{"id":22622,"date":"2019-03-22T20:01:37","date_gmt":"2019-03-22T23:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22622"},"modified":"2019-03-22T20:01:43","modified_gmt":"2019-03-22T23:01:43","slug":"o-governo-bolsonaro-e-a-dupla-face-de-uma-politica-externa-servil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22622","title":{"rendered":"O governo Bolsonaro e a dupla face de uma pol\u00edtica externa servil"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/03\/bolsonaro-trump.jpg?w=620&#038;h=415\"\/><!--more-->Por Carlos Eduardo Martins\nBLOG DA BOITEMPO\n<\/p><p>\nA pol\u00edtica externa do governo Jair Bolsonaro est\u00e1 orientada por dois vetores principais: a ades\u00e3o ideol\u00f3gica ao trumpismo e a ado\u00e7\u00e3o de uma agenda neoliberal radical.\n<\/p><p>\nO primeiro vetor \u00e9 atualmente comandado pelo n\u00facleo de extrema-direita do governo, que se articula aos setores mais radicais do governo Trump e \u00e0 lideran\u00e7a de Steve Bannon na organiza\u00e7\u00e3o de uma internacional neofascista, por meio do grupo The Movement. Ele \u00e9 dirigido por Ernesto Ara\u00fajo, Chanceler brasileiro, e pelo Deputado Federal Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do Presidente \u2013 ambos com forte vincula\u00e7\u00e3o a Olavo de Carvalho, astr\u00f3logo e fil\u00f3sofo autodidata, que abandonou a escola antes de cumprir o ensino m\u00e9dio, e que, desde 2005, se radicou em Richmond, capital do ex\u00e9rcito confederado durante a guerra da secess\u00e3o.\n<\/p><p>\nEsse n\u00facleo pretende que o Brasil exer\u00e7a um subimperialismo t\u00edtere e servil na Am\u00e9rica do Sul, a partir da associa\u00e7\u00e3o visceral aos Estados Unidos, e se torna fonte importante de capta\u00e7\u00e3o das press\u00f5es de Trump e do neofascimo mundial sobre o governo brasileiro. O seu grau de fundamentalismo e servid\u00e3o ideol\u00f3gica pode ser medido pelo artigo, \u201cTrump e o Ocidente\u201d, escrito por Ara\u00fajo, at\u00e9 certo ponto sob influ\u00eancia de Samuel Huntington, que retrata Trump como express\u00e3o m\u00edtica e divina da salva\u00e7\u00e3o do Ocidente das garras de seu principal inimigo, um inimigo interno, constitu\u00eddo a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, expressando-se no liberalismo pol\u00edtico radical, no ate\u00edsmo e no socialismo.\n<\/p><p>\nEntusiasma esse grupo a hip\u00f3tese de uma participa\u00e7\u00e3o brasileira em uma eventual interven\u00e7\u00e3o para a \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d da Venezuela, da instala\u00e7\u00e3o de uma base militar dos Estados Unidos em solo nacional, da transfer\u00eancia da embaixada brasileira para Jerusal\u00e9m, de sa\u00edda do pa\u00eds do Acordo de Paris, com a sua retirada do Pacto Global de Migra\u00e7\u00f5es da ONU, e com o fim do acordo para receber os m\u00e9dicos cubanos em suas comunidades pobres. Apoiam a entrada do Brasil na OTAN e na OCDE em troca do abandono do tratamento especial do Brasil na OMC, da internacionaliza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e das exig\u00eancias que o imperialismo estadunidense impuser. Subordinam-se \u00e0s pol\u00edticas de Trump formuladas pelos lobbies anti-Cuba e sionista que ecoam no Grupo do Lima para elevar ao m\u00e1ximo a desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo Maduro. Pretendem sepultar de vez a UNASUL e redefinir o MERCOSUL, eliminando a uni\u00e3o aduaneira e ampliando-o para transform\u00e1-lo no PROSUL, baseado no livre-com\u00e9rcio unilateral e no bloqueio das rela\u00e7\u00f5es comerciais e financeiras com pa\u00edses designados como amea\u00e7a ideol\u00f3gica. Em especial, a \u201cTroika da Tirania\u201d, ep\u00edteto formulado pelo governo Trump para nomear a Cuba, Nicar\u00e1gua e Venezuela, onde se pretende promover a mudan\u00e7a de regime.