{"id":2299,"date":"2012-01-23T00:53:19","date_gmt":"2012-01-23T00:53:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2299"},"modified":"2012-01-23T00:53:19","modified_gmt":"2012-01-23T00:53:19","slug":"governo-barra-haitianos-e-cria-precedente-perigoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2299","title":{"rendered":"Governo barra haitianos e cria precedente perigoso"},"content":{"rendered":"\n<p>Envoltas em grave crise econ\u00f4mica, o \u00f3dio ao imigrante tem servido como elemento cat\u00e1rtico para a satisfa\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es premidas pelo desemprego e pela falta de perspectiva. Partidos conservadores, auxiliados pela m\u00eddia, n\u00e3o se cansam de apontar o estrangeiro como concorrente na disputa pelos cada vez mais escassos postos de trabalho.<\/p>\n<p>O governo da filha do imigrante b\u00falgaro Pedro Rousseff, aqui chegado para tentar a vida no final dos anos 1930, acaba de determinar restri\u00e7\u00f5es \u00e0 vinda de imigrantes ao Brasil.<\/p>\n<p>Na \u00faltima sexta-feira, o Conselho Nacional de Imigra\u00e7\u00e3o, \u00f3rg\u00e3o vinculado ao Minist\u00e9rio do Trabalho, determinou que impedir\u00e1 a entrada anual de mais de 1,2 mil haitianos que venham ao pa\u00eds em busca de melhor sorte. Trata-se de uma vers\u00e3o perversa da pol\u00edtica de cotas raciais, defendida por varios setores da sociedade brasileira para possibilitar a afrodescendentes o acesso a universidade e a cargos p\u00fablicos. Agora s\u00e3o cotas para tolher e n\u00e3o para facilitar.<\/p>\n<p><strong>Press\u00f5es hist\u00f3ricas<\/strong><\/p>\n<p>Embora tenham ocorrido press\u00f5es contra a chegada de chineses no s\u00e9culo XIX e de judeus nos anos do Estado Novo, nunca antes na hist\u00f3ria deste pa\u00eds houve uma determina\u00e7\u00e3o oficial que impusesse barreiras a estrangeiros, nem mesmo durante a ditadura militar.<\/p>\n<p>A iniciativa ocorre depois de mat\u00e9rias alarmistas na imprensa, dando conta de um pretenso descontrole na chegada de haitianos atrav\u00e9s da fronteira do Acre com o Peru. Segundo tais reportagens, os ilegais seriam ligados a traficantes internacionais de drogas. No entanto, nenhuma prova consistente foi apresentada a respeito.<\/p>\n<p>Como os haitianos que buscam trabalho no Brasil s\u00e3o todos negros e pobres, o governo acaba por introduzir, mesmo que involuntariamente, dois ingredientes perigosos na vida nacional: a xenofobia e o racismo. Tais caracter\u00edsticas t\u00eam se destacado como essenciais da acelerada marcha \u00e0 direita de pa\u00edses da Europa Ocidental, como It\u00e1lia, Espanha, It\u00e1lia e Inglaterra. Envoltos em uma grav\u00edssima crise econ\u00f4mica, o \u00f3dio ao imigrante sem dinheiro e geralmente de pele escura \u2013 com persegui\u00e7\u00f5es, queimas de moradias, pris\u00f5es e deporta\u00e7\u00f5es \u2013 tem servido como elemento cat\u00e1rtico para a satisfa\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es premidas pelo desemprego e pela falta de perspectiva. Partidos conservadores, auxiliados pela m\u00eddia, n\u00e3o se cansam de apontar o estrangeiro como concorrente na disputa pelos cada vez mais escass os postos de trabalho.<\/p>\n<p>Nada disso ocorre ou ocorreu no Brasil. Ao contr\u00e1rio. Embora a situa\u00e7\u00e3o dos imigrantes nunca tenha sido r\u00f3sea em nosso pa\u00eds, as decis\u00f5es oficiais desde o final do s\u00e9culo XIX foram a de se incentivar a chegada de forasteiros para o trabalho, tanto na ind\u00fastria quanto na agricultura.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que a primeira onda de imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, ocorrida a partir dos anos finais da escravid\u00e3o, tinha como prop\u00f3sito n\u00e3o apenas substituir o bra\u00e7o escravo, mas \u201cembranquecer\u201d o pa\u00eds, como pregavam te\u00f3ricos como Silvio Romero e Nina Rodrigues.