{"id":22685,"date":"2019-03-29T22:18:46","date_gmt":"2019-03-30T01:18:46","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22685"},"modified":"2019-03-30T19:08:52","modified_gmt":"2019-03-30T22:08:52","slug":"1964-a-infamia-a-cicatriz-e-o-bufao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22685","title":{"rendered":"1964: a inf\u00e2mia, a cicatriz e o buf\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/03\/bolsonaro-64-comemorar.jpg?w=620&#038;h=620\"\/><!--more-->BLOG DA BOITEMPO\n<\/p><p>\nPor Mauro Luis Iasi\n<\/p><p>\nCicatrizes s\u00e3o como folhas secas:\nj\u00e1 foram verdes\nj\u00e1 foram vivas\nj\u00e1 foram corte j\u00e1\nforam dor\nCicatrizes s\u00e3o coisas passadas\nQue n\u00e3o se foram\n<\/p><p>\nO Golpe de 1964 \u00e9 uma cicatriz hist\u00f3rica marcada na carne de nosso pa\u00eds e na alma de nosso povo. Uma marca hist\u00f3rica que nos mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria necess\u00e1ria para que jamais se esque\u00e7a e jamais se repita a inf\u00e2mia cometida.\n<\/p><p>\nA tentativa de ressignifica\u00e7\u00e3o em curso \u00e9 mais do que uma desinforma\u00e7\u00e3o e uma manipula\u00e7\u00e3o grosseira de um fato hist\u00f3rico, \u00e9 a tentativa de cobrir a inf\u00e2mia com uma grossa camada ideol\u00f3gica que tenta acobertar crimes apresentando-os como atos redentores e encobrindo seu verdadeiro significado, os interesses de classe envolvidos e os sujeitos que perpetraram a inf\u00e2mia.\n<\/p><p>\nMas, afinal, por que seria necess\u00e1rio tal encobrimento? No final da Ditadura implantada em 1964, o General Golbery operou uma a\u00e7\u00e3o que apontava em um sentido diverso do encobrimento. Dizia \u00e0 \u00e9poca que era necess\u00e1rio colocar os cad\u00e1veres da Ditadura para fora do arm\u00e1rio e operar a chamada transi\u00e7\u00e3o lenta, gradual e segura que colocasse um ponto final no evento \u2013 da\u00ed a concep\u00e7\u00e3o da anistia ampla e irrestrita para quem lutou contra a ditadura, mas tamb\u00e9m para os carrascos e torturadores. Tratava-se de colocar \u00e0 luz do dia para ser vivida e superada a dor do ato brutal contra um pa\u00eds, para ent\u00e3o esquec\u00ea-lo.\n<\/p><p>\nA catarse do espet\u00e1culo acabou por favorecer os interesses das classes dominantes, uma vez que o horror dos por\u00f5es revelados escondia os reais sujeitos do terror. Os militares foram fi\u00e9is executores, mas n\u00e3o passaram de servi\u00e7ais dedicados de seus mestres. Os mandantes da inf\u00e2mia n\u00e3o estavam nos quart\u00e9is, nem mesmo no alto comando das For\u00e7as Armadas, estavam em luxuosos escrit\u00f3rios das grandes empresas monopolistas, no Brasil e nos EUA. O Golpe de 1964 foi um golpe das classes dominantes, do grande capital monopolista e seus aliados latifundi\u00e1rios e do imperialismo norte-americano. Tratou-se de um ato terrorista tramado com aux\u00edlio direto da Embaixada estadunidense, do Departamento de Estado dos EUA e da CIA, executado pelos t\u00edteres militares brasileiros.\n<\/p><p>\nAs denomina\u00e7\u00f5es \u201cgolpe militar\u201d ou \u201cditadura militar\u201d ideologicamente cumprem a miss\u00e3o de encobrir o car\u00e1ter de classe do golpe e os verdadeiros interesses por tr\u00e1s dele. Para que tal encobrimento fosse eficaz, fazia-se necess\u00e1rio \u00e0 cortina ideol\u00f3gica o pretexto para t\u00e3o brutal interrup\u00e7\u00e3o da institucionalidade democr\u00e1tica que vigorava. Para isso serviu o caldo de cultura da Guerra Fria, a luta contra o comunismo, a alardeada amea\u00e7a de uma ditadura comunista. Como sabemos, o golpe foi antecedido por dois movimentos complementares: por um lado um intenso processo de estrangulamento econ\u00f4mico, por outro um processo de manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica operado por institui\u00e7\u00f5es como o IPES e IBAD, numa verdadeira guerra de contrainforma\u00e7\u00e3o e propaganda anticomunista, fartamente financiado por empres\u00e1rios e pelo imperialismo.