{"id":22601,"date":"2021-07-20T15:06:06","date_gmt":"2021-07-20T18:06:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22601"},"modified":"2021-07-20T18:42:26","modified_gmt":"2021-07-20T21:42:26","slug":"o-neoliberalismo-e-a-extrema-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22601","title":{"rendered":"O neoliberalismo e a extrema-direita"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/patnaik\/imagens\/ceia_pouco_santa.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Prabhat Patnaik [*]<\/p>\n<p>Ultimamente tem havido um recrudescimento de partidos de extrema-direita, fascistas, semi-fascistas ou neofascistas em todo o mundo, de uma forma que lembra a d\u00e9cada de 1930. Os governos fascistas servem invariavelmente os interesses do capital monopolista em geral, e da sua sec\u00e7\u00e3o mais recente, menos &#8220;liberal&#8221; e mais reacion\u00e1ria em particular, raz\u00e3o pela qual Georgi Dimitrov, presidente da Internacional Comunista, tinha, no seu S\u00e9timo Congresso, caracterizado um Estado fascista como a &#8220;ditadura terrorista aberta da se\u00e7\u00e3o mais reacion\u00e1ria do capital financeiro&#8221;, mas os movimentos fascistas desta era anterior haviam come\u00e7ado como movimentos contra o big business. Tendo adquirido apoio atrav\u00e9s da sua ret\u00f3rica anti big business ou &#8220;direita radical&#8221;, fizeram ent\u00e3o uma alian\u00e7a com o big business para chegarem ao poder e tra\u00edram os seus pr\u00f3prios seguidores. Hitler fez isso da forma mais sangrenta poss\u00edvel durante a chamada &#8220;noite dos punhais&#8221;, quando o seu pr\u00f3prio associado mais pr\u00f3ximo, Ernst Rohm, o chefe das SA e uma s\u00e9rie de outros nazistas foram assassinados sob as suas ordens.<\/p>\n<p>Os movimentos neofascistas e de extrema-direita contempor\u00e2neos diferem, no entanto, dos seus cong\u00eaneres anteriores a este respeito: eles esquivam-se desde o in\u00edcio a qualquer ret\u00f3rica radical de direita. N\u00e3o h\u00e1 diatribes deles contra o big business, n\u00e3o h\u00e1 tentativas da sua parte para aproveitar a ira leg\u00edtima das pessoas contra um sistema que as mant\u00e9m desempregadas. No contexto atual, claro, tal ret\u00f3rica anti big business teria necessariamente de tomar a forma de um ataque \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais, uma vez que estas pol\u00edticas s\u00e3o a express\u00e3o perfeita da hegemonia do capital globalizado com o qual o big business interno est\u00e1 integrado. Mas os movimentos neofascistas e de extrema-direita contempor\u00e2neos por todo o mundo s\u00e3o ostensivos pelo seu sil\u00eancio e, por conseguinte, pelo seu endosso \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f3micas neoliberais.<\/p>\n<p>Em alguns casos h\u00e1 um apoio aberto e entusi\u00e1stico, em oposi\u00e7\u00e3o ao endosso t\u00e1cito, a tais pol\u00edticas desde o in\u00edcio, e \u00e0 grande burguesia que est\u00e1 por detr\u00e1s de tais pol\u00edticas. Um exemplo importante disso \u00e9 o BJP (partido de direita indiano), que se tornou pr\u00f3ximo do big business e do capital globalizado sob Narendra Modi. De fato, a proximidade de Modi ao big business, quando ele era o principal ministro de Gujarat, foi o que levou o big business indiano a &#8220;adot\u00e1-lo&#8221; abertamente ap\u00f3s uma c\u00fapula de investidores em Gujarat h\u00e1 alguns anos e a promov\u00ea-lo com \u00eaxito como o pr\u00f3ximo candidato a primeiro-ministro.<\/p>\n<p>Modi efetuou a alian\u00e7a corpora\u00e7\u00f5es-Hindutva que impulsionou a sua ascens\u00e3o ao poder e um aspecto crucial para forjar esta alian\u00e7a foi a marginaliza\u00e7\u00e3o do Hindutva de frentes como o Swadeshi Jagaran Manch que anteriormente abra\u00e7ou algum tipo de programa de direita radical. Uma vez no poder, Modi recompensou amplamente os seus apoiadores corporativos, n\u00e3o apenas atrav\u00e9s de contratos e acordos espec\u00edficos (dos quais o acordo [dos avi\u00f5es] Rafale \u00e9 considerado como um exemplo primordial), ou atrav\u00e9s de legisla\u00e7\u00e3o para reduzir os direitos dos trabalhadores e minar a independ\u00eancia do campesinato, mas atrav\u00e9s