{"id":2288,"date":"2012-01-20T15:43:48","date_gmt":"2012-01-20T15:43:48","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2288"},"modified":"2012-01-20T15:43:48","modified_gmt":"2012-01-20T15:43:48","slug":"copa-do-mundo-2014-o-estado-paga-a-conta-e-a-iniciativa-privada-fica-com-o-lucro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2288","title":{"rendered":"Copa do Mundo 2014: &#8221;O Estado paga a conta e a iniciativa privada fica com o lucro&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">IHU<\/a> &#8211; Entrevista especial com Marcos Alvito, presidente da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.torcedores.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Torcedores e Torcedoras<\/a>.<\/p>\n<p>Com o objetivo principal de barrar o processo de eletiza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em curso no futebol brasileiro, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Torcedores e Torcedoras \u2013 ANT critica a constru\u00e7\u00e3o de novos est\u00e1dios para sediar a Copa do Mundo em 2014 e os acordos estabelecidos entre o governo brasileiro e a FIFA. Para o presidente da ANT, Marcos Alvito, a constru\u00e7\u00e3o de novos est\u00e1dios de futebol tem como finalidade &#8220;receber um consumidor passivo, que vai ao est\u00e1dio apenas para assistir&#8221;. Em entrevista concedida \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong> por telefone, Alvito esclarece que &#8220;o marco deste processo aconteceu h\u00e1 seis anos, com a reforma do Maracan\u00e3, quando o clube terminou com a torcida da geral. Ao terminar com a geral, deixaram de lado uma cultura carnavalesca, l\u00fadica e de express\u00e3o no futebol&#8221;.<\/p>\n<p>Em sua avalia\u00e7\u00e3o, a Copa do Mundo n\u00e3o trar\u00e1 benef\u00edcios para o pa\u00eds, pois novos est\u00e1dios ser\u00e3o constru\u00eddos em estados em que n\u00e3o h\u00e1 tradi\u00e7\u00e3o futebol\u00edstica regional, como Bras\u00edlia, Cuiab\u00e1 e Manaus, e posteriormente ser\u00e3o vendidos para a iniciativa privada. Al\u00e9m disso, ressalta, comunidades que vivem h\u00e1 mais de 30 anos em um mesmo local ser\u00e3o removidas &#8220;por causa da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria&#8221;. &#8220;O governo brasileiro ir\u00e1 arcar com todos os gastos para a realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo, enquanto a FIFA ir\u00e1 vender os ingressos, os patroc\u00ednios para a televis\u00e3o. Nem a FIFA nem a iniciativa privada est\u00e3o contribuindo financeiramente para a realiza\u00e7\u00e3o das obras de infraestrutura. Esses est\u00e1dios n\u00e3o ir\u00e3o se pagar&#8221;, destaca.<\/p>\n<p>Marcos Alvito \u00e9 graduado em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal Fluminense \u2013 UFF e doutor em Antropologia Social pela Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP. Atualmente \u00e9 professor do Departamento de Hist\u00f3ria da UFF e coordenador da revista digital Esporte e Sociedade, fundada em novembro de 2005.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que \u00e9 a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Torcedores e Torcedoras \u2013 ANT e como ela se posiciona diante da Copa do Mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito \u2013<\/strong> A ANT foi criada em 10-10-2010. Fundamos a Associa\u00e7\u00e3o em frente ao Maracan\u00e3 fechado para as obras da Copa e temos sete objetivos. Entre eles est\u00e1 homenagear o Garrincha. Tamb\u00e9m propomos<strong>transformar as escolinhas de futebol dos grandes clubes em escolas profissionalizantes, a fim de que suas crian\u00e7as sejam preparadas para algo mais do que jogar futebol, j\u00e1 que 80% deles n\u00e3o ser\u00e3o jogadores deste esporte.