\n<\/p><p>\nNa verdade, o golpe foi desferido por dois motivos principais: impedir as reformas de base do governo Goulart que se chocavam com os interesses da burguesia brasileira e dos latif\u00fandios, assim como as pretens\u00f5es do imperialismo estadunidense de se servir do Brasil como uma \u00e1rea de influencia privilegiada de exporta\u00e7\u00e3o de capitais e controle geopol\u00edtico; mas tamb\u00e9m barrar as lutas sociais, oper\u00e1rias, camponesas que tomavam forma e apontavam para um potencial risco \u00e0 ordem burguesa. Aqui \u00e9 preciso frisar este aspecto: tal risco n\u00e3o passava de um potencial que podia se desenvolver, longe de ser uma amea\u00e7a imediata \u00e0 ordem capitalista e uma alternativa remotamente socialista, seja no campo das lutas sindicais e sociais, seja no escopo das reformas de base. Portanto, como define Florestan Fernandes, o golpe foi uma \u201ccontrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva\u201d.\n<\/p><p>\nApresentar essa contrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva como um desvio, como resultado de uma trucul\u00eancia militar, uma quartelada, servia aos prop\u00f3sitos de quem queria se livrar dos operadores para resguardar seus mandantes. Em parte, o processo de democratiza\u00e7\u00e3o e a anistia lograram este objetivo. O pre\u00e7o exigido pelos militares em troca de assumir a pecha da inf\u00e2mia foi que se colocasse um ponto final, uma pedra sobre o horror. Isto \u00e9, uma transi\u00e7\u00e3o que fosse realizada sem abrir arquivos, sem julgamentos e sem grandes acertos de contas, permitindo \u00e0 corpora\u00e7\u00e3o militar passar \u00e0 ordem democr\u00e1tica sem ter que responder por sua responsabilidade diante do terror.\n<\/p><p>\nPor um tempo, o acordo funcionou. Mesmo os honrados esfor\u00e7os da Comiss\u00e3o da Verdade, com as repara\u00e7\u00f5es \u00e0s vitimas e seus familiares, foram sempre tutelados e vigiados para que n\u00e3o extrapolassem os limites da catarse aceit\u00e1vel, mantendo nas sombras as pistas que levariam aos verdadeiros protagonistas e mandantes, assim como aqueles que fartamente se beneficiaram do crime. Mas e agora? Com explicar essa retomada da iniciativa de se \u201ccomemorar\u201d a data da inf\u00e2mia?\n<\/p><p>\nN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender esse fen\u00f4meno se n\u00e3o o inserirmos no quadro geral da bizarrice do atual governo e do buf\u00e3o miliciano que o comanda. Aquilo que era apenas uma cortina de fuma\u00e7a ideol\u00f3gica, que todos (inclusive os sujeitos da inf\u00e2mia) sabem ser mentira, ou seja, a cruzada redentora contra o comunismo e a corrup\u00e7\u00e3o, serviu agora de cobertura para que um desqualificado expulso das For\u00e7as Armadas constru\u00edsse sua carreira pol\u00edtica e para o discurso de \u00f3dio que o levou \u00e0 presid\u00eancia. Esse personagem burlesco nunca foi levado a s\u00e9rio pelos pr\u00f3prios militares (ver, por exemplo, o ju\u00edzo pouco elogioso que o ditador Geisel tinha do personagem). Ele servia apenas a um prop\u00f3sito secund\u00e1rio: ser a vers\u00e3o expl\u00edcita da extrema-direita que despertaria o \u00f3dio irracional contra o PT para ape\u00e1-lo do poder ou constrang\u00ea-lo a fim de aceitar os duros ajustes contra a classe trabalhadora. No entanto, ocorre que a criatura fugiu da coleira e chegou \u00e0 Presid\u00eancia.\n<\/p><p>\nPrecisamos constatar, antes de tudo, que ele \u00e9 um inc\u00f4modo. Sua total incapacidade de governar, sua inoper\u00e2ncia na condu\u00e7\u00e3o dos acordos e articula\u00e7\u00f5es que de fato o levaram \u00e0 Presid\u00eancia, sua atitude tosca e irrespons\u00e1vel\u2026 todos esses elementos t\u00eam marcado com crises quase di\u00e1rias o andamento do governo, gerando uma instabilidade cr\u00f4nica. Diante da total incompet\u00eancia, o buf\u00e3o resolveu manter a campanha e o tom da farsa que o elegeu, como denuncia o conservador jornal O Estado de S. Paulo (apoiador declarado do golpe de 1964 e do golpe de 2016). Diante da vergonhosa viagem aos EUA e a catastr\u00f3fica passagem pelo Chile (quase um \u201ccaminho de Santiago\u201d de peregrina\u00e7\u00e3o para extremistas de direita), envolto por trapalhadas di\u00e1rias da ala psiqui\u00e1trica do governo (Damares, V\u00e9lez, Ara\u00fajo) e pelo desespero do guru econ\u00f4mico Guedes ao ver a reforma da previd\u00eancia amea\u00e7ada pelo buf\u00e3o de chinelos e arma na cintura, eis que o presidente resolve reafirmar o perfil que ele cr\u00ea que o liga diretamente com as massas conservadoras por cima e por fora das institui\u00e7\u00f5es do Estado, conclamando os quart\u00e9is a fazerem as \u201ccomemora\u00e7\u00f5es devidas\u201d do golpe de 1964.