\n<\/p><p>\nO segundo vetor \u00e9 dirigido por Paulo Guedes, o poderoso ministro da Economia de Bolsonaro. Sua agenda ultraneoliberal busca o desmonte do Mercosul e da UNASUL, a desindustrializa\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o do Brasil no para\u00edso de uma burguesia rentista, compradora e prim\u00e1rio-exportadora, que aufere recursos na d\u00edvida p\u00fablica, na especula\u00e7\u00e3o cambial, na transfer\u00eancia de terra, biodiversidade e riqueza mineral, e na superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho. Guedes afirmou que o Mercosul, cuja pauta exportadora do Brasil \u00e9 formada em 89% por manufaturados, \u00e9 restritivo e tem inclina\u00e7\u00f5es bolivarianas. Sua meta \u00e9 a liquida\u00e7\u00e3o das empresas estatais, a destrui\u00e7\u00e3o do BNDES e das pol\u00edticas industriais, a entrega das reservas ind\u00edgenas para explora\u00e7\u00e3o transnacional de min\u00e9rios e ur\u00e2nio, o congelamento de gastos p\u00fablicos prim\u00e1rios, e a reforma da previd\u00eancia, onde busca impor a regress\u00e3o de direitos sociais e abrir espa\u00e7os para a gera\u00e7\u00e3o de capital fict\u00edcio.\n<\/p><p>\nEssa agenda encontra certo grau de consenso nas classes dominantes brasileiras. As fra\u00e7\u00f5es industriais do grande capital apoiaram a imposi\u00e7\u00e3o de um programa recessivo de longa dura\u00e7\u00e3o que congelou gastos p\u00fablicos prim\u00e1rios reais por 20 anos. A principal explica\u00e7\u00e3o para isso est\u00e1 na necessidade de impor-se altas taxas de desemprego para desarticular as press\u00f5es sociais contra a superexplora\u00e7\u00e3o de uma classe trabalhadora que quase duplicou seu n\u00edvel de escolaridade entre 1992-2015. Os anos de restabelecimento do crescimento econ\u00f4mico e do emprego formal, entre 2004-2013, elevaram o n\u00edvel de ativismo sindical e culminaram em grandes explos\u00f5es sociais. A compensa\u00e7\u00e3o para o capital industrial de seu apoio \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o \u00e9 a na convers\u00e3o crescente de seus investimentos na gera\u00e7\u00e3o de capital fict\u00edcio por meio da d\u00edvida p\u00fablica, o que permite colocar os seus interesses estrat\u00e9gicos acima dos setoriais.\n<\/p><p>\nTal diretriz orienta o Brasil para um padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o baseado no crescimento med\u00edocre, no dinamismo das exporta\u00e7\u00f5es de baixo conte\u00fado tecnol\u00f3gico e na crescente expans\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica, cujas taxas de juros reais s\u00e3o superiores \u00e0s de expans\u00e3o do PIB. Enquanto as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, ap\u00f3s o golpe de 2016, apresentaram forte dinamismo, contrastando com a retra\u00e7\u00e3o do PIB per capita, sua vincula\u00e7\u00e3o com o setor industrial e a alta tecnologia foi baixa. As exporta\u00e7\u00f5es cresceram 17,5% em 2017 e 9,6% em 2018, e sua rentabilidade alcan\u00e7ou neste ano o seu n\u00edvel mais alto desde 2009. J\u00e1 os produtos manufaturados representaram apenas 48,8% da pauta exportadora em 2018, muito abaixo dos 65% de 2007. O d\u00e9ficit comercial da ind\u00fastria entre 2017-18 se elevou de US$ 3,2 bilh\u00f5es para US$ 25,2 bilh\u00f5es, principalmente nos segmentos de alta e m\u00e9dia\/alta tecnologias, que juntos responderam pelo saldo negativo de US$ 57,6 bilh\u00f5es. Tais tend\u00eancias sinalizam para a acelera\u00e7\u00e3o da retra\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria no PIB, em curso desde os anos 1990, excetuado o per\u00edodo de 2004-2013. Esta, em 1980, representava 21,3% do PIB e, em 2016, apenas 12,5%.\n<\/p><p>\nA agenda trumpista de pol\u00edtica externa, por sua vez, apresenta consenso muito mais baixo, o que neutraliza em parte os seus aspectos mais radicais, embora se reforce com a visita de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos e as articula\u00e7\u00f5es que estabelece com seu aparelho de Estado. As declara\u00e7\u00f5es de Ernesto Fraga desincentivando o com\u00e9rcio com a China ao afirmar que o Brasil n\u00e3o venderia sua alma para exportar min\u00e9rio de ferro e soja repercutiu mal no agroneg\u00f3cio.  