{"id":22889,"date":"2019-04-23T21:30:33","date_gmt":"2019-04-24T00:30:33","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22889"},"modified":"2019-04-25T22:44:25","modified_gmt":"2019-04-26T01:44:25","slug":"governo-bolsonaro-visao-colonialista-e-exterminio-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22889","title":{"rendered":"Governo Bolsonaro: vis\u00e3o colonialista e exterm\u00ednio ind\u00edgena"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2019\/04\/23-04-2019-gersem-baniwa_reproducao_youtube.jpg\"\/><!--more-->IHU-UNISINOS\n<\/p><p>\nSegundo Gersem Baniwa, a vis\u00e3o ex\u00f3tica do atual governo sobre as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas esconde um projeto de &#8220;exterm\u00ednio e extin\u00e7\u00e3o ind\u00edgena&#8221;. \n<\/p><p>\nGersem Baniwa \u00e9 antrop\u00f3logo, assessor t\u00e9cnico do F\u00f3rum de Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade Ind\u00edgena do Amazonas &#8211; FOREEIA e professor adjunto da Universidade Federal do Amazonas &#8211; UFAM.\n<\/p><p>\nA entrevista \u00e9 de Paulo Tadeu Barausse, padre jesu\u00edta, coordenador do SARES, Manaus.\n<\/p><p>\nEis a entrevista.\nVoc\u00ea, mais que estudioso, \u00e9 parte de um povo que tem uma cultura e uma hist\u00f3ria. Para come\u00e7armos, poderia nos contar um pouco desse caminho de algu\u00e9m que vive o que ensina e ensina o que vive, na perspectiva da sua comunidade?\n<\/p><p>\nA li\u00e7\u00e3o que desde cedo aprendemos com nossos pais e antepassados \u00e9 que s\u00f3 ensinamos o que vivemos. A pedagogia Baniwa (eu sou Baniwa) educa por meios da observa\u00e7\u00e3o, da experimenta\u00e7\u00e3o e de exemplos. Observar, experimentar e seguir bons exemplos \u00e9 viver. Assim, ensinar significa viver, principalmente por meio de exemplos. \u00c9 por isso que os principais educadores nas fam\u00edlias Baniwa s\u00e3o os anci\u00f5es, pois s\u00e3o eles que det\u00eam o ac\u00famulo de viv\u00eancias (conhecimentos) que s\u00e3o repassadas para gera\u00e7\u00f5es mais novas. O Bem Viver Baniwa, enquanto projeto passado, presente e futuro, fundamenta-se na confian\u00e7a depositada nas li\u00e7\u00f5es acumuladas e vivenciadas pelos pais e antepassados. O futuro \u00e9 projetado com base nas experi\u00eancias aprendidas e vividas. Isso n\u00e3o \u00e9 materialismo ou empirismo, mas uma filosofia da vida c\u00f3smica, onde n\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica, observa\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia. Viver \u00e9 experimentar o mundo, materialmente, cognitivamente, afetivamente e espiritualmente.\n<\/p><p>\nAmpliando um pouco, n\u00f3s estamos em um m\u00eas no qual se d\u00e1 destaque \u00e0 causa ind\u00edgena. Nesse sentido, considerando toda diversidade de povos e culturas, \u00e9 poss\u00edvel falar em uma identidade ind\u00edgena?\n<\/p><p>\nN\u00e3o \u00e9 correto falar em uma identidade ind\u00edgena, pois s\u00e3o tantas quantos s\u00e3o os povos, as etnias e as culturas ind\u00edgenas. Rigorosamente falando, se no Brasil existem 305 povos ind\u00edgenas, ent\u00e3o s\u00e3o 305 identidades e alteridades ind\u00edgenas, no m\u00ednimo, pois pessoas ou grupos de pessoas dentro de um povo ou etnia tamb\u00e9m podem construir identidades pr\u00f3prias. O conceito de alteridade, enquanto uma rela\u00e7\u00e3o de diferentes sujeitos, refor\u00e7a o pressuposto de multiplicidade de identidades ind\u00edgenas, uma vez que inviabiliza a no\u00e7\u00e3o de identidade singular ou universal. \u00c9 importante destacar que n\u00e3o existe \u201co ind\u00edgena\u201d, pois esta no\u00e7\u00e3o \u00e9 meramente um apelido, uma denomina\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica ou uma categoria social artificial criada pelos conquistadores europeus, segundo suas vis\u00f5es, interesses e conveni\u00eancias circunstanciais. Na verdade, cada povo ind\u00edgena se identifica (autoidentifica) com denomina\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias. Por exemplo, os denominados pelos brancos de \u201c\u00edndios Kulina\u201d do rio Juru\u00e1, eles se autoidentificam Madj\u00e1.