{"id":23044,"date":"2019-05-10T21:43:32","date_gmt":"2019-05-11T00:43:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23044"},"modified":"2019-05-13T09:58:15","modified_gmt":"2019-05-13T12:58:15","slug":"a-guerra-na-venezuela-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23044","title":{"rendered":"A Guerra na Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.conversaafiada.com.br\/politica\/plano-dos-eua-derrubar-maduro-para-privatizar-a-venezuela\/Sem%20Titulo-12.jpg\/@@images\/8660d3d1-9964-43f2-9724-ee9f386be703.jpeg\"\/><!--more-->\u2013 Os EUA j\u00e1 est\u00e3o em guerra com a Venezuela.   Uma guerra h\u00edbrida, n\u00e3o-convencional, mas uma guerra\n<\/p><p>\npor Marcelo Zero\n<\/p><p>\nA grande pergunta que todos se fazem no momento \u00e9 se haver\u00e1 ou n\u00e3o uma guerra na Venezuela. \n<\/p><p>\nBom, em primeiro lugar, \u00e9 preciso considerar que os EUA j\u00e1 est\u00e3o em guerra com a Venezuela. Uma guerra h\u00edbrida, n\u00e3o convencional, mas uma guerra. \n<\/p><p>\nOs EUA est\u00e3o fazendo de tudo na Venezuela. Al\u00e9m do embargo comercial e financeiro, que j\u00e1 ocasionou a morte de pelo menos 40 mil pessoas, confiscaram ouro e outros ativos da Venezuela no exterior, promoveram atos de sabotagem que levaram a apag\u00f5es, institu\u00edram um t\u00edtere rid\u00edculo (Guaid\u00f3) para tentar derrubar Maduro mediante um golpe, articularam o isolamento diplom\u00e1tico e pol\u00edtico do nosso vizinho, fazem press\u00e3o para que os militares abandonem o governo constitucional, promovem uma grande campanha de desinforma\u00e7\u00e3o sobre a Venezuela para criminalizar Maduro e o regime bolivariano, etc. etc. \n<\/p><p>\nA quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9, portanto, se os EUA entrar\u00e3o em guerra com a Venezuela, mas se a atual guerra h\u00edbrida escalar\u00e1 para uma guerra militar estrito senso. Para tentar responder a essa pergunta, temos de levar em considera\u00e7\u00e3o dois grandes fatores. \n<\/p><p>\nO primeiro tange \u00e0 nova geoestrat\u00e9gia dos EUA para Am\u00e9rica Latina. Eles querem implantar, a ferro e fogo, se necess\u00e1rio, a Nova Doutrina Monroe, segundo a qual a nossa regi\u00e3o tem de ser, de novo, um espa\u00e7o de influ\u00eancia exclusiva dos EUA. Um quintal. Um patio trasero, como dizem os hisp\u00e2nicos. \n<\/p><p>\nNesse novo cen\u00e1rio, n\u00e3o haveria lugar para pa\u00edses que tenham pol\u00edticas externas independentes e rela\u00e7\u00f5es mais aprofundadas com China e R\u00fassia, por exemplo, rivais geopol\u00edticos e geoecon\u00f4micos dos EUA. Assim, a derrubada do governo Maduro \u00e9 essencial para a agenda dos EUA na regi\u00e3o, pois Caracas tem hoje rela\u00e7\u00f5es bastante estreitas com esses rivais dos EUA e pratica uma pol\u00edtica externa muito independente, embora jamais tenha deixado de prover seu petr\u00f3leo para o gigante norte-americano. Diga-se de passagem, o governo brasileiro de Bolsonaro, bem treinado que \u00e9, j\u00e1 amea\u00e7a sair do BRICS e abandonar programas sino-brasileiros. \n<\/p><p>\nO segundo fator diz respeito \u00e0s diverg\u00eancias no governo dos EUA sobre o que e como fazer, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela. Como no Brasil, h\u00e1 dois grandes grupos no governo dos EUA que t\u00eam opini\u00f5es distintas sobre esse e outros assuntos. \n<\/p><p>\nH\u00e1 o grupo dos ide\u00f3logos de extrema-direita, do qual fazem parte figuras sinistras como John Bolton (conselheiro de seguran\u00e7a nacional), Mike Pompeo (secret\u00e1rio de Estado), e o terr\u00edvel Eliott Abrams (enviado especial para a Venezuela), entre outros. Embora mais sofisticados que o astr\u00f3logo da Virg\u00ednia [1] e os integrantes do Cl\u00e3 (qualquer coisa \u00e9), comp\u00f5em um grupo extremado, um tanto delusional, gente que n\u00e3o tem contato muito estreito com a realidade. \n<\/p><p>\nPois bem, esse pessoal, tutti buona gente, neocons de pura cepa, quer uma interven\u00e7\u00e3o militar na Venezuela. Bolton, em particular, maior ide\u00f3logo da Nova Doutrina Monroe, j\u00e1 demandou ao Pent\u00e1gono cen\u00e1rios variados para a