de um programa de privatiza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de empresas do setor p\u00fablico. Ele justificou tudo isto com o argumento de que a grande burguesia constitui os &#8220;criadores de riqueza&#8221; da na\u00e7\u00e3o! Isto, ironicamente de acordo com ele, justifica entregar-lhes a riqueza da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas deixemos de lado o Modi que est\u00e1 na sua pr\u00f3pria liga. Mesmo outros partidos de extrema direita no mundo, como a Liga do Norte de Matteo Salvini, na It\u00e1lia, que inicialmente pareciam opor-se \u00e0s pol\u00edticas neoliberais, pelo menos no contexto da Uni\u00e3o Europeia, cuja express\u00e3o era a sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 moeda comum Euro, agora acalmaram-se e aceitaram toda a gama de medidas econ\u00f4micas ortodoxas da UE.<\/p>\n<p>Recentemente, o endosso do neoliberalismo por parte da extrema-direita na Europa foi expresso de modo formal por uma declara\u00e7\u00e3o conjunta de dezasseis partidos europeus de extrema-direita, os quais incluem o Fidesz de Victor Orban na Hungria, a Frente Nacional de Marine Le Pen em Fran\u00e7a, o Partido da Liberdade na \u00c1ustria, o Partido Lei e Justi\u00e7a da Pol\u00f4nia, o Vox da Espanha e a Liga do Norte bem como o Irm\u00e3os da It\u00e1lia daquele pa\u00eds. Nesta declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o houve nem uma \u00fanica palavra dedicada a quest\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f3mica (Thomas Fazi, The Delphi Initiative, July 9). A necessidade de preservar culturas nacionais dentro da Europa foi enfatizada, tal como a tradi\u00e7\u00e3o judaica-crist\u00e3 daquele continente (acenada pela direita como um meio de atacar minorias religiosas), mas n\u00e3o houve men\u00e7\u00e3o a qualquer retirada da moeda comum ou a qualquer rep\u00fadio da imposi\u00e7\u00e3o draconiana de austeridade sobre todo Estado-membro que est\u00e1 associada \u00e0 moeda comum. \u00c9 verdade que, neste momento, devido \u00e0 pandemia, a UE suspendeu a rigorosa disciplina or\u00e7amental do seu Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) e deu aos pa\u00edses membros alguma margem de manobra em mat\u00e9ria de d\u00e9fices or\u00e7amentais, mas esta suspens\u00e3o sup\u00f5e-se que seja apenas tempor\u00e1ria; e a Comiss\u00e3o Europeia j\u00e1 declarou recentemente que o PEC estaria outra vez em vigor em 2023. A declara\u00e7\u00e3o dos partidos de extrema-direita n\u00e3o pede sequer um adiamento desta data alvo para a reimposi\u00e7\u00e3o do PEC.<\/p>\n<p>Levanta-se a quest\u00e3o: por que \u00e9 que a extrema-direita se tornou t\u00e3o mansa, t\u00e3o acomodada em rela\u00e7\u00e3o ao big business, mesmo antes de ter chegado ao poder na maior parte destes pa\u00edses? Por que difere a este respeito da sua anterior encarna\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1930? A resposta b\u00e1sica a esta pergunta reside no fato de que, ao contr\u00e1rio da d\u00e9cada de 1930, quando o capital financeiro de qualquer pa\u00eds, apesar de ter um alcance internacional, estava essencialmente enraizado na na\u00e7\u00e3o e apoiado pelo Estado-na\u00e7\u00e3o, o capital financeiro contempor\u00e2neo est\u00e1 globalizado. \u00c9 um capital globalizado que confronta o Estado-na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para contrariar o neoliberalismo e a austeridade or\u00e7ament\u00e1ria que invariavelmente implica, um pa\u00eds teria de sair da globaliza\u00e7\u00e3o que o envolve dentro de um turbilh\u00e3o de fluxos financeiros globais e, assim, minar a autonomia or\u00e7amental do seu Estado. No contexto europeu isto significaria sair da Uni\u00e3o Europeia, uma vez que a UE \u00e9 o instrumento atrav\u00e9s do qual se exprime a hegemonia do capital globalizado. O capital financeiro com origem em qualquer pa\u00eds particular opor-se-ia a tal sa\u00edda uma vez que est\u00e1 integrado num sistema de capital financeiro globalizado. Uma agenda de sa\u00edda teria portanto de ser baseada no apoio de outras classes, acima de tudo a classe trabalhadora \u2013 e a extrema-direita n\u00e3o \u00e9 conhecida por representar ou promover os interesses da classe trabalhadora, apenas quer engan\u00e1-la.