{"id":22975,"date":"2019-05-03T20:51:40","date_gmt":"2019-05-03T23:51:40","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22975"},"modified":"2019-05-08T21:02:26","modified_gmt":"2019-05-09T00:02:26","slug":"sindicatos-a-classe-trabalhadora-vai-ao-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22975","title":{"rendered":"Sindicatos: a classe trabalhadora vai ao inferno?"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Captura-de-tela-em-2019-04-30-20-33-03.jpg\"\/><!--more-->OutrasPalavras\nPor R\u00f4ney Rodrigues\nImagem: Steve Snodgrass\n<\/p><p>\nDesemprego, automa\u00e7\u00e3o, prec\u00e1rios, contrarreforma trabalhista. Preso \u00e0s din\u00e2micas do s\u00e9culo passado, sindicalismo est\u00e1 em crise. Mas novas experi\u00eancias \u2014 no Brasil e no mundo \u2014 apontam para poss\u00edvel renova\u00e7\u00e3o. Quais s\u00e3o elas?\n<\/p><p>\nUma multid\u00e3o tomou conta do Vale do Anhangaba\u00fa, em 26 de mar\u00e7o. N\u00e3o era show nem manifesta\u00e7\u00e3o. Eram desempregados, um ex\u00e9rcito formado por 15 mil pessoas, em busca de uma das seis mil vagas oferecidas pelo Mutir\u00e3o de Emprego, promovido pela Secretaria de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Trabalho da Prefeitura de S\u00e3o Paulo e pelo Sindicato dos Comerci\u00e1rios. Muitos madrugaram na fila, portando pastas de papel\u00e3o com RG, CPF, carteira de trabalho e curr\u00edculo impresso, esperando, quase sem comer e dormir, cerca de 24 horas para conquistarem, enfim, uma senha que lhes daria direito a serem atendidos. Outros n\u00e3o tiveram a mesma sorte e voltaram para casa com uma triste not\u00edcia: por enquanto, n\u00e3o haveria nem a esperan\u00e7a de um emprego.\n<\/p><p>\nO desemprego no Brasil, segundo recente pesquisa do IBGE, atinge 13,1 milh\u00f5es de pessoas. Al\u00e9m disso, 28,3 milh\u00f5es t\u00eam a for\u00e7a de trabalho \u201csubutilizada\u201d, ou seja, gostariam \u2013 ou precisam \u2013 trabalhar mais horas. 4,8 milh\u00f5es de pessoas j\u00e1 desistiram de procurar emprego, o equivalente a 4,4% da for\u00e7a de trabalho. Para essas milhares de pessoas que foram at\u00e9 o Anhangaba\u00fa \u2013 ou que amargam a falta de trabalho em outros cantos do pa\u00eds \u2013 parece haver algo errado: se antes t\u00ednhamos uma vibrante economia interna, porque agora ter um emprego torna-se uma tarefa \u00e1rdua \u2013 e frustrante? Em um contexto de retirada de direitos, quem, afinal, vai olhar \u2013 e lutar \u2013 pela classe trabalhadora?\n<\/p><p>\nA resposta autom\u00e1tica seria os sindicatos que, no entanto, vivem uma profunda crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica, at\u00e9 com sua exist\u00eancia amea\u00e7ada. Seria poss\u00edvel eles se reinventarem, ap\u00f3s o duro golpe que foi a Contrarreforma Trabalhista, aprovada em 2017 pelo presidente interino Michel Temer, e adquirirem nova relev\u00e2ncia e protagonismo nesse cen\u00e1rio terr\u00edvel para os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros?\n<\/p><p>\nCrise anunciada?\n\u00c9 sabido que, em toda a hist\u00f3ria do sindicalismo, o desemprego \u201cmata\u201d a a\u00e7\u00e3o sindical. Um ex\u00e9rcito de desempregados, como no Brasil, imp\u00f5e outros desafios a uma fragilizada classe trabalhadora, a come\u00e7ar pela pr\u00f3pria subsist\u00eancia: enfrentar filas para vagas de emprego, imprimir centenas de curr\u00edculos, angustiar-se no momento de pagar aluguel e outras contas, ou de pensar no colocar\u00e1 \u00e0 mesa para a fam\u00edlia. A taxa de associados a algum sindicato, segundo o IBGE, j\u00e1 havia ca\u00eddo para 14,4% dos assalariados, antes mesmo da Contrarreforma Trabalhista (implantada j\u00e1 no final de 2017, em novembro). \u00c9 a menor desde o in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica, em 2012, quando era de 16,2%.