interven\u00e7\u00e3o, desde bombardeios localizados, at\u00e9 invas\u00e3o com tropas em terra. \n<\/p><p>\nO problema, para ele, \u00e9 que os militares do Pent\u00e1gono, como os daqui, est\u00e3o resistindo e advertindo Trump sobre os perigos de uma guerra na Venezuela, especialmente se esta envolver tropas em terra. \n<\/p><p>\nA Venezuela \u00e9 duas vezes maior que o Iraque e tem um terreno extremamente dif\u00edcil para opera\u00e7\u00f5es em terra, com selvas impenetr\u00e1veis, p\u00e2ntanos (llanos), montanhas, etc. Enfim, um terreno ideal para uma guerra defensiva de posi\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas e de guerrilhas. Al\u00e9m disso, como j\u00e1 escrevi anteriormente, a Venezuela vem se preparando para este cen\u00e1rio desde 2006, com o Nuevo Pensamiento Militar. Mesmo no caso de uma derrota completa das for\u00e7as regulares venezuelanas, a Mil\u00edcia Bolivariana, que poderia reunir at\u00e9 500 mil membros, oporia feroz resist\u00eancia por todo o territ\u00f3rio da Venezuela. \n<\/p><p>\nN\u00e3o bastasse, os bolivarianos poderiam receber apoio log\u00edstico de China e R\u00fassia, especialmente desta \u00faltima, que desenvolveu coopera\u00e7\u00e3o militar estreita com a Venezuela. \n<\/p><p>\nAl\u00e9m dessas quest\u00f5es militares operacionais, pesam tamb\u00e9m contra uma interven\u00e7\u00e3o militar, notadamente contra uma invas\u00e3o por terra, a falta de apoio pol\u00edtico internacional. O Grupo de Lima, que congrega a direita sul-americana e os sat\u00e9lites dos EUA na regi\u00e3o, rejeita a escalada militar, embora apoie entusiasticamente a guerra h\u00edbrida contra a Venezuela. Os europeus tamb\u00e9m preferem apostar apenas na guerra h\u00edbrida. \n<\/p><p>\nMas isso significa dizer que a transforma\u00e7\u00e3o da guerra h\u00edbrida em guerra convencional est\u00e1 descartada? N\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1. \n<\/p><p>\n\u00c0 medida que a \u201csolu\u00e7\u00e3o Guaid\u00f3\u201d fracassa miseravelmente e n\u00e3o se investe numa solu\u00e7\u00e3o negociada e pac\u00edfica, cresce a impaci\u00eancia e o descontentamento dos neocons liderados por John Bolton. H\u00e1 de se considerar que Bolton \u00e9 um sujeito muito perigoso e influente, que tem um longo e inquietante hist\u00f3rico de manipula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es para fazer prevalecer suas teses. \n<\/p><p>\nParte de grupos a ele ligados [propala] a cretina \u201cinforma\u00e7\u00e3o\u201d de que os generais venezuelanos seriam controlados por \u201cagentes cubanos\u201d, repetida por oligofr\u00eanicos da nossa imprensa conservadora. O alvo de Bolton \u00e9 o lobby anticastrista, de enorme influ\u00eancia e Washington e decisivo no voto latino nos EUA. Trump, embora reticente em aprovar qualquer interven\u00e7\u00e3o militar, confia muito em Bolton e encarregou-o de cuidar do tema. \n<\/p><p>\nO presidente do America First e o resto que se dane n\u00e3o quer se envolver numa guerra que n\u00e3o poderia ganhar no curto prazo, mas tamb\u00e9m sabe que o atual cen\u00e1rio de fracasso e humilha\u00e7\u00e3o o est\u00e1 desgastando ante o eleitorado conservador. \n<\/p><p>\nNa persist\u00eancia cr\u00f4nica desse cen\u00e1rio de impasse humilhante, \u00e9 poss\u00edvel que se opte por uma interven\u00e7\u00e3o militar restrita a alguns bombardeios punitivos contra alvos militares e pol\u00edticos selecionados. [2] \n<\/p><p>\nDo ponto de vista log\u00edstico e militar, essa seria uma alternativa vi\u00e1vel. A Venezuela est\u00e1 muito pr\u00f3xima dos EUA. Ademais, os EUA t\u00eam duas grandes bases militares bem pr\u00f3ximas do territ\u00f3rio da Venezuela: Guant\u00e1namo (Cuba) e Soto Cano (Honduras). Os EUA tamb\u00e9m n\u00e3o teriam grandes dificuldades em usar instala\u00e7\u00f5es no Panam\u00e1, Col\u00f4mbia ou, quem sabe, at\u00e9 no Brasil. O deslocamento de uma boa for\u00e7a naval at\u00e9 a costa da Venezuela tamb\u00e9m poderia se dar de forma muito r\u00e1pida. \n<\/p><p>\nA capacidade de a Venezuela resistir a tal ataque \u00e9 limitada, mesmo com seus Sukhois SU-30 e seus m\u00edsseis S-300. O poder dos