\n<\/p><p>\nA ideia de identidade ind\u00edgena no singular \u00e9 profundamente colonialista e colonizadora, cujo objetivo hist\u00f3rico contribui para o desaparecimento dos povos ind\u00edgenas. Portanto, \u00e9 uma forma de nega\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia dos povos ind\u00edgenas, na medida em que homogene\u00edza, generaliza e estatiza a identidade ind\u00edgena. O que h\u00e1 de mais ou menos comum entre os povos ind\u00edgenas \u00e9 sua situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica recente (519 anos, se consideramos os pelo menos 11 milh\u00f5es de presen\u00e7a ind\u00edgena nas Am\u00e9ricas). Ou seja, experi\u00eancia comum de viv\u00eancias tr\u00e1gicas com o mundo colonizador, hist\u00f3rias de opress\u00e3o, repress\u00e3o, massacres e tentativas de extin\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de supera\u00e7\u00e3o, reinven\u00e7\u00e3o, resili\u00eancia e resist\u00eancia. Essa capacidade de supera\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia f\u00edsica, cultural e espiritual permite hoje a continuidade existencial de 305 povos ind\u00edgenas e 275 l\u00ednguas ind\u00edgenas faladas no Brasil. Essa situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, que como processo, continua, permitiu a constru\u00e7\u00e3o do chamado movimento ind\u00edgena, que articula e mobiliza lutas comuns por direitos comuns. Assim, o movimento ind\u00edgena articula e mobiliza a diversidade \u00e9tnica e cultural, em pontos de pautas comuns a todos.\n<\/p><p>\nPortanto, podemos sim falar de uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos povos ind\u00edgenas, que, inclusive, afeta sobremaneira as constru\u00e7\u00f5es e afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1rias, consideradas perigosas ou indesej\u00e1veis para os projetos etnoc\u00eantricos e racistas da chamada \u201cidentidade nacional\u201d.\n<\/p><p>\nAinda sobre a identidade ind\u00edgena, se fizermos uma an\u00e1lise do discurso do atual governo do Brasil, \u00e9 percept\u00edvel a tentativa de criar uma dicotomia entre o que se entende por ind\u00edgena e o acesso a recursos que a atualidade nos oferece. Desenvolve-se a ideia de que o ind\u00edgena que usa celular ou luz el\u00e9trica, por exemplo, ter\u00e1 perdido sua identidade, e, consequentemente, seus direitos, enquanto tal. Como podemos ajudar a desconstruir argumentos desse tipo?\n<\/p><p>\nConsiderar as identidades ind\u00edgenas est\u00e1ticas (paradas no tempo e no espa\u00e7o) \u00e9 uma das formas mais perversas de racismo e potencialmente genocida e etnocida. \u00c9 um pensamento que imperou durante todo o processo e tempo colonial at\u00e9 aos tempos atuais. Com a inaugura\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 a sociedade brasileira e, junto, os diferentes governos civis e muito particularmente as pol\u00edticas educacionais vinham empreendendo esfor\u00e7os no sentido de superar essa vis\u00e3o e pr\u00e1tica desumana, com alguns resultados exitosos, que podem ser exemplificados pelo crescimento do protagonismo ind\u00edgena intra e extra aldeia em processos de implementa\u00e7\u00e3o de direitos e de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0s comunidades ind\u00edgenas; conquistas territoriais, programas sociais e de cidadania (Bolsa Fam\u00edlia, Luz para Todos, acesso \u00e0 Universidade, acesso \u00e0 internet&#8230;), projetos de desenvolvimento sustent\u00e1vel, gera\u00e7\u00e3o de renda, pol\u00edticas culturais e outras.