{"id":22860,"date":"2019-04-19T03:32:48","date_gmt":"2019-04-19T06:32:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22860"},"modified":"2019-04-19T03:32:54","modified_gmt":"2019-04-19T06:32:54","slug":"capitalizacao-no-chile-miseria-e-desnacionalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22860","title":{"rendered":"Capitaliza\u00e7\u00e3o no Chile: mis\u00e9ria e desnacionaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/dialogosdosul.operamundi.uol.com.br\/thumb\/ZjdmOWRjYzhlY2Y1ZjBhMjA1N2IzMTRkZjJkZDVjMWVfMzA4ZTg1YTQ4ZjgxMjcwMjA2MGUxYmU5NWQzN2I1YWEucG5n\"\/><!--more-->O fracasso \u00e9 ostensivo. A maioria das pens\u00f5es que se pagam s\u00e3o inferiores ao sal\u00e1rio m\u00ednimo\n<\/p><p>\nLeonardo Wexell Severo\nFelipe Bianchi\nSantiago (Chile)\n<\/p><p>\nDi\u00e1logos do Sul\nEconomista formado na Universidade Cat\u00f3lica do Chile, Marco Kreimerman \u00e9 representante da Funda\u00e7\u00e3o Sol \u2013 refer\u00eancia no debate sobre as Administradoras de Fundos de Pens\u00e3o (AFP) \u2013 onde \u00e9 pesquisador da \u00e1rea de Institucionalidade e Desenvolvimento.\n<\/p><p>\nKremerman recebeu a reportagem do ComunicaSul, dia 12 de abril, na sede da entidade para falar das consequ\u00eancias da \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia p\u00fablica chilena\u201d e alertar os brasileiros para o descaminho, \u201cem benef\u00edcio de seis grandes companhias, na maior parte estrangeiras, que passam a multiplicar seus ganhos enquanto espalham a mis\u00e9ria em larga escala\u201d.\n<\/p><p>\nEspecialista em Rela\u00e7\u00f5es do Trabalho na Universidade de Castilla-La Mancha (Espanha) e em Desenvolvimento Econ\u00f4mico no Centro de Forma\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) em Turim (It\u00e1lia), al\u00e9m de mestre pela Universidade de Bologna (It\u00e1lia), Kremerman notabilizou-se pelos estudos nas \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o, pobreza, desigualdade e trabalho.\n<\/p><p>\nTamb\u00e9m foi assessor do Minist\u00e9rio do Trabalho e Previs\u00e3o Social do Chile (2007-2010), consultor da OIT e da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Cultura (Unesco).\n<\/p><p>\nTrabalhador contribui, AFP lucra\nPara n\u00f3s, da Funda\u00e7\u00e3o Sol, o centro da quest\u00e3o \u00e9 o trabalho e a Seguridade Social. Em um amplo processo de forma\u00e7\u00e3o ao lado de organiza\u00e7\u00f5es sociais e sindicais, temos estudado h\u00e1 muitos anos as consequ\u00eancias e os resultados do sistema de capitaliza\u00e7\u00e3o individual chileno.\n<\/p><p>\n\u00c9 um sistema que existe em muito poucos pa\u00edses, cujo pilar contributivo para a aposentadoria est\u00e1 calcado, exclusivamente, em contas individuais, o que \u00e9 um paradigma.\n<\/p><p>\nAlguns pa\u00edses, n\u00e3o muitos, privatizaram parte de seus sistemas de Previd\u00eancia, mas s\u00e3o bem diferentes do sistema chileno, no qual 100% das contribui\u00e7\u00f5es feitas pelos trabalhadores e trabalhadoras v\u00e3o para contas individuais.\n<\/p><p>\nEste sistema do Chile est\u00e1 fracassado. E este fracasso est\u00e1 se estendendo aos poucos pa\u00edses que, de 1981 at\u00e9 hoje, privatizaram parcialmente ou totalmente seus sistemas de Previd\u00eancia. Isto \u00e9 demonstrado no \u00faltimo informe da OIT: de 30 pa\u00edses que privatizaram parcial ou totalmente seus sistemas nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, 18 voltaram para um sistema p\u00fablico devido ao completo fracasso da privatiza\u00e7\u00e3o.\n<\/p><p>\nNo Chile, o fracasso \u00e9 ostensivo. A maioria das pens\u00f5es que se pagam s\u00e3o inferiores ao sal\u00e1rio m\u00ednimo. S\u00e3o aposentadorias mais baixas que as de pessoas que se aposentaram quatro ou cinco anos atr\u00e1s, porque o sistema simplesmente n\u00e3o permite que os cidad\u00e3os tenham uma realidade parecida \u00e0 de quando contribu\u00edam enquanto trabalhavam. \n<\/p><p>\nA promessa era de que as pessoas teriam uma taxa de retorno de at\u00e9 80%. Ou seja, as pessoas teriam uma aposentadoria no valor de 80% do seu \u00faltimo sal\u00e1rio. Na pr\u00e1tica, o que acontece no Chile \u00e9 que as pessoas aposentadas recebem menos de 20% deste valor, pois a rentabilidade fica com as AFP.