\n<\/p><p>\nEsta \u00e9 uma ilus\u00e3o renitente na pol\u00edtica brasileira. Collor, pouco antes de ser impedido, conclamou as massas a apoi\u00e1-lo, mas o exemplo mais pr\u00f3ximo se encontra em outro presidente: J\u00e2nio Quadros. Como se sabe, J\u00e2nio foi uma inven\u00e7\u00e3o da UDN para chegar \u00e0 Presid\u00eancia, na v\u00e3 ilus\u00e3o de que poderia usar a seu favor o populismo tresloucado da figura para ganhar a elei\u00e7\u00e3o e depois tutel\u00e1-lo no governo, mantendo-o como figura decorativa. No entanto, como acontece no carnaval, quem vestia-se de rei acostumou com a fantasia. J\u00e2nio tenta um golpe contra a UDN conclamando o m\u00edstico apoio do povo que o abandona miseravelmente.\n<\/p><p>\nIsolado, atrapalhado e afogado em sua pr\u00f3pria mediocridade, o nosso buf\u00e3o tenta acenar com um agrado aos militares, ternamente afirmando que reconhece o que ningu\u00e9m admite, que eles foram her\u00f3is salvadores da p\u00e1tria amea\u00e7ada, que implantaram uma ditadura para salvar o Brasil de uma ditadura (como disse o imbecil de plant\u00e3o alojado no Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores), que os torturadores que laceravam a carne de mulheres e crian\u00e7as, estupravam, empalavam, passavam corrente el\u00e9trica por test\u00edculos e introduziam ratos em vaginas, s\u00e3o her\u00f3is incompreendidos que estavam purgando a carne para nos redimir de nossos pecados.\n<\/p><p>\nEntre as muitas coisas que o miliciano n\u00e3o sabe est\u00e1 quanto seu ato de reconhecimento colocou os militares em uma situa\u00e7\u00e3o altamente constrangedora, inc\u00f4moda e na contram\u00e3o de toda a estrat\u00e9gia t\u00e3o eficazmente constru\u00edda para ocultar o golpe nas brumas do esquecimento. Na tentativa de se manter no poder, ele pode ter assinado seu passaporte para fora do governo em breve. Expor o golpe como espet\u00e1culo cat\u00e1rtico tinha um sentido no final dos anos 1970, mas tratava-se de expor para ocultar. Agora, a exposi\u00e7\u00e3o tem o mesmo efeito que arrancar a casca da ferida que estava quase cicatrizando.\n<\/p><p>\nA direita brasileira (n\u00e3o o fantoche da extrema-direita hist\u00e9rica e burra) j\u00e1 se prepara para fazer o que fez com os militares depois da Ditadura: descartar o instrumento que n\u00e3o mais lhe serve para preservar seus verdadeiros interesses e de seus patr\u00f5es imperialistas. Come\u00e7ou a contagem regressiva para a queda do cl\u00e3 Bolsonaro e de seu circo de horrores.\n<\/p><p>\nQuem o substituir se empenhar\u00e1 em executar os interesses de seus patr\u00f5es e tirar\u00e1 da gaveta o discurso de como as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o fortes o suficiente para corrigir seus pr\u00f3prios enganos. Ningu\u00e9m pedir\u00e1 desculpas ou ser\u00e1 julgado. \u00d3rf\u00e3os e vi\u00favas chorar\u00e3o copiosamente, Jana\u00edna Pascoal vai gritar a Deus que a ilumine enquanto sacode no ar uma esfarrapada bandeira brasileira do lado de fora da faculdade de Direito. Alguns desavisados podem at\u00e9 comemorar enquanto um enorme curativo ser\u00e1 colocado sobre uma ferida que insiste em n\u00e3o cicatrizar.\n<\/hr>\nMauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura. \n<\/p><p>\n<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/03\/29\/1964-a-infamia-a-cicatriz-e-o-bufao\/\">1964: a inf\u00e2mia, a cicatriz e o&nbsp;buf\u00e3o<\/a>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22685\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[222],"class_list":["post-22685","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5TT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22685"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22685\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}