{"id":22698,"date":"2019-03-31T23:13:18","date_gmt":"2019-04-01T02:13:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22698"},"modified":"2019-03-31T23:13:24","modified_gmt":"2019-04-01T02:13:24","slug":"a-crise-economica-e-os-bancos-centrais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22698","title":{"rendered":"A crise econ\u00f4mica e os bancos centrais"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/financas\/imagens\/toussaint_bcentrais.jpg\"\/><!--more-->por Eric Toussaint*\n<\/p><p>\nOs elementos de uma nova crise financeira internacional est\u00e3o se aproximando. N\u00e3o se sabe quando ela vai explodir, mas explodir\u00e1 certamente e o seu impacto sobre todo o planeta ser\u00e1 importante. \n<\/p><p>\nOs principais fatores de crise s\u00e3o: \n<\/p><p>\nO aumento muito forte das d\u00edvidas privadas das empresas, por um lado, e por outro a bolha especulativa sobre o pre\u00e7o dos ativos financeiros: bolsas de valores, pre\u00e7o dos t\u00edtulos da d\u00edvida e, em certos pa\u00edses, (Estados Unidos, China, &#8230;), novamente o setor imobili\u00e1rio. Os dois fatores est\u00e3o estreitamente interligados. \n<\/p><p>\nMesmo empresas com enorme liquidez \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, como a Apple, endividam-se maci\u00e7amente pois aproveitam-se das baixas taxas de juros para emprestar a outros o dinheiro que tomam emprestado. A Apple e numerosas outras empresas tomam emprestado para emprestar e n\u00e3o para investir na produ\u00e7\u00e3o. A Apple tamb\u00e9m toma emprestado para recomprar em bolsa suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es . Expliquei isso num artigo intitulado &#8220;A montanha das d\u00edvidas privadas das empresas estar\u00e1 no cerne da pr\u00f3xima crise financeira&#8221; www.cadtm.org\/La-montagne-de-dettes-privees-des, publicado em 9\/ Novembro\/2017. \n<\/p><p>\nAs bolhas especulativas acima mencionadas s\u00e3o o resultado da pol\u00edtica adotada pelos grandes bancos centrais (Reserva Federal dos EUA, BCE , Banco da Inglaterra, desde h\u00e1 dez anos, e do Banco do Jap\u00e3o desde o estouro da bolha imobili\u00e1ria na d\u00e9cada de 1990) que injetaram bilh\u00f5es de d\u00f3lares, euros, libras esterlinas, iene em bancos privados para mant\u00ea-los \u00e0 tona. Estas pol\u00edticas t\u00eam sido chamadas Quantitative easing ou flexibiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria. Os recursos financeiros que os bancos centrais distribu\u00edram em profus\u00e3o n\u00e3o foram utilizados pelos bancos e pelas grandes empresas capitalistas dos outros sectores para o investimento produtivo. Eles serviram para adquirir ativos financeiros: a\u00e7\u00f5es em bolsa, obriga\u00e7\u00f5es de d\u00edvidas das empresas, t\u00edtulos p\u00fablicos soberanos, produtos estruturados e derivados&#8230; Isso produziu uma bolha especulativa no mercado bolsista, no mercado obrigacionista (ou seja, obriga\u00e7\u00f5es de d\u00edvidas) e, em alguns lugares, no sector imobili\u00e1rio. Todas as grandes empresas est\u00e3o super endividadas. \n<\/p><p>\nEsta pol\u00edtica dos bancos centrais reflete o fato de que as decis\u00f5es dos seus dirigentes s\u00e3o inteiramente determinadas pelos interesses de curto prazo dos grandes bancos privados e das grandes