{"id":2294,"date":"2012-01-21T22:50:51","date_gmt":"2012-01-21T22:50:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2294"},"modified":"2017-11-19T10:46:32","modified_gmt":"2017-11-19T13:46:32","slug":"lenin-necessario-em-1917-1924-e-2012","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2294","title":{"rendered":"L\u00eanin: necess\u00e1rio em 1917, 1924 e 2012"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/klimbim2014.files.wordpress.com\/2016\/11\/lenin-october-1918.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>Uma vida dedicada \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Paulo Schueler e Ricardo Costa*<\/p>\n<p>Obra e exemplo de l\u00edder revolucion\u00e1rio falecido em 21 de janeiro de 1924 continuam atuais<\/p>\n<p>Em 1898, o ent\u00e3o maior nome do movimento oper\u00e1rio russo, Georgi Plekhanov, lan\u00e7ava um documento levantando uma quest\u00e3o inc\u00f4moda para todos aqueles que se desprendem de vaidades pessoais para organizar, coletivamente, a transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade. Seu livro se chamava\u00a0O papel do indiv\u00edduo na Hist\u00f3ria. Ironias dessa mesma Hist\u00f3ria, foi tamb\u00e9m naquele ano que Plekhanov conheceu um jovem de 28 anos chamado Vladimir, rec\u00e9m-casado com sua Nadja e que poucos meses depois iria publicar seu seminal\u00a0O desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia. \u00c9 imperioso afirmar, e nem o mais reacion\u00e1rios dos burgueses nega, o colossal papel de Vladimir, codinome L\u00eanin, na hist\u00f3ria dos revolucion\u00e1rios, da pol\u00edtica, da humanidade.<\/p>\n<p>O falecimento de Vladimir Ilyitch Ulianov completa 88 anos neste 21 de janeiro de 2012. Em apenas 53 anos de vida &#8211; ele nasceu em 22 de abril de 1870 &#8211; L\u00eanin foi muito mais que um estudioso das rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas do capitalismo, o propagandista e agitador revolucion\u00e1rio, o organizador do Partido e da Internacional comunistas. Foi tamb\u00e9m um ferrenho opositor do reformismo e do economicismo, dedicado a desmascarar os oportunistas de direita e de esquerda no movimento oper\u00e1rio, um l\u00edder afeito ao bom e produtivo debate.<\/p>\n<p>A vida pessoal e os gostos de Volodia &#8211; seu apelido familiar -, como a pretensa falta de hobbies para al\u00e9m do xadrez e da leitura de Alexander Pushkin, Ivan Turgenev, Leo Tolstoy e Nikolay Nekrasov, e sua ex\u00edgua estadia pela advocacia, s\u00e3o apenas notas de rodap\u00e9 na biografia de um dos pilares da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, l\u00edder do Partido Comunista e primeiro presidente do Conselho dos Comiss\u00e1rios do Povo de uma rec\u00e9m-criada Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Digno de registro, que ajuda a explicar sua trajet\u00f3ria, apenas o enforcamento de seu irm\u00e3o mais velho &#8211; por conspira\u00e7\u00e3o em um atentado terrorista contra o Tzar Alexander III.<\/p>\n<p>Quase que ao mesmo tempo da morte do irm\u00e3o, Alexandre Ulianov, toma conhecimento das obras de Plekhanov. Em 1887, com 17 anos, l\u00ea as obras de Karl Marx e Friedrich Engels e estabelece contato com outros revolucion\u00e1rios. \u00c9 preso numa manifesta\u00e7\u00e3o e, em 1892, traduz o Manifesto do Partido Comunista para o russo.<\/p>\n<p>Em 1893, muda-se para S\u00e3o Petersburgo, onde, dois anos mais tarde, ir\u00e1 fundar a Liga da Luta pela Emancipa\u00e7\u00e3o da Classe Oper\u00e1ria. Em dezembro de 1895, \u00e9 preso por conspirar contra Alexandre III. Ap\u00f3s 14 meses de pris\u00e3o, \u00e9 exilado para a Sib\u00e9ria em fevereiro de 1897.