{"id":22652,"date":"2019-03-25T19:04:42","date_gmt":"2019-03-25T22:04:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22652"},"modified":"2019-03-25T19:04:48","modified_gmt":"2019-03-25T22:04:48","slug":"mocambique-e-os-efeitos-da-devastacao-capitalista-no-clima-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22652","title":{"rendered":"Mo\u00e7ambique e os efeitos da devasta\u00e7\u00e3o capitalista no clima mundial"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7894\/46734082204_052ba4b01d_z.jpg\"\/><!--more-->Cientista defende que pa\u00edses pobres, expostos ao caos clim\u00e1tico, sejam compensados pelos pa\u00edses ricos e corpora\u00e7\u00f5es\nAlexandre Costa*\nBrasil de Fato\n<\/p><p>\nNeste ano j\u00e1 tivemos enchentes devastadoras associadas a eventos extremos aqui mesmo no Brasil (com impacto bastante severo em nossas megacidades, Rio e S\u00e3o Paulo), nos EUA (com enormes danos e preju\u00edzos em Minnesota e Nebraska).\n<\/p><p>\nMas, como em tantas outras ocasi\u00f5es, eventos similares produzem impactos maiores &#8211; e um n\u00famero bem maior de mortes &#8211; quanto mais pobres e vulner\u00e1veis forem os pa\u00edses e as comunidades sobre os quais eles se abaterem.\n<\/p><p>\nComo antes nas Filipinas, em Serra Leoa, etc., a trag\u00e9dia, que finalmente parece chamar a aten\u00e7\u00e3o do mundo, veio na forma do Ciclone Tropical Idai, que se formou a partir de uma depress\u00e3o tropical no Canal de Mo\u00e7ambique, entre o sudeste do continente africano e Madagascar. Tr\u00eas pa\u00edses pobres (Malawi, Zimbabwe e particularmente Mo\u00e7ambique) foram duramente castigados, com o n\u00famero impressionante de 1,7 milh\u00e3o de pessoas afetadas e, no momento em que escrevo, mais de 700 mortes confirmadas.\n<\/p><p>\nAqui me sinto obrigado a fazer uma confiss\u00e3o sobre como t\u00eam-me incomodado os memes, tweets, textinhos e eventuais text\u00f5es que batem na tecla &#8220;n\u00e3o tem &#8216;ajuda humanit\u00e1ria&#8217; em Mo\u00e7ambique porque l\u00e1 n\u00e3o tem petr\u00f3leo&#8221;. N\u00e3o \u00e9 que eu discorde de maneira absoluta da ideia. Pelo contr\u00e1rio, entendo o sentido. \u00c9 feito um contraponto ao cinismo dos governos ultradireitistas de EUA e Brasil no caso da Venezuela, em que a tese da &#8220;ajuda humanit\u00e1ria&#8221; certamente escondia outra agenda. S\u00f3 que a repeti\u00e7\u00e3o do meme exp\u00f5e os limites de como muitas pessoas est\u00e3o encarando a trag\u00e9dia.\n<\/p><p>\nA primeira quest\u00e3o \u00e9 que o petr\u00f3leo \u00e9 trazido \u00e0 baila de forma totalmente deslocada. Mo\u00e7ambique foi v\u00edtima sim, do petr\u00f3leo. N\u00e3o daquele que em tese poderia haver em seu subsolo (mas que pelo visto realmente n\u00e3o h\u00e1), mas daquele que fora tirado do subsolo de outro lugar, queimado e despejado na atmosfera como CO2. De uma vez por todas, \u00e9 necess\u00e1rio que caia a ficha: o aquecimento global, ao elevar a temperatura dos oceanos tropicais e aumentar a capacidade da atmosfera em armazenar vapor d&#8217;\u00e1gua, est\u00e1 produzindo e produzir\u00e1 cada vez mais tempestades extremamente severas e mort\u00edferas.\n<\/p><p>\nNesse contexto, o abandono da \u00c1frica \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte, gritante no caso de Mo\u00e7ambique, Malawi e Zimbabwe, \u00e9 uma amostra terr\u00edvel da profunda desigualdade por tr\u00e1s das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Os habitantes do Zimbabwe emitem em m\u00e9dia 0,8 toneladas de CO2-equivalente por ano. As emiss\u00f5es de Mo\u00e7ambique e Malawi s\u00e3o ainda menores: 0,3 e 0,1 tons\/pessoa\/ano. Sem ind\u00fastria ou agricultura intensiva, esses pa\u00edses n\u00e3o tem responsabilidade alguma sobre o caos clim\u00e1tico. Para se ter uma ideia, a m\u00e9dia global per capita das emiss\u00f5es est\u00e1 em torno de 5 tons\/pessoa\/ano de CO2-equivalente, ou seja, 17 vezes maior que as emiss\u00f5es de Mo\u00e7ambique. E o que vem de pa\u00edses ricos \u00e9 algo muito maior ainda!\n<\/p><p>\nTirando os maiores produtores de petr\u00f3leo, que por isso aparecem no topo do ranking das emiss\u00f5es, fica evidente que o modo de vida dos pa\u00edses ricos \u00e9 insustent\u00e1vel. As emiss\u00f5es por habitante dos EUA chegam a 16,5 tons\/pessoa\/ano. Austr\u00e1lia e Canad\u00e1, 15,4 e 15,1, respectivamente. Em outras palavras, o &#8220;estadunidense m\u00e9dio&#8221; tem um impacto clim\u00e1tico equivalente a 55 &#8220;mo\u00e7ambicanos m\u00e9dios&#8221;. O &#8220;canadense m\u00e9dio&#8221; conta como 151 habitantes de Malawi em termos da pegada de carbono. Carro privado, grande, de alta cilindrada, movido a combust\u00edvel f\u00f3ssil e trocado constantemente; consumo excessivo de bens diversos, de roupas a eletr\u00f4nicos; dieta com muita carne, principalmente de ruminantes; viagens a\u00e9reas\u2026 isso n\u00e3o se sustenta.