{"id":22578,"date":"2019-03-16T22:13:38","date_gmt":"2019-03-17T01:13:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22578"},"modified":"2019-03-19T21:38:26","modified_gmt":"2019-03-20T00:38:26","slug":"suzano-o-massacre-que-a-tv-nao-mostrou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22578","title":{"rendered":"Suzano: o massacre que a TV n\u00e3o mostrou"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jornalistaslivres.org\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/SUZANO_Midia.jpg?resize=1280%2C742&#038;ssl=1\"\/><!--more-->Enquanto as emissoras focaram a cobertura nas cenas de sangue e barb\u00e1rie, entrevistas com pessoas em estado de choque e ass\u00e9dio aos familiares dos atiradores, um grupo de professores na porta da escola Raul Brasil explicava a trag\u00e9dia anunciada\n<\/p><p>\nFoto: Jornalistas Livres\n<\/p><p>\npor Fl\u00e1via Martinelli \/ Jornalistas Livres \n<\/p><p>\nEstarrecido, o pa\u00eds parou nessa ter\u00e7a-feira, 13 de mar\u00e7o de 2019, para entender o que houve na Escola Raul Brasil em Suzano. O massacre, que resultou em dez mortes e ao menos 11 feridos, exigiu cobertura ao vivo. As TVs escalaram seus rep\u00f3rteres, suas c\u00e2meras de alta resolu\u00e7\u00e3o, seus helic\u00f3pteros, seus carros com sat\u00e9lites de link para transmiss\u00f5es diretamente do local do crime. O arsenal estava todo l\u00e1. Mas acompanhar a chegada das informa\u00e7\u00f5es pelas emissoras foi mais um espet\u00e1culo de horrores da m\u00eddia nacional.\n<\/p><p>\nDas cenas de p\u00e2nico e horror dos alunos e funcion\u00e1rios aos corpos dos mortos no ch\u00e3o, vimos tudo em detalhes. Menos o essencial: o massacre do ensino p\u00fablico e o desamparo das escolas, professores, alunos e de toda uma popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel \u00e0 falta de pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de promover o di\u00e1logo entre educa\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia social e sa\u00fade ANTES de uma trag\u00e9dia acontecer. Uma trag\u00e9dia anunciada, por sinal, pelas m\u00e3os de um governante que banaliza a morte ao brincar de empunhar armas de fogo enquanto reduz ainda mais as verbas para a pasta de educa\u00e7\u00e3o.\n<\/p><p>\nO fato \u00e9 que nenhuma emissora se preocupou com isso tudo quando passou horas a fio reproduzindo os gritos, o medo e o p\u00e2nico de uma escola inteira diante um rev\u00f3lver de verdade. O apresentador Datena, por exemplo, n\u00e3o poupou ningu\u00e9m em hor\u00e1rio livre para crian\u00e7as: colocou ao vivo e em c\u00e2mera lenta as cenas brutais de viol\u00eancia que registraram o massacre pelo circuito interno da escola. Diretamente de Suzano, um rep\u00f3rter de seu programa ainda foi capaz de encurralar a m\u00e3e dependente qu\u00edmica de um dos assassinos. A TV Globo, por sua vez, n\u00e3o hesitou em mostrar o endere\u00e7o da casa dos familiares dos atiradores no Jornal Nacional. Se a m\u00e3e, pai, av\u00f4 ou os quatro irm\u00e3os de um deles virarem eternos ref\u00e9ns de um crime que n\u00e3o cometeram, o problema n\u00e3o \u00e9 da emissora.\n<\/p><p>\n    O choro convulsivo de crian\u00e7as e os endere\u00e7os dos sites de fan\u00e1ticos por viol\u00eancia tamb\u00e9m foram oferecidos ao p\u00fablico por diferentes programas de TV. N\u00e3o houve limites para a irresponsabilidade, a covardia e sanha por audi\u00eancia minuto a minuto.\n<\/p><p>\nPassamos o dia ouvindo dezenas de entrevistas de porta-vozes de for\u00e7as policiais, cenas oficiais de Jo\u00e3o Doria que omitiram a grande vaia que ele recebeu no local, e nenhuma entrevista com educadores e professores analisando o caso a partir do fato de que aqueles atiradores poderiam, sim, ser um dos seus alunos.\n<\/p><p>\nPelo contr\u00e1rio, ao mencionar que os assassinos foram alunos da escola, os jornalistas imediatamente reiteravam que Luiz Henrique Castro, de 25 anos, j\u00e1 havia conclu\u00eddo o curso, e o outro, Guilherme Taucci, de 17 anos, era \u201cevadido\u201d, ou seja, termo usado para designar o aluno convidado a se retirar ou que simplesmente saiu do col\u00e9gio e nunca mais voltou. Nada se questionou sobre esse sistema de abandono escolar que, sabe-se, \u00e9 assunto delicado.