m\u00edsseis Cruise e dos avi\u00f5es com tecnologia stealth \u00e9 avassalador. Ademais, a Venezuela n\u00e3o tem expertise em guerra eletr\u00f4nica. Uma vez destru\u00eddo o sistema de comunica\u00e7\u00e3o militar, pouca coisa poder\u00e1 se fazer. \n<\/p><p>\nA decis\u00e3o de se fazer ou n\u00e3o um ataque desse tipo depender\u00e1 da evolu\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es internas na Venezuela e dos efeitos esperados nos eleitores de Trump. Se o impasse pol\u00edtico persistir, se abrirem fissuras nas for\u00e7as venezuelanas e as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas continuarem a se deteriorar, e se os eleitores conservadores dos EUA come\u00e7arem a ver com bons olhos uma a\u00e7\u00e3o mais firme, a hip\u00f3tese de uma interven\u00e7\u00e3o militar restrita, sem tropas em terra, pode n\u00e3o s\u00f3 se tornar fact\u00edvel, mas desej\u00e1vel. \n<\/p><p>\nBastaria preparar o terreno com uma opera\u00e7\u00e3o de falsa bandeira, que resultasse em mortos e feridos atribu\u00edveis ao \u201cditador\u201d Maduro, para que tal a\u00e7\u00e3o possa ser \u201cjustificada\u201d. Outra hip\u00f3tese, como esclarece o pat\u00e9tico t\u00edtere, seria o parlamento venezuelano convidar os americanos a destru\u00edrem a Venezuela. \n<\/p><p>\nSeria, de qualquer modo, uma aposta de alto risco. Por\u00e9m, n\u00e3o se deve desprezar a crueldade e a trucul\u00eancia do Imp\u00e9rio e da direita venezuelana. Para assegurar seus interesses, o governo dos EUA n\u00e3o se importa em destruir pa\u00edses e matar milh\u00f5es de pessoas, desde que n\u00e3o sejam vidas norte-americanas. Iraque, Afeganist\u00e3o, L\u00edbia e S\u00edria foram destru\u00eddos, milh\u00f5es de vidas foram perdidas, ceifadas, direta ou indiretamente, pela guerra. \n<\/p><p>\nAlguns argumentam que, na Am\u00e9rica Latina, haveria maiores freios para a\u00e7\u00f5es como essas, dada \u00e0 exist\u00eancia de uma grande popula\u00e7\u00e3o de origem latina nos EUA, mas, ante o total desprezo demonstrado por Trump ante o sofrimento de imigrantes latino-americanos, n\u00e3o \u00e9 prudente supor que a atual administra\u00e7\u00e3o dos EUA se guiar\u00e1, no caso da Venezuela, por princ\u00edpios humanistas e racionalidade. \n<\/p><p>\nO risco de uma escalada militar, que possa conduzir a Venezuela a uma guerra civil prolongada \u00e9, portanto, real. \n<\/p><p>\nEm outros tempos, o Brasil lideraria toda a Am\u00e9rica Latina contra essa loucura. Agora, no entanto, somos um paiseco submisso, que bate contin\u00eancia, at\u00e9 mesmo literalmente, para gente insana como Bolton. Bolsonaro abriu os port\u00f5es para a barb\u00e1rie n\u00e3o apenas no Brasil, mas em toda a nossa regi\u00e3o. \n<\/p><p>\nOscar Wilde afirmou que os EUA eram o \u00fanico pa\u00eds a passar da barb\u00e1rie para a decad\u00eancia sem passar pela fase hist\u00f3rica da civiliza\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o Brasil dos capit\u00e3es e astr\u00f3logos re\u00fane, numa s\u00f3 fase hist\u00f3rica, decad\u00eancia e barb\u00e1rie. \n06\/Maio\/2019\nNR \n[1] Refere-se a Olavo de Carvalho, um ex-astr\u00f3logo que reside em Virg\u00ednia (EUA) e inspira o presidente Jair Bolsonaro. \n[2] A dita interven\u00e7\u00e3o &#8220;restrita&#8221; poderia vir a ser realizada por mercen\u00e1rios.   Ver Plano de utiliza\u00e7\u00e3o de mercen\u00e1rios para derrubar governo da Venezuela . \n<\/p><p>\nO original encontra-se em www.brasildefato.com.br\/2019\/05\/06\/artigo-or-guerra-na-venezuela\/ \n<\/p><p>\nEste artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23044\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[227],"class_list":["post-23044","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5ZG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23044","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23044"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23044\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23044"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23044"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23044"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}