{"id":22576,"date":"2019-03-16T22:11:38","date_gmt":"2019-03-17T01:11:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22576"},"modified":"2019-03-16T22:11:42","modified_gmt":"2019-03-17T01:11:42","slug":"operacao-radar-o-assassinato-de-militantes-do-pcb-pela-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22576","title":{"rendered":"Opera\u00e7\u00e3o Radar: o assassinato de militantes do PCB pela ditadura"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7859\/47334327922_f0c69d4f88_z.jpg\"\/><!--more-->Em document\u00e1rio, o ex-delegado e atual pastor Claudio Guerra relata como eram praticados os desaparecimentos pol\u00edticos de militantes comunistas durante o regime\n<\/p><p>\nBruna Caetano\nBrasil de Fato\n<\/p><p>\n\u201cVoc\u00ea sabe que esses comunistas t\u00eam que morrer, e sei que voc\u00ea \u00e9 um patriota. Precisamos de voc\u00ea.\u201d \u00c9 assim que, em 1973, Cl\u00e1udio Guerra \u00e9 convidado pelo Coronel Perdig\u00e3o (Freddie Perdig\u00e3o Vieira) e pelo Comandante Vieira, a compor a Opera\u00e7\u00e3o Radar, que executou 19 militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Ex-delegado e atual pastor da Assembleia de Deus, ele confessa os crimes cometidos durante a ditadura civil-militar no Brasil em uma entrevista de 70 minutos documentada pela diretora Beth Formaggini (confira abaixo entrevista com a diretora). O resultado \u00e9 o filme Pastor Cl\u00e1udio, que estreou nessa semana, e relata como eram feitas as execu\u00e7\u00f5es de militantes do PCB, e como os corpos torturados pelo Estado eram incinerados.\n<\/p><p>\nO pastor \u2013 como prefere ser chamado \u2013 inicia a entrevista portando uma b\u00edblia em m\u00e3os. Agora um senhor de cabelos brancos, ele tinha cerca de 30 anos quando come\u00e7ou a cometer as atrocidades junto ao regime ditatorial. A entrevista \u00e9 conduzida pelo psic\u00f3logo e militante dos direitos humanos, Eduardo Passos, que se esfor\u00e7a de entender como funciona a mente de Guerra. O ex-delegado chega a afirmar que seu trabalho proporcionava sensa\u00e7\u00e3o de poder e superioridade.\n<\/p><p>\nModus operandi\n<\/p><p>\nAp\u00f3s convite para compor a opera\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a receber a miss\u00e3o de matar pessoas supostamente envolvidas com a milit\u00e2ncia contra o regime. Depois, sua fun\u00e7\u00e3o passou a ser de queimar os corpos de pessoas torturadas pelo DOI-CODI, o que era feito em uma usina em Campos, no Rio de Janeiro.\n<\/p><p>\nGuerra foi um dos respons\u00e1veis pelo desaparecimento pol\u00edtico de diversos presos pelo Estado durante os anos de chumbo, deixando muitas fam\u00edlias sem respostas at\u00e9 o lan\u00e7amento de seu livro Mem\u00f3rias de uma Guerra Suja, onde narra diversos epis\u00f3dios dos anos de repress\u00e3o. Ele foi beneficiado pela Lei de Anistia, e nunca foi punido pelos crimes que cometeu.\n<\/p><p>\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh6.googleusercontent.com\/wB-ckOWoFNJUIEXIAFAff9qwitb4CM_2vazwXjdmLoxDYxU26HOfy_iu8Y6Ab7Uz7RiMfqf8ENvdD4bwNnxY9XjlY0Bq6N4WIprgD2zLjA_SywzzGQdiglNWGJ96G58dqelVq0DC\"\/>A Opera\u00e7\u00e3o Radar foi respons\u00e1vel pela morte de 19 membros do PCB \/ Reprodu\u00e7\u00e3o\n<\/p><p>\nO pastor \u00e9 respons\u00e1vel por incinerar, em Campos, Jo\u00e3o Batista Rita, Joaquim Pires Cerveira, Ana Rosa Kucinski, Davi Capistrano, Jo\u00e3o Massena, Fernando Augusto Santa Cruz, Eduardo Collier Filho, Jos\u00e9 Roman, Luiz Ign\u00e1cio Maranh\u00e3o, Armando Teixeira Frutuoso e Thomaz Ant\u00f4nio Meirelles.\n<\/p><p>\nPara a diretora do filme, Beth Formaggini, resgatar a mem\u00f3ria sombria da ditadura militar no pa\u00eds \u00e9 importante neste momento em que as for\u00e7as de extrema direita tomaram a o poder.