{"id":22766,"date":"2019-04-07T19:39:52","date_gmt":"2019-04-07T22:39:52","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22766"},"modified":"2019-04-07T19:40:02","modified_gmt":"2019-04-07T22:40:02","slug":"220-anos-de-falacias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22766","title":{"rendered":"220 anos de fal\u00e1cias"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/brasil\/imagens\/prev_fim_bh_22mar19.jpg\"\/><!--more-->RESISTIR.INFO\nDa &#8220;explos\u00e3o demogr\u00e1fica&#8221; ao &#8220;envelhecimento populacional&#8221;\npor Henrique J\u00fadice Magalh\u00e3es\n<\/p><p>\n1\n<\/p><p>\nA contrarreforma previdenci\u00e1ria tem como pretexto o envelhecimento populacional. Da mudan\u00e7a do perfil et\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o pela queda da natalidade e aumento da expectativa de vida, todo o arco parlamentar e seus intelectuais org\u00e2nicos concluem ser preciso aumentar idade e tempo de contribui\u00e7\u00e3o para aposentadoria e reduzir seu valor. Se cresce o n\u00famero de idosos \u2013 dizem \u2013, devem-se reduzir seus direitos. O objetivo \u00e9 congelar a parcela da renda [NR] nacional destinada a eles. \n<\/p><p>\nNa exposi\u00e7\u00e3o de motivos da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 6\/2019, o ministro da Economia, Paulo Guedes, diz que ela atende \u00e0 &#8220;indispens\u00e1vel busca por um ritmo sustent\u00e1vel de crescimento das despesas com previd\u00eancia em meio a um contexto de r\u00e1pido e intenso envelhecimento populacional&#8221;. Na PEC 287\/2016, do governo Temer, o ent\u00e3o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, dizia que o Brasil &#8220;vem passando por um processo acelerado de envelhecimento populacional&#8221;. \n<\/p><p>\nJ\u00e1 Guido Mantega, Garibaldi Alves Filho e Miriam Belchior \u2013 ministros, respectivamente, da Fazenda, Previd\u00eancia e Planejamento de Dilma Roussef \u2013 , pretenderam justificar, no fim de 2014, a Medida Provis\u00f3ria 664 (contra inv\u00e1lidos, deficientes e vi\u00favas) alegando &#8220;aumento da participa\u00e7\u00e3o dos idosos na popula\u00e7\u00e3o total e uma piora da rela\u00e7\u00e3o entre contribuintes e benefici\u00e1rios&#8221;. \n<\/p><p>\nNenhum deles leva em conta que 1\/3 dos assalariados brasileiros trabalha sem carteira assinada, como mostram sucessivas edi\u00e7\u00f5es da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (PNAD) do IBGE. Nem que, somando a isso os 12% de desemprego aberto (s\u00f3 pessoas que procuraram trabalho na semana de refer\u00eancia da PNAD), chegamos a quase metade da popula\u00e7\u00e3o assalariada. Ou que os exportadores est\u00e3o isentos de contribuir para o INSS. A revoga\u00e7\u00e3o desse privil\u00e9gio, a cria\u00e7\u00e3o de empregos e uma fiscaliza\u00e7\u00e3o trabalhista eficiente cobririam, no todo ou em boa parte, o d\u00e9ficit que o governo diz que o INSS tem. \n<\/p><p>\nMas deixemos tudo isso de lado. \n<\/p><p>\n2\n<\/p><p>\nO indicador da propor\u00e7\u00e3o entre as pessoas em idade de trabalhar e aquelas que n\u00e3o devem faz\u00ea-lo e a quem o Estado deve prover cuidados pagos com o produto do trabalho das demais se chama raz\u00e3o de depend\u00eancia. O IBGE considera que a idade de trabalho \u00e9 dos 15 aos 64 anos, apesar de a Constitui\u00e7\u00e3o determinar escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria at\u00e9 os 17 e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) considerar