\n<\/p><p>\nAtualmente existem cerca de 10 milh\u00f5es de crian\u00e7as e adolescentes exclu\u00eddos do sistema de ensino ou em situa\u00e7\u00e3o de atraso escolar, de acordo com Censo Escolar e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (PNAD). O assunto \u00e9 a prioridade dos programas da ag\u00eancia brasileira da Unicef, o Fundo Internacional de Emerg\u00eancia para a Inf\u00e2ncia das Na\u00e7\u00f5es Unidas. O \u00f3rg\u00e3o de defesa de direitos da inf\u00e2ncia sabe que, infelizmente, existe uma cultura disseminada nas escolas p\u00fablicas brasileiras de rotular as crian\u00e7as e adolescentes com atraso, problemas familiares e afins, como incapazes de aprender e superar suas condi\u00e7\u00f5es.\n<\/p><p>\nMas a TV n\u00e3o polemizou nem ao vivo ou em est\u00fadio essa quest\u00e3o. Apenas ignorou o tema que deve ser compreendido como parte de uma complexa desconex\u00e3o entre a rede educacional, de assist\u00eancia social, de sa\u00fade e de apoio por profissionais especializados em gerenciamento de conflitos.\n<\/p><p>\nA televis\u00e3o preferiu dar voz sem cr\u00edticas ou embate de opini\u00f5es \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de um parlamentar que afirmou que professores armados teriam evitado o massacre. Os jornais tamb\u00e9m passaram batido por um dos principais temas a serem abordados no momento: a pol\u00edtica de amplia\u00e7\u00e3o de posse e porte de armas que embasou a campanha do atual presidente e sua influ\u00eancia no comportamento da popula\u00e7\u00e3o, particularmente, entre os jovens.\n<\/p><p>\nAo final da cobertura do dia, muito se mostrou do crime e do horror. Acontece que a viol\u00eancia nas escolas n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o do notici\u00e1rio policial. \u00c9 assunto para as editorias de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e pol\u00edtica.\n<\/p><p>\n    A escola, vamos lembrar, \u00e9 aquele espa\u00e7o onde crian\u00e7as e adolescentes passam boa parte do tempo para estudar. Esses alunos carregam na mochila seu hist\u00f3rico familiar, eventos traum\u00e1ticos, estresse cr\u00f4nico, abusos e todo tipo de experi\u00eancias fora dos muros. A escola tamb\u00e9m representa a \u00faltima fronteira entre esses jovens e uma s\u00e9rie de trag\u00e9dias a que est\u00e3o vulner\u00e1veis: do tr\u00e1fico de drogas \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o, subemprego ou desemprego. E nelas est\u00e3o professores mal remunerados, desmotivados, assustados e adoecidos. \u00c9 nelas que m\u00e3es e pais confiam seus filhos enquanto saem para trabalhar \u2013 ou v\u00e3o \u00e0 procura de emprego.\n<\/p><p>\nTodos esses assuntos subestimados nos notici\u00e1rios viraram destaque na conversa de um grupo de professores que estava na porta da Escola Raul Brasil no dia do massacre. Educadores de escolas da regi\u00e3o de Suzano e representantes da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo), estavam ali para oferecer apoio aos educadores e alunos da Raul Brasil, e tamb\u00e9m se dispuseram a conversar com a imprensa na ter\u00e7a-feira. Estavam ali prontos para as entrevistas mas pouco foram abordados.\n<\/p><p>\nEm entrevista aos Jornalistas Livres, por\u00e9m, esclareceram didaticamente: o massacre de Suzano foi fruto desse entroncado e complexo sistema de sucateamento de diferentes pol\u00edticas p\u00fablicas cujas mazelas escoam, diariamente, nas mais de cinco mil escolas p\u00fablicas do pa\u00eds.\n<\/p><p>\nA professora Angela Talassa, que d\u00e1 aulas na Escola Estadual Professor Carlos Molteni, a apenas dois quil\u00f4metros da Raul Brasil, chama aten\u00e7\u00e3o para a precariedade de o sistema de ensino lidar com os conflitos dos jovens sob intensa exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia. \u201cAgora, neste momento, estamos com esse grande movimento de psic\u00f3logos, m\u00e9dicos, enfermeiros, assistentes sociais, funcion\u00e1rios da \u00e1rea de sa\u00fade da prefeitura prestando socorro aos familiares e \u00e0 escola. Mas \u00e9 preciso dizer que precisamos dessa aten\u00e7\u00e3o multidisciplinar ANTES de uma trag\u00e9dia acontecer. Amanh\u00e3, quando os corpos esfriarem e os jornalistas desaparecerem, estaremos sozinhos como sempre?