\n<\/p><p>\n96% do PIB nas m\u00e3os dos especuladores\n<\/p><p>\nO sistema de Previd\u00eancia chileno fracassou para os aposentados, pois entrega pens\u00f5es miser\u00e1veis, mas \u00e9 um tremendo \u00eaxito para os grandes grupos econ\u00f4micos nacionais e internacionais que recebem esse fluxo de dinheiro.\n<\/p><p>\nPor qu\u00ea? Pois hoje em dia, as AFP est\u00e3o administrando cerca de 220 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, o equivalente a cerca de 75% de toda a economia chilena, ou seja, do Produto Interno Bruto (PIB) do pa\u00eds. Se somarmos a isso os recursos administrados pelas companhias de seguro, que oferecem outra modalidade de aposentadoria, estamos falando de cerca de 96% do PIB chileno &#8211; um montante administrado pelas AFP e pelas companhias de seguro. Os bancos nacionais e internacionais, grandes grupos econ\u00f4micos, repassam cerca de 42% desse dinheiro ao estrangeiro. \u00c9 um processo de acumula\u00e7\u00e3o por expropria\u00e7\u00e3o.\n<\/p><p>\nO que acontece \u00e9 que, al\u00e9m do lucro, o capital, neste caso, abocanha tamb\u00e9m parte dos sal\u00e1rios para acumula\u00e7\u00e3o, para enriquecer ainda mais. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que 1% dos chilenos, os mais ricos, concentram 33% da renda do pa\u00eds, um dos n\u00fameros mais altos a n\u00edvel mundial.\n<\/p><p>\nDesnacionaliza\u00e7\u00e3o da Economia\nOs grupos transnacionais que participam deste neg\u00f3cio se beneficiam de duas maneiras. Em primeiro lugar, a maioria dos donos das seis AFP que operam no Chile &#8211; a partir de 15 de abril, ser\u00e3o sete &#8211; s\u00e3o companhias de seguro multinacionais. Estamos falando de tr\u00eas companhias de seguros dos Estados Unidos (Habitat, que operam US$ 57,7 bilh\u00f5es; Provida, US$ 53 bilh\u00f5es; e Cuprum, US$ 41,4 bilh\u00f5es). Al\u00e9m delas, h\u00e1 a colombiana AFP Capital, que maneja US$ 40,6 bilh\u00f5es, e a italiana Plan Vital, com US$ 7,2 bilh\u00f5es. H\u00e1 apenas uma empresa 100% chilena, que \u00e9 a Modelo, cuja fatia corresponde \u00e0 US$ 10,6 bilh\u00f5es. A nova AFP que se incorporar\u00e1 agora, em abril de 2019, tamb\u00e9m ser\u00e1 chilena.\n<\/p><p>\nO que significa isso? Que h\u00e1 um grande lobby do capital internacional entranhado no neg\u00f3cio das aposentadorias no Chile. Ao mesmo tempo, o neg\u00f3cio principal dos administradores de fundos de pens\u00e3o \u00e9 investir o dinheiro dos contribuintes. E \u00e9 importante perguntarmos: onde se investe esse dinheiro? Bem, perto de 43% dos 220 bilh\u00f5es de d\u00f3lares que administram as AFP, ou seja, cerca de 90 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, deixam de ser investidos no Chile para serem investidos fora. Temos, ent\u00e3o, um c\u00edrculo virtuoso do grande capital mundial e transnacional, que impede e pressiona para que o Chile mantenha as coisas como est\u00e3o e siga sem um sistema de Seguridade Social. O sistema que temos \u00e9 um mercado de contas de poupan\u00e7a de contribui\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, o que est\u00e1 muito longe de ser um sistema de Seguridade Social e, sequer, um sistema misto.\n<\/p><p>\nIsto \u00e9 muito doloroso, pois os cidad\u00e3os e cidad\u00e3s chilenos, quando chegam na idade de aposentar-se, precisam seguir trabalhando e est\u00e3o geralmente endividados. A quantidade de aumento da inadimpl\u00eancia, do n\u00famero de pessoas que n\u00e3o conseguem quitar suas d\u00edvidas, \u00e9 extremamente alta na terceira idade, porque essas pessoas n\u00e3o t\u00eam renda suficiente para fazer frente \u00e0s suas vidas, \u00e0s suas necessidades.