\n<\/p><p>\nOcorre que com a elei\u00e7\u00e3o e posse do novo governo, tudo est\u00e1 retrocedendo para pelo menos 50 anos atr\u00e1s. Volta a ser defendida e divulgada nas m\u00eddias a velha e equivocada dicotomia do \u201c\u00edndio puro\u201d e do \u201c\u00edndio civilizado ou integrado\u201d. De acordo com essa vis\u00e3o, \u00edndio seria apenas aquele isolado do mundo do branco, que n\u00e3o fala portugu\u00eas, n\u00e3o tem escolaridade ou n\u00e3o estuda, n\u00e3o tem sal\u00e1rio, n\u00e3o usa tecnologias como rel\u00f3gio, celular, computador. Essa vis\u00e3o ex\u00f3tica, preconceituosa e racista esconde por tr\u00e1s um projeto de exterm\u00ednio e extin\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, na medida em que, considerando as culturas e identidades din\u00e2micas e em permanente constru\u00e7\u00e3o, obviamente que as culturas e identidades ind\u00edgenas v\u00e3o mudando, apropriando-se de conquistas da humanidade com as quais v\u00e3o se conectando, e assim, v\u00e3o deixando de ser \u00edndios e, uma vez n\u00e3o \u00edndios, perdem seus direitos como ind\u00edgenas, como por exemplo, as suas terras tradicionais que agora est\u00e3o livres e dispon\u00edveis para a usurpa\u00e7\u00e3o pelas elites do agroneg\u00f3cio, das empresas mineradoras e para as grandes obras de infraestrutura.\n<\/p><p>\nEssa vis\u00e3o preconceituosa de \u00edndio est\u00e1tico, parado no tempo e espa\u00e7o, sem direito a melhorar suas condi\u00e7\u00f5es de vida, apropriando-se de saberes e tecnologias de outros povos e culturas, precisa ser combatida pela sociedade. As escolas, as igrejas, as organiza\u00e7\u00f5es sociais e as pessoas esclarecidas precisam cultivar nas novas e atuais gera\u00e7\u00f5es ideias e valores que consideram os \u00edndios como semelhantes ou equivalentes a outras sociedades humanas, que lutam e sonham por um mundo melhor e com melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e de exist\u00eancia. Que os povos ind\u00edgenas, assim como todos os povos do mundo, tamb\u00e9m v\u00e3o se transformando e melhorando de vida, sem que com isso percam suas culturas e identidades. Ao contr\u00e1rio, apropriar-se de valores e saberes de outros povos e culturas refor\u00e7a as identidades e culturas ind\u00edgenas, pois s\u00e3o povos culturalmente sempre abertos, din\u00e2micos e que v\u00e3o somando a cada aprendizagem e apropria\u00e7\u00e3o de saberes, valores e tecnologias. Por acaso, o japon\u00eas que vem ao Brasil comer acaraj\u00e9 na Bahia ou andar de canoa e comer chib\u00e9 na Amaz\u00f4nia deixa de se japon\u00eas?\n<\/p><p>\nDurante o Semin\u00e1rio Direitos Humanos na Amaz\u00f4nia deste ano, que tratou dos ind\u00edgenas, quilombolas e comunidades tradicionais, voc\u00ea apresentou uma interessante an\u00e1lise de conjuntura. Em um dos pontos, voc\u00ea tratou de uma tend\u00eancia a olhar o \u201cind\u00edgena como um ser transit\u00f3rio\u201d. Poderia nos explicar esta observa\u00e7\u00e3o?\n<\/p><p>\nA ideia de \u201c\u00edndio transit\u00f3rio\u201d n\u00e3o \u00e9 nova. Imperou durante todo o tempo colonial. \u201c\u00cdndio transit\u00f3rio\u201d representa a ideia ou projeto pol\u00edtico de domina\u00e7\u00e3o que considera o \u00edndio como um empecilho para o desenvolvimento econ\u00f4mico e cultural (civilizacional) do pa\u00eds. E \u00edndio que atrapalha ou impede o progresso, precisa ser removido do caminho, a qualquer custo e por quaisquer meios. Ao longo da hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o, foram utilizados dois meios para essa tentativa de remo\u00e7\u00e3o e extin\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas: 1) elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica, por meio de massacres, epidemias induzidas, guerras, castigos, escravid\u00e3o, etc; e 2) integra\u00e7\u00e3o cultural, quando o \u00edndio abandona sua l\u00edngua, sua cultura, seus conhecimentos