\n<\/p><p>\n\u201cVivemos uma recess\u00e3o, embora as pessoas pare\u00e7am ter vergonha de cham\u00e1-la por esse nome\u201d, adverte Jo\u00e3o Guilherme Vargas Netto, que h\u00e1 d\u00e9cadas \u00e9 consultor sindical, tendo atuado em dezenas de sindicatos. \u201cEssa recess\u00e3o que provoca, principalmente, o desemprego entre os jovens, imp\u00f5e dificuldades estruturantes para o movimento sindical, como, por exemplo, a dificuldade de fazer greves\u201d.\n<\/p><p>\nClemente Ganz L\u00facio, diretor t\u00e9cnico do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese), se pergunta: como mobilizar a classe trabalhadora quando as rela\u00e7\u00f5es de trabalho se transformam e as pol\u00edticas macroecon\u00f4micas s\u00e3o direcionadas contra os direitos trabalhistas, fragilizando milh\u00f5es de pessoas e as pr\u00f3prias entidades sindicais?\n<\/p><p>\n\u201cEncontrar o caminho para a a\u00e7\u00e3o sindical, em um um contexto de recess\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil\u201d, analisa Ganz L\u00facio. \u201cEm geral, o movimento sindical \u00e9 mais din\u00e2mico quando a economia cresce: h\u00e1 gera\u00e7\u00e3o de empregos e sal\u00e1rios. Quando temos uma massa de desempregados h\u00e1 muito tempo sem trabalho, cai a disposi\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora em realizar qualquer enfrentamento, afinal, a resist\u00eancia dela foi quebrada. H\u00e1, tamb\u00e9m, grandes transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que afetam os postos de trabalho e exigem capacidade dos sindicatos para enfrent\u00e1-las. E, depois disso, veio a Contrarreforma que aprofundou ainda mais a crise no sindicalismo brasileiro\u201d.\n<\/p><p>\nUm golpe fatal?\nA Contrarreforma Trabalhista do Temer come\u00e7ou a ser gestada ap\u00f3s press\u00f5es do empresariado brasileiro. Em 2012 a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional das Ind\u00fastrias (CNI), lan\u00e7ou o documento \u201c101 Propostas para Moderniza\u00e7\u00e3o Trabalhista\u201d, apontando que os \u201caltos custos do emprego formal\u201d eram um dos \u201cmais graves gargalos ao aumento da competitividade das empresas brasileiras\u201d. Era necess\u00e1rio, argumentavam os empres\u00e1rios, que o governo se comprometesse a uma \u201creforma\u201d na legisla\u00e7\u00e3o trabalhista. O governo Dilma Rousseff n\u00e3o implantou tais ataques \u00e0 Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT), o que, entre outros in\u00fameros fatores, contribuiu para que o Congresso Nacional iniciasse um processo de impeachment \u2013 e golpe \u2013 contra a presidenta eleita.\n<\/p><p>\nDerrubada, o caminho estava livre para o ataque e, logo nos primeiros meses do governo Temer, come\u00e7ou-se uma ampla propaganda em defesa da Contrarreforma que, enfim, foi aprovada pelos deputados e senadores. \n<\/p><p>\nEntre os principais pontos, est\u00e3o:\n<\/p><p>\nO negociado vale sobre o legislado. Empregadores e empregados podem negociar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, mesmo que violem garantias asseguradas pela CLT. Num cen\u00e1rio de desemprego em massa, isso permite aos empregadores impor \u201cacordos\u201d \u2014 j\u00e1 que a alternativa \u00e9 n\u00e3o ter trabalho algum. Os trabalhadores acabam privados de condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho, o que precariza progressivamente as rela\u00e7\u00f5es de trabalho.