<\/p>\n<p>No final de seu ex\u00edlio, deixa a R\u00fassia para viver em Munique (1900-1902). L\u00e1, ao lado de Martov, funda o jornal\u00a0Iskra, publica\u00e7\u00e3o do Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo (POSDR). Precisa mudar-se novamente de pa\u00eds e, em Londres (1902-1903), participa do 2\u00ba Congresso do POSDR. \u00c9 nesse congresso que vai liderar a ala bolchevique (&#8220;maioria&#8221; em russo) contra os mencheviques (&#8220;minoria&#8221;), ruptura que originar\u00e1 o livro\u00a0Que Fazer?.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s estadia em Genebra (1903-1905), L\u00eanin retorna \u00e0 R\u00fassia para participar da Revolu\u00e7\u00e3o de 1905. Em 1906, \u00e9 eleito presidente do POSDR, mas precisa novamente se exilar ap\u00f3s a carnificina czarista promovida contra a tentativa de revolu\u00e7\u00e3o. S\u00f3 voltaria para seu pa\u00eds em 1917.<\/p>\n<p>Durante este hiato, publica Materialismo e Empiriocriticismo (1909), cr\u00edtica a uma variante de idealismo, ataca o reformismo da II Internacional e se op\u00f5e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e camponeses na I Guerra Mundial. Escreve\u00a0Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. L\u00eanin identifica, na Primeira Guerra Mundial, a express\u00e3o da disputa acirrada entre os interesses imperialistas, refletindo a necessidade de expans\u00e3o mundial do capital. Por isso, definia a guerra imperialista como uma a\u00e7\u00e3o totalmente reacion\u00e1ria, contra a qual era preciso se posicionar firmemente, do ponto de vista do internacionalismo prolet\u00e1rio e da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de L\u00eanin sobre a din\u00e2mica hist\u00f3rica do capitalismo tamb\u00e9m lhe permitiu apontar o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia, armando os bolcheviques para o enfrentamento \u00e0s concep\u00e7\u00f5es mecanicistas e capitulacionistas dos mencheviques. Quando estes tentaram minimizar a import\u00e2ncia da onda revolucion\u00e1ria com o pretexto de que \u201ca R\u00fassia n\u00e3o estava bastante desenvolvida para o socialismo\u201d, L\u00eanin e os bolcheviques afirmaram que o car\u00e1ter mundial da guerra imperialista mostrava que o capitalismo mundial havia alcan\u00e7ado o n\u00edvel de amadurecimento necess\u00e1rio para a revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>1917, um cap\u00edtulo \u00e0 parte<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1917, manifesta\u00e7\u00f5es populares na R\u00fassia for\u00e7am a sa\u00edda do czar Nicolau II e os mencheviques assumem o poder. Determinado a voltar \u00e0 R\u00fassia, L\u00eanin conta com o apoio do comunista su\u00ed\u00e7o Fritz Platten para obter permiss\u00e3o do ministro alem\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de viajar atrav\u00e9s da Alemanha para sua terra natal.<\/p>\n<p>Em 16 de abril (3 de abril no calend\u00e1rio gregoriano), chega \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Finl\u00e2ndia, em S\u00e3o Petesburgo. Suas\u00a0Teses de Abril acabavam de sair do forno: nelas, defendia abertamente que os bolcheviques organizassem uma revolu\u00e7\u00e3o socialista e dessem o poder aos sovietes. Poucos meses depois, suas propostas se mostrariam acertadas.<\/p>\n<p>Conclu\u00edda a revolu\u00e7\u00e3o socialista em outubro de 1917, lidera o governo bolchevique no enfrentamento \u00e0 guerra civil incensada pelas for\u00e7as conservadoras, com apoio do imperialismo, at\u00e9 1921, vencida pelo proletariado russo. Comanda a instaura\u00e7\u00e3o da NEP (Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica) e escreve\u00a0Esquerdismo, doen\u00e7a infantil do comunismo. V\u00e1rios acidentes vasculares cerebrais o prejudicam, fazendo com que venha a falecer em 21 de janeiro de 1924.