e modos de vida e se torna um indiv\u00edduo gen\u00e9rico, sem identidade e cultura, portanto sem direitos. Sem direitos, seus antigos territ\u00f3rios ficam livres para o projeto cultural e econ\u00f4mico do pa\u00eds ocupar, explorar e destruir. Assim, ficam claras as duas formas de tirar o \u00edndio do caminho do chamado \u201cdesenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds\u201d: eliminando-o fisicamente ou eliminando-o culturalmente, destruindo sua cultura. O resultado \u00e9 o mesmo: extin\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e o fim das terras ind\u00edgenas para que o comboio ou altar do progresso possa passar por cima dos corpos e cemit\u00e9rios ind\u00edgenas. Essa tem sido a hist\u00f3ria do Brasil ind\u00edgena.\n<\/p><p>\nAtualmente estamos novamente vivendo com intensidade esse drama. O governo diz que os \u00edndios precisam sair de seus zool\u00f3gicos para viver com os brancos e como os brancos. Isso \u00e9 a mesma coisa que conduzir os \u00edndios por caminho que os levar\u00e1 fatalmente \u00e0 sua nega\u00e7\u00e3o e, portanto, sua extin\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito importante destacar que a exist\u00eancia ind\u00edgena e sua continuidade hist\u00f3rica do ponto de vista \u00e9tnico, identit\u00e1rio e cultural depende de dar continuidade aos seus modos de vida, costumes, culturas, tradi\u00e7\u00f5es, l\u00ednguas, valores, cosmovis\u00f5es. Mas todo esse conjunto de valores dependem essencialmente de territ\u00f3rios pr\u00f3prios e adequados. Sem os territ\u00f3rios tradicionais, n\u00e3o h\u00e1 culturas e identidades, e, portanto, n\u00e3o pode haver ind\u00edgenas. Este \u00e9 o ponto central, vital, dram\u00e1tico que voltamos a viver nos tempos presentes.\n<\/p><p>\nJ\u00e1 que falamos de Direitos Humanos na Amaz\u00f4nia na quest\u00e3o anterior, este Semin\u00e1rio foi promovido pela Frente Amaz\u00f4nica de Mobiliza\u00e7\u00e3o em Defesa dos Direitos Ind\u00edgenas &#8211; FAMDDI, criado por ocasi\u00e3o do IV Encontro Estadual do F\u00f3rum de Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade Ind\u00edgena do Amazonas &#8211; FOREEIA, n\u00e3o \u00e9 isso? Poderia nos falar um pouco destes coletivos e sua import\u00e2ncia no atual contexto?\n<\/p><p>\nO F\u00f3rum de Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade Ind\u00edgena do Amazonas (FOREEIA) \u00e9 uma rede de professores\/as, agentes de sa\u00fade e lideran\u00e7as ind\u00edgenas, criado em 2004, que se articula, mobiliza, realiza forma\u00e7\u00f5es e marchas em defesa dos direitos ind\u00edgenas no Estado do Amazonas e em Bras\u00edlia como parte do F\u00f3rum Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Escolar Ind\u00edgena (FNEEI). O FOREEIA d\u00e1 continuidade a quase tr\u00eas d\u00e9cadas de luta dos professores ind\u00edgenas do Amazonas no \u00e2mbito da hist\u00f3rica Comiss\u00e3o de Professores Ind\u00edgenas do Amazonas, Roraima e Acre (COPIAR) por uma educa\u00e7\u00e3o bil\u00edngue\/multil\u00edngue, espec\u00edfica e diferenciada, incidindo heroica e exitosamente nas elabora\u00e7\u00f5es e aprova\u00e7\u00f5es dos direitos ind\u00edgenas junto \u00e0 Constituinte de 1988 e nas Leis de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (LDB) e outras normas infraconstitucionais, al\u00e9m de ter inspirado e promovido as primeiras experi\u00eancias de escolas ind\u00edgenas bil\u00edngues, espec\u00edficas e diferenciadas na Amaz\u00f4nia e no Brasil.