{"id":23065,"date":"2019-05-13T22:25:47","date_gmt":"2019-05-14T01:25:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23065"},"modified":"2019-05-13T22:25:52","modified_gmt":"2019-05-14T01:25:52","slug":"argentina-burguesia-busca-consenso-eleitoral-para-aplicar-o-ajuste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23065","title":{"rendered":"Argentina: burguesia busca consenso eleitoral para aplicar o ajuste"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/180908-Argentina-485x243.jpeg\"\/><!--more-->Julio C. Gambina    \n<\/p><p>\nODIARIO.INFO\n<\/p><p>\nAproximam-se elei\u00e7\u00f5es na Argentina, num quadro em que a atual solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica constru\u00edda em torno da presid\u00eancia de Macri perde apoio e em que a luta sindical e social cresce. Da\u00ed que a classe dominante procure uma reformula\u00e7\u00e3o: algo que mude para que tudo permane\u00e7a igual. E j\u00e1 surgiram press\u00f5es no sentido de que Macri n\u00e3o se candidate.\n<\/p><p>\nMacri, o PRO e o Cambiemos alcan\u00e7aram consenso eleitoral em 2015 e 2017, com o que sustentaram o programa de ajustamento em curso, com crescente deteriora\u00e7\u00e3o de todas as vari\u00e1veis econ\u00f4micas e sociais. \u00c9 por isso que, \u00e0 medida que crescem o desemprego, a pobreza e a desigualdade, juntamente com a concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a estrangeiriza\u00e7\u00e3o, surge o esgotamento do consenso sobre a pol\u00edtica oficial.\n<\/p><p>\nA infla\u00e7\u00e3o e a recess\u00e3o s\u00e3o uma realidade para definir o rumo da domina\u00e7\u00e3o, com impacto regressivo na sociedade, atingindo fortemente aqueles que recebem os menores rendimentos e que constituem a maioria da popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o a realidade porque s\u00e3o processos deliberados na disputa do poder. A recess\u00e3o \u00e9 provocada pelo governo para ajustar, mesmo que o tema dos pre\u00e7os lhe escape. Estes aumentam como parte da disputa entre os formadores de pre\u00e7os para ver quem acumula mais riqueza socialmente gerada. N\u00e3o existe apenas uma distribui\u00e7\u00e3o regressiva dos rendimentos entre capital e trabalho, existe tamb\u00e9m uma disputa pela renda entre os pr\u00f3prios empres\u00e1rios.\n<\/p><p>\nNesse quadro, a situa\u00e7\u00e3o agravou-se por estes dias, com novas subidas na taxa de c\u00e2mbio, com um d\u00f3lar para 47 pesos, ou um risco-pa\u00eds pr\u00f3ximo dos 1000 pontos, evidenciando a impossibilidade de pagamento de d\u00edvida externa aumentada durante esses anos em cerca de 185.000 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Tudo pode continuar a aumentar. O d\u00f3lar n\u00e3o tem teto e enquanto estiver cotado alto mais f\u00e1cil ser\u00e1 conseguir o d\u00e9ficit zero das contas p\u00fablicas e at\u00e9 procurar o excedente exigido pela ortodoxia. O risco-pa\u00eds \u00e9 a press\u00e3o internacional para acelerar o ajuste das regressivas reformas trabalhistas, tribut\u00e1rias e da previd\u00eancia. A d\u00edvida continuar\u00e1 sendo refinanciada quanto se queira, em troca de novas rondas de ajustamentos. Os credores externos, mais do que cobrar, pretendem condicionar a mudan\u00e7a reacion\u00e1ria.\n<\/p><p>\nEstas desvaloriza\u00e7\u00f5es da moeda s\u00e3o uma demonstra\u00e7\u00e3o clara do exerc\u00edcio do ajuste e s\u00e3o transferidas para os pre\u00e7os para al\u00e9m dos \u201cpre\u00e7os essenciais\u201d &#8211; apenas 64 produtos sobre uma base de milhares necess\u00e1rios no abastecimento di\u00e1rio. Alguns surpreendem-se com a evolu\u00e7\u00e3o desta ou daquela vari\u00e1vel, quando todas e cada uma delas s\u00e3o variantes do ajuste procurado pelo poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico, local e global. Esse conjunto de bens e servi\u00e7os do universo quotidiano do consumo sofre mudan\u00e7as nos seus pre\u00e7os e afeta a vida di\u00e1ria pela carestia. Apenas a t\u00edtulo de exemplo, podemos verificar como as empresas petroleiras anunciam j\u00e1 um aumento de 5% nos combust\u00edveis para Maio, e sem d\u00favida que isso ser\u00e1 transferido para o pre\u00e7o.