<\/strong><\/p>\n<p>O objetivo principal da ANT \u00e9 barrar\u00a0<strong>o processo de eletiza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em curso no futebol brasileiro.<\/strong>Calculei que, para uma fam\u00edlia de quatro pessoas ir ao Engenh\u00e3o uma vez por m\u00eas, pagar as passagens de \u00f4nibus e comprar uma \u00e1gua e um pastel para cada um, gastaria em torno de 143 reais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do alto valor dos ingressos, as \u00e1reas populares dos est\u00e1dios est\u00e3o sendo sistematicamente destru\u00eddas. O torcedor gosta de ter espa\u00e7o para torcer, ele n\u00e3o gosta de ficar preso a uma cadeira. O conceito de est\u00e1dio n\u00e3o \u00e9 o mesmo de um teatro: torcer n\u00e3o \u00e9 assistir. O torcedor precisa se emocionar, ficar em p\u00e9, vibrar, se movimentar, cantar, xingar e ter uma liberdade que efetivamente est\u00e1 sendo polida.\u00a0<strong>Est\u00e3o tentando transformar o futebol em um teatro para os ricos<\/strong>. Nesse sentido, a ANT visa defender o direito do torcedor na manuten\u00e7\u00e3o da cultura do futebol. O torcedor n\u00e3o se importa com o conforto, com cadeiras. Ele quer seguran\u00e7a, um tratamento descente, transporte p\u00fablico adequado.<\/p>\n<p><strong>Quando acontece um show musical, por exemplo, disponibiliza-se um sistema de transporte especial; mas n\u00e3o \u00e9 disponibilizado transporte para 30, 40 mil pessoas irem ao est\u00e1dio.<\/strong> Pelo contr\u00e1rio, algumas empresas at\u00e9 diminuem os hor\u00e1rios dos \u00f4nibus. O torcedor n\u00e3o \u00e9 tratado dignamente e depois ainda temos de ouvir essa conversa de que o torcedor quer conforto, poltronas, camarote, quando na verdade ele quer apenas acesso ao est\u00e1dio, direito de torcer, de levar bandeiras. Em est\u00e1dios como o do Atl\u00e9tico Paranaense, o torcedor n\u00e3o pode mais levar a faixa e se manifestar.<\/p>\n<p>J\u00e1 que os est\u00e1dios da Copa est\u00e3o sendo constru\u00eddos com dinheiro p\u00fablico, sugerimos que 30% dos ingressos sejam reservados para ingressos populares. \u00c9 preciso definir quem ter\u00e1 acesso a isso. Aquelas pessoas que recebem Bolsa Fam\u00edlia, por exemplo, poderiam ter direito a esses ingressos. Hoje, o futebol, que foi feito pelo povo brasileiro, est\u00e1 restrito \u00e0 classe m\u00e9dia, que tem condi\u00e7\u00f5es de pagar de 30 a 40 reais para ir ao est\u00e1dio.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A que atribui essa eletiza\u00e7\u00e3o do futebol? Desde quando esse processo est\u00e1 em curso no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito \u2013<\/strong> Esse processo come\u00e7ou na Inglaterra, quando aconteceu um acidente em um est\u00e1dio por causa da concentra\u00e7\u00e3o de torcedores em frente a uma grade muito forte, que n\u00e3o cedeu, e v\u00e1rios torcedores morreram esmagados.<\/p>\n<p>Depois desse ocorrido, a pessoa encarregada de fazer a investiga\u00e7\u00e3o do caso sugeriu que n\u00e3o houvesse grades nos est\u00e1dios, que tivesse espa\u00e7o para as pessoas sentarem e que fossem adotadas medidas para n\u00e3o haver superlota\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Os clubes pegaram dinheiro com o governo ingl\u00eas, modificaram os est\u00e1dios, colocaram cadeiras, mas aproveitaram para aumentar o pre\u00e7o dos ingressos<\/strong>. Os ingleses, portanto, resolveram mudar de clientela.<\/p>\n<p>No Brasil, h\u00e1 muito tempo o maior recurso dos clubes n\u00e3o \u00e9 proveniente da venda de ingressos, quer dizer, os ingressos n\u00e3o chegam a 20% dos recursos dos clubes. Esses recursos s\u00e3o provenientes dos patroc\u00ednios, da televis\u00e3o, da venda de jogadores. Ent\u00e3o, j\u00e1 que o ingresso n\u00e3o pesa tanto no or\u00e7amento, os clubes preferem mudar a clientela.