\n<\/p><p>\nA Frente Amaz\u00f4nica de Mobiliza\u00e7\u00e3o em Defesa dos Direitos Ind\u00edgenas (FAMDDI) \u00e9 uma iniciativa tamb\u00e9m dos professores ind\u00edgenas articulados no \u00e2mbito do FOREEIA e seus parceiros para enfrentar o cen\u00e1rio sombrio que os direitos ind\u00edgenas est\u00e3o enfrentando atualmente. A FAMDDI, criada em 2018, se prop\u00f5e a trazer \u00e0 realidade manifesta\u00e7\u00f5es concretas e buscar uma mobiliza\u00e7\u00e3o em favor dos direitos ind\u00edgenas. Re\u00fane entidades ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas volunt\u00e1rias. Sua principal miss\u00e3o \u00e9 defender e fazer valer a Constitui\u00e7\u00e3o do Brasil em defesa dos direitos ind\u00edgenas. Se prop\u00f5e a: 1) criar meios de comunica\u00e7\u00e3o com as bases\/aldeias, comunidades rurais e urbanas e institui\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas; 2) forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para novas lideran\u00e7as; 3) promover mobiliza\u00e7\u00f5es, marchas, caravanas, semin\u00e1rios e oficinas que visam prestar informa\u00e7\u00f5es corretas sobre a conjuntura nacional dos direitos ind\u00edgenas; 4) construir alian\u00e7as com comunidades tradicionais e movimentos populares.\n<\/p><p>\nNa Campanha da Fraternidade deste ano, a Igreja do Brasil, em di\u00e1logo com a sociedade, reflete sobre pol\u00edticas p\u00fablicas. Quais as maiores dificuldades quando falamos do tema no contexto ind\u00edgena? Por exemplo, promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena?\n<\/p><p>\nAs principais demandas dos povos ind\u00edgenas para as pol\u00edticas p\u00fablicas podem ser agrupadas em tr\u00eas eixos tem\u00e1ticos: o primeiro diz respeito \u00e0 seguran\u00e7a territorial; o segundo est\u00e1 relacionado \u00e0 quest\u00e3o de subsist\u00eancia econ\u00f4mica; o terceiro diz respeito \u00e0s pol\u00edticas sociais e estrat\u00e9gias de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.\n<\/p><p>\nAs pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para os povos ind\u00edgenas enfrentam tr\u00eas graves problemas hist\u00f3ricos, estruturais e conceituais. A primeira dificuldade \u00e9 que o tema ind\u00edgena \u00e9 profundamente perif\u00e9rico, ou seja, sem relev\u00e2ncia ou prioridade para as preocupa\u00e7\u00f5es e aten\u00e7\u00f5es de dirigentes e gestores. Essa irrelev\u00e2ncia est\u00e1 associada ao fator de baixa demografia ind\u00edgena, que n\u00e3o desperta interesses eleitorais e nem coeficientes de resultados. No entanto, se demograficamente os ind\u00edgenas representam 0,4% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, territorialmente, as terras sob a gest\u00e3o ind\u00edgena (terras ind\u00edgenas) somam mais 12% do territ\u00f3rio nacional. Al\u00e9m disso, \u00e9 importante considerar a riqueza do patrim\u00f4nio cultural dos povos ind\u00edgenas que formam um verdadeiro patrim\u00f4nio da humanidade. Tudo isso argumenta em favor da defesa e da necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas robustas e adequadas para dar conta da gest\u00e3o desses territ\u00f3rios e popula\u00e7\u00f5es, primeiros brasileiros.\n<\/p><p>\nA segunda dificuldade tem a ver com a complexidade do campo diverso, geograficamente (log\u00edsticas) e culturalmente (diversidade de l\u00f3gicas, culturas, l\u00ednguas) e a ignor\u00e2ncia ou despreparo dos agentes governamentais, formuladores e implementadores de pol\u00edticas p\u00fablicas. O desconhecimento e o despreparo de t\u00e9cnicos e gestores explica por que n\u00e3o existem pol\u00edtica s\u00e9rias, consolidadas e sustent\u00e1veis voltadas para os povos ind\u00edgenas, para al\u00e9m de pol\u00edticas assistencialistas, de conveni\u00eancias e sempre reativas. As pol\u00edticas p\u00fablicas precisam ser pensadas, concebidas e estruturadas em conson\u00e2ncia com as culturas locais, sob pena de seu insucesso ser evidente com v\u00edcios de origem.