{"id":22918,"date":"2019-04-26T23:03:31","date_gmt":"2019-04-27T02:03:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22918"},"modified":"2019-05-02T13:19:27","modified_gmt":"2019-05-02T16:19:27","slug":"a-mulher-e-a-exploracao-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22918","title":{"rendered":"A mulher e a explora\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/anamontenegro.org\/cfcam\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/12994322_1739107572989481_5801921588838437052_n.png\"\/><!--more-->Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro &#8211; SP\n<\/p><p>\nA classe trabalhadora n\u00e3o \u00e9 uma massa homog\u00eanea e, para entender o mundo do trabalho na sociedade capitalista, h\u00e1 a necessidade de se observar as v\u00e1rias formas de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, uma delas &#8211; e uma das mais substanciais para os pilares do lucro e da extra\u00e7\u00e3o da mais valia &#8211; a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho feminina.\n<\/p><p>\nAfirmamos que o sistema capitalista possui, desde a sua constitui\u00e7\u00e3o, a necessidade de se aproveitar da divis\u00e3o sexual do trabalho no seu processo de acumula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da expropria\u00e7\u00e3o desigual entre trabalhadores homens e mulheres. Entendemos que as mulheres, al\u00e9m de ocuparem um lugar no qual sua for\u00e7a de trabalho serve ao capital para a produ\u00e7\u00e3o de riqueza, servem, tamb\u00e9m, para a manuten\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho, bem como de outros trabalhadores, e esse processo ocorre, em grande parte, dentro dos lares, conforme a atual organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. \n<\/p><p>\nO ingresso das mulheres no mercado de trabalho capitalista se deu na Europa de forma mais generalizada, a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, j\u00e1 que o uso das m\u00e1quinas e equipamentos possibilitaram substituir a for\u00e7a muscular. Mas vale ressaltar que as mulheres negras no Brasil j\u00e1 exerciam atividades fora do \u00e2mbito privado desde o per\u00edodo da escravid\u00e3o. Deve-se considerar, ainda, que o sistema capitalista utilizou as for\u00e7as de trabalho feminina e infantil como uma forma de rebaixamento geral do sal\u00e1rio dos trabalhadores, vez que as m\u00e1quinas passam a substituir a necessidade da forma de trabalho masculina. Esse fato corroborou para o aumento da competi\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria classe trabalhadora e o exponencial desemprego.\n<\/p><p>\nDiante do exposto acima, \u00e9 necess\u00e1rio discutir sobre a luta das mulheres trabalhadoras que diversas vezes \u00e9 e foi apontada como uma luta que \u201cdivide a classe trabalhadora\u201d ou \u201cdivide a luta\u201d. Sabe-se que a luta das trabalhadoras sempre foi por igualdade salarial para trabalho igual, creches para seus filhos, entre outras bandeiras que priorizam a condi\u00e7\u00e3o de vida da classe como um todo. O que divide a classe trabalhadora e a luta n\u00e3o \u00e9 o feminismo &#8211; pol\u00edtica necess\u00e1ria para a emancipa\u00e7\u00e3o da humanidade &#8211; mas sim o machismo, o pr\u00f3prio capitalismo e como ele \u00e9 lan\u00e7ado pela classe dominante para dividir e hierarquizar os trabalhadores e trabalhadoras.\n<\/p><p>\nSabemos que quando as mulheres passam a participar, de forma mais generalizada, do mercado de trabalho, os sal\u00e1rios tendem a nivelar por baixo, j\u00e1 que a justificativa que o mercado oferece \u00e0 classe trabalhadora \u00e9 que as mulheres naturalmente s\u00e3o respons\u00e1veis pelo trabalho dom\u00e9stico e pelo cuidado. A naturaliza\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o sexual do trabalho, papel do patriarcado, ainda \u00e9 utilizada pela sociedade capitalista para explicar o fato de haver a desigualdade salarial entre homens e mulheres. J\u00e1 se fala at\u00e9 de uma feminiza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, uma vez que os trabalhadores passam cada vez mais a ser substitu\u00eddos por m\u00e1quinas e pela for\u00e7a de trabalho feminina que continua respons\u00e1vel