\n<\/p><p>\nSobre esta realidade e para tentar deter a volatilidade cambial, a taxa de juro estabelecida pelo BCRA supera novamente os 70% (71,87% para as LELIQ do 26\/4 segundo o BCRA) e persevera num custo usur\u00e1rio para qualquer projeto familiar, produtivo ou de desenvolvimento. O concreto \u00e9 o est\u00edmulo \u00e0 especula\u00e7\u00e3o financeira para os poucos com capacidade de investir excedentes na roleta das finan\u00e7as. De facto, basta observar o movimento do saldo das reservas internacionais para verificar que os rendimentos de divisas desembolsadas pelo FMI ou por liquida\u00e7\u00e3o de exporta\u00e7\u00f5es favorece a fuga de capitais. Se em 9\/4 havia 77.481 milh\u00f5es de d\u00f3lares de Reservas internacionais, duas semanas depois, em 24\/4, havia 72.330 milh\u00f5es de d\u00f3lares.\n<\/p><p>\nS\u00e3o 5,151 milh\u00f5es de d\u00f3lares a menos em duas semanas !!! Ent\u00e3o eles argumentam que no pa\u00eds n\u00e3o h\u00e1 recursos dispon\u00edveis para investimentos produtivos! Incr\u00edvel, mas real !!! Nem para todos corre mal. Esses milhares de milh\u00f5es foram creditados em algumas contas, seguramente no exterior ou em ativos externos, o que inclui as caixas de seguran\u00e7a.\n<\/p><p>\nT\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 a realidade econ\u00f4mica e social que agora se duvida da manuten\u00e7\u00e3o do consenso eleitoral sobre a proposta do partido no poder de gerir outro per\u00edodo de governo e consolidar a mudan\u00e7a (reacion\u00e1ria) da ordem vigente. Cresce o descontentamento social e inclusivamente o protesto, o que inclui a convoca\u00e7\u00e3o de uma Greve Nacional. Por isso, a partir do mesmo poder econ\u00f4mico concentrado e estrangeirizado prop\u00f5em-se ajustamentos na oferta eleitoral para a renova\u00e7\u00e3o presidencial, incluindo hip\u00f3teses que reclamam que o Presidente Macri se abstenha de se candidatar. Mesmo que isso n\u00e3o venha a acontecer, vale a pena registar a press\u00e3o sobre Macri e seu c\u00edrculo mais restrito para acelerar as mudan\u00e7as que o poder exige. Insistimos: reformas trabalhistas, tribut\u00e1rias e da previd\u00eancia.\n<\/p><p>\nO poder reconhece que, face \u00e0 queda da considera\u00e7\u00e3o social pela contribui\u00e7\u00e3o do governo, n\u00e3o consegue j\u00e1 o ajuste em desenvolvimento, seja porque necessita do consenso eleitoral para avan\u00e7ar na conten\u00e7\u00e3o da despesa p\u00fablica e na promo\u00e7\u00e3o de reformas estruturais (laborais, pens\u00f5es e impostos) para tornar rent\u00e1vel o investimento capitalista. \u00c9 uma exig\u00eancia do capitalismo da \u00e9poca e n\u00e3o apenas para a Argentina. Trata-se de um programa que \u00e9 hegem\u00f3nico no sistema mundial atual e que s\u00f3 depara com resist\u00eancias nacionalizadas em fun\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o social e popular hist\u00f3rica em cada territ\u00f3rio.\n<\/p><p>\n\u00c9 claro que na Argentina n\u00e3o puderam, ainda, torcer o bra\u00e7o do movimento sindical e social para realizar as reformas reacion\u00e1rias de que necessitam, apesar de cumplicidades de organiza\u00e7\u00f5es sindicais e organiza\u00e7\u00f5es sociais que atrasam os protestos e as mobiliza\u00e7\u00f5es de confronto com a estrat\u00e9gia do poder. Destacam-se as assinaturas de acordos rebaixados de contratos coletivos &#8211; caso dos petroleiros no sul da Patag\u00f3nia para avan\u00e7ar com os investimentos em Vaca Muerta &#8211; mas n\u00e3o podem transferi-los a outros setores e territ\u00f3rios. Se algu\u00e9m pergunta pelo conflito energ\u00e9tico cordov\u00eas, para al\u00e9m da pretendida privatiza\u00e7\u00e3o de empresas p\u00fablicas (EPEC), o que h\u00e1 \u00e9 uma forte press\u00e3o para modificar o hist\u00f3rico contrato coletivo de Luz y Fuerza dos tempos de Agust\u00edn Tosco.\n<\/p><p>\nO objetivo do poder passa por disciplinar as organiza\u00e7\u00f5es populares que retardam a adequa\u00e7\u00e3o estrutural do capitalismo local \u00e0s exig\u00eancias da hegemonia neoliberal constru\u00edda a partir das pol\u00edticas p\u00fablicas nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. O capitalismo, local e global, n\u00e3o pode j\u00e1 funcionar sob as l\u00f3gicas reformistas do welfare state ou da sua desvalorizada variante aplicada na nossa regi\u00e3o entre os anos 50 e 70 do s\u00e9culo passado. Por isso o neoliberalismo ensaiado sob as ditaduras do Cone Sul entre 1973 e 1976, e depois pelo capitalismo global nos anos 80 e 90 quer mais, o que n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o reverter os direitos conquistados em mais de um s\u00e9culo. Vamos insistir, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o nacional, \u00e9 global.