\n<\/p><p>\nConfira abaixo a entrevista que o Brasil de Fato fez com a diretora.\n<\/p><p>\nBrasil de Fato: Como foi escolhido o formato do filme?\n<\/p><p>\nBeth Formaggini: O formato surge quando vou procurar Ivanilda Veloso, vi\u00fava do Itair Jos\u00e9 Veloso. Ela \u00e9 personagem do meu outro longa, o Mem\u00f3rias para uso di\u00e1rio. Por que a Ivanilda? Porque o marido dela foi assassinado na Opera\u00e7\u00e3o Radar, que \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o que o Cl\u00e1udio participou. O Cl\u00e1udio atuou nessa opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 assassinando membros do Partido Comunista, mas tamb\u00e9m incinerando corpos de outros militantes que foram assassinados dentro dessa opera\u00e7\u00e3o. Eu procuro a Ivanilda e falo: \u201cIvanilda, saiu o livro do Cl\u00e1udio e no livro ele confessa todos esses crimes. \u00c9 poss\u00edvel que ele saiba algo sobre seu marido\u201d. Como ele era desaparecido, ela estava desde 1975 buscando alguma informa\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o, do assassinato e da localiza\u00e7\u00e3o do corpo do marido. Uma mulher apaixonada.\n<\/p><p>\nPerguntei se ela topava gravar uma pergunta para o Cl\u00e1udio. Pego a pergunta dela e projeto junto com trechos de arquivos do filme, onde ela est\u00e1 procurando algum ind\u00edcio de que o marido foi preso pelo Estado, e realmente encontra. Projeto para o Cl\u00e1udio para que ele possa ajud\u00e1-la a encontrar esse corpo, saber quem matou, onde morreu, onde foi enterrado. A gente usou um depoimento do Marival Chaves, que foi projetado no est\u00fadio, em que ele diz que o corpo foi jogado no Rio Avar\u00e9, aqui em S\u00e3o Paulo.\n<\/p><p>\nMuitas fam\u00edlias ficaram sabendo do paradeiro de entes desaparecidos pol\u00edticos pelo filme?\n<\/p><p>\nMuita gente infelizmente ficou sabendo pelo livro, das mat\u00e9rias de jornal, do filme. Quando o filme passou no cinema Odeon, teve um depoimento muito emocionado de uma pessoa que estava l\u00e1 e descobriu que um grande amigo havia sido incinerado pelo Cl\u00e1udio. O Estado que foi respons\u00e1vel por esses crimes, pelos desaparecimentos, ele deixou essas fam\u00edlias sem informa\u00e7\u00f5es at\u00e9 hoje. Esse crime de oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres \u00e9 um crime que n\u00e3o termina nunca. Uma m\u00e3e est\u00e1 sempre esperando a volta de um filho se ela n\u00e3o viu o corpo. Eu acho que o que a gente queria era que tivesse um agente do Estado, um violador de direitos, anunciando suas pr\u00f3prias viola\u00e7\u00f5es para que a gente tivesse esse relato para pensar nos dias de hoje, porque pessoas continuam desaparecendo e sendo assassinadas pela m\u00e3o do Estado. A m\u00e3o que deveria proteger o cidad\u00e3o.\n<\/p><p>\nComo foi o primeiro contato com o Cl\u00e1udio?\n<\/p><p>\nEu li o livro e, atrav\u00e9s dos jornalistas que escreveram o livro com ele, eu cheguei at\u00e9 ele e ele concordou. N\u00e3o foi dif\u00edcil. Na verdade, o que acontece nessa conversa \u00e9 que o Cl\u00e1udio conta uma parte da hist\u00f3ria. Outra parte, ele n\u00e3o conta. Essa parte ele diz que \u00e9 o que mant\u00e9m ele vivo, que ele contou para v\u00e1rias pessoas e se acontecer algo com ele, essas pessoas v\u00e3o relatar. \u00c9 s\u00f3 a ponta do iceberg.\n<\/p><p>\nEle escolheu alguns fatos para contar. A diferen\u00e7a do filme \u00e9 a presen\u00e7a do Eduardo, psic\u00f3logo, que traz muitas nuances. Consegue falar sobre o gosto dele pelo poder, sobre o medo que ele tem hoje em dia, da direita. A pr\u00e1tica de escuta do psic\u00f3logo faz com que a gente compreenda um pouco sobre o que est\u00e1 por tr\u00e1s das palavras.