<\/p>\n<p>A teoria a servi\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A biografia de L\u00eanin est\u00e1 umbilicalmente ligada \u00e0 luta pol\u00edtica contra o reformismo no interior do movimento socialista mundial. Em resposta ao desenvolvimento do oportunismo na Segunda Internacional, grupos comunistas em v\u00e1rios pa\u00edses passaram a resgatar os princ\u00edpios revolucion\u00e1rios do legado de Marx e Engels, para fazer contraponto \u00e0 social-democracia. Essas correntes apareceram quando a expans\u00e3o imperialista fazia vislumbrar a perspectiva de um conflito armado entre as grandes pot\u00eancias do capitalismo e, em paralelo, se acirrava a luta de classes (com a deflagra\u00e7\u00e3o de greves gerais pol\u00edticas e, sobretudo, de greves de massas nos pa\u00edses capitalistas).<\/p>\n<p>Contra o oportunismo de Bernstein e outros revisionistas, os bolcheviques, o grupo dos tribunistas holandeses, Rosa Luxemburgo e v\u00e1rios revolucion\u00e1rios aprofundaram a an\u00e1lise marxista para entender a din\u00e2mica das crises c\u00edclicas do capitalismo (como fez L\u00eanin em\u00a0Imperialismo, fase superior do capitalismoe Rosa Luxemburgo em\u00a0A Acumula\u00e7\u00e3o do Capital), as causas das posturas oportunistas (Rosa Luxemburgo em\u00a0Reforma ou revolu\u00e7\u00e3o e, mais tarde, L\u00eanin em\u00a0A Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria e o Renegado Kautsky) e reafirmaram a necessidade da destrui\u00e7\u00e3o violenta e definitiva do capitalismo (L\u00eanin em\u00a0O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o e Rosa Luxemburgo em\u00a0Que quer a Liga Spartacus?).<\/p>\n<p>Em\u00a0Que Fazer?, publicado em 1902, L\u00eanin j\u00e1 havia assinalado, de forma categ\u00f3rica, a op\u00e7\u00e3o pelo caminho revolucion\u00e1rio contra a perspectiva da colabora\u00e7\u00e3o de classe, disseminada pela social-democracia. Uma das principais teses da obra \u00e9 a de que \u201csem teoria revolucion\u00e1ria, n\u00e3o pode haver pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria\u201d. Citando Marx na famosa carta sobre o programa de Gotha, L\u00eanin lembra que o fundador do materialismo hist\u00f3rico dizia ser inaceit\u00e1vel qualquer tipo de concess\u00e3o te\u00f3rica e de barganha com os princ\u00edpios revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O est\u00edmulo ao estudo e a difus\u00e3o da teoria marxista s\u00e3o tarefas priorit\u00e1rias do Partido, pois, segundo outra ideia presente em\u00a0Que Fazer?, \u201ca consci\u00eancia socialista n\u00e3o brota espontaneamente das lutas do proletariado\u201d. Atacando o que denominou de \u201cculto \u00e0 espontaneidade\u201d, destacou a necessidade do Partido de vanguarda e dos militantes profissionais, ou seja, da\u00a0organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, para orientar as massas no sentido da mobiliza\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o consequente contra o regime do Czar e a ordem capitalista. O Partido, ent\u00e3o, deve \u201cir a todas as classes da popula\u00e7\u00e3o\u201d, assumindo o papel de propagandista, agitador e organizador da luta prolet\u00e1ria, assim como de educador, a expor a todos os trabalhadores e demais camadas populares os objetivos gerais do programa socialista.<\/p>\n<p>Criticando os m\u00e9todos artesanais, a improvisa\u00e7\u00e3o e a desorganiza\u00e7\u00e3o que grassavam entre os oposicionistas russos, sobre quem dizia que \u201cpartiam para a guerra como aut\u00eanticos mujiques, armados apenas de um bord\u00e3o\u201d, defendeu que a organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria deve ser diferente da organiza\u00e7\u00e3o sindical, esta centralmente voltada para a luta econ\u00f4mica contra os patr\u00f5es. Entendendo que a luta pol\u00edtica \u00e9 muito mais ampla e complexa que as batalhas sindicais, a organiza\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios deve englobar \u201chomens cuja profiss\u00e3o \u00e9 a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d, pois n\u00e3o seria poss\u00edvel combater a ditadura czarista e, muito menos, avan\u00e7ar na luta pela derrubada do capitalismo, sem que alguns homens e mulheres se dedicassem exclusivamente a esta tarefa.