firmas capitalistas dos outros setores: impedir fal\u00eancias em cadeia e, consequentemente, perdas consider\u00e1veis para os grandes acionistas. \n<\/p><p>\nEsta pol\u00edtica tem a ver igualmente com uma caracter\u00edstica do capitalismo financeirizado contempor\u00e2neo: uma parte cada vez menos importante do novo valor criado \u00e9 reinvestida na produ\u00e7\u00e3o (ver Fran\u00e7ois Chesnais, Mais uma vez sobre o impasse econ\u00f4mico hist\u00f3rico do capitalismo mundial, alencontre.org\/&#8230; consultado em 17\/Mar\u00e7o\/2019). Uma parte crescente do novo valor \u00e9 gasto sob a forma de dividendos para os acionistas, sob a forma de recompras de a\u00e7\u00f5es, sob a forma de investimentos especulativos, particularmente em produtos estruturados e derivados,&#8230; Fran\u00e7ois Chesnais fala nomeadamente de &#8220;um influxo cada vez mais maci\u00e7o dos lucros n\u00e3o reinvestidos dos grupos financeiros com domin\u00e2ncia industrial&#8221; [1] . \n<\/p><p>\nRetornemos \u00e0 pol\u00edtica adotada pelos banqueiros centrais para combater a crise que explodiu em 2007-2008. Sua interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o permitiu sanear o sistema, ao contr\u00e1rio, os elementos de fragilidade mantiveram-se ou aumentaram: a rela\u00e7\u00e3o entre os fundos pr\u00f3prios (o capital da empresa) e os compromissos assumidos pela empresa \u00e9 demasiada fraca. Com efeito, o n\u00edvel deste \u00edndice \u00e9 insuficiente para fazer face a uma perda de valor que fosse provocada por uma queda nas cota\u00e7\u00f5es bolsistas, no mercado obrigacionista ou em outros ativos financeiros detidos pela empresa, quer seja ela um banco ou uma empresa como a Apple ou a General Electric para n\u00e3o tomar sen\u00e3o alguns exemplos. Todas as empresas est\u00e3o fortemente endividadas pois o recurso \u00e0 tomada de empr\u00e9stimos custa-lhes muito pouco gra\u00e7as \u00e0s taxas de juros que est\u00e3o muito baixas (0% na zoa euro, -0,1% no Jap\u00e3o, 0,75% na Gr\u00e3-Bretanha, 2,5% nos Estados Unidos) e uma pletora de capitais est\u00e1 \u00e0 procura de um m\u00e1ximo de retorno financeiro, mesmo atrav\u00e9s da compra de t\u00edtulos de d\u00edvida duvidosos (junk bonds) emitidos por empresas em m\u00e1 situa\u00e7\u00e3o. Assim, empresas como a Apple, que tem uma boa reputa\u00e7\u00e3o em termos de sa\u00fade financeira, contraem empr\u00e9stimos para comprar t\u00edtulos podres de alto rendimento. As empresas em m\u00e1 situa\u00e7\u00e3o que emitem esses t\u00edtulos podres de alto rendimento est\u00e3o numa pol\u00edtica de endividamento permanente: elas tomam empr\u00e9stimos para poderem reembolsar empr\u00e9stimos anteriores. \n<\/p><p>\nNo final de Dezembro de 2018, um grande crack bolsista quase estourou nos Estados Unidos e o efeito de cont\u00e1gio foi imediato. Foi um sinal adicional anunciador de um grande crack que est\u00e1 por vir. \n<\/p><p>\nO mercado imobili\u00e1rio nos Estados Unidos tornou-se novamente fr\u00e1gil: o pre\u00e7o dos im\u00f3veis aumentou 50% desde 2012 e o seu n\u00edvel ultrapassa aquele atingido pouco antes da crise que arrancou em 2005-2006 e provocou a grande crise internacional de 2008-2009. Alguns especialistas consideram que se poderia estar no in\u00edcio de uma nova crise