\u201d\n<\/p><p>\nAngela conta que identifica na sala de aula, facilmente, os alunos que est\u00e3o sofrendo de depress\u00e3o, diversos tipos de s\u00edndromes emocionais e transtornos. \u201cEu mesma j\u00e1 tirei carta de suic\u00eddio de bolsa de aluna\u201d. Mas ela n\u00e3o tem a quem recorrer. \u201cPedimos encaminhamentos que acabam nunca acontecendo. Os estudantes s\u00e3o orientados a ir \u00e0 Universidade de Mogi das Cruzes para atendimento psicol\u00f3gico e a maioria n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de sequer chegar at\u00e9 l\u00e1\u201d, desabafa.\n<\/p><p>\n    \u201cOs adolescentes, ent\u00e3o, ficam sem tratamento remoendo todos os seus problemas: os que s\u00e3o pr\u00f3prios da idade e os que s\u00e3o fruto dessa trag\u00e9dia social que o pa\u00eds vive. Isso n\u00e3o pode ser ignorado.\u201d\n<\/p><p>\nAo lado dela, o educador Richard Ara\u00fajo, da Apeoesp, concorda: \u201cH\u00e1 muitos anos temos observado esse fen\u00f4meno crescente de viol\u00eancia nas escolas e o governo n\u00e3o toma provid\u00eancias. Quem acredita que militarizar as escolas ou armar a popula\u00e7\u00e3o vai resolver o problema da viol\u00eancia n\u00e3o compreende a complexidade da crise social que existe no nosso pais e como essa crise adentra os muros da escola!\u201d\n<\/p><p>\nA solu\u00e7\u00e3o, diz o educador, existe, sim, e passa por investimentos: \u201cDesde investimento em infraestrutura em escolas que n\u00e3o t\u00eam nem biblioteca ou laborat\u00f3rio, como em profissionais, psic\u00f3logos, assistentes sociais e em toda a rede de acolhimento.\u201d Vale n\u00e3o s\u00f3 para os alunos, lembra Angela: \u201cVejo professores vivendo sob doses de calmantes. Eles n\u00e3o conseguem dar continuidade ao seu trabalho nas p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e situa\u00e7\u00e3o de press\u00e3o social que vivem. Atacar isso \u00e9 cuidar da educa\u00e7\u00e3o para evitar essas trag\u00e9dias.\u201d\n<\/p><p>\nOutro educador, S\u00e9rgio Pereira, acrescenta que as escolas precisam de profissionais que v\u00e3o al\u00e9m da grade cl\u00e1ssica de professores, coordenador pedag\u00f3gico e diretor: \u201cPrecisamos de mediadores de conflito especializados e pol\u00edticas de assist\u00eancia social interligadas na escola. S\u00e3o mecanismos que garantem uma rede de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as tamb\u00e9m fora dos muros.\u201d Para isso, mais uma vez, \u00e9 necess\u00e1rio investimento \u2013 em vez de cortes e congelamento de verbas em educa\u00e7\u00e3o por 20 anos, como foi institu\u00eddo pelo ex-presidente Michel Temer e mantido pelo atual Bolsonaro.\n<\/p><p>\nA banaliza\u00e7\u00e3o do discurso da viol\u00eancia usada durante a campanha do presidente foi questionada na roda de educadores: \u201cEstamos no auge de uma viol\u00eancia constru\u00edda nos \u00faltimos anos por meio de uma rede discursiva gigante que mostra arminhas com a m\u00e3o como se isso fosse uma brincadeira. N\u00e3o \u00e9 brincadeira\u201d, acentua Pereira. \u201cA viol\u00eancia da sociedade est\u00e1 no cotidiano da escola publica. Vai desde o problema do time A conta o time B e passa por quest\u00f5es de g\u00eanero, \u00e9tnicos-raciais, por tudo! Se um lado da sociedade banaliza uma arma apontada, o \u00e1pice disso s\u00e3o esses corpos ca\u00eddos no ch\u00e3o, mortos, aqui!\u201d, completa.\n<\/p><p>\nDiante disso, a professora Angela conclui: \u201cTodas as escolas est\u00e3o vulner\u00e1veis, estamos todos abandonados. E para onde os governantes e a imprensa sinalizam? Para a privatiza\u00e7\u00e3o do ensino! Mas isso n\u00e3o \u00e9 sa\u00edda, \u00e9 exclus\u00e3o.\u201d A professora, ent\u00e3o, deixa sua pauta: \u201cAmanh\u00e3, os rep\u00f3rteres v\u00e3o embora e o que ser\u00e1 feito? Seremos ouvidos como professores ou criminalizados e culpados pelas p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de ensino que enfrentamos?\u201d.\n<\/p><p>\nhttps:\/\/jornalistaslivres.org\/o-massacre-que-a-tv-nao-mostrou-em-suzano\/\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22578\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[244],"tags":[222,247],"class_list":["post-22578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-violencia","tag-2b","tag-jd"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Sa","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22578\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}