\n<\/p><p>\nA terceira dificuldade \u00e9 da esfera de diversidade de realidades geogr\u00e1ficas e culturais. A diversidade geogr\u00e1fica, por exemplo, impacta decisivamente para o sucesso ou n\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas aos povos ind\u00edgenas. Os custos operacionais, de materiais e servi\u00e7os, por exemplo, variam assustadoramente. Enquanto na comunidade ind\u00edgena de Querari no Alto Rio Negro, o pre\u00e7o da gasolina custa hoje (abril\/2019) R$ 10,00, na aldeia ind\u00edgena Dourados, em Mato Grosso do Sul, custa R$ 4,50. Assim, as pol\u00edticas p\u00fablicas atuais s\u00e3o profundamente excludentes, injustas e inadequadas para atender determinadas comunidades, aquelas mais distantes e que mais precisam de apoio, pois s\u00e3o historicamente esquecidas, invisibilizadas e escondidas. Essas adequa\u00e7\u00f5es administrativas e financeiras s\u00f3 podem ocorrer quando a quest\u00e3o ind\u00edgena for minimamente considerada e tratada pelos dirigentes e gestores ou quando houver consci\u00eancia e vontade pol\u00edtica.\n<\/p><p>\nPara finalizarmos esta nossa conversa, considerando este m\u00eas especial para as causas ind\u00edgenas e tamb\u00e9m a atual conjuntura do pa\u00eds, teria alguma mensagem que voc\u00ea poderia nos deixar?\n<\/p><p>\nNo compasso do vivenciar ind\u00edgena brasileiro a estrada sempre foi menor que o caminhar. O lutar, uma realidade cont\u00ednua, e, entre tentativas e conquistas, a maior de todas: as garantias constitucionais, em 1988, uma carta magna na contram\u00e3o da \u201cdescoberta\u201d do Brasil, escrita pelo colonizador portugu\u00eas Pero Vaz de Caminha, 488 anos antes. Eh! Mudan\u00e7as s\u00e3o lentas e v\u00eam de longe.\n<\/p><p>\nEscritas na forma ampla, geral e irrestrita, tais garantias, dispostas nos Artigos 210, 231 e 232, n\u00e3o se traduziram em pr\u00e1ticas institucionais pra fazer valer os Direitos Ind\u00edgenas no Brasil. Muitas conquistas ainda n\u00e3o est\u00e3o consolidadas e entre elas est\u00e1 a quest\u00e3o dos territ\u00f3rios que passa pelas cosmovis\u00f5es, demarca\u00e7\u00f5es e homologa\u00e7\u00f5es. Sagrados para os ind\u00edgenas, acabam sendo um neg\u00f3cio lucrativo para o Estado.\n<\/p><p>\nSob o simbolismo da P\u00e1tria-m\u00e3e, o governo vende a solu\u00e7\u00e3o que \u00e9 gerada em seus gabinetes: Arrendamento j\u00e1. Eis a chave da ocupa\u00e7\u00e3o e futura posse de negociantes transnacionais. A proposta \u00e9 feita sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os de alguns ind\u00edgenas e aplausos de setores da sociedade. A mudan\u00e7a \u201cda vez\u201d desenha um cen\u00e1rio mais sombrio e uma amea\u00e7a mais evidente de quebra de acordos e enquadramento geral no plano de integra\u00e7\u00e3o nacional. Preconceitos adormecidos saem da hiberna\u00e7\u00e3o, produzem relembran\u00e7as e ganham novas mentes.\n<\/p><p>\nN\u00e3o s\u00e3o pensamentos de uma maioria, mas s\u00e3o os manifestados, historicamente. A maioria que vive um simbolismo rom\u00e2ntico sobre os viveres ind\u00edgenas n\u00e3o se manifesta. Tudo fica na conta da contempla\u00e7\u00e3o e adora\u00e7\u00e3o, cristalizando e colocando na vitrine o bin\u00f4mio \u00cdndio\/Natureza. O Desafio \u00e9 o de ir al\u00e9m da contempla\u00e7\u00e3o e da vitimiza\u00e7\u00e3o, com resili\u00eancia e sem medo de novas estradas, porque o caminhar da luta sempre ser\u00e1 maior.\n<\/p><p>\nGersem Baniwa. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Youtube\n<\/p><p>\nhttp:\/\/www.ihu.unisinos.br\/588501-o-novo-governo-e-o-projeto-de-exterminio-e-extincao-indigena-entrevista-com-gersem-baniwa\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22889\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[163,20],"tags":[223],"class_list":["post-22889","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-movimento-indigena","category-c1-popular","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Xb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22889"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22889\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}