imobili\u00e1ria pois a atividade come\u00e7a a desacelerar, as vendas de habita\u00e7\u00e3o diminuem. \n<\/p><p>\nA continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de flexibiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria (Quantitative Easing) na Europa, assim como a sua sa\u00edda nos EUA, s\u00e3o fatores de crise. \n<\/p><p>\nOs grandes bancos privados chamados sist\u00eamicos s\u00e3o extremamente fr\u00e1geis e o valor de suas a\u00e7\u00f5es caiu drasticamente tanto nos Estados Unidos como na Europa no segundo semestre de 2018, a queda continuou no primeiro trimestre de 2019. Os grandes bancos privados s\u00e3o sustentados com grande esfor\u00e7o pelo banco central do seu pa\u00eds. O Fed n\u00e3o honra seu compromisso de revender os t\u00edtulos de d\u00edvida privada t\u00f3xica (os famosos mortgage backed securities, MBS). Em Mar\u00e7o de 2019, ele detinha um volume enorme de US$1,6 milh\u00e3o de milh\u00f5es de MBS (ver www.federalreserve.gov\/releases\/h41\/current\/h41.pdf acessado em 17\/Mar\u00e7o\/2019) adquirido em 2008-2009 junto a grandes bancos privados a fim de salv\u00e1-los. O Fed sabe muito bem que se vendesse maci\u00e7amente esses t\u00edtulos, como prometera, o pre\u00e7o dos mesmos entraria em colapso e, na sequ\u00eancia disso o mercado obrigacionista dos Estados Unidos. Ele tamb\u00e9m sabe que, se elevasse a taxa de juros acima de 2,5% toda uma s\u00e9rie de empresas endividadas seria confrontada com s\u00e9rias dificuldades de reembolso \/ refinanciamento das suas d\u00edvidas. Sem mencionar que isso aumentaria igualmente o custo do reembolso da d\u00edvida p\u00fablica. \n<\/p><p>\nO BCE, por sua vez, continua a emprestar dinheiro aos bancos \u00e0 taxa de juros de 0% e acaba de lhes prometer n\u00e3o aumentar a taxa antes de 2020 (ver Martine Orange, &#8220;O BCE face aos seus limites&#8221;,www.mediapart.fr\/journal\/international\/080319\/la-bce-face-ses- limites? page_article = 1 publicado em 8\/Mar\u00e7o\/2019 e Delphine Cuny (La Tribune), &#8220;O BCE choca os mercados ao repelir a alta das taxas&#8221;, www.latribune.fr\/&#8230; [l-actu-du-jour] -20190308, publicado em 7\/Mar\u00e7o\/2019). Al\u00e9m disso, o BCE conceder\u00e1 aos bancos privados novos empr\u00e9stimos maci\u00e7os a m\u00e9dio e longo prazo, que no jarg\u00e3o s\u00e3o conhecidos como TLTRO (Targeted longer-term refinancing operations). Os bancos italianos e espanh\u00f3is s\u00e3o os mais dependentes (segundo o JPMorgan, eles representam 55% do montante emprestado quando do \u00faltimo TLTRO), mas como todos os bancos est\u00e3o interconectados, todos dependem mais ou menos diretamente. Acrescentemos que os bancos europeus utilizam maci\u00e7amente o dinheiro que recebem a taxas de juro zero para comprar t\u00edtulos da d\u00edvida soberana, preferencialmente de seu Estado e tamb\u00e9m de outros Estados europeus, o que lhes d\u00e1 um retorno positivo sobre t\u00edtulos considerados seguros por serem emitidos pelo Estado. \n<\/p><p>\nO entusiasmo dos bancos e dos outros atores nos mercados financeiros pelos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica \u00e9 impressionante: todos os Estados da zona euro conseguiram tomar emprestadas grandes somas de dinheiro nos primeiros tr\u00eas meses de 2019 (assim