\u00a0<strong>Em vez de terem um torcedor,\u00a0<em>preferem ter um consumidor<\/em>.<\/strong> O marco desse processo aconteceu h\u00e1 seis anos com a reforma do Maracan\u00e3, quando o clube terminou com a torcida da geral. Ao terminar com a geral, deixaram de lado uma cultura carnavalesca, l\u00fadica e de express\u00e3o no futebol.<\/p>\n<p><strong>Os est\u00e1dios est\u00e3o se transformando em um est\u00fadio de televis\u00e3o,<\/strong> a exemplo do Engenh\u00e3o, que \u00e9 bonito, mas tem um campo com dimens\u00f5es reduzidas, uma pista de atletismo, o que torna o est\u00e1dio frio e \u00e9 todo vazado. Ent\u00e3o, as torcidas gritam e n\u00e3o reverberam o grito; n\u00e3o se cria um ambiente de est\u00e1dio de futebol. Os torcedores que ficam atr\u00e1s do gol, na \u00e1rea mais popular e emocionante, n\u00e3o conseguem ver a linha do gol e tampouco a bola entrar na goleira. Quem fica na lateral do est\u00e1dio tem a vis\u00e3o prejudicada por causa das placas publicit\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o os principais equ\u00edvocos e acertos em torno das obras da copa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito \u2013<\/strong> O primeiro equ\u00edvoco foi o acordo pol\u00edtico feito \u00e0 \u00e9poca do governo Lula no que se refere ao aumento de sedes, de 8 para 12 est\u00e1dios. O Brasil n\u00e3o tem 12 grandes centros futebol\u00edsticos. Sabemos que Cuiab\u00e1, Manaus e Bras\u00edlia, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o centros esportivos para futebol. Ser\u00e3o constru\u00eddos est\u00e1dios em lugares onde os campeonatos regionais praticamente inexistem. Ent\u00e3o, construir arenas nessas regi\u00f5es \u00e9 como jogar dinheiro fora. Esse acordo foi feito, obviamente, para atender a acordos pol\u00edticos do governo no sentido de costurar alian\u00e7as pol\u00edticas. A negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi t\u00e3o forte, que a sele\u00e7\u00e3o brasileira provavelmente n\u00e3o ir\u00e1 jogar no Maracan\u00e3, a menos que ela chegue \u00e0 final. Mas, pelo jeito, a final da Copa vai ser disputada entre Espanha e outro time.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, a constru\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios nessas regi\u00f5es n\u00e3o ir\u00e1 transformar a realidade local. A manuten\u00e7\u00e3o desses est\u00e1dios \u00e9 grande, de praticamente 10% do valor do est\u00e1dio ao ano. N\u00e3o acredito que esse dinheiro esteja sendo utilizado de forma correta.\u00a0<strong>As obras em torno do Maracan\u00e3, por exemplo, j\u00e1 foram suspensas porque havia um superfaturamento de 90 bilh\u00f5es de reais.<\/strong> Obviamente, se considerarmos o fato divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo, de que 54% dos parlamentares brasileiros foram financiados por empreiteiras, basta juntar 2+2 para entender o que est\u00e1 acontecendo: somente a Odebrecht tem obras no valor de 2,5 bilh\u00f5es de reais ligados a obras da Copa do Mundo. O BNDES, por exemplo, vai gastar sete bilh\u00f5es com a constru\u00e7\u00e3o de novos est\u00e1dios.<\/p>\n<p><strong><em>Recentemente, dois jornalistas marxistas<\/em>,<\/strong> <strong>que trabalham no Financial Times, disseram que n\u00e3o vale a pena um pa\u00eds como o Brasil sediar grandes eventos porque eles n\u00e3o s\u00e3o suficientes para pagar as contas geradas.<\/strong> Esses est\u00e1dios que est\u00e3o sendo constru\u00eddos n\u00e3o t\u00eam alma. Eles s\u00e3o est\u00fadios e s\u00e3o constru\u00eddos dentro desta perspectiva de receber um consumidor passivo, que vai ao est\u00e1dio apenas para assistir. S\u00e3o est\u00e1dios eletizados, com muitas \u00e1reas vips, quando, na verdade, vip, no futebol, deveria ser o povo, que criou esse esporte.