\n<\/p><p>\nFlexibiliza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Possibilita terceirizar qualquer atividade exercida nas empresas, incluindo a atividade-fim ou principal da organiza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a Contrarreforma legaliza o trabalho intermitente, ou seja, contratos at\u00edpicos em que o trabalhador est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do patr\u00e3o, sem garantias de que trabalhar\u00e1. Tem emprego sem trabalho nem sal\u00e1rio. Em empresas de fast food, por exemplo, funcion\u00e1rios s\u00e3o convocados e s\u00f3 atuam em hor\u00e1rios de grande fluxo dos restaurantes, recebendo somente por tais horas \u2013 se chamados.\n<\/p><p>\nRestri\u00e7\u00f5es aos sindicatos. Extinguiu-se o imposto sindical obrigat\u00f3rio, o que levou a uma queda de 90% na arrecada\u00e7\u00e3o deste item da receita dos sindicatos: de R$ 3,64 bilh\u00f5es em 2017 caiu para R$ 500 milh\u00f5es no ano passado \u2013 e a tend\u00eancia \u00e9 que o valor seja ainda menor neste ano, devido ao aumento do desemprego. Com isso, o financiamento das estruturas sindicais reduziu-se \u00e0 taxa de associa\u00e7\u00e3o e \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o assistencial (desconto, na folha de pagamento, dos servi\u00e7os prestados pelas entidades sindicais \u00e0 categoria, sobretudo na celebra\u00e7\u00e3o de acordos ou conven\u00e7\u00f5es coletivas de trabalhos ou participa\u00e7\u00e3o em processos de diss\u00eddio coletivo). Essa queda brusca na arrecada\u00e7\u00e3o acarretou a redu\u00e7\u00e3o da estrutura sindical, com demiss\u00e3o de equipe jur\u00eddica, t\u00e9cnica, de comunica\u00e7\u00e3o etc. A CUT, maior central sindical do Brasil, por exemplo, enxugou seu quadro de funcion\u00e1rios, por meio de um programa de demiss\u00e3o volunt\u00e1ria, em 60% e vai vender sua sede, localizada no centro de S\u00e3o Paulo e avaliada em 40 milh\u00f5es de reais, para conseguir operar, minimamente, suas atividades. \n<\/p><p>\nRetrocessos na Justi\u00e7a do Trabalho. Os trabalhadores demitidos podem homologar sua sa\u00edda (e receber o que lhes \u00e9 devido) sem assist\u00eancia de seu sindicato. Isso leva a in\u00fameros erros no c\u00e1lculo, quase nunca em favor do empregado. Al\u00e9m disso, a empresa pode exigir uma redu\u00e7\u00e3o na jornada de trabalho, tamb\u00e9m sem a presen\u00e7a das entidades sindicais. A nova legisla\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m inibe que o trabalhador entre com a\u00e7\u00f5es na justi\u00e7a contra os empregadores: se perdem, dever\u00e3o arcar com os custos processuais, dos honor\u00e1rios de advogados da parte vencedora e das provas periciais produzidas.\n<\/p><p>\nComo se todos estes ataques fossem pouco, o governo Bolsonaro, lan\u00e7ou, mais recentemente, novas  agress\u00f5es aos trabalhadores e seus sindicatos, em um projeto de desmonte das prote\u00e7\u00f5es sociais. Entre elas:\n<\/p><p>\nMedida Provis\u00f3ria (MP) 870 (aprovada). Extinguiu o minist\u00e9rio do Trabalho, como parte de uma reorganiza\u00e7\u00e3o da estrutura administrativa do Poder Executivo.\n<\/p><p>\nMP 871 (em tramita\u00e7\u00e3o). Vai analisar e revisar benef\u00edcios previdenci\u00e1rios. O trabalhador adoecido, por exemplo, ou afastado por depress\u00e3o, sem condi\u00e7\u00f5es de voltar ao trabalho, ter\u00e1 de provar que n\u00e3o \u00e9 um fraudador. O objetivo \u00e9 cortar benef\u00edcios.