<\/p>\n<p>Para cumprir tais objetivos, levando-se em conta as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na R\u00fassia dos primeiros anos do s\u00e9culo XX, se fazia necess\u00e1rio um alto grau de centraliza\u00e7\u00e3o organizativa, com o cuidado de que a especializa\u00e7\u00e3o do trabalho revolucion\u00e1rio e a clandestinidade n\u00e3o levassem ao descolamento das massas, nem se mostrassem incompat\u00edveis com os princ\u00edpios democr\u00e1ticos. Por fim, L\u00eanin postula que, no Partido revolucion\u00e1rio, deve desaparecer por completo toda distin\u00e7\u00e3o entre oper\u00e1rios e intelectuais.<\/p>\n<p>Outra obra essencial \u00e9\u00a0O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o, escrita em agosto e setembro de 1917, \u00e0s v\u00e9speras, portanto, da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique. L\u00eanin sistematiza as ideias de Marx e Engels sobre o Estado capitalista e a ditadura do proletariado, buscando atualizar a sua aplica\u00e7\u00e3o na luta pol\u00edtica em tempos de capitalismo monopolista e de imperialismo, ou seja, segundo seus progn\u00f3sticos \u00e0 \u00e9poca, de prepara\u00e7\u00e3o para a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. Refor\u00e7ando que o princ\u00edpio democr\u00e1tico \u00e9 um princ\u00edpio prolet\u00e1rio, L\u00eanin reafirma, fundamentalmente, o car\u00e1ter de classe do Estado, desmistificando o pensamento burgu\u00eas segundo o qual a democracia pol\u00edtica \u00e9 inerente \u00e0 ordem fundada pelos liberais. Na verdade, a consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo monopolista e do imperialismo representou um retrocesso nas pr\u00e1ticas democr\u00e1ticas conquistadas em v\u00e1rios pa\u00edses gra\u00e7as \u00e0s intensas lutas oper\u00e1rias travadas ao longo do s\u00e9culo XIX. Ao caracterizar o Estado como instrumento a servi\u00e7o do grande capital, o l\u00edder bolchevique projetava a tend\u00eancia, hoje cada vez mais evidente, da total incompatibilidade entre a ordem capitalista e a democracia.<\/p>\n<p>A Internacional Comunista<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917, o movimento socialista internacional viu-se envolvido na cren\u00e7a de que a ruptura hist\u00f3rica com o capitalismo era iminente e de que uma nova onda revolucion\u00e1ria iria varrer o mundo, estabelecendo rapidamente, na Europa e no ocidente, uma nova sociedade dirigida pelos oper\u00e1rios. Da\u00ed que, em mar\u00e7o de 1919, realizou-se, em Moscou, a convite dos bolcheviques, o Congresso de funda\u00e7\u00e3o da III Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, tamb\u00e9m chamada de Internacional Comunista (IC) ou Komintern, constitu\u00edda por representantes de numerosos pequenos grupos revolucion\u00e1rios europeus, aqueles que em seus pa\u00edses haviam rompido com a social-democracia, dando in\u00edcio \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos partidos comunistas. Definia-se a luta pela afirma\u00e7\u00e3o da ditadura do proletariado no lugar da democracia burguesa como um dos princ\u00edpios fundamentais da entidade, na perspectiva de cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cUni\u00e3o Mundial das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas\u201d. Mas o contexto internacional era de refluxo do movimento oper\u00e1rio e socialista e de derrota de lutas populares e tentativas revolucion\u00e1rias na Alemanha, na \u00c1ustria, na Fran\u00e7a, na Hungria, na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>No segundo congresso, reunido em 1920, foram aprovadas as Teses sobre a quest\u00e3o nacional e colonial, redigidas por L\u00eanin, que inseria as lutas nacionais na sua teoria do imperialismo, propondo a uni\u00e3o do movimento anti-imperialista, formado pelo conjunto de movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional e colonial, aos objetivos estrat\u00e9gicos da revolu\u00e7\u00e3o mundial, sob a lideran\u00e7a dos bolcheviques da R\u00fassia Sovi\u00e9tica, num momento em que esta se via cercada pelos ataques dos pa\u00edses imperialistas durante o per\u00edodo conhecido como \u201ccomunismo de guerra\u201d.