como em 2018). Cada an\u00fancio de um empr\u00e9stimo depara-se com um afluxo de ofertas de compra. Geralmente, quando um Estado quer contrair um empr\u00e9stimo de mil milh\u00f5es de euros, os bancos oferecem-lhe quatro, ou seja, tanto quanto eles t\u00eam em liquidez (a qual vem em grande medida dos bancos centrais ao seu servi\u00e7o). Isto mostra at\u00e9 que ponto desejam comprar t\u00edtulos p\u00fablicos remuneradores e seguros. Al\u00e9m disso, como expliquei em meu livro Bancocratie , o facto de comprar t\u00edtulos soberanos permite aos bancos aumentar artificialmente o r\u00e1cio dos seus fundos pr\u00f3prios em rela\u00e7\u00e3o ao seu balan\u00e7o gra\u00e7as ao sistema da pondera\u00e7\u00e3o dos ativos pelo risco (ver &#8220;Vai tudo bem&#8221;, www.cadtm.org\/Tout-va-tres-bien-madame-la e Bancocratie , cap\u00edtulo 12, Aden, Bruxelas, 2014). Mas assim que a crise tomar um rumo catastr\u00f3fico, os media dominantes e os banqueiros mais uma vez acusar\u00e3o os estados de fazerem demasiada despesa p\u00fablica e de emitir demasiada d\u00edvida p\u00fablica. \n<\/p><p>\nCrescimento muito fraco em geral, estagna\u00e7\u00e3o ou forte recess\u00e3o em uma s\u00e9rie de casos \n<\/p><p>\nO crescimento econ\u00f4mico nos pa\u00edses de industrializa\u00e7\u00e3o mais antiga continua em baixa e est\u00e1 a diminuir em v\u00e1rios pa\u00edses chave. Especialmente na Europa, onde, ap\u00f3s um pequeno crescimento em 2017, o ano de 2018 terminou com a estagna\u00e7\u00e3o e, no caso da Alemanha, uma queda na produ\u00e7\u00e3o industrial no quarto trimestre de 2018 e no primeiro trimestre de 2019 (Financial Times, &#8220;A produ\u00e7\u00e3o industrial alem\u00e3 cai inesperadamente&#8221;, 11\/Mar\u00e7o\/2019, www.ft.com\/content\/2e93cb1a-43ca-11e9-a965-23d669740bfb). As autoridades alem\u00e3s reduziram as previs\u00f5es de crescimento para 2019 para 1% (enquanto em 2016-2017 a taxa de crescimento anual ultrapassou os 2%). O investimento na UE demorou 12 anos para regressar ao seu n\u00edvel de 2007 antes do desencadeamento da crise (Financial Times, &#8220;O investimento da UE recupera o n\u00edvel anterior ao crash financeiro de 2008&#8221;, 9\/Mar\u00e7o\/2019). \n<\/p><p>\nNa zona do euro, o crescimento no terceiro trimestre de 2018 foi de apenas 0,2%, o mais baixo em quatro anos. A It\u00e1lia est\u00e1 em recess\u00e3o. A Fran\u00e7a experimenta uma pequena retomada gra\u00e7as ao ligeiro aumento no consumo que \u00e9 o resultado do movimento de coletes amarelos que levou Macron a n\u00e3o respeitar cegamente a disciplina or\u00e7amental (ver meu artigo: &#8220;Europa: desobedecer para executar uma alternativa favor\u00e1vel aos povos, 12\/Fevereiro\/2019,.org\/Europe-desobeir-pour-mettre-en-oeuvre-une-alternative-favorable-aux-peuples ) \n<\/p><p>\nNo Jap\u00e3o, o crescimento no per\u00edodo de Abril\/2018 \u2013 Mar\u00e7o\/2019 \u00e9 cerca de 0,9%, tamb\u00e9m em baixa em rela\u00e7\u00e3o a 2017. A economia dos EUA est\u00e1 igualmente em desacelera\u00e7\u00e3o, o FMI prev\u00ea um crescimento de 2,5% em 2019 contra 2,9% em 2018. Outros peritos preveem um crescimento menor. Isso levou a Reserva Federal dos EUA a suspender provisoriamente o aumento das taxas de juros iniciado no final de 2016. \n<\/p><p>\nO crescimento