\n<\/p><p>\nMP 873 (em tramita\u00e7\u00e3o). Editada \u00e0s v\u00e9speras do Carnaval, impede descontos consignados \u00e0 folha e determina que o pagamento da contribui\u00e7\u00e3o sindical (autorizadas pelos trabalhadores) seja feito por meio de boleto banc\u00e1rio, ap\u00f3s autoriza\u00e7\u00e3o expressa, individual e por escrito do trabalhador e da trabalhadora. A medida, que tem o objetivo de sufocar financeiramente os sindicatos e inviabilizar, ainda mais, a cobran\u00e7a da contribui\u00e7\u00e3o sindical, j\u00e1 transformada em facultativa pela Contrarreforma. \n<\/p><p>\nSal\u00e1rio m\u00ednimo. Em decreto assinado, Bolsonaro fixou o sal\u00e1rio m\u00ednimo em R$ 998 neste ano. O valor ficou abaixo da estimativa que constava do or\u00e7amento da Uni\u00e3o, de R$ 1.006. A situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 ainda pior a partir de 2020, pois expirou a lei que obrigava o governo a promover, a cada reajuste do m\u00ednimo, um pequeno aumento real, al\u00e9m da reposi\u00e7\u00e3o das perdas inflacion\u00e1rias.\n<\/p><p>\nContrarreforma da Previd\u00eancia. Entre outros pontos, adota o modelo de capitaliza\u00e7\u00e3o, com contas individuais, para o regime de Previd\u00eancia \u2014 ou seja, debilita o modelo atual de \u201creparti\u00e7\u00e3o\u201d, onde os trabalhadores da ativa e as empresas financiam os aposentados \u2014 e aumenta a idade m\u00ednima para a aposentadoria.\n<\/p><p>\nCarteira verde-amarela. Ainda n\u00e3o est\u00e1 completamente claro como o governo Bolsonaro pretende executar essa promessa de campanha. Basicamente, essa carteira permite estabelecer contratos de trabalho em regime de direitos \u201cflexibilizados\u201d \u2013 ou seja, eliminados.\n<\/p><p>\nPluralidade sindical an\u00e1rquica. O governo federal estuda propor ao Congresso Nacional o fim unicidade sindical, regra que permite um \u00fanico sindicato representando determinada categoria na mesma base territorial. O objetivo \u00e9 pulverizar o sindicalismo em milhares de pequenas entidades e com atua\u00e7\u00e3o limitada.\n<\/p><p>\nNova classe trabalhadora?\nMesmo em meio \u00e0s enormes transforma\u00e7\u00f5es no mundo produtivo, a classe trabalhadora n\u00e3o diminuiu \u2014 aumentou. Acontece que ela n\u00e3o \u00e9 mais representada por oper\u00e1rios manejando equipamentos industriais e vestidos com macac\u00f5es. H\u00e1 uma nova morfologia do trabalho provocada pelas mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, que reorganizou as empresas, fechou postos e informatizou atividades, requerendo novas qualifica\u00e7\u00f5es e paradigmas para os trabalhadores \u2013 e um grande desafio para os sindicatos. Afinal, como organizar a luta de trabalhadores digitais, terceirizados e de home office, por exemplo? Quem \u00e9 o patr\u00e3o de aplicativos como Uber, 99Taxi, Rappi e iFood?\n<\/p><p>\n\u201c\u00c9 uma outra dimens\u00e3o: os trabalhadores n\u00e3o est\u00e3o mais presentes nas empresas, mas dispersos em milh\u00f5es de ocupa\u00e7\u00f5es como prestadores de servi\u00e7os, aut\u00f4nomos, em atividades dom\u00e9sticas, por conta pr\u00f3pria e para grandes empregadores difusos, quase invis\u00edveis. E como representar e proteger os direitos desses trabalhadores?\u201d, pergunta Ganz L\u00facio.\n<\/p><p>\nO fato \u00e9 que o movimento sindical, em todos esses anos, n\u00e3o acompanhou as mudan\u00e7as do mercado de trabalho \u2014 e produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capital \u2014 no s\u00e9culo 21. Parece ainda acorrentado \u00e0 l\u00f3gica produtiva do s\u00e9culo passado, quando viveu seu apogeu. Uma empresa transnacional como o Walmart, por exemplo, conta com milhares de outras empresas subfornecedoras e funcion\u00e1rios terceirizados. Como, ent\u00e3o, organizar a luta sindical contra empresas globais como essa, com din\u00e2mico fluxo de servi\u00e7os e atua\u00e7\u00e3o?