\n<\/p><p>\nA dinheirama do BTG Pactual\nO BTG Pactual [banco que tem v\u00ednculos hist\u00f3ricos com o ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes] recebe recursos diretamente dos fundos de pens\u00e3o, pois o grupo tem um banco no Chile e conta com um fundo de investimento. As AFP podem investir em a\u00e7\u00f5es de empresas, b\u00f4nus de d\u00edvidas de empresa, instrumentos financeiros vinculados a bancos e, tamb\u00e9m, em fundos de investimentos. Atualmente, as AFPs investem 1,13 bilh\u00e3o de d\u00f3lares em empresas do Grupo BTG Pactual e 6,158 bilh\u00f5es de d\u00f3lares no Ita\u00fa.\n<\/p><p>\nNo Chile, existe o &#8220;retiro programado&#8221;: as pessoas, no momento de se aposentar, deixam todo o seu dinheiro com as AFP. As AFP seguem investindo esse dinheiro e pagando as pessoas. A outra modalidade \u00e9 a renda vital\u00edcia, na qual a pessoa, para n\u00e3o enfrentar os riscos do mercado financeiro, opta por uma aposentadoria mais est\u00e1vel. As pessoas transferem seus fundos para essas companhias de seguro e, neste mercado, tamb\u00e9m est\u00e1 presente a BTG Pactual.\n<\/p><p>\nM\u00eddia responde aos interesses das AFPs\nOs meios de comunica\u00e7\u00e3o jogam um papel crucial no Chile. A maioria dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa pertence, justamente, aos principais grupos econ\u00f4micos que existem no pa\u00eds. Os canais de televis\u00e3o s\u00e3o controlados por grupos de muito poder. Os jornais di\u00e1rios s\u00e3o propriedade de dois grupos que constru\u00edram seu imp\u00e9rio, particularmente, durante as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, ou seja, durante a ditadura, que s\u00e3o os donos do El Merc\u00fario e do La Tercera. \n<\/p><p>\nO n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande que existe apenas um \u00fanico discurso. Todos falam a mesma coisa. H\u00e1 muito pouco espa\u00e7o para meios alternativos, pois a sobreviv\u00eancia desses \u00e9 muito custosa, o que impede o cidad\u00e3o chileno de ter uma vis\u00e3o integral do que est\u00e1 acontecendo.\n<\/p><p>\nOutro fator \u00e9 a publicidade. Por exemplo, as AFP se encontram presentes em todos os meios. Est\u00e3o nos comerciais, nos programas de discuss\u00e3o pol\u00edtica e at\u00e9 em algo t\u00e3o pr\u00f3ximo ao povo, como o futebol: o principal torneio nacional se chama Campeonato AFP PlanVital. Este \u00e9 o nome do campeonato de futebol do Chile. O que \u00e9 algo sintom\u00e1tico da for\u00e7a, da inger\u00eancia e do lobby das AFP. A m\u00eddia, que \u00e9 o espa\u00e7o onde se poderia fazer a cr\u00edtica deste sistema, est\u00e1 totalmente cooptada.\n<\/p><p>\n\u00c9 dif\u00edcil que se levante, por parte dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, uma an\u00e1lise cr\u00edtica. Por exemplo, que tragam \u00e0 tona o fato de que h\u00e1 um problema grave com a terceira idade no Chile, que sofre de abandono, de problemas econ\u00f4micos, de suic\u00eddios&#8230;Diferente disso, o que a m\u00eddia diz \u00e9 que o idoso chileno possui vitalidade, que pode e deseja trabalhar mais tempo. A agenda que h\u00e1 por tr\u00e1s disso \u00e9 simples: que o idoso trabalhe mais, contribua mais com as AFP e que se paguem menos pens\u00f5es. A m\u00eddia vende a imagem de que o chileno de 70 anos quer trabalhar mais, mas quem perguntou se querem?\n<\/p><p>\nhttps:\/\/dialogosdosul.operamundi.uol.com.br\/economia\/57983\/no-chile-capitalizacao-traz-miseria-a-aposentadoria-e-desnacionalizacao-a-economia\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22860\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87],"tags":[228],"class_list":["post-22860","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5WI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22860\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}