{"id":22628,"date":"2019-03-22T20:09:47","date_gmt":"2019-03-22T23:09:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22628"},"modified":"2019-03-24T20:33:34","modified_gmt":"2019-03-24T23:33:34","slug":"tempos-sombrios-tempos-de-ternura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22628","title":{"rendered":"Tempos sombrios, tempos de ternura"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/03\/gregorio-bezerra.jpg?w=620&#038;h=620\"\/><!--more-->Por Mauro Luis Iasi\n<\/p><p>\n\u201cPosso compreender que um homem aceite as leis que\nprotegem a propriedade privada e admita sua acumula\u00e7\u00e3o,\ndesde que nessas circunst\u00e2ncias ele pr\u00f3prio seja capaz de atingir\nalguma forma de exist\u00eancia harmoniosa e intelectual.\nParece-me, por\u00e9m, quase inacredit\u00e1vel que um homem cuja exist\u00eancia\nse perdeu e abrutalhou por for\u00e7a dessas mesmas leis possa\nvir a concordar com sua vig\u00eancia [\u2026] devem ser muito tolos\u201d\n<\/p><p>\nOscar Wilde, A alma do homem sob o socialismo\n<\/p><p>\nA ningu\u00e9m \u00e9 dado escolher os tempos em que vive. O que chama a aten\u00e7\u00e3o em nossos tristes tempos \u00e9 o grau que atingiu aquilo que Oscar Wilde, na frase que nos serve de ep\u00edgrafe, denominou de \u201cabrutalhamento\u201d. Atingimos um tal ponto de irracionalismo que, por vezes, fica dif\u00edcil distinguir algum tra\u00e7o humano na brutalidade dos tempos.\n<\/p><p>\nEntretanto, todo tempo tem suas brutalidades e suas ternuras, mesmo os mais dram\u00e1ticos como o fascismo e a guerra, mesmo a barb\u00e1rie da civiliza\u00e7\u00e3o reluzente do capital em sua agonia hist\u00f3rica na qual pululam os tolos a se regozijar da ordem que os escraviza e massacra.\n<\/p><p>\nEm algum momento nestes nossos tempos brutais vemos pessoas abdicando dos fiapos de sua humanidade ao festejar torturadores, ao comemorar a morte de uma mulher corajosa, o olho arrancado de uma menina pela brutalidade da pol\u00edcia, o rosto coberto de sangue de uma professora, o corpo queimado de um \u00edndio. Em tempos como esses, desconcertados, presenciamos a insensibilidade de celebrar a morte de uma crian\u00e7a de sete anos pelo \u00f3dio insano contra seu av\u00f3.\n<\/p><p>\nAfirmei antes e reafirmo agora que n\u00e3o acredito em dialogo com a barb\u00e1rie, tenho a serena convic\u00e7\u00e3o que devemos ser intolerantes contra a intoler\u00e2ncia, o preconceito e o irracionalismo da extrema direita. Entretanto, uma quest\u00e3o se apresenta diante de n\u00f3s: nosso direito ao \u00f3dio contra o \u00f3dio, o sagrado dever de resistir contra a viol\u00eancia, pode nos assemelhar aos nossos inimigos?\n<\/p><p>\nComo disse, em um velho poema, \u201cquando nascer o dia e limparmos da varanda os morcegos mortos, teremos que ter todo o cuidado para n\u00e3o estar entre eles\u201d (Metamorfases, S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2011, p. 71). N\u00e3o creio que a viol\u00eancia (e o \u00f3dio) tenha um conte\u00fado em si mesmo, mas a ela se agrega dimens\u00f5es morais e \u00e9ticas distintas. Como colocou Marx, a viol\u00eancia \u00e9 uma forma que se apresenta no momento em que as sociedades morrem e novas formas sociais germinam em suas entranhas. Nos contornos desta transi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o \u00f3dio dos poderosos contra aqueles que os amea\u00e7am, mas existe o \u00f3dio dos oprimidos contra aqueles que os dominam e contra a ordem que representam. Extirpar o \u00f3dio dos oprimidos \u00e9 favorecer a paz dos opressores, \u201cn\u00e3o \u00e9 paz\u2026 \u00e9 medo\u201d.