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Os defensores da Copa do Mundo dizem que os gastos ser\u00e3o elevados, mas que o retorno ser\u00e1 positivo. Como \u00e9 feita essa conta para saber se vale a pena sediar uma Copa do Mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito \u2013 A conta \u00e9 simples: o governo brasileiro ir\u00e1 arcar com todos os gastos para a realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo,<\/strong> <strong><em>enquanto a FIFA ir\u00e1 vender os ingressos, os patroc\u00ednios para a televis\u00e3o.<\/em><\/strong> Nem a FIFA nem a iniciativa privada est\u00e3o contribuindo financeiramente para a realiza\u00e7\u00e3o das obras de infraestrutura. Esses est\u00e1dios n\u00e3o ir\u00e3o se pagar. O governador do Rio de Janeiro, S\u00e9rgio Cabral, j\u00e1 anunciou que ir\u00e1 privatizar o Maracan\u00e3 antes da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, ou seja,\u00a0<strong>o Estado vai gastar um bilh\u00e3o na reforma do Maracan\u00e3 e depois vai entreg\u00e1-lo para a iniciativa privada, e diz que o modelo vai ser o do Engenh\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 para voc\u00ea ter uma ideia, o Engenh\u00e3o custou 400 milh\u00f5es de reais, e o Botafogo paga 33 mil reais por m\u00eas de aluguel pelo est\u00e1dio. Pagando essa quantia de aluguel por m\u00eas, demoraria 88 anos para esse clube pagar o Engenh\u00e3o. \u00c9 isso que vai acontecer com o Maracan\u00e3 e com os outros. O Estado entra com o preju\u00edzo. Esse \u00e9 o modelo brasileiro de desenvolvimento: o Estado paga a conta e a iniciativa privada fica com o lucro.<\/p>\n<p><strong>Em nome da Copa, 123 comunidades est\u00e3o sendo removidas por causa da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/strong> O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, vai construir todos os equipamentos ol\u00edmpicos na Barra da Tijuca, uma regi\u00e3o\u00a0<strong>&#8220;carente&#8221;<\/strong> de infraestrutura. Ele j\u00e1 foi subprefeito da Barra, e os dez maiores financiadores de campanha dele, segundo o jornal O Globo, s\u00e3o empresas ligadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Esses megaeventos alavancam grandes neg\u00f3cios para a iniciativa privada em detrimento de quem?<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Seria poss\u00edvel realizar a Copa no pa\u00eds sem construir novos est\u00e1dios?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito<\/strong> \u2013 Se o Brasil optasse por ter oito sedes, em vez de doze, seria poss\u00edvel reduzir a despesa. N\u00e3o entendo como o Engenh\u00e3o, por exemplo, foi constru\u00eddo e n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de abrir um jogo de Copa do Mundo.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a n\u00e3o construiu est\u00e1dio nenhum, nem a Alemanha. Na Alemanha, os ingressos s\u00e3o relativamente baratos. Custam basicamente o mesmo valor que no Brasil, mas o poder aquisitivo alem\u00e3o \u00e9 muito maior. A segunda divis\u00e3o da Alemanha tem uma m\u00e9dia de p\u00fablico maior do que a do Campeonato Brasileiro. Os est\u00e1dios t\u00eam \u00e1reas para as pessoas ficarem em p\u00e9, porque isso faz parte da tradi\u00e7\u00e3o deles. Em 2006, quando a Copa do Mundo aconteceu na Alemanha, a FIFA disse que todas as pessoas precisavam ficar sentadas nos est\u00e1dios. Voc\u00ea acha que eles demoliram o est\u00e1dio ou reformaram? Colocaram cadeiras. Isso aconteceu na Alemanha, &#8220;um pa\u00eds pobre&#8221;, &#8220;subdesenvolvido&#8221;, &#8220;com dificuldades financeiras&#8221;. Mas j\u00e1 um pa\u00eds &#8220;rico&#8221; como o Brasil, coloca o Maracan\u00e3 abaixo e gasta um bilh\u00e3o de reais. \u00c9 \u00f3bvio que isso poderia ser feito de outra maneira; o governo poderia negociar com a FIFA. Mas o governo brasileiro n\u00e3o negociou porque queria a Copa, tanto que o Brasil n\u00e3o disputou a Copa do Mundo com ningu\u00e9m. Mas por que n\u00e3o disputou? N\u00f3s n\u00e3o nos perguntamos, porque somos muito patriotas, principalmente quando se trata de futebol.