{"id":2265,"date":"2012-01-17T00:04:21","date_gmt":"2012-01-17T00:04:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2265"},"modified":"2012-01-17T00:04:21","modified_gmt":"2012-01-17T00:04:21","slug":"para-onde-vai-a-classe-media-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2265","title":{"rendered":"Para onde vai a Classe M\u00e9dia brasileira?"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">Karl Marx e Friedrich Engels no\u00a0<em>Manifesto Comunista,<\/em> publicado em 1848, j\u00e1 discorriam que a sociedade capitalista tende cada vez mais a dividir-se em duas grandes classes sociais: a burguesia e o proletariado. Sob esta an\u00e1lise, a classe m\u00e9dia por sua natureza de classe intermedi\u00e1ria tende a ser conservadora, a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o para esta tornar-se revolucion\u00e1ria \u00e9 quando o sistema abala seu\u00a0<em>status quo<\/em>, especialmente quando se proletariza.<\/p>\n<p align=\"justify\">No caso brasileiro, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e o fim da chamada \u201cvelha rep\u00fablica\u201d, v\u00ea-se a constru\u00e7\u00e3o de um novo pa\u00eds em que as antigas oligarquias agr\u00e1rias exportadoras entram em decad\u00eancia e emerge uma nova classe dominante, a burguesia industrial. Junto com a industrializa\u00e7\u00e3o, agiganta-se o aparato burocr\u00e1tico estatal, sendo que o papel do Estado torna-se fundamental no processo de industrializa\u00e7\u00e3o brasileiro. Assim, v\u00ea-se o surgimento da emergente classe oper\u00e1ria que sai do campo em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida nos novos empregos na ind\u00fastria, assim como a classe m\u00e9dia que vai agregar-se a uma s\u00e9rie de ocupa\u00e7\u00f5es rec\u00e9m criadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A partir do final dos anos 70 e especialmente nos anos 80, esta classe m\u00e9dia passa a conhecer, em fun\u00e7\u00e3o das sucessivas crises econ\u00f4micas, uma avassaladora decad\u00eancia em seu padr\u00e3o de vida e na possibilidade de ampliar e mesmo manter a mobilidade social anteriormente conquistada. O quadro se agrava ainda mais nos anos 90 quando da supremacia do modelo neoliberal que entre outras medidas tomadas promove o enxugamento da m\u00e1quina estatal, privatiza grande parcela de empresas p\u00fablicas, promove o incentivo a que servidores p\u00fablicos de v\u00e1rias esferas pe\u00e7am demiss\u00e3o (caso do Programa de Demiss\u00e3o Volunt\u00e1ria, PDV), al\u00e9m da abertura comercial, que fez com que ocorresse no Brasil uma in\u00e9dita desindustrializa\u00e7\u00e3o devido \u00e0 concorr\u00eancia de produtos importados mais baratos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A crise econ\u00f4mica que eclodiu em 2008 trouxe consigo in\u00fameros efeitos danosos para a classe trabalhadora em geral e para a classe m\u00e9dia em particular. Entre estes efeitos, podemos destacar o aumento do desemprego, a amplia\u00e7\u00e3o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, a perda de direitos trabalhistas, resultando em uma maior inseguran\u00e7a quanto ao seu futuro. Sendo a classe m\u00e9dia entendida como uma classe intermedi\u00e1ria, situada entre a classe oper\u00e1ria e a burguesia, estaria a classe m\u00e9dia caminhando para um crescente processo de proletariza\u00e7\u00e3o e, desta forma, a uma trajet\u00f3ria rumo ao desaparecimento, ou se pelas suas caracter\u00edsticas diferenciadas das demais classes fundamentais, estaria pass\u00edvel de sobreviv\u00eancia e fortalecimento?<\/p>\n<p align=\"justify\">Na Europa a resposta \u00e9\u00a0\u00f3bvia, basta olhar para a s\u00e9rie de mudan\u00e7as que est\u00e3o se dando n\u00e3o somente nos pa\u00edses europeus perif\u00e9ricos, mas mesmo nos mais avan\u00e7ados economicamente, com o aumento da jornada de trabalho, diminui\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios do funcionalismo p\u00fablico e privatiza\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os p\u00fablicos que resultaram em manifesta\u00e7\u00f5es de rua com repercuss\u00e3o no mundo todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dentro deste quadro em que j\u00e1 se acena inclusive com o fim da classe m\u00e9dia por autores que estudam a problem\u00e1tica europeia (Lojkine, 2005), no Brasil difundiu-se \u00e0 exaust\u00e3o a ideia de que cada vez mais pessoas est\u00e3o emergindo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de classe m\u00e9dia.