\n<\/p><p>\nDe acordo com o \u00faltimo relat\u00f3rio especial do IPCC, o SR15, seria extremamente ben\u00e9fico limitarmos o aquecimento global a 1,5\u00b0C. O suposto limite de 2\u00b0C nada tem de seguro e al\u00e9m dele cada d\u00e9cimo de grau amplifica a cat\u00e1strofe. Mas para tal, seria necess\u00e1rio reduzir as emiss\u00f5es globais pela metade at\u00e9 2030. Em outras palavras, o limite de emiss\u00e3o per capita seria 2,5 tons\/pessoa\/ano em CO2-equivalente (isto \u00e9, considerando outros gases, como o metano, de acordo com seu potencial de aquecimento global).\n<\/p><p>\nFa\u00e7am as contas comigo. Numa l\u00f3gica de equidade clim\u00e1tica, isso significa que as emiss\u00f5es per capita dos EUA t\u00eam de ser reduzidas por um fator de 7 vezes. As dos habitantes de Mo\u00e7ambique poderiam at\u00e9 crescer por um fator de 8! Em uma d\u00e9cada, esse crescimento permitiria a pessoas de pa\u00edses muito pobres da \u00c1frica acesso a energia, \u00e1gua pot\u00e1vel, saneamento, hospitais, escolas, universidades e infraestrutura de monitoramento, preven\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia em caso de eventos extremos (num mundo condenado, pelo aquecimento global, a um clima de extremos, todos precisaremos, e muito). Isso poderia ser feito a tempo inclusive antes de precisarmos encarar um desafio ainda maior, o de zerar completamente as emiss\u00f5es at\u00e9 2050. \n<\/p><p>\nMas essas iniciativas necess\u00e1rias para elevar o padr\u00e3o de vida dos pa\u00edses mais pobres precisam ser bancadas por quem se beneficiou da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis para acumular riqueza. Por isso, n\u00e3o \u00e9 caridade, nem mesmo &#8220;ajuda&#8221; que os pa\u00edses pobres expostos ao caos clim\u00e1tico precisam. \u00c9 de compensa\u00e7\u00e3o, de indeniza\u00e7\u00e3o. &#8220;Ajuda&#8221; \u00e9 algo meio facultativo, uma decis\u00e3o moral, um &#8220;ato de bondade&#8221;. O que precisamos \u00e9 de mais do que isso: \u00e9 obrigar quem \u00e9 respons\u00e1vel pelo aquecimento global a arcar com os danos que ele provoca.\n<\/p><p>\nO problema \u00e9 que o dinheiro que poderia ser usado para compensar e indenizar aqueles que n\u00e3o t\u00eam responsabilidade sobre a mudan\u00e7a do clima tem flu\u00eddo ao contr\u00e1rio do que deveria. Desde que o Acordo de Paris foi aprovado, 33 bancos investiram 7 trilh\u00f5es de reais na ind\u00fastria de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Uma fra\u00e7\u00e3o desse dinheiro teria ajudado a descarbonizar a economia e, ao mesmo tempo, indenizar preventivamente os pa\u00edses com baixas emiss\u00f5es mas, pelo contr\u00e1rio, o sistema segue financiando o caos clim\u00e1tico, a devasta\u00e7\u00e3o e a morte. T\u00e3o destrutivo e assassino quanto a ind\u00fastria de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 o capital financeiro que a alimenta! \n<\/p><p>\nDa\u00ed, minha obje\u00e7\u00e3o ao racioc\u00ednio por tr\u00e1s da &#8220;aus\u00eancia de ajuda humanit\u00e1ria em virtude da aus\u00eancia de petr\u00f3leo&#8221; \u00e9 mesmo a falta de perspectiva da quest\u00e3o de fundo. Mo\u00e7ambique \u00e9 v\u00edtima do caos clim\u00e1tico, do petr\u00f3leo (que alguns lamentavelmente ainda sonham ser usado para produzir riqueza de forma justa), do carv\u00e3o e do g\u00e1s. \u00c9 v\u00edtima da profunda desigualdade associada \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. E o que precisamos n\u00e3o \u00e9 de &#8220;ajuda humanit\u00e1ria&#8221;, mas do pagamento da d\u00edvida clim\u00e1tica, que precisa ser cobrada, pelos pobres, dos pa\u00edses ricos e, principalmente, das corpora\u00e7\u00f5es f\u00f3sseis e dos bancos que as financiam.\n<\/p><p>\n*Alexandre Costa \u00e9 cientista do clima e professor da Universidade Estadual do Cear\u00e1 (UECE).\n<\/p><p>\nhttps:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/03\/24\/artigo-or-o-nome-disso-e-divida-climatica-nao-ajuda-humanitaria\/\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22652\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[233],"class_list":["post-22652","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Tm","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22652"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22652\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}