<\/p>\n<p>A FIFA queria fazer a Copa do Mundo na Am\u00e9rica do Sul, mas por que a Argentina, Uruguai e Chile n\u00e3o quiseram? Porque houve um acordo. Mas qual \u00e9 o pre\u00e7o deste acordo para que n\u00e3o exista nenhuma contesta\u00e7\u00e3o? O governo Lula queria garantir a Copa aqui, ent\u00e3o, topou fazer uma &#8220;Copa de arrebentar&#8221;. Mas agora, o governo Dilma est\u00e1 vendo que essa \u00e9 uma conta alta. A negocia\u00e7\u00e3o deveria ter sido feita antes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quantas comunidades, apenas no Rio de Janeiro, j\u00e1 foram e ser\u00e3o removidas de suas moradias para que est\u00e1dios sejam constru\u00eddos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito<\/strong> \u2013 A prefeitura do Rio de Janeiro est\u00e1 removendo comunidades de algumas regi\u00f5es e as indenizando com um valor de oito mil reais, que \u00e9 a metade do pre\u00e7o do metro quadrado no Leblon. Ser\u00e3o removidas 123 comunidades s\u00f3 no Rio de Janeiro. Algumas moram h\u00e1 30, 40 anos no mesmo local e ter\u00e3o de sair para dar espa\u00e7o aos novos estacionamentos do Maracan\u00e3.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 As pr\u00f3ximas copas ser\u00e3o no Brasil, na R\u00fassia e no Catar. O que estes pa\u00edses t\u00eam em comum? A escolha desses pa\u00edses para sediar as pr\u00f3ximas Copas foi proposital?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito<\/strong> \u2013 Esses s\u00e3o pa\u00edses que topam tudo por uma Copa do Mundo no intuito de se firmar no cen\u00e1rio mundial.\u00a0<strong>Eles far\u00e3o tudo que a FIFA quiser.<\/strong> <strong>N\u00e3o s\u00e3o pa\u00edses como a Fran\u00e7a e a Alemanha, que n\u00e3o aceitaram construir est\u00e1dios novos.<\/strong> Os alem\u00e3es aceitaram vender a cerveja que a FIFA escolheu, mas tamb\u00e9m venderam a cerveja deles. No Brasil isso n\u00e3o vai acontecer.<\/p>\n<p>A Copa \u00e9 um processo bastante autorit\u00e1rio para as camadas populares. Ela tem significado um Estado de exce\u00e7\u00e3o: o Estado passa por cima das pr\u00f3prias normas e leis em nome de uma situa\u00e7\u00e3o especial, de um megaevento; ele cria uma situa\u00e7\u00e3o para que todos concordem.<\/p>\n<p>Brasil, R\u00fassia e Catar s\u00e3o pa\u00edses que ir\u00e3o liberar os gastos, pois eles t\u00eam essa ideia de que \u00e9 preciso se afirmar diante de um cen\u00e1rio mundial, precisam mostrar que s\u00e3o capazes de organizar um evento de tal magnitude.<strong>No Brasil, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Copa \u00e9 tardia, e j\u00e1 \u00e9 quase imposs\u00edvel barrar algumas decis\u00f5es.<\/strong> Mas imagina se na R\u00fassia tem oposi\u00e7\u00e3o. L\u00e1, se algu\u00e9m manifestar posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, toma tiro. No Catar, se tem oposi\u00e7\u00e3o o sujeito guarda para si, porque n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de se manifestar, mas somente fazendo uma revolta geral. Esses s\u00e3o pa\u00edses que v\u00e3o engolir o pacote FIFA sem grandes problemas, sem grandes questionamentos. Est\u00e1 havendo um questionamento pequeno no Brasil,\u00a0<strong>mas, no final das contas, os deputados est\u00e3o aprovando o projeto da FIFA.