chin\u00eas est\u00e1 desacelerando, apesar de a China continuar a desempenhar o papel de locomotiva global. Este estaria em torno de 6%, o menor em 25 anos. Na China, uma crise financeira pode eclodir a qualquer momento, fazendo cair o crescimento interno e mundial, agravando as condi\u00e7\u00f5es de vida de centenas de milh\u00f5es de chineses\/as. \n<\/p><p>\nA economia dos outros BRICs tamb\u00e9m est\u00e1 desacelerando, com exce\u00e7\u00e3o da \u00cdndia, que experimenta uma taxa de crescimento de pouco mais de 7%. A R\u00fassia est\u00e1 experimentando um crescimento muito fraco, da ordem dos 1,2% em 2018 e uma previs\u00e3o de 1,3% para 2019. A \u00c1frica do Sul caiu em recess\u00e3o no primeiro semestre de 2018, experimentando uma pequena retomada. O Brasil, que experimentou uma forte recess\u00e3o em 2015-2016, recuperou algum crescimento, mas este \u00e9 muito fraco, pouco mais de 1% em 2018. \n<\/p><p>\nCrises muito fortes j\u00e1 est\u00e3o atingindo uma s\u00e9rie de pa\u00edses ditos emergentes: Turquia, Argentina, Venezuela,&#8230; Desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda, grandes dificuldades para continuar o reembolso da d\u00edvida externa p\u00fablica e privada. \n<\/p><p>\nUma s\u00e9rie de pa\u00edses perif\u00e9ricos entre os mais pobres enfrenta uma aguda crise da d\u00edvida (Mo\u00e7ambique,&#8230;). Isto n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o come\u00e7o de uma lista que se vai alongar. \n<\/p><p>\nApesar deste crescimento econ\u00f4mico muito fraco no n\u00edvel mundial, nomeadamente nas principais pot\u00eancias industriais poluidoras, os factores que impulsionam a acelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o se atenuam. Temos provas tang\u00edveis diante de n\u00f3s dos efeitos da perturba\u00e7\u00e3o e do aquecimento global por todo o mundo [NR] . Diante desta crise, cujas consequ\u00eancias dram\u00e1ticas est\u00e3o a aumentar, os governos apegam-se a promessas puramente ret\u00f3ricas, o que felizmente leva a fortes rea\u00e7\u00f5es na popula\u00e7\u00e3o em geral e entre os jovens em particular. \n<\/p><p>\nResumo da a\u00e7\u00e3o do BCE \n<\/p><p>\nDesde o in\u00edcio da crise em 2007-2008, o BCE desempenhou um papel vital no resgate dos grandes bancos privados, dos seus grandes acionistas e principais dirigentes, garantindo-lhes a continuidade dos seus privil\u00e9gios. Pode-se afirmar sem risco de engano que, sem a a\u00e7\u00e3o do BCE, grandes bancos teriam falido, o que teria for\u00e7ado os governos a tomar fortes medidas coercivas contra seus administradores e acionistas maiorit\u00e1rios. Deve acrescentar-se que a a\u00e7\u00e3o do BCE refor\u00e7ou a concentra\u00e7\u00e3o do sector banc\u00e1rio em benef\u00edcio de uma vintena de grandes bancos que desempenham um papel dominante. O BCE contribuiu ativamente para manter e desenvolver monstros banc\u00e1rios demasiado grandes para irem \u00e0 fal\u00eancia. Al\u00e9m do resgate dos principais acionistas dos bancos, o BCE prossegue oficialmente o objectivo de uma infla\u00e7\u00e3o de 2%. Deste ponto de vista, o balan\u00e7o do BCE \u00e9 um fracasso, uma vez que a taxa de infla\u00e7\u00e3o na Zona Euro em 2018 atingiu apenas 1,6% e est\u00e1 em baixa no primeiro trimestre de 2019. \n<\/p><p>\nTr\u00eas