Os militares brasileiros desaprovam o envolvimento brasileiro num conflito militar com a Venezuela, a transfer\u00eancia de nossa embaixada para Jerusal\u00e9m e a instala\u00e7\u00e3o de uma base militar estadunidense em solo brasileiro, ainda que as negocia\u00e7\u00f5es envolvendo a cess\u00e3o de Alc\u00e2ntara estejam em curso. A ala militar, entretanto, n\u00e3o oferece oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 agenda utraneoliberal. O establishment liberal que articulou o golpe de 2016, n\u00e3o respalda a ideologiza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio exterior e seus conflitos potenciais com o mundo \u00e1rabe, a China e a R\u00fassia. Tampouco respalda a escalada de confrontos externos, ou internos, que propicie o avan\u00e7o para formas de governo totalit\u00e1rias e de exce\u00e7\u00e3o, capazes de rivalizar com o monop\u00f3lio do grande capital sobre o Estado. N\u00e3o apoia a destrui\u00e7\u00e3o das esquerdas na sociedade civil, porque desmoralizado eleitoralmente, sabe que estas podem lhe oferecem a \u00fanica fonte de resist\u00eancia social \u00e0 ofensiva do Governo Bolsonaro para a troca de comando da elite dirigente do Estado brasileiro, em favor de fra\u00e7\u00f5es da pequena e m\u00e9dia burguesia parasit\u00e1ria que atuem como puro ap\u00eandice do imperialismo unilateral estadunidense e sionista.\n<\/p><p>\nAs esquerdas est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria no Parlamento e ainda n\u00e3o conseguiram mobilizar uma grande base de massas de oposi\u00e7\u00e3o ao golpe de 2016 e ao governo Bolsonaro. Mas a popularidade do governo Bolsonaro mostra-se baixa para in\u00edcio de mandato, alcan\u00e7ando apenas 38% de avalia\u00e7\u00e3o \u00f3tima ou boa. Tr\u00eas fatores podem contribuir para deterior\u00e1-la: as formas grotescas de express\u00e3o do Presidente e de seu n\u00facleo ideol\u00f3gico, t\u00edpicas do neofascismo; a proximidade do Presidente com as mil\u00edcias, a lavagem de dinheiro e os assassinos de Marielle; e a imposi\u00e7\u00e3o de uma agenda de destrui\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro e de direitos sociais que n\u00e3o oferece nenhuma perspectiva de emprego e redu\u00e7\u00e3o da pobreza. A acelera\u00e7\u00e3o desses conflitos entre o governo, o establishment liberal e as esquerdas pode repercutir sobre a aprova\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro, paralisar as reformas ultraneoliberais e as iniciativas mais agressivas no campo da pol\u00edtica externa.\n<\/p><p>\n***\n<\/p><p>\nCarlos Eduardo Martins \u00e9 Professor Associado do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Defesa da UFRJ e Coordenador do Laborat\u00f3rio de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC\/UFRJ). Membro do conselho editorial da revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, \u00e9 autor, entre outros, de Globaliza\u00e7\u00e3o, depend\u00eancia e neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclop\u00e9dia contempor\u00e2nea da Am\u00e9rica Latina e do Caribe (Pr\u00eamio Jabuti de Livro do Ano de N\u00e3o Fic\u00e7\u00e3o em 2007) e co-organizador de A Am\u00e9rica Latina e os desafios da globaliza\u00e7\u00e3o (2009), ambos publicados pela Boitempo. \u00c9 colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, \u00e0s segundas.\n<\/p><p>\n<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/03\/20\/o-governo-bolsonaro-e-a-dupla-face-de-uma-politica-externa-servil\/\">O governo Bolsonaro e a dupla face de uma pol\u00edtica externa&nbsp;servil<\/a>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22622\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[233],"class_list":["post-22622","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5SS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22622"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22622\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}