\n<\/p><p>\n\u201cH\u00e1 uma muta\u00e7\u00e3o muito profunda nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho \u2013 e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para os sindicatos, que antes lideravam milhares de trabalhadores dentro da f\u00e1brica, enfrentar um capital financeirizado, esparramado e horizontalizado. \u00c9 uma somat\u00f3ria de muta\u00e7\u00f5es que atingiram a subjetividade e a materialidade da classe trabalhadora\u201d, analisa Ricardo Antunes, soci\u00f3logo do trabalho e professor no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH\/Unicamp).\n<\/p><p>\nRenovar os sindicatos, portanto, n\u00e3o seria um desafio apenas para entidades brasileiras, mas para o sindicalismo de todo o mundo. O novo mundo do trabalho requer novas formas de organizar a atividade sindical. E uma das respostas pode estar na atua\u00e7\u00e3o de jovens nas entidades sindicais. Por\u00e9m, de acordo com Vargas Netto, historicamente, o movimento sindical enfrenta uma \u201cresili\u00eancia das dire\u00e7\u00f5es\u201d: pouco se renovou. H\u00e1 uma marcante diferen\u00e7a et\u00e1ria \u2013 e de sexo, j\u00e1 que as lideran\u00e7as s\u00e3o, majoritariamente, masculinas \u2013 entre dirigentes e dirigidos, principalmente em um contexto em que h\u00e1 uma grande juveniliza\u00e7\u00e3o e feminiliza\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra.\n<\/p><p>\n\u201cSe voc\u00ea olhar as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es sindicais, eu chego a dizer que em 95% delas houve chapa \u00fanica com reelei\u00e7\u00e3o de diretorias\u201d, destaca o consultor sindical. Por\u00e9m, ele lembra que a equa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples: grande parte da juventude trabalhadora est\u00e1 na informalidade, terceirizada ou precarizada. Raramente pode associar-se a um sindicato \u2014 muito menos, participar de sua dire\u00e7\u00e3o, ainda mais quando se considera que o movimento sindical ainda n\u00e3o organizou efetivamente esses setores.\n<\/p><p>\n\u201cN\u00e3o \u00e9 somente os sindicatos que est\u00e3o em crise, mas, tamb\u00e9m, partidos, igrejas e at\u00e9 a imprensa. Todos est\u00e3o tentando entender o que fazer e como se comunicar com suas bases para construir uma nova identidade baseada na solidariedade e coopera\u00e7\u00e3o\u201d, analisa Ganz L\u00facio, diretor do Dieese. \u201cNo caso dos sindicatos, o maior desafio \u00e9 fazer uma contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura individualista e meritocr\u00e1tica, valores que, nos \u00faltimos anos, ganharam muita for\u00e7a na sociedade. Muitos pensam: por que vou me associar com outros se eu mesmo posso resolver meus problemas?\u201d.\n<\/p><p>\nAdeus \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o?\n2008 \u2013 Uma crise financeira eclodiu no epicentro do capitalismo, seguida de uma fase que o professor Ricardo Antunes gosta de chamar de \u201cEra da Rebeli\u00f5es\u201d. Estende-se at\u00e9 meados de 2014. Inclui as derrubadas de ditaduras na Tun\u00edsia e no Egito, a crise e amea\u00e7a de ruptura (depois contornada) na Gr\u00e9cia, a explos\u00e3o dos jovens precarizados desempregados da Espanha (que gerou depois o Podemos), a explos\u00e3o da Gera\u00e7\u00e3o \u00e0 Rasca em Portugal, as manifesta\u00e7\u00f5es em Tottenham e Bristol na Inglaterra e o Occupy Wall Street nos EUA.\n<\/p><p>\n\u201c\u00c9 uma era de crise estrutural do capital marcada por rebeli\u00f5es, quase sempre protagonizadas por jovens precarizados. Fez com que a maior parte dos capitalistas abandonasse qualquer projeto de concilia\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o de classes. O desafio maior desta era de rebeli\u00f5es era, o que \u00e9 muito dif\u00edcil e complexo, se converter em uma Era de Revolu\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o aconteceu\u201d, analisa Antunes.