\n<\/p><p>\nAcho que hoje a gente precisa refletir. Crimes como esse da Marielle, em que existe uma tentativa [por parte de uma hip\u00f3tese da investiga\u00e7\u00e3o] de incriminar uma pessoa como se fosse uma coisa isolada, mas na verdade algu\u00e9m paga por esses crimes. O Cl\u00e1udio recebia por cada pessoa que ele matava ou incinerava. Ele fala at\u00e9 o banco que o pagava. Hoje, ainda existem essas pr\u00e1ticas de assassinatos, desaparecimentos. A mesma m\u00e3o que pagava o Cl\u00e1udio Guerra continua pagando. \u00c9 a extrema direita, o empresariado, uma parte da elite. A direita financia isso para que as coisas continuem como est\u00e3o, ou piorem.\n<\/p><p>\nAgora, a gente tem um governo que est\u00e1 flexibilizando as leis trabalhistas, direitos humanos. Esse filme \u00e9 muito atual, porque a gente precisa pensar o Brasil para que a gente consiga minimamente resistir contra essas coisas.\n<\/p><p>\nAs fam\u00edlias de muitos desaparecimentos pol\u00edticos s\u00f3 obtiveram respostas ap\u00f3s os relatos de Guerra \/ Reprodu\u00e7\u00e3o\n<\/p><p>\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7806\/32445493227_cc3951965f_o.png\"\/>E como isso pode se dar?\n<\/p><p>\nO filme chega em um momento do Brasil em que essas for\u00e7as est\u00e3o se rearticulando. Desde o impeachment da presidenta Dilma existe esse grupo de empres\u00e1rios, ruralistas, e todo um movimento contra os direitos humanos, os direitos ind\u00edgenas, dos quilombolas. Todo um discurso que estimula a viol\u00eancia contra negros, LGBTs, contra a liberdade das mulheres. \u00c9 um momento de retrocesso muito grande e o filme nos faz  pensar [sobre] a hist\u00f3ria do Brasil, e ver que o presente est\u00e1 impregnado desse o passado, e o futuro pode ficar ainda mais se n\u00e3o pararmos para discutir essas quest\u00f5es com cada um. \u00c9 obriga\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s conversar sobre isso. O filme traz esse tema para a conversa.\n<\/p><p>\nComo foi acompanhar essas hist\u00f3rias t\u00e3o pesadas?\n<\/p><p>\nFoi muito duro. A gente claramente estava conversando com o inimigo, algu\u00e9m que estava do outro lado, embora ele seja um personagem complexo que diz que se converteu e diz querer ajudar. Ele \u00e9 um arquivo muito grande, e abriu apenas uma gavetinha. Acho que ele \u00e9 um personagem complexo, e temos que ter esse filme como uma tentativa de trazer luz para uma hist\u00f3ria que s\u00f3 tem v\u00e9u encobrindo. Hoje em dia existe ainda h\u00e1 uma viol\u00eancia muito grande por parte do Estado, em que geralmente a imprensa d\u00e1 raz\u00e3o para a pol\u00edcia quando ela mata de forma indiscriminada. Se coloca como \u201cauto de resist\u00eancia\u201d. O governador do Rio de Janeiro, por exemplo, fala sobre \u201cabater os marginais\u201d, como se fossem gado. \u00c9 uma experi\u00eancia muito dura lidar com esses temas, e acho que \u00e9 dura, mas temos que trabalhar com a hist\u00f3ria.\n<\/p><p>\nEdi\u00e7\u00e3o: Pedro Ribeiro Nogueira\n<\/p><p>\nhttps:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/03\/15\/claudio-guerra-o-pastor-que-assassinava-e-queimava-corpos-na-ditadura-militar\/\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22576\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[223],"class_list":["post-22576","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5S8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22576","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22576"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22576\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}