que, em pa\u00edses &#8220;em desenvolvimento&#8221;, uma pessoa \u00e9 idosa a partir dos 60. Mesmo inexatos \u00e0 luz desses aspectos, os dados abaixo retratam bem como evoluiu no tempo a raz\u00e3o de depend\u00eancia em nosso pa\u00eds: \n<\/p><p>\n<table><tbody><tr><td>Ano<\/td><td>Raz\u00e3o de Depend\u00eancia (%)<\/td><\/tr><tr><td>1940<\/td><td>87,5<\/td><\/tr><tr><td>1950<\/td><td>85,5<\/td><\/tr><tr><td>1960<\/td><td>90,2<\/td><\/tr><tr><td>1970<\/td><td>89,3<\/td><\/tr><tr><td>1980<\/td><td>79,7<\/td><\/tr><tr><td>1990<\/td><td>71,7<\/td><\/tr><tr><td>2000<\/td><td>61<\/td><\/tr><tr><td>2010<\/td><td>55,2<\/td><\/tr><tr><td>2020 (proje\u00e7\u00e3o feita em 2008)<\/td><td>50,9<\/td><\/tr><\/tbody><\/table>\n<\/p><p>\nFonte: IBGE <https:\/\/seriesestatisticas.ibge.gov.br\/series.aspx?vcodigo=CD95>\n<\/p><p>\nComo se v\u00ea, ela cai fortemente desde 1940. Em 2020, ser\u00e1 a menor da hist\u00f3ria . Mesmo que se considerem as proje\u00e7\u00f5es para anos mais distantes, chegaria a 75,1% em 2050. N\u00e3o est\u00e1 num horizonte vis\u00edvel que volte sequer ao que era em 1980 (79,7%). \n<\/p><p>\nMas como, se a &#8221; a expectativa de vida ao nascer passou de 45 anos em 1940, para 76 anos hoje &#8221; e a &#8221; expectativa de sobrevida aos 65 anos cresceu de cerca de 10,6 anos em 1940, para 18,7 anos em 2017 &#8220;, segundo dados do IBGE citados na PEC 6?! \n<\/p><p>\nSimples: pela forte queda da taxa de natalidade, que &#8221; em 1960, era cerca de 6 filhos por mulher, reduzindo-se para menos de 1,8 atualmente &#8220;, como consta da mesma proposta. A propor\u00e7\u00e3o de idosos cresce num ritmo menor que aquele em que a cai a de crian\u00e7as. Logo, a eleva\u00e7\u00e3o da despesa p\u00fablica relacionada \u00e0 terceira idade \u00e9 compensada (ainda que n\u00e3o se possa calcular precisamente em que medida) pela redu\u00e7\u00e3o quantitativa da demanda concernente \u00e0 inf\u00e2ncia e \u00e0 adolesc\u00eancia. \n<\/p><p>\nComo o sistema educacional e a sa\u00fade materno-infantil n\u00e3o s\u00e3o financiados por contribui\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, ningu\u00e9m pensou, na d\u00e9cada de 1960, em calcular o &#8220;d\u00e9ficit&#8221; desses servi\u00e7os p\u00fablicos, nem quantos contribuintes diretos ou trabalhadores aptos a gerar riqueza havia para cada crian\u00e7a, como fazem, hoje, com as aposentadorias e pens\u00f5es. O resultado teria sido bem mais aterrador que a proje\u00e7\u00e3o de 1 (um) contribuinte por benefici\u00e1rio que consta da PEC 6 para a Previd\u00eancia em 2040. \n<\/p><p>\n3\n<\/p><p>\nO que n\u00e3o muda \u00e9 o terrorismo demogr\u00e1fico baseado em fal\u00e1cias. Desde que Thomas Malthus escreveu seu primeiro Ensaio sobre o Princ\u00edpio da Popula\u00e7\u00e3o , e por uns 200 anos, seu foco foi as crian\u00e7as. H\u00e1 pouco mais de 20, s\u00e3o os idosos. O capitalismo tem um problema insol\u00favel com ambos: a exist\u00eancia de pessoas que n\u00e3o produzem, n\u00e3o comp\u00f5em reservas de m\u00e3o-de-obra para baixar sal\u00e1rios, n\u00e3o est\u00e3o aptas a matar numa guerra e precisam de cuidados \u00e9 disfuncional para ele. \n<\/p><p>\nPor isso, quer joga-las ou mant\u00ea-las no mercado de for\u00e7a de trabalho. No Brasil, fez isso com as crian\u00e7as baixando a idade m\u00ednima legal de trabalho para 12 anos em 1967 e deixando, desde sempre, de coibir o trabalho antes dela. Com a eleva\u00e7\u00e3o da idade m\u00ednima