objetivos adicionais da a\u00e7\u00e3o do BCE podem resumir-se da seguinte forma: \n<\/p><p>\nDefender o euro, que \u00e9 uma camisa de for\u00e7a para as economias mais fracas da zona do euro e para todos os povos europeus. O euro \u00e9 um instrumento a servi\u00e7o das grandes empresas privadas e das classes dominantes europeias (os 1% mais ricos). Os pa\u00edses que fazem parte da zona euro n\u00e3o podem desvalorizar a sua moeda desde que adotaram o euro. Mas os pa\u00edses mais fracos da zona euro teriam vantagem em desvalorizar a fim de recuperar a competitividade frente aos gigantes econ\u00f4micos alem\u00e3es, franceses, do Benelux (B\u00e9lgica, Holanda, Luxemburgo) e da \u00c1ustria. Pa\u00edses como a Gr\u00e9cia, Portugal, Espanha ou It\u00e1lia ficam assim presos pela sua perten\u00e7a \u00e0 zona euro. As autoridades europeias e seus governos nacionais aplicam portanto o que \u00e9 chamado de desvaloriza\u00e7\u00e3o interna: elas imp\u00f5em uma redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios para o benef\u00edcio exclusivo dos acionistas das grandes empresas privadas. A desvaloriza\u00e7\u00e3o interna \u00e9 sin\u00f4nima de redu\u00e7\u00e3o salarial. \n<\/p><p>\nRefor\u00e7ar a domina\u00e7\u00e3o das economias europeias mais fortes (Alemanha, Fran\u00e7a, Benelux, &#8230;) onde as maiores empresas privadas europeias est\u00e3o sediadas. Isto implica manter fortes assimetrias entre as economias mais fortes e mais fracas. \n<\/p><p>\nParticipar e apoiar de forma ofensiva os ataques do Capital contra o Trabalho, a fim de aumentar os lucros das empresas e tornar as grandes empresas europeias mais competitivas no mercado mundial face aos seus concorrentes estado-unidenses, chineses, japoneses, coreanos,&#8230; S\u00e3o m\u00faltiplos os exemplos de interven\u00e7\u00e3o do BCE para atingir este objectivo na It\u00e1lia, Gr\u00e9cia, Chipre, Portugal, Irlanda, Espanha,&#8230; \n<\/p><p>\nO encarni\u00e7amento do BCE para contribuir para os ataques contra os de baixo vem mais uma vez exprimir-se muito claramente. Em mar\u00e7o de 2019, o BCE e os bancos do Eurossistema recusaram-se a devolver \u00e0 Gr\u00e9cia parte dos lucros obtidos nas costas do povo grego [2] sob o pretexto de que o governo de Alexis Tsipras n\u00e3o havia aprofundado suficientemente as contrarreformas sociais. Trata-se nomeadamente da vontade do BCE de suprimir os \u00faltimos obst\u00e1culos ao despejo de fam\u00edlias gregas incapazes de continuar a pagar a d\u00edvida hipotec\u00e1ria da sua resid\u00eancia principal. Nada \u00e9 poupado em sacrif\u00edcios ao povo grego, que constitui uma v\u00edtima inerme da Troika no seio da qual o BCE desempenha um papel chave. \n<\/p><p>\nA necessidade de solu\u00e7\u00f5es radicais \n<\/p><p>\nA nova crise financeira que surge faz parte de um contexto mais amplo de uma crise sist\u00eamica do capitalismo global. Esta crise sist\u00eamica \u00e9 multidimensional: econ\u00f4mica, ecol\u00f3gica, social, pol\u00edtica, moral, institucional,&#8230; \n<\/p><p>\n\u00c9 preciso romper de modo radical com a l\u00f3gica que orienta os governos em vigor e tomar medidas de urg\u00eancia. Em contraste com o atual sistema que oferece impunidade e paraquedas dourados aos respons\u00e1veis das derrocadas, \u00e9 