\n<\/p><p>\nA vit\u00f3ria do Trump, na avalia\u00e7\u00e3o do professor da Unicamp, marcou o fim dessas rebeli\u00f5es e o in\u00edcio de uma rea\u00e7\u00e3o da extrema-direita contra a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes que, em geral, era praticada por governos anteriores que ainda mantinham certas pol\u00edticas de bem-estar social. Um \u201crevolu\u00e7\u00e3o preventiva\u201d, destaca ele, que elegeu partidos conservadores em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, inclusive no Brasil.\n<\/p><p>\n\u201cEsse cen\u00e1rio todo tinha no plano basal a necessidade de repor n\u00edveis de acumula\u00e7\u00e3o, o que s\u00f3 seria poss\u00edvel atrav\u00e9s da devasta\u00e7\u00e3o dos direitos de trabalho, da legisla\u00e7\u00e3o social conquistada pela classe trabalhadora nos EUA, na Europa, no Jap\u00e3o, em pa\u00edses como o Brasil e tantos outros que est\u00e3o no caminho dos pa\u00edses intermedi\u00e1rios. Isso se tornou um imperativo categ\u00f3rico do capital\u201d, destaca Antunes. \u201cN\u00e3o \u00e9 por acaso que a Contrarreforma do Temer ocorre, simultaneamente, \u00e0s reformas promovidas por Macron, na Fran\u00e7a, e por Macri, na Argentina. Tampouco \u00e9 acaso que justamente quando discutimos a Reforma da Previd\u00eancia no Brasil, Macron afirme que \u00e9 necess\u00e1rio que o trabalhador franc\u00eas trabalhe mais e que h\u00e1 possibilidade de revis\u00e3o na Previd\u00eancia de l\u00e1 tamb\u00e9m\u201d.\n<\/p><p>\nDe olho no mundo\nAntunes destaca algumas novas e interessantes experi\u00eancias de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora \u2013 \u201cnenhuma delas \u00e9 modelo; algumas nascem e desaparecem; outras continuam\u201d, lembra \u2013 que podem auxiliar a propor solu\u00e7\u00f5es para a crise do sindicalismo brasileiro. Eis algumas:\n<\/p><p>\nSan Precario (Mil\u00e3o, It\u00e1lia). Movimento do precariado italiano que questiona a estrutura tradicional dos sindicatos, acostumada a representar o operariado no contexto do Estado de Bem-Estar Social. Defende que os tempos mudaram e a classe trabalhadora j\u00e1 n\u00e3o tem acesso \u00e0 seguridade social e que a estrutura de uma vanguarda sindical que decide e a massa obedece est\u00e1 ultrapassada, instituindo como forma de decis\u00e3o o plebiscito.\n<\/p><p>\nClash City Workers (N\u00e1poles, It\u00e1lia). S\u00e3o jovens, qualificados ou n\u00e3o, italianos e imigrantes. Definem-se como trabalhadores das metr\u00f3poles em luta, o \u201cprecariado\u201d. Enquanto o San Precario organizava suas reivindica\u00e7\u00f5es de forma mais aut\u00f4noma, eles somaram-se a um movimento pol\u00edtico chamado Potere al Popolo!, similar aos prim\u00f3rdios do Podemos, da Espanha, que tamb\u00e9m reunia uma juventude precarizada.\n<\/p><p>\nConfederazione dei Comitati di Base, a COBAS (It\u00e1lia). Movimento que recusa o burocratismo das centrais sindicais tradicionais. \u00c9 uma tentativa de constituir uma unidade dos trabalhadores de forma n\u00e3o hierarquizada.\n<\/p><p>\nNuove Identit\u00e0 di Lavoro, o NidiL (It\u00e1lia). Um n\u00facleo da Confedera\u00e7\u00e3o Geral Italiana do Trabalho (CGIL) que representa o precariado, constatando que a classe trabalhadora caminha mais em dire\u00e7\u00e3o a essa modalidade, em especial nos pa\u00edses centrais do capitalismo, do que ao modelo oper\u00e1rio taylorista e fordista.