<\/p>\n<p>L\u00eanin combateu, neste Congresso, a argumenta\u00e7\u00e3o segundo a qual apoiar movimentos coloniais de car\u00e1ter democr\u00e1tico-burgu\u00eas favoreceria a afirma\u00e7\u00e3o de um esp\u00edrito nacionalista que impediria o despertar da consci\u00eancia de classe nas massas exploradas. Em contrapartida, defendeu o conceito de \u201cnacionalismo revolucion\u00e1rio\u201d, descartando a vis\u00e3o linear das fases obrigat\u00f3rias no processo revolucion\u00e1rio, a prever uma etapa democr\u00e1tico-burguesa, o que parecia indicar a insist\u00eancia, por parte de certos dirigentes comunistas, em criar um modelo de transforma\u00e7\u00e3o social copiado da hist\u00f3ria europeia. Para L\u00eanin, os movimentos nacionais tinham validade revolucion\u00e1ria se fossem protagonistas de um processo de transi\u00e7\u00e3o para a revolu\u00e7\u00e3o socialista, n\u00e3o sendo aceita como inevit\u00e1vel a realiza\u00e7\u00e3o da etapa burguesa, pois dizia: \u201cos pa\u00edses atrasados, com a ajuda do proletariado dos pa\u00edses avan\u00e7ados, podem passar ao regime sovi\u00e9tico e, atrav\u00e9s de determinadas etapas de desenvolvimento, ao comunismo, evitando o est\u00e1gio capitalista de desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p>Na concep\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, quando se falava em movimento democr\u00e1tico-burgu\u00eas ou revolucion\u00e1rio-nacional, tinha-se em mente a percep\u00e7\u00e3o de que a massa principal da popula\u00e7\u00e3o a ser atra\u00edda para a luta revolucion\u00e1ria nos pa\u00edses dominados pelo imperialismo seria composta pelo campesinato. O apoio dos comunistas ao movimento democr\u00e1tico-burgu\u00eas traduzia-se na luta contra a explora\u00e7\u00e3o imperialista lado a lado com os camponeses, representantes da pequena burguesia rural, cujos objetivos pol\u00edticos eram vistos como potencialmente progressistas e conflitantes com os interesses da burguesia industrial e financeira, j\u00e1 comprometida com o imperialismo. Numa realidade em que o proletariado ainda n\u00e3o se organizara de forma a se tornar a principal for\u00e7a hegem\u00f4nica na revolu\u00e7\u00e3o, a alian\u00e7a com o campesinato aparecia como a melhor t\u00e1tica para a luta anti-imperialista e a conquista de um poder alternativo ao exercido pelos grupos capitalistas.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia desse pensamento pode ser revisitada no cl\u00e1ssico\u00a0Duas T\u00e1ticas da Social-Democracia na Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, escrito por L\u00eanin no ano de 1905, como contribui\u00e7\u00e3o para o aprofundamento da luta revolucion\u00e1ria na R\u00fassia. A revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa era vista como inevit\u00e1vel e, mesmo, necess\u00e1ria, naquela conjuntura espec\u00edfica de um pa\u00eds de economia agr\u00e1ria com sobreviv\u00eancias de rela\u00e7\u00f5es feudais, para varrer os restos do regime de servid\u00e3o e da superestrutura aristocr\u00e1tica, incluindo a pr\u00f3pria monarquia czarista, e garantir o pleno desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es capitalistas. Da\u00ed que, segundo L\u00eanin, a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, burguesa por seu conte\u00fado econ\u00f4mico e social, tamb\u00e9m fosse do interesse da classe oper\u00e1ria e dos camponeses, por sua capacidade de proporcionar mudan\u00e7as que estabelecessem