necess\u00e1rio fazer com que paguem a fatura dos resgates banc\u00e1rios aqueles e aquelas que s\u00e3o os respons\u00e1veis. \n<\/p><p>\nAs medidas anunciadas para disciplinar os bancos s\u00e3o cosm\u00e9ticas. Supervis\u00e3o centralizada dos bancos da zona euro, cria\u00e7\u00e3o de um Fundo Europeu de Garantia de Dep\u00f3sitos, proibi\u00e7\u00e3o de certas opera\u00e7\u00f5es (que afetam apenas 2% da atividade banc\u00e1ria global), limites m\u00e1ximos dos b\u00f4nus, transpar\u00eancia das atividades banc\u00e1rias ou ainda as novas regras de Basileia III constituem apenas recomenda\u00e7\u00f5es, promessas ou, na melhor das hip\u00f3teses, medidas totalmente insuficientes em rela\u00e7\u00e3o aos problemas a serem resolvidos. Mas \u00e9 preciso impor regras muito estritas e incontorn\u00e1veis. \n<\/p><p>\nEsta crise deveria ser superada pela realiza\u00e7\u00e3o de medidas que afetassem a pr\u00f3pria estrutura do mundo das finan\u00e7as e do sistema capitalista [3] . \n<\/p><p>\nA atividade banc\u00e1ria \u00e9 demasiado s\u00e9ria para ser deixada nas m\u00e3os do setor privado. \u00c9 necess\u00e1rio socializar o setor banc\u00e1rio (o que implica na sua expropria\u00e7\u00e3o) e coloc\u00e1-lo sob controle cidad\u00e3o (dos assalariados dos bancos, dos clientes, das associa\u00e7\u00f5es e dos representantes de atores p\u00fablicos locais), pois ele deve ser submetido \u00e0s regras de um servi\u00e7o p\u00fablico e as receitas que a sua atividade gera devem ser utilizadas para o bem comum. \n<\/p><p>\nA d\u00edvida p\u00fablica incorrida para salvar os bancos \u00e9 claramente ileg\u00edtima e deve ser repudiada. Uma auditoria cidad\u00e3 deve determinar as outras d\u00edvidas ileg\u00edtimas, ilegais, odiosas, insustent\u00e1veis&#8230; e permitir uma mobiliza\u00e7\u00e3o tal que uma alternativa anticapitalista cr\u00edvel possa tomar forma. \n<\/p><p>\nEstas duas medidas devem fazer parte de um programa mais amplo que j\u00e1 esbo\u00e7amos alhures. Ver: Coletes Amarelos: Aprender com a Hist\u00f3ria e agir no Presente www.cadtm.org\/Gilets-jaunes-apprendre-de-l-histoire-et-agir-dans-le-present \n<\/p><p>\nOs bancos centrais precisam ser radicalmente refundados, suas miss\u00f5es devem ser redefinidas. Eles devem retomar o papel da cria\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria em favor do setor p\u00fablico e contribuir ativamente para o financiamento da transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e para a luta contra a injusti\u00e7a social. \n<\/p><p>\nA mobiliza\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e a auto-organiza\u00e7\u00e3o social constituem a condi\u00e7\u00e3o sine qua non para a realiza\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias solu\u00e7\u00f5es propostas. \n<\/p><p>\n18\/Mar\u00e7o\/2019\n[1] Estou de acordo com a conclus\u00e3o do artigo de Fran\u00e7ois Chesnais j\u00e1 mencionado: &#8220;Em primeiro lugar, s\u00e3o as pol\u00edticas p\u00fablicas de austeridade por toda a parte, mas tamb\u00e9m uma configura\u00e7\u00e3o em que empresas e retalhistas de massa devem persuadir as fam\u00edlias cujo poder de compra estagna a comprar, al\u00e9m das necessidades quotidianas, coisas que j\u00e1 possuem. Paralelamente nas cadeias mundiais de valor, os que