\n<\/p><p>\nSabemos, no entanto, como Brecht, que mesmo o \u00f3dio justo transforma as fei\u00e7\u00f5es e torna rouca a voz, embrutece a alma e pode aviltar os fins \u00e9ticos justos. Neste momento \u00e9 necess\u00e1rio um distanciamento muito dif\u00edcil para que n\u00e3o nos percamos na lama dos tempos sombrios.\n<\/p><p>\nUma pequena hist\u00f3ria pode nos esclarecer este ponto. Tenho um camarada que para mim e muitos de n\u00f3s \u00e9 uma refer\u00eancia, um exemplo de vida e milit\u00e2ncia comunista. Seu nome \u00e9 Anibal Valen\u00e7a, e ele me contou certa vez a seguinte hist\u00f3ria. Na \u00e9poca do golpe de 1964 ele foi preso junto com seu pai, tamb\u00e9m destacado militante do PCB de Pernambuco. Na mesma ocasi\u00e3o foi preso Greg\u00f3rio Bezerra, que atraia particularmente o \u00f3dio de seus algozes por tudo que representava, por sua altivez e dignidade sem par.\n<\/p><p>\nAlgum tempo depois, j\u00e1 fora da pris\u00e3o, os dois estavam com alguns camaradas em um bar quando uma pessoa que mal continha sua alegria comunicou-lhes a not\u00edcia de que o delegado e torturador respons\u00e1vel por seus encarceramentos havia morrido. Diante do comunicado, ensaiou-se um grito de al\u00edvio e uma pequena salva de palmas. Greg\u00f3rio Bezerra, que estava presente, manteve-se s\u00e9rio e repreendeu seus camaradas dizendo: \u201cN\u00e3o fa\u00e7am isso. Mesmo o inimigo mais indigno tem uma fam\u00edlia, esposa e filhos que agora sofrem com sua morte. Devemos respeitar sua dor\u201d.\n<\/p><p>\nTalvez seja esta a dimens\u00e3o \u00e9tica que nos distingue da barb\u00e1rie e que impede que nos misturemos a mesma lama de \u00f3dio que ela secreta. Um resto de ternura, n\u00e3o por nossos inimigos, mas uma dimens\u00e3o que resiste em sua humanidade mesmo diante das mais evidentes brutalidades.\n<\/p><p>\nEssa ternura passou por n\u00f3s agora, vestida de verde e rosa. Os opressores, apequenados diante da grandiosidade redentora do cortejo, s\u00f3 viam rancor, \u00f3dio e vingan\u00e7a. Mas, em meio a for\u00e7a do canto e das l\u00e1grimas que o regavam, eu via uma ternura infinita e uma generosidade sem igual. Nada parecido com o esquecimento ou o perd\u00e3o crist\u00e3o, mas uma reden\u00e7\u00e3o distinta que expondo todo o sangue, a ignom\u00ednia, a brutalidade do l\u00e1tego, a bota assassina da ditadura e seus cumplices, pudesse redimir todo uma pa\u00eds de seus crimes e sua vergonha. Um violento ato de ternura que os abrutalhados e tolos jamais entender\u00e3o.\n<\/p><p>\n<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/03\/20\/tempos-sombrios-tempos-de-ternura\/\">Tempos sombrios, tempos de&nbsp;ternura<\/a>\n<\/p><p>\n***\nMauro Iasi na TV Boitempo\n<\/p><p>\nNo Caf\u00e9 Bolchevique da TV Boitempo, Mauro Iasi apresenta conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre acontecimentos da conjuntura pol\u00edtica e social recente no Brasil e no mundo. Se inscreva no canal aqui e venha tomar este caf\u00e9 conosco!\n<\/p><p>\n***\n<\/p><p>\nMauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.\n<\/p><p>\nGreg\u00f3rio Bezerra, preso no p\u00e1tio do Quartel de Motomecaniza\u00e7\u00e3o em Casa Forte, Recife (abril de 1964). Foto de capa do livro Mem\u00f3rias, de Greg\u00f3rio Bezerra (Boitempo, 2011)\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22628\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,20],"tags":[221],"class_list":["post-22628","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-c1-popular","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5SY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22628"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22628\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}