\n<\/p><p>\nCentral de Trabajadores de la Argentina, a CTA (Argentina). Nasceu de um setor rebelde que n\u00e3o aceitava as duas CGTs existentes, de orienta\u00e7\u00e3o peronista, passando a organizar os trabalhadores p\u00fablicos no contexto do neoliberalismo argentino. Em 2001, criaram, inclusive, um setor para organizar os desempregados.\n<\/p><p>\nConfedera\u00e7\u00e3o Intersindical Galega, a CIG (Gal\u00edcia, Espanha). Recusou-se a se alinhar \u00e0s entidades sindicais tradicionais. Iniciou um trabalho para organizar os imigrantes, algo in\u00e9dito no contexto europeu em que os sindicatos, por vezes, s\u00e3o xen\u00f3fobos.\n<\/p><p>\nMillenials sindicalizados nos EUA. Uma juventude trabalhadora, principalmente de setores de servi\u00e7os como redes de fast food e hoteleiras e de intermitentes digitais, est\u00e1 se associando a algumas lutas sindicais.\n<\/p><p>\nConfer\u00eancia Nacional de Delegados do Sindicato do Setor P\u00fablico do Reino Unido, a UNISON (Inglaterra). Com o devastador neoliberalismo ingl\u00eas, iniciado no governo de Margaret Thatcher, sindicatos que representam os funcion\u00e1rios p\u00fablicos se unificaram em uma \u00fanica entidade para somarem recursos e for\u00e7as na defesa dos trabalhadores.\n<\/p><p>\nPrecari@s inflex\u00edveis (Portugal). Jovens precarizados que, em conjunto com movimentos de imigrantes, levaram as pautas trabalhistas para as ruas, em manifesta\u00e7\u00f5es criativas e empolgantes.\n<\/p><p>\nCaminhos para o sindicalismo brasileiro\nDesde o fim da ditadura militar, apesar do Brasil ter passados por diferentes conjunturas pol\u00edticas e econ\u00f4micas, a taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o sempre havia se mantido est\u00e1vel \u2013 um \u201cverdadeiro milagre\u201d, segundo Vargas Netto. Ao menos, antes da Contrarreforma.\n<\/p><p>\n\u201cNossa taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o nos colocava no meio do pelot\u00e3o das sindicaliza\u00e7\u00f5es mundiais. N\u00e3o o extremo dos escandinavos, nem o extremo baixo dos EUA e Col\u00f4mbia. Estamos no meio. Com essa recess\u00e3o inusitada e singular, um dos elementos significativos que ainda tem sido pouco estudado \u00e9 exatamente a queda da taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o que, perigosamente, abandona essa estabilidade\u201d, afirma o consultor sindical.\n<\/p><p>\nPortanto, um dos desafios do movimento sindical seria manter os j\u00e1 sindicalizados nas entidades e, progressivamente, conquistar novos associados com trabalho de base, principalmente nos pr\u00f3prios locais de trabalho, ambiente \u201cesquecido\u201d pelas dire\u00e7\u00f5es. Uma experi\u00eancia significativa \u00e9 a do Sindicato dos Metal\u00fargicos da Grande Curitiba que, com uma administra\u00e7\u00e3o eficiente, antes da crise j\u00e1 contava com recursos em caixa para manter sua atua\u00e7\u00e3o, fortemente marcada pela aproxima\u00e7\u00e3o do sindicato com as f\u00e1bricas. Outra solu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma fus\u00e3o entre sindicatos como forma de fortalecer as negocia\u00e7\u00f5es salariais, que est\u00e3o mais dif\u00edceis diante do fechamento de f\u00e1bricas, do alto n\u00edvel de desemprego e de mudan\u00e7as na Previd\u00eancia. Juntar sedes, pessoal, presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e col\u00f4nias de f\u00e9rias pode ser uma alternativa. Um exemplo disso \u00e9  o Sindicato dos Empregados na Ind\u00fastria Aliment\u00edcia de S\u00e3o Paulo, que representa cerca de 30 mil trabalhadores, que se uniu aos sindicatos de trabalhadores da \u00e1rea de alimenta\u00e7\u00e3o de Santos e regi\u00e3o, de latic\u00ednios e de fumo no Estado. Juntos passar\u00e3o a ter base de quase 50 mil funcion\u00e1rios.