constitucional expl\u00edcita de trabalho para 16 anos (14 como aprendiz) e a exist\u00eancia, hoje, de um pouco de fiscaliza\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia quanto ao trabalho infantil, ataca os idosos, impondo ou aumentando idades de aposentadoria. \n<\/p><p>\nA redu\u00e7\u00e3o da natalidade foi, no Brasil, uma pol\u00edtica extraoficial do Estado p\u00f3s-64, imposta pelos EUA a partir do Memorando 200 de seu Conselho de Seguran\u00e7a Nacional, intitulado &#8221; Consequ\u00eancias do Crescimento da Popula\u00e7\u00e3o Mundial sobre a Seguran\u00e7a e os Interesses Transcontinentais dos Estados Unidos &#8221; (AND 36 [1] ). Que os mesmos grupos de interesses se mostrem agora t\u00e3o preocupados com o envelhecimento (consequ\u00eancia do que fizeram), traz \u00e0 mente a tradicional advert\u00eancia: &#8220;cuidado com os seus desejos, eles podem se tornar realidade&#8221;. \n<\/p><p>\n4\n<\/p><p>\nNo interessante estudo As tend\u00eancias da popula\u00e7\u00e3o mundial: rumo ao crescimento zero [2] , os dem\u00f3grafos Fausto Brito, Jos\u00e9 Alberto Magno de Carvalho, C\u00e1ssio Turra e Bernardo Lanza Queiroz observam que &#8221; especialistas, institui\u00e7\u00f5es e pa\u00edses envolvidos com as quest\u00f5es demogr\u00e1ficas sequer imaginavam que os anos 1980 poderiam apresentar inflex\u00e3o no crescimento absoluto da popula\u00e7\u00e3o mundial. Estavam extremamente preocupados com a velocidade do crescimento, tendo como refer\u00eancia as taxas das tr\u00eas primeiras d\u00e9cadas da segunda metade do s\u00e9culo &#8220;. \n<\/p><p>\n&#8221; Caso prevalecesse a taxa de crescimento dos anos 1960 &#8221; \u2013 prosseguem \u2013 , &#8221; chegar-se-ia, em 2050, a uma popula\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima de 18,5 mil milh\u00f5es de habitantes, um pouco mais que o dobro das proje\u00e7\u00f5es revistas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, 9,1 mil milh\u00f5es &#8220;. \n<\/p><p>\nSe as proje\u00e7\u00f5es baseadas na alta natalidade dos anos 50\/60 n\u00e3o se concretizaram, n\u00e3o h\u00e1 porque pensar que as de agora, relacionadas em sua queda, necessariamente se concretizar\u00e3o. Ambas s\u00f3 retratam a tend\u00eancia do momento em que s\u00e3o formuladas. Um pa\u00eds menos in\u00f3spito que o Brasil de hoje atrairia imigrantes jovens e despertaria neles e nos brasileiros o desejo de ter mais filhos \u2013 algo que muita gente n\u00e3o se permite na horr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o atual. \n<\/p><p>\n1. Ver anovademocracia.com.br\/no-36\/252-crimes-de-guerra-em-tempos-de-qpazq . \u00cdntegra do documento em ingl\u00eas: pdf.usaid.gov\/pdf_docs\/Pcaab500.pdf \n2. www.ufjf.br\/&#8230; \n<\/p><p>\n[NR] No Brasil chamam de renda a qualquer esp\u00e9cie de rendimento. \n<\/p><p>\nVer tamb\u00e9m: \nBanqueiros s\u00e3o os maiores defensores da Reforma da Previd\u00eancia \n<\/p><p>\nO original encontra-se em anovademocracia.com.br\/&#8230; \n<\/p><p>\nhttps:\/\/resistir.info\/brasil\/previdencia_demografia.html\n\n\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22766\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-22766","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Vc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22766","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22766"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22766\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}