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como v\u00ea as manifesta\u00e7\u00f5es dos torcedores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Copa do Mundo? O fato de o futebol ser uma paix\u00e3o nacional dificulta a divulga\u00e7\u00e3o das cr\u00edticas e mesmo a participa\u00e7\u00e3o popular nos protestos ou, pelo contr\u00e1rio, isso favorece oposi\u00e7\u00f5es \u00e0 forma como os processos est\u00e3o sendo conduzidos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito<\/strong> \u2013 N\u00e3o \u00e9 que a paix\u00e3o dificulte. Ela at\u00e9 ajuda na medida em que torna tudo que diz respeito ao futebol uma coisa importante. Entretanto, o futebol mobiliza as pessoas at\u00e9 um determinado ponto. J\u00e1 fomos a est\u00e1dios, distribu\u00edmos panfletos, fizemos um abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira, por exemplo, e coletamos mais de cinco mil assinaturas. Mas n\u00e3o existe milagre em uma sociedade civil fraca como a brasileira, com baixo n\u00edvel de participa\u00e7\u00e3o das camadas populares e m\u00e9dias. Costuma-se dizer que a participa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o meramente de educa\u00e7\u00e3o formal, mas n\u00e3o \u00e9. Costumamos dizer que o povo n\u00e3o participa, que o povo \u00e9 ignorante, que n\u00e3o sabe dos seus direitos, mas a classe m\u00e9dia tamb\u00e9m n\u00e3o participa e ela n\u00e3o pode alegar esta desculpa. Existe um baixo grau de mobiliza\u00e7\u00e3o, de engajamento.\u00a0<strong>Hoje em dia existe um\u00a0<em>pseudoengajamento virtual<\/em>:<\/strong> <strong>as pessoas curtem os coment\u00e1rios no Facebook, apoiam as lutas, votam virtualmente, mas n\u00e3o participam na pr\u00e1tica.<\/strong> Mesmo havendo uma mobiliza\u00e7\u00e3o entorno do assunto, h\u00e1 uma baixa disposi\u00e7\u00e3o para que as pessoas participem efetivamente das lutas. No m\u00e1ximo elas est\u00e3o informadas acerca do assunto.<\/p>\n<p>Sou antrop\u00f3logo, historiador e\u00a0<strong>percebo que se tem um Estado historicamente muito forte, que surge antes da na\u00e7\u00e3o. Quando a na\u00e7\u00e3o foi formada, o Estado j\u00e1 estava em cima dela, controlando-a ou querendo construir a na\u00e7\u00e3o segundo o seu interesse.<\/strong> Isso se reflete tamb\u00e9m nesta luta do futebol. N\u00e3o se trata mais da import\u00e2ncia da luta, n\u00e3o se trata mais de conhecimento ou desconhecimento. Trata-se de uma quest\u00e3o de disposi\u00e7\u00e3o para lutar e para participar. A democracia contempor\u00e2nea produz apatia, e as pessoas pensam que participam do processo pol\u00edtico quando votam. Em termos de mobiliza\u00e7\u00e3o de massa existe uma apatia; o movimento estudantil n\u00e3o tomou isso para si, nem os sindicatos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Gostaria de acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcos Alvito<\/strong> \u2013 A ANT est\u00e1 lutando e j\u00e1 estamos elaborando um abaixo-assinado pedindo para a Justi\u00e7a apressar as investiga\u00e7\u00f5es em torno de Ricardo Teixeira. O abaixo-assinado pode ser assinado na internet pelo site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.torcedores.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">www.torcedores.org<\/a>.<\/p>\n<p>GRIFO MEU (PK).<\/p>\n<p>FONTE:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.diarioliberdade.org\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=23141\" target=\"_blank\">Di\u00e1rio Liberdade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: api.ning.com\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2288\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[123],"tags":[],"class_list":["post-2288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c136-copa-para-quem"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-AU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2288\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}