por m\u00faltiplas jornadas de trabalho. Assim, podemos afirmar que houve uma amplia\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o da mulher trabalhadora fundada na divis\u00e3o sexual do trabalho, que leva em conta as caracter\u00edsticas atribu\u00eddas socialmente \u00e0s mulheres, tais como o cuidado, a paci\u00eancia, a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias atividades ao mesmo tempo e a resili\u00eancia. \n<\/p><p>\nClaudia Mazzei Nogueira, em seu artigo \u201cA feminiza\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho: entre a emancipa\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o\u201d, situa essa etapa da explora\u00e7\u00e3o na crise do taylorismo\/fordismo, o que levou, nos anos 80\/90, o capital a se reorganizar com a desregulamenta\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas e as privatiza\u00e7\u00f5es do Estado, causando uma precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho que recaiu, principalmente, sobre as mulheres trabalhadoras. Apesar do aumento o n\u00famero de mulheres no mercado de trabalho nesse per\u00edodo, esse quadro desvalorizou o trabalho feminino e o pauperizou. A autora cita, tamb\u00e9m, que as mulheres foram utilizadas pelo capital como instrumentos para flexibilizar as condi\u00e7\u00f5es e as leis de trabalho, atingindo, novamente, a for\u00e7a de trabalho masculina (NOGUEIRA, 2004). No mundo do trabalho, segundo pesquisa do Dieese (2013 apud Caderno de Resolu\u00e7\u00f5es do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, 2015), as mulheres hoje representam cerca de 50% da for\u00e7a de trabalho, no Brasil. Deste contingente, 40% das mulheres trabalham em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. Das que trabalham em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, 70% s\u00e3o negras e 15% s\u00e3o trabalhadoras dom\u00e9sticas.\n<\/p><p>\nO Brasil, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o do Desenvolvimento Humano &#8211; OECD, ficou em 1\u00b0 lugar no ranking de pa\u00edses com os maiores \u00edndices de desigualdade salarial. Tal desigualdade torna-se ainda mais evidente diante da realidade das mulheres negras, que chegam a ganhar de 60% a 80% menos que um homem branco. O n\u00edvel de desemprego tamb\u00e9m \u00e9 maior entre as mulheres negras, chegando a 12%, enquanto para homens brancos o \u00edndice \u00e9 de 5,3%. N\u00e3o devemos esquecer de apontar como esse panorama pode piorar se a Reforma da Previd\u00eancia for aprovada. O governo aumentar\u00e1 o tempo de contribui\u00e7\u00e3o de 15 para 20 anos, com a justificativa da popula\u00e7\u00e3o estar envelhecendo e existir um suposto \u2013 e falacioso &#8211; d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio na previd\u00eancia social. Vale ressaltar que atualmente 42% dos trabalhadores segurados no Brasil conseguem comprovar, em m\u00e9dia, somente 4,9 meses de contribui\u00e7\u00e3o. Por si s\u00f3 essa modifica\u00e7\u00e3o no tempo de contribui\u00e7\u00e3o afetar\u00e1 enormemente as trabalhadoras, j\u00e1 que os trabalhos informal, intermitente e mal remunerado s\u00e3o preponderantes. Al\u00e9m disso, o governo altera a idade m\u00ednima de 60 anos para as mulheres, prevista na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1998 (artigo 201, par\u00e1grafo 7), para 62 anos de idade, enquanto que para os homens a idade m\u00ednima permanecer\u00e1 de 65 anos.\n<\/p><p>\nEssa discrep\u00e2ncia previdenci\u00e1ria s\u00f3 alargar\u00e1 as diferen\u00e7as de g\u00eaneros existentes, vez que as mulheres j\u00e1 t\u00eam os sal\u00e1rios mais baixos, as mais prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de trabalho, sofrem diversos tipos de viol\u00eancias e s\u00e3o as mantenedoras da esfera privada, da fam\u00edlia nuclear, onde realizam trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o pago. Isso evidencia que o capital se op\u00f5e ao processo de emancipa\u00e7\u00e3o da mulher trabalhadora: a falta de vagas em creches, a falta de restaurantes e lavanderias p\u00fablicas s\u00e3o algumas provas desse fato, al\u00e9m do retrocesso e do retorno de ideias como \u201cser bela, recatada e do lar\u201d para solidificar o ide\u00e1rio da submiss\u00e3o, ocultando e desmobilizando, assim, a possibilidade de as mulheres serem substancial for\u00e7a revolucion\u00e1ria para o processo de ruptura do capitalismo.