\n<\/p><p>\nOutro ponto para contornar a crise seria apostar em leis de macroprote\u00e7\u00e3o em detrimento de acordos e conven\u00e7\u00f5es coletivas. \u201cTer o direito fundamentado na lei poder\u00e1 ser mais importante que ter uma conven\u00e7\u00e3o coletiva, o que pode gerar prote\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para toda a sociedade. Poder\u00e3o ser novas formas de organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1veis e permanentes\u201d, aponta Ganz Lucio.\n<\/p><p>\nRecentemente, as centrais sindicais se propuseram a comemorar o dia primeiro de maio de forma conjunta, algo in\u00e9dito nos \u00faltimos anos. Isso pode promover uma atua\u00e7\u00e3o unificada das diferentes tend\u00eancias do sindicalismo brasileiro. Al\u00e9m disso, elas tamb\u00e9m se propuseram a coletar assinaturas contra a Reforma da Previd\u00eancia, o que pode lev\u00e1-las a descer \u00e0s suas bases, em um processo de aproxima\u00e7\u00e3o com os trabalhadores e reenraizamento do movimento nos locais de trabalho. \u201cAs sedes dos sindicatos perdem peso na batalha em curso e nas outras que vir\u00e3o\u201d, afirma Vargas Netto.\n<\/p><p>\nOs ares que o chamado \u201cnovo sindicalismo brasileiro\u201d (que floresceu na segunda metade da d\u00e9cada de 1970) soprou tiveram, na avalia\u00e7\u00e3o de Antunes, importante influ\u00eancia na cria\u00e7\u00e3o de movimentos sociais como o Movimento Contra a Carestia (MCV), o Movimento dos Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Atingidos Por Barragens (MAB). O momento, agora, seria o inverso: olhar para essas experi\u00eancias de luta para inspirar a renova\u00e7\u00e3o do sindicalismo.\n<\/p><p>\n\u201cO movimentos sociais partem de aspectos vitais do universo cotidiano: moradia, terra, reforma agr\u00e1ria, acesso \u00e0 cultura etc\u201d, analisa Antunes. \u201cOs sindicatos devem ser menos \u2018corporativistas\u2019 e \u2018categorizados\u2019 e olhar quais s\u00e3o as quest\u00f5es vitais para a classe trabalhadora. Hoje, com todas essas transforma\u00e7\u00f5es no mundo do trabalho, o capital adquiriu um dom\u00ednio totalizante e totalit\u00e1rio sobre nossas vidas, sem divis\u00e3o entre sindicatos patronais, partidos, governo ou aparatos de repress\u00e3o. Por que, ent\u00e3o, a classe trabalhadora deve segmentar as lutas em ultrapassadas gavetinhas?\u201d\n<\/p><p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"yiDREnHcW0\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/sindicatos-da-crise-vira-a-reinvencao\/\">Sindicatos: a classe trabalhadora vai ao inferno?<\/a><\/blockquote><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/sindicatos-da-crise-vira-a-reinvencao\/embed\/#?secret=yiDREnHcW0\" data-secret=\"yiDREnHcW0\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Sindicatos: a classe trabalhadora vai ao inferno?&#8221; &#8212; Outras Palavras\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22975\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[15,31],"tags":[224],"class_list":["post-22975","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s18-sindical","category-c31-unidade-classista","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Yz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22975","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22975"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22975\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22975"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22975"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}