no terreno diplom\u00e1tico. Em 2004, na cidade de Havana, o presidente venezuelano e Fidel Castro criaram a Alternativa Bolivariana para as Am\u00e9ricas (ALBA), acordo pelo qual Cuba forneceria m\u00e9dicos, rem\u00e9dios e materiais hospitalares \u00e0 Venezuela que, em contrapartida, forneceria petr\u00f3leo \u00e0 Ilha Rebelde. Sete anos depois, em Caracas, era criada a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), desafiando a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) e, por conseguinte, a hegemonia dos Estados Unidos.\n<\/p><p>\nPor\u00e9m, em meio \u00e0 crise financeira iniciada em 2008, os golpes de estado perpetrados em Honduras (2009) e no Paraguai (2012), j\u00e1 apontavam o in\u00edcio de uma contraofensiva do bloco formado pelas elites locais, em alian\u00e7a com a Casa Branca. Em seguida, a morte de Hugo Ch\u00e1vez, em 2013, configurou mais um duro baque \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana e \u00e0s iniciativas contra-hegem\u00f4nicas de integra\u00e7\u00e3o latino-americana. Desde ent\u00e3o, Maduro assumiu o desafio de dar continuidade \u00e0 pol\u00edtica anti-imperialista inaugurada por seu antecessor, em condi\u00e7\u00f5es cada vez mais adversas.\n<\/p><p>\nEsta n\u00e3o foi a \u00fanica mudan\u00e7a importante ocorrida na Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos anos. A partir de 2013, nas Jornadas de Junho, o ciclo petista come\u00e7ou a dar os primeiros sinais claros de esgotamento. Depois de uma vit\u00f3ria apertada contra A\u00e9cio Neves no segundo turno, em 2014, o PT subiu no cadafalso montado por S\u00e9rgio Moro (Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato), em a\u00e7\u00e3o combinada com as grandes empresas de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e, por fim, com movimentos de direita como o Movimento Brasil Livre (MBL). Enquanto isso, na Argentina, o neoliberal Mauricio Macri vencia o pleito presidencial de 2015.\n<\/p><p>\nEm 2016 o golpe parlamentar encetado contra o mandato de Dilma apeou o PT do Pal\u00e1cio do Planalto, cabendo a Michel Temer a tarefa de iniciar uma guinada \u00e0 direita. Em 2018, o conservador Iv\u00e1n Duque elegeu-se presidente da Col\u00f4mbia. No Brasil, a elei\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico de extrema direita, defensor da ditadura militar, Jair Bolsonaro, radicalizou o fechamento de um per\u00edodo pol\u00edtico na Am\u00e9rica Latina. O refluxo da onda progressista iniciada ao final dos anos 1990 isolou e fragilizou os governos de esquerda que ainda resistem \u00e0 nova conjuntura. Especialmente a Venezuela, que se tornou uma pe\u00e7a ainda mais central no atual xadrez geopol\u00edtico.\n<\/p><p>\nA derrubada de Maduro, conforme prop\u00f5e o Grupo de Lima, significa muito mais do que uma \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d na Venezuela. Est\u00e3o em jogo, na verdade, tr\u00eas grandes quest\u00f5es:\n<\/p><p>\n1) Unipolaridade x Multipolaridade \u2013 A exist\u00eancia de governos n\u00e3o alinhados aos EEUU no continente Americano, sobretudo o caso emblem\u00e1tico da Venezuela, fortalece a \u201ccausa multipolar\u201d, ou seja, fortalece estrategicamente os pa\u00edses interessados na quebra da supremacia militar, pol\u00edtica e econ\u00f4mica exercida pela Casa Branca no mundo, notadamente China e R\u00fassia. A queda de Maduro \u00e9 decisiva para ressuscitar a velha Doutrina Monroe \u00b3.\n<\/p><p>\n2) Petr\u00f3leo \u2013 A Venezuela possui as maiores reservas de petr\u00f3leo do mundo, mais de 300 bilh\u00f5es de barris. Maior importador do \u00f3leo no planeta, os EUA tem interesse direto na obten\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo venezuelano a baixos custos. Maduro representa um obst\u00e1culo nesse sentido, ao contr\u00e1rio de Guaid\u00f3, que al\u00e9m de refazer a lista de parceiros comerciais priorit\u00e1rios da Venezuela, pode alterar o destino dado internamente \u00e0 renda obtida com a exporta\u00e7\u00e3o da commodity, sobretudo diminuindo a oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos gratuitos e pol\u00edticas sociais para atender as demandas do empresariado no pa\u00eds.\n<\/p><p>\n3) Cuba \u2013 A parceria entre Cuba e Venezuela, em vigor desde 2004, tem sido fundamental para a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Ilha, bastante prejudicada com o isolamento decorrente da extin\u00e7\u00e3o de seu maior parceiro, a URSS, em 1991. Em fun\u00e7\u00e3o de sua exiguidade territorial, Cuba tem grande car\u00eancia de fontes de energia. Somado a isso, o bloqueio econ\u00f4mico realizado pelos EUA desde os anos 1960 imp\u00f5e s\u00e9rias restri\u00e7\u00f5es \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Deste modo, o petr\u00f3leo fornecido pela Venezuela em troca dos servi\u00e7os m\u00e9dicos de Cuba \u00e9 essencial para a manuten\u00e7\u00e3o do socialismo no pa\u00eds governado por Miguel D\u00edaz-Canel. Ou seja, \u00e9 estrat\u00e9gico para os Estados Unidos e seus sat\u00e9lites que o Miraflores seja ocupado por pol\u00edticos alinhados ao Ocidente capitalista, comprometendo a parceria com Cuba e estrangulando economicamente a Ilha que teima em mostrar para o mundo que outro tipo de sociedade \u00e9 poss\u00edvel.\n<\/p><p>\n1 \u2013 Em portugu\u00eas, \u201cN\u00e3o H\u00e1 Alternativa\u201d.\n<\/p><p>\n2 \u2013 A esse respeito, \u00e9 muito importante conferir o document\u00e1rio \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o N\u00e3o Ser\u00e1 Televisionada\u201d, dispon\u00edvel no link https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MTui69j4XvQ\n<\/p><p>\n3 \u2013 Conferir \u201cMoscou: declara\u00e7\u00e3o de Bolton sobre Doutrina Monroe \u00e9 um insulto a toda Am\u00e9rica Latina\u201d, dispon\u00edvel em https:\/\/br.sputniknews.com\/americas\/2019030413428932-eua-bolton-venezuela-doutrina-monroe-lavrov-america-latina\/\n<\/p><p>\n<a href=\"https:\/\/geocomentario.wordpress.com\/2019\/03\/09\/venezuela-e-peca-chave-do-novo-xadrez-geopolitico\/\">Venezuela \u00e9 pe\u00e7a-chave no atual xadrez&nbsp;geopol\u00edtico<\/a>\n<\/p><p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22533\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[233,219],"class_list":["post-22533","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela","tag-6a","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Rr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22533","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22533"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22533\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22533"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22533"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22533"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}