\n<\/p><p>\nA onda temporal passa pela reestrutura\u00e7\u00e3o regressiva das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, com emprego prec\u00e1rio, menos seguran\u00e7a social e baixa de sal\u00e1rios; mas tamb\u00e9m com a reforma do Estado atrav\u00e9s de privatiza\u00e7\u00f5es, desregula\u00e7\u00e3o e nova funcionalidade do Estado para sustentar a procura de lucros e a acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Por essa raz\u00e3o n\u00e3o servia nem serve ao poder a integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o subordinada na l\u00f3gica da ALBA, da CELAC e mesmo da Unasur. Estas duas \u00faltimas, embora contivessem regimes de orienta\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria, n\u00e3o inclu\u00edam a presen\u00e7a dos EUA e do Canad\u00e1, discutindo assim a hegemonia imperialista para a regi\u00e3o.\n<\/p><p>\nEm s\u00edntese, o ajuste avan\u00e7a com a pol\u00edtica oficial consensualizada e apoiado por uma oposi\u00e7\u00e3o institucional complacente, sem espa\u00e7o para agora aprofundar linhas de interven\u00e7\u00e3o direta em mudan\u00e7as estruturais, devido \u00e0 sobreviv\u00eancia de um movimento de resist\u00eancia popular. Este obst\u00e1culo \u00e9 aquele que h\u00e1 que remover, argumentam do poder. A disputa eleitoral interv\u00e9m nessa dire\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o vencedor dever\u00e1 confrontar o apoio majorit\u00e1rio obtido nas urnas com uma l\u00f3gica em sentido inverso de cr\u00edtica, protesto e procura de alternativas que satisfa\u00e7am necessidades populares alargadas. Essa contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resolve no mercado, mas ser\u00e1 produto de fortes iniciativas opostas, entre o bloco do poder e os setores afetados pela pol\u00edtica hegem\u00f3nica, o que inclui repress\u00e3o cada vez mais expl\u00edcita.\n<\/p><p>\nA batalha \u00e9 pol\u00edtica e procura-se fazer com que a ordem econ\u00f3mica funcione em tempos de brutal ofensiva do capital. Alguns intelectuais como Joseph Stiglitz, Pr\u00eamio Nobel de Economia de 2001 e outros economistas cr\u00edticos da ortodoxia acreditam que \u00e9 poss\u00edvel regressar \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica de h\u00e1 4 d\u00e9cadas, reestabelecendo uma ordem entre mercado e sociedade, iludindo com uma l\u00f3gica que associa democracia com capitalismo . \u00c9 bom discutir essa tese para pensar se \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para as necessidades sociais e da pr\u00f3pria natureza no quadro do capitalismo.\n<\/p><p>\nO socialismo n\u00e3o tem boa imprensa, mas a sua procura continua sendo um farol que ilumina o presente e o futuro, pelo que \u00e0s vezes nos entusiasma indagar a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de novas propostas pol\u00edticas que rompam o tabuleiro do previs\u00edvel, e apresentar uma proposta contra e para al\u00e9m da l\u00f3gica do capital. Isso significaria quebrar a fragmenta\u00e7\u00e3o de uma esquerda ampla, para al\u00e9m dos partidos, articulando grupos pol\u00edticos, sociais, personalidades e diferentes trajet\u00f3rias hist\u00f3ricas que se situam numa perspectiva cr\u00edtica do capitalismo e com horizonte socialista. Pode parecer um sonho, mas vale bem a pena colocar o desejo de tornar realidade a utopia enquanto objetivo que nos permita caminhar para induzir uma l\u00f3gica de transforma\u00e7\u00e3o social.\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23065\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[234],"class_list":["post-23065","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-601","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23065","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23065"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23065\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23065"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23065"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23065"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}