novas formas de organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, permitindo maior f\u00f4lego \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 luta do proletariado em prol de sua total liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era admiss\u00edvel, para o l\u00edder comunista russo, que o proletariado ficasse \u00e0 margem da revolu\u00e7\u00e3o burguesa, tampouco que entregasse a sua dire\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia, mas, pelo contr\u00e1rio, era preciso lutar para ampliar os limites democr\u00e1tico-burgueses da revolu\u00e7\u00e3o no sentido da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades e dos interesses do proletariado, preparando o caminho de sua vit\u00f3ria completa, a sociedade socialista. Como a burguesia e a pequena burguesia russas n\u00e3o haviam ainda formado um grande partido popular, caberia aos bolcheviques dirigir o processo, liderando n\u00e3o s\u00f3 o proletariado, mas tamb\u00e9m aqueles grupos e elementos sociais capazes de marchar ao seu lado, visando \u00e0 conquista da democracia revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>No III Congresso da IC, realizado em 1921, com base em seu texto\u00a0Esquerdismo, doen\u00e7a infantil do comunismo, L\u00eanin passa a reconhecer que a onda revolucion\u00e1ria havia regredido, centralmente na Europa, da\u00ed a necessidade de um trabalho dos comunistas no interior dos sindicatos dominados por dire\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias, al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es institu\u00eddas pelo calend\u00e1rio pol\u00edtico democr\u00e1tico-burgu\u00eas, tendo em vista a conquista de cadeiras, pelo movimento oper\u00e1rio, nos parlamentos dos pa\u00edses capitalistas. L\u00eanin percebe que os partidos comunistas fora da R\u00fassia Sovi\u00e9tica tinham pequena inser\u00e7\u00e3o junto \u00e0s massas e insistiam em adotar t\u00e1ticas revolucion\u00e1rias calcadas na experi\u00eancia dos bolcheviques, as quais n\u00e3o demonstravam ser adequadas \u00e0 realidade social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica do ocidente capitalista. Pois n\u00e3o eram as mesmas as condi\u00e7\u00f5es que favoreceram, na R\u00fassia, o desenvolvimento do processo revolucion\u00e1rio. Era preciso \u201ctrabalhar obrigatoriamente onde est\u00e1 a massa\u201d.<\/p>\n<p>Lembrava L\u00eanin que os bolcheviques necessitaram de quinze anos para se preparar como uma for\u00e7a pol\u00edtica organizada para a conquista do poder na R\u00fassia, afirmando que a vit\u00f3ria sobre a burguesia seria imposs\u00edvel sem uma \u201cguerra prolongada, tenaz, desesperada, de vida ou de morte; uma guerra que exige tenacidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e unidade de vontade\u201d. Afinal, tratava-se de enfrentar um poder que n\u00e3o residia apenas na for\u00e7a do capital e na solidez das suas rela\u00e7\u00f5es internacionais, mas igualmente na \u201cfor\u00e7a do costume, na for\u00e7a da\u00a0pequena produ\u00e7\u00e3o\u201d. O dirigente bolchevique indicava a necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o que fosse tamb\u00e9m capaz de promover transforma\u00e7\u00f5es de ordem moral e cultural para vencer a ideologia do capitalismo.<\/p>\n<p>Era preciso saber respeitar e reconhecer, atrav\u00e9s de muito estudo e acurada investiga\u00e7\u00e3o das realidades nacionais, as especificidades existentes na economia, na pol\u00edtica e na cultura de cada pa\u00eds, que for\u00e7osamente exigiriam formas particulares de luta, capazes de adaptar os princ\u00edpios fundamentais do comunismo \u00e0s caracter\u00edsticas pr\u00f3prias de cada na\u00e7\u00e3o. Para tal, n\u00e3o bastaria a a\u00e7\u00e3o isolada da vanguarda, nem um trabalho voltado apenas \u00e0 agita\u00e7\u00e3o e \u00e0 propaganda, pois somente