<\/p>\n<p>As obje\u00e7\u00f5es \u00e0 Uni\u00e3o Europeia provenientes da extrema-direita permanecem portanto confinadas a quest\u00f5es &#8220;culturais&#8221;, as quais podem ser acomodadas sem qualquer amea\u00e7a \u00e0 hegemonia do capital globalizado. Na verdade \u00e9 de algum benef\u00edcio para o capital globalizado, pois comuta o discurso afastando-o de assuntos vitais, como desemprego e afli\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, e confinando-o \u00e0 &#8220;identidade nacional&#8221; e \u00e0 amea\u00e7a \u00e0 &#8220;tradi\u00e7\u00e3o judaica-crist\u00e3&#8221;. Ele afasta o discurso para longe das quest\u00f5es materiais que afetam a classe trabalhadora e, portanto, serve os prop\u00f3sitos do capital globalizado.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 um aspecto da aquiesc\u00eancia da extrema-direita quanto \u00e0 hegemonia do capital globalizado que merece aten\u00e7\u00e3o. Para ultrapassar a crise de estagna\u00e7\u00e3o \u00e0 qual o capitalismo metropolitano e portanto a economia capitalista mundial est\u00e1 submetida, o presidente Joe Biden dos EUA tem advogado um ressuscitar de pol\u00edticas keynesianas: ele anunciou um conjunto de medidas que aumentariam a despesa governamental consideravelmente e seria financiada atrav\u00e9s de um aumento no d\u00e9ficit or\u00e7amental estadunidense bem como de impostos sobre capitalistas (para os quais ele quer um acordo internacional acerca de uma taxa fiscal corporativa m\u00ednima). O \u00eaxito da agenda de Biden exige um m\u00ednimo de concord\u00e2ncia de outros governos capitalistas quanto a uma agenda semelhante. Mesmo se todos os governos de pa\u00edses avan\u00e7ados concordassem numa agenda semelhante, a menos que tamb\u00e9m aos pa\u00edses do terceiro mundo fosse permitida autonomia or\u00e7ament\u00e1ria, nomeadamente a liberta\u00e7\u00e3o do estrangulamento da &#8220;austeridade&#8221;, ent\u00e3o a dicotomia entre um terceiro mundo &#8220;austero&#8221; e um primeiro mundo que persegue uma agenda estilo New Deal seria odiosa para o primeiro. Mas se mesmo o primeiro mundo n\u00e3o estiver de acordo sobre uma agenda expansionista keynesiana, ent\u00e3o os EUA, por si s\u00f3s, n\u00e3o conseguiriam sequer cumprir uma tal agenda.<\/p>\n<p>Isto acontece porque se os EUA seguirem uma pol\u00edtica keynesiana, a menos que se isolem completamente atrav\u00e9s de restri\u00e7\u00f5es \u00e0 importa\u00e7\u00e3o, aumentariam as importa\u00e7\u00f5es de outros que n\u00e3o seguissem tal pol\u00edtica, o que ampliaria o seu d\u00e9ficit comercial em rela\u00e7\u00e3o a eles. Os EUA estariam assim a gerar emprego noutros pa\u00edses ao mesmo tempo que ficariam em d\u00edvida para com eles (por atenderem o seu d\u00e9ficit comercial), o que n\u00e3o pode durar muito tempo. Com a extrema-direita aceitando a reimposi\u00e7\u00e3o da austeridade or\u00e7amental na Europa, que teria o apoio de um espectro de partidos pol\u00edticos do &#8220;establishment&#8221;, e a esquerda europeia n\u00e3o suficientemente forte para resistir a tal austeridade, parece pouco prov\u00e1vel que a Europa prossiga uma agenda ao estilo Biden, o que portanto significaria a persist\u00eancia da submers\u00e3o do capitalismo mundial na sua atual estagna\u00e7\u00e3o e crise.<br \/>\n18\/Julho\/2021<br \/>\n[*] Economista, indiano, ver Wikipedia<\/p>\n<p>O original encontra-se em peoplesdemocracy.in\/2021\/0718_pd\/neo-liberalism-and-extreme-right<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o de JF.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22601\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[233],"class_list":["post-22601","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Sx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22601","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22601"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22601\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22601"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22601"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22601"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}