<\/p>\n<p><strong>Humanitarismo comovente<\/strong><\/p>\n<p>A diretriz governamental, que contou com o empenho do Itamaraty e do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a por sua aprova\u00e7\u00e3o, evidencia o total fracasso da controversa miss\u00e3o de paz da ONU, a Minustah, capitaneada pelo Brasil, que ocupou militarmente o pa\u00ecs caribenho desde 2004. A justificativa governamental feita \u00e0 \u00e9poca era de auxiliar na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds mais pobre da Am\u00e9rica Latina, em uma iniciativa essencialmente humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Vale a pena examinar que humanitarismo \u00e9 esse.<\/p>\n<p>Em 15 de agosto de 2008, o jornal Valor Econ\u00f4mico, em materia intitulada \u201cMiss\u00e3o de paz abre oportunidades para empresas brasileiras no Haiti\u201d, noticiava o seguinte:<\/p>\n<p><em>&#8220;O Brasil \u00e9 um reconhecido colaborador do processo de resgatar o Haiti. O pa\u00eds tem o direito de pleitear um tratamento preferencial&#8221;, disse ao Valor Josu\u00e9 Gomes da Silva, presidente da Coteminas e filho do vice-presidente Jos\u00e9 Alencar. O empres\u00e1rio j\u00e1 esteve pessoalmente no Haiti e conversou com produtores locais em busca de parceiros. (&#8230;) Apesar da confus\u00e3o institucional, o Haiti tem vantagens importantes para oferecer para uma empresa t\u00eaxtil: proximidade e acesso diferenciado ao maior mercado do mundo, os EUA, e m\u00e3o-de-obra barata. Uma costureira na capital Porto Pr\u00edncipe recebe US$ 0,50 por hora. \u00c9 uma remunera\u00e7\u00e3o inferior aos US$ 3,27 pagos no Brasil e muito abaixo dos US$ 16,92 dos EUA, conforme a consultoria Werner. O valor \u00e9 inferior at\u00e9 aos US$ 0,85 pagos no litoral da China e perde apenas para os US$ 0,46 do Vietn\u00e3 e os US$ 0,28 de Bangladesh. O plano da Coteminas \u00e9 exportar o tecido do Brasil, confeccionar a roupa no Haiti, e vender com tarifa zero para os Estados Unidos, amparada pelo acordo de livre com\u00e9rcio\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Como a Coteminas, outras empresas brasileiras se dirigiram para o Haiti em busca de bons neg\u00f3cios.<\/p>\n<p><strong>Veja bem<\/strong><\/p>\n<p>O plano, aparentemente n\u00e3o esta dando certo e agora os haitianos buscam ref\u00fagio junto ao pa\u00eds que lhes prometeu vida melhor, com direito a tropas, jogos de futebol e belos discursos no pacote. O governo deste pais solid\u00e1rio diz que n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>O governo federal tem um minist\u00e9rio denominado Secretaria Especial de Politicas de Igualdade Racial. At\u00e9 agora o \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o se pronunciou sobre o tema. A Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Republica tampouco tomou alguma atitude.<\/p>\n<p><strong>Lembrar \u00e9 bom<\/strong><\/p>\n<p>Para terminar, vale uma lembranca. H\u00e1 poucas semanas, voltou ao Brasil o padre italiano Vito Miracapillo. Ele foi expulso do Brasil em 1981, durante a ditadura, com base na famigerada lei dos Estrangeiros, promulgada em 1980. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.leidireto.com.br\/lei-6815.html\" target=\"_blank\">norma legal<\/a> envergonhou o pa\u00eds, ao possibilitar a expuls\u00e3o de qualquer n\u00e3o brasileiro \u201cconsiderado nocivo \u00e0 ordem p\u00fablica ou aos interesses nacionais\u201d.<\/p>\n<p>Seria bom o governo n\u00e3o dar continuidade a essa hist\u00f3ria por outras vias. Especialmente quando os estrangeiros em quest\u00e3o encontram-se do lado mais fraco da sociedade.<\/p>\n<p>Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, \u00e9 doutor em Hist\u00f3ria pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e autor de \u201cA Venezuela que se inventa \u2013 poder, petr\u00f3leo e intriga nos tempos de Ch\u00e1vez\u201d (Editora Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: gazetaweb\n\n\n\n\n\n\n\n\nGilberto Maringoni\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2299\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[55],"tags":[],"class_list":["post-2299","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c66-haiti"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-B5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2299"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2299\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}