\n<\/p><p>\nPor conta disto e muito mais &#8211; como a implementa\u00e7\u00e3o do sistema de capitaliza\u00e7\u00e3o, do enfraquecimento da pens\u00e3o por morte, do aux\u00edlio-reclus\u00e3o e do sal\u00e1rio maternidade, al\u00e9m da decad\u00eancia da aposentadoria rural \u00e0queles e \u00e0quelas que sofrem as mazelas de um pa\u00eds regido sob a \u00e9gide do agroneg\u00f3cio &#8211; \u00e9 que a Reforma da Previd\u00eancia n\u00e3o pode ser aprovada, pois significar\u00e1 um exponente retrocesso para a classe dos trabalhadores e, em especial, para as mulheres que mais uma vez enfrentar\u00e3o dificuldades materiais acentuadas justificadas pela divis\u00e3o sexual do trabalho e pela reprodu\u00e7\u00e3o material da vida.\n<\/p><p>\nDito isto, pode-se afirmar que o movimento para uma emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres trabalhadoras surge da condi\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel de expans\u00e3o do capital, que tem a necessidade de absorver a sua for\u00e7a de trabalho numa quantidade cada vez maior. Para n\u00f3s, a mulher n\u00e3o conseguir\u00e1 sua emancipa\u00e7\u00e3o se n\u00e3o for pelas m\u00e3os da classe trabalhadora, n\u00e3o apenas com o combate da opress\u00e3o masculina sobre a feminina, mas, tamb\u00e9m, com o horizonte de luta objetivando a supera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o capital\/trabalho.\n<\/p><p>\nSendo assim, n\u00f3s do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, denunciamos toda e qualquer viol\u00eancia e omiss\u00e3o estatal e corporativa que perpetre viol\u00eancias de ra\u00e7a, g\u00eanero, classe e sexualidade; combatendo estere\u00f3tipos, neglig\u00eancias, submiss\u00f5es, subjuga\u00e7\u00f5es e explora\u00e7\u00f5es, isto porque reconhecemos que os sistemas de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o \u2013 machismo e racismo \u2013 fazem as trabalhadoras negras e ind\u00edgenas serem ainda mais espoliadas e violentadas, com tend\u00eancia a um aumento paulatino do acirramento da barb\u00e1rie contra esses grupos dentro do capitalismo, especialmente dentro dos espa\u00e7os de disputa do trabalho.\n<\/p><p>\nPelo fim das explora\u00e7\u00f5es e opress\u00f5es!\nPela vit\u00f3ria da classe trabalhadora!\nContra a Reforma da Previd\u00eancia!\nSem feminismo n\u00e3o h\u00e1 socialismo!\n        \nBIBLIOGRAFIA:   \nBRASIL, Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o do Desenvolvimento Humano. Dispon\u00edvel em: < https:\/\/nacoesunidas.org\/acao\/desenvolvimento\/> Acesso em: 18.04.2019.\n                            \nCISNE, Mirla. Feminismo, luta de classes e consci\u00eancia militante feminista no Brasil. Tese de Doutorado. UERJ, 2013.\n<\/p><p>\nENGELS, Friedrich. A Origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do estado. 3\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2012.\n<\/p><p>\nMARX, Karl. O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica: Livro I: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. 1\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2014.\n<\/p><p>\nNOGUEIRA, Cl\u00e1udia M. A feminiza\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho: entre a emancipa\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o. In: ANTUNES, R.; SILVA, M. A. M. O avesso do trabalho. 1\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular\n<\/p><p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22918\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[180,20],"tags":[226],"class_list":["post-22918","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-feminista","category-c1-popular","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5XE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22918","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22918"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22918\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22918"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}