atrav\u00e9s da pr\u00f3pria experi\u00eancia pol\u00edtica das massas seria poss\u00edvel desenvolver formas de abordagem da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, ou seja, t\u00e1ticas de luta eficazes na mobiliza\u00e7\u00e3o popular e no enfrentamento \u00e0s classes dominantes. Tendo afirmado que os revolucion\u00e1rios deveriam saber combinar modos diferenciados de embate pol\u00edtico, L\u00eanin deixava claro n\u00e3o haver um modelo \u00fanico ou uma receita para a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o, destacando ser necess\u00e1rio que \u201ctodos os comunistas de todos os pa\u00edses tenham consci\u00eancia em toda a parte e at\u00e9 o fim da necessidade da m\u00e1xima flexibilidade na sua t\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Flexibilidade na t\u00e1tica, mas n\u00e3o princ\u00edpios, tampouco na estrat\u00e9gia. A radicalidade do pensamento de L\u00eanin provocou a rea\u00e7\u00e3o virulenta da burguesia e da social-democracia, que demonizaram o l\u00edder bolchevique e tudo o que ele representa. Em contrapartida, para os revolucion\u00e1rios e trabalhadores conscientes da necessidade de destruir a ordem capitalista e construir o socialismo, h\u00e1 a certeza de que seu legado pol\u00edtico mant\u00e9m-se como um guia indispens\u00e1vel para a a\u00e7\u00e3o transformadora. As ideias de L\u00eanin e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 marcaram a ferro e fogo todo o s\u00e9culo XX. Al\u00e9m de retomar o impulso revolucion\u00e1rio de Marx, com L\u00eanin o socialismo deixava de ser uma doutrina exclusivamente europeia para ganhar o mundo, superando seu eurocentrismo inicial. Os trabalhadores e povos explorados em todo o planeta continuam encontrando no marxismo revolucion\u00e1rio de L\u00eanin o indicativo preciso da uni\u00e3o da teoria com a pr\u00e1tica, para a organiza\u00e7\u00e3o das lutas de resist\u00eancia e enfrentamento aos imperativos do capital, com vistas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da alternativa socialista, no rumo do comunismo.<\/p>\n<p>VIVA L\u00caNIN! VIVA A REVOLU\u00c7\u00c3O SOCIALISTA!<\/p>\n<p>O\u00a0Portal do PCB, em sua se\u00e7\u00e3o de\u00a0Forma\u00e7\u00e3o, oferece parte da produ\u00e7\u00e3o intelectual de L\u00eanin, nos seguintes livros:<\/p>\n<ul type=\"disc\">\n<li>As Teses de Abril<\/li>\n<li>As Tr\u00eas Fontes e as Tr\u00eas Partes Constitutivas do Marxismo<\/li>\n<li>Capitalismo e Agricultura nos Estados Unidos da Am\u00e9rica<\/li>\n<li>Duas T\u00e1ticas da Social-Democracia na Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica<\/li>\n<li>Esquerdismo, Doen\u00e7a Infantil do Comunismo<\/li>\n<li>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo<\/li>\n<li>Que Fazer?<\/li>\n<li>Sobre a Dualidade de Poderes<\/li>\n<li>Um Passo a Frente, Dois Atr\u00e1s<\/li>\n<\/ul>\n<p>Para fazer o download dessas obras, basta ir ao seguinte link:<\/p>\n<p><a href=\"index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=1817\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/pcb.org.br\/portal\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=1817<\/a><\/p>\n<p>Boa leitura!<\/p>\n<p>*Paulo Schueler e Ricardo Costa s\u00e3o membros do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nUma vida dedicada \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2294\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-2294","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-B0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2294","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2294"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2294\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2294"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2294"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2294"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}