\u00a0 Entre os defensores da tese da ascens\u00e3o da classe m\u00e9dia brasileira, podemos destacar pesquisas realizadas pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) que apontam para o surgimento de uma \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d, composta por membros da chamada classe C. Esta afirma que entre 2003 e 2009, 29 milh\u00f5es de brasileiros teriam ingressado na classe C, indicando que 94,9 milh\u00f5es de brasileiros comporiam a nova classe m\u00e9dia (50,5% da popula\u00e7\u00e3o), sendo que 3,2 milh\u00f5es teriam ingressado no imediato per\u00edodo p\u00f3s-crise (Neri, 2010). Parece que al\u00e9m de sermos o pa\u00eds do carnaval e do futebol tamb\u00e9m ser\u00edamos o pa\u00eds em que os pobres quase em um passe de m\u00e1gica viraram classe m\u00e9dia. Infelizmente, a coisa n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p align=\"justify\">O problema desta an\u00e1lise \u00e9\u00a0de fundo metodol\u00f3gico, ao utilizar-se como \u00fanico crit\u00e9rio de classifica\u00e7\u00e3o faixas de rendimentos m\u00e9dios, obtidos atrav\u00e9s de uma mera an\u00e1lise estat\u00edstica, como o pr\u00f3prio autor afirma: \u201cO mais importante \u00e9 ter um crit\u00e9rio consistente definido. A nossa classe C aufere em m\u00e9dia a renda m\u00e9dia da sociedade, ou seja, \u00e9 classe m\u00e9dia no sentido estat\u00edstico\u201d (Neri, 2008). Atrav\u00e9s desta an\u00e1lise muitos aspectos subjetivos ficam de lado, especialmente a ocupa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, este um bom definidor da classe em que ele est\u00e1 inserido, j\u00e1 que existem ocupa\u00e7\u00f5es t\u00edpicas de cada classe social, e estas ocupa\u00e7\u00f5es tem demandas e perspectivas de vida geralmente consonantes com seu grau de escolaridade e padr\u00e3o de vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, esconde-se o fato que mesmo que as pessoas tenham faixas de renda pr\u00f3ximas (no caso do estudo de Neri uma faixa de renda nem t\u00e3o pr\u00f3xima, a classe C iria de R$1.126,00 a R$4.854,00) n\u00e3o necessariamente tem as mesmas condi\u00e7\u00f5es e oportunidades. Pode se afirmar que metodologias como a utilizada por Neri s\u00f3 seriam adequadas para os pesquisadores que veem o indiv\u00edduo t\u00e3o somente como consumidores, da\u00ed esta metodologia ser contestada por pesquisa realizada pela Unicamp: \u201cObservando as necessidades mercadol\u00f3gicas, n\u00e3o parece haver d\u00favidas de que esse enfoque preenche plenamente as condi\u00e7\u00f5es, ou seja, ele \u2018capta\u2019 corretamente os indiv\u00edduos como consumidores massificados e homogeneizados pela publicidade e pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o\u201d (Quadros, 2003).<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, podemos concluir que um dos fortes indicadores utilizados para enxergarmos uma expans\u00e3o da nova classe m\u00e9dia est\u00e1 relacionado ao seu grau de consumo. Se por um lado o acesso ao cr\u00e9dito possibilitou a aquisi\u00e7\u00e3o de carros zero quil\u00f4metro vendidos em at\u00e9 80 vezes, casas financiadas por at\u00e9 30 anos, acesso f\u00e1cil a cart\u00f5es de cr\u00e9dito, ao cheque especial e aos empr\u00e9stimos banc\u00e1rios, o lado perverso desta expans\u00e3o do cr\u00e9dito est\u00e1 conduzindo ao mesmo tempo ao superindividamento desta classe e ao seu alto grau de inadimpl\u00eancia<sup>2<\/sup>. Ou seja, no nosso entender no Brasil n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo uma passagem da classe prolet\u00e1ria para a classe m\u00e9dia, ao contr\u00e1rio, a exemplo do fen\u00f4meno mundial, uma proletariza\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Est\u00e1\u00a0na hora de a classe m\u00e9dia tomar consci\u00eancia de sua tend\u00eancia \u00e0 proletariza\u00e7\u00e3o e juntar-se ideologicamente \u00e0s demais classes que comp\u00f5em o proletariado para questionar o pr\u00f3prio sistema em que vive. Quem sabe a terr\u00edvel crise que estamos passando sirva ao menos para isso?<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Bibliografia de refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">JORNAL ESTADO DE S\u00c3O PAULO.\u00a0<em>Endividamento do brasileiro \u00e9 recorde<\/em>. 26 de junho de 2011,\u00a0&lt;<a href=\"http:\/\/economia.estadao.com.br\/noticias\/economia,endividamento-do-brasileiro-e-recorde,73174,0.htm\" target=\"_blank\">http:\/\/economia.estadao.com.br\/noticias\/economia,endividamento-do-brasileiro-e-recorde,73174,0.htm<\/a>&gt;. Acesso em 09.10.2011.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOJKINE, Jean<em>. L\u2019adieu \u00e0 la classe moyenne<\/em>. Paris: Ed. La dispute, 2005. 246 p.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARX, Karl e ENGELS, Friedrich.\u00a0<em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Avante!,1975. 184 p.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERI, Marcelo (org.).\u00a0<em>A nova classe m\u00e9dia<\/em>. Rio de Janeiro: FGV\/IBRE, CPS, agosto de 2008. 85 p.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERI, Marcelo (org.).\u00a0<em>A nova classe m\u00e9dia: o lado brilhante dos pobres<\/em>. Rio de Janeiro: FGV\/CPS, setembro de 2010. 149 p.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUADROS, Waldir Jos\u00e9\u00a0 de. A evolu\u00e7\u00e3o recente das classes sociais no Brasil. In: PRONI, Marcelo W.; HENRIQUE, Wilnes (orgs.).\u00a0<em>Trabalho, mercado e sociedade<\/em> &#8211; o Brasil nos anos 90. S\u00e3o Paulo\/Campinas: UNESP\/Unicamp, 2003. p. 15-69.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 2.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nS\u00e9rgio Prieb1\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2265\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-2265","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Ax","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2265"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2265\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}