d\u00e3o ordens pressionam cada vez mais pressionando os subcontratados e os transportadores mar\u00edtimos e rodovi\u00e1rios ao longo de toda a cadeia. A curva da acumula\u00e7\u00e3o do capital dinheiro portador de juros refor\u00e7a o peso econ\u00f4mico e pol\u00edtico em todos os pa\u00edses dos gestores de fundos e fortunas e dos administradores dos grupos industriais e comerciais financeiros ligados apenas \u00e0 seguran\u00e7a dos fluxos de juros e \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de dividendos. Assim, os processos contracionistas que dominam a economia mundial s\u00e3o acompanhados por uma acelera\u00e7\u00e3o da dilapida\u00e7\u00e3o dos recursos minerais, da desfloresta\u00e7\u00e3o e do esgotamento dos solos. Paralelamente, o montante dos investimentos p\u00fablicos exigidos por qualquer &#8220;transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica&#8221; \u00e9 inating\u00edvel sem o cancelamento das d\u00edvidas p\u00fablicas, o que \u00e9 mais do que nunca uma reivindica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica absolutamente central&#8221;. \n[2] Em rela\u00e7\u00e3o aos lucros odiosos realizados pelo BCE nas costas do povo grego, ver: Eric Toussaint, &#8220;Os lucros odiosos do BCE nas costas do povo grego&#8221;, \/www.cadtm.org\/The-profits -a-ECB-on publicada a 13\/Outubro\/2017 e &#8220;A pol\u00edtica da Troika na Gr\u00e9cia: Roubar o povo grego e dar dinheiro aos bancos privados, ao BCE, ao FMI e aos Estados que dominam a zona euro &#8220;, Politics-of-Troika-Grece-Flying-the-People-Grece-and-Giving-the-Silver-Published 20\/Agosto\/2018 \n[3] Estou plenamente de acordo com a orienta\u00e7\u00e3o do artigo de Michael Roberts: &#8220;Estagna\u00e7\u00e3o laica, pol\u00edtica monet\u00e1ria e John Law&#8221;, www.anti-k.org\/2019\/03\/16\/stagnation-laique-politique-monetaire-et-john-law\/ consultado em 17\/Mar\u00e7o\/2019. \n<\/p><p>\n<\/p><p>\n[*] Doutorado em ci\u00eancias pol\u00edticas pelas universidades de Li\u00e8ge e Paris VIII, porta-voz do CADTM internacional e membro do Conselho Cient\u00edfico da ATTAC Fran\u00e7a. Autor de Le Syst\u00e8me Dette. Histoire des dettes souveraines et de leur r\u00e9pudiation , Les liens qui lib\u00e8rent, 2017; Bancocratie , ADEN, Bruxelles, 2014;Proc\u00e8s d&#8217;un homme exemplaire , \u00c9ditions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d&#8217;\u0153il dans le r\u00e9troviseur. L&#8217;id\u00e9ologie n\u00e9olib\u00e9rale des origines jusqu&#8217;\u00e0 aujourd&#8217;hui , Le Cerisier, Mons, 2010. \u00c9 co-autor com Damien Millet de AAA, Audit, Annulation, Autre politique , Le Seuil, Paris, 2012; La dette ou la vie , Aden\/CADTM, Bruxelles, 2011. \n<\/p><p>\nO original encontra-se em www.cadtm.org\/La-crise-economique-et-les-banques-centrales \n<\/p><p>\nEste artigo encontra-se em https:\/\/www.resistir.info\/financas\/toussaint_bcentrais_18mar19_p.html\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22698\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[228],"class_list":["post-22698","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5U6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22698"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22698\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}