{"id":23077,"date":"2019-05-14T21:31:23","date_gmt":"2019-05-15T00:31:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23077"},"modified":"2019-05-14T21:31:28","modified_gmt":"2019-05-15T00:31:28","slug":"a-historia-dos-vencedores-e-o-apagamento-da-resistencia-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23077","title":{"rendered":"A Hist\u00f3ria dos vencedores e o apagamento da resist\u00eancia negra"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/kgND8o6wrrmQ1UpQwKNKjYtpIwWZS9ZSLQ8vcUodapEupKaQwGHC5V5S0O5h8VAB_x-dEu67f9nnV9G0-njA0L7Dk2WNPsPyhTA2f8AGLpWO7aJARqbM9VtJA0Rne90vU6Asxexf8XVgZW0W3RqlIYJod1oGQaeSGBAMVkKsHMKHypKHkCVdb9XZg17kv44cMGyDTHdrFeretTL4DKA_vO1OVG7am-jZmGIpfcu-7zSIDVpqYCQiPw5a7gwsATPn65E5YlEpzqwDqC2jpRM08dwUho6SM9vCKYv8IHwy9q7qC7JXCYBdhAWr-fLCQO9VMbZ8esndgvqlE_8ESX7LDBkNY9YTJ_jJA0Oqu9gWV73dD31kE5rCQsNNkFr_coQZ94318yWKFZivFCnO-TgIqH5p_s6cH6fGgbxve6wq0CIO3qhbYrLDRnlcjr8bGRDaaNG7eiCJe52mHO_fGzEBYDy1gCXbXoPCnXF0mA27fpMxQGlk7n1utdOOgZ-QSGtO6Hg8uQM9ilnTpRdag9-_-rz3XX9OQpV6665ijvSHZK5BqaqZle7O4wr5exSJkH50XR074cE913EAG8bv4kwUOw752gl54pWdQe6gM5s=s625-no\"\/><!--more-->Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do Coletivo Negro Minervino de Oliveira\n<\/p><p>\nA hist\u00f3ria das transforma\u00e7\u00f5es sociais no Brasil tem sido a hist\u00f3ria dos \u201cacord\u00f5es\u201d por cima, isto \u00e9, por setores das classes dominantes excluindo as classes populares e subordinadas das decis\u00f5es pol\u00edticas. Isso ocorre diferentemente do que sugere a historiografia hegem\u00f4nica (de cunho euroc\u00eantrico e burgu\u00eas), que atribui \u00e0 sua narrativa constante apassivamento, desinteresse e imobilidade das classes populares. A pr\u00e1tica regular \u00e9 e sempre foi a cria\u00e7\u00e3o de medidas planejadas com o intuito de minar os conflitos sociais de fundo e buscar construir uma concep\u00e7\u00e3o de que tais mudan\u00e7as ocorreram por a\u00e7\u00f5es deliberadas apenas por essa classe dominante.\n<\/p><p>\nA problem\u00e1tica deste tipo de formula\u00e7\u00e3o est\u00e1 no apagamento de diversos fatos hist\u00f3ricos que registram forte engajamento e organiza\u00e7\u00e3o popular. Apesar de todos os obst\u00e1culos postos em cada per\u00edodo hist\u00f3rico, n\u00f3s estivemos l\u00e1, resistindo por meio de revoltas, insurrei\u00e7\u00f5es, boicotes, motins, quilombos, fugas, levantes e greves. Gerimos em nosso meio lideran\u00e7as, cantos, contos e mem\u00f3rias, de cunho radical e subversivo. O Quilombo dos Palmares, que alcan\u00e7ou seu auge na metade do s\u00e9culo XVII, \u00e9 sem d\u00favidas, a maior express\u00e3o da resist\u00eancia, assim como as revoltas na Bahia, dentre as quais a Revolta dos Mal\u00eas em 1835 \u00e9 a mais famosa. Um passado t\u00e3o rico n\u00e3o pode ser simplesmente soterrado com o objetivo de nos apassivar, de diluir elementos essenciais para a constru\u00e7\u00e3o de nossa identidade como protagonistas das mudan\u00e7as que queremos, como trabalhadores combatentes.\n<\/p><p>\nNo dia 13 de Maio de 1888, temos um fato hist\u00f3rico de caracter\u00edstica similar aos citados anteriormente, data em que houve a assinatura da Lei \u00c1urea, pela Princesa Isabel, que por conta deste ato ficou tamb\u00e9m conhecida como \u201cA Redentora\u201d. A lei institucionalizava o fim da escravid\u00e3o e a proibi\u00e7\u00e3o total de qualquer atividade que envolvesse a compra e a vendas de escravizados, assim como a liberta\u00e7\u00e3o de todo e qualquer sujeito que se encontrava na condi\u00e7\u00e3o de escravizado. A historiografia burguesa enfatiza a data como o marco do abolicionismo, constr\u00f3i uma narrativa que se engendra em dois eixos: o primeiro como um gesto de bondade e lucidez da Princesa Isabel e de setores progressistas das classes dominantes; o segundo como resultado de uma grande press\u00e3o externa vinda da Inglaterra, principal pot\u00eancia econ\u00f4mica e pol\u00edtica do s\u00e9culo XIX, a qual necessitava vender seus produtos que se acumulavam nos estoques, dinamizando mercados pelo mundo e para isso era crucial garantir o trabalho livre a todo e qualquer custo, ainda que essa medida trouxesse rupturas brutais no modo de produ\u00e7\u00e3o vigente e preju\u00edzos pela perda de propriedade dos latifundi\u00e1rios, que passaram a reivindicar indeniza\u00e7\u00e3o ao Estado pela subtra\u00e7\u00e3o dos escravizados que antes trabalhavam em suas terras.\n<\/p><p>\nA afirma\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso parece sintetizar esse ideal burgu\u00eas ao dizer que os escravizados foram \u201ctestemunhos mudos de uma hist\u00f3ria para a qual n\u00e3o existem sen\u00e3o como uma esp\u00e9cie de instrumento passivo\u201d. A tentativa de nos colocar como meras coisas, desprovidos de qualquer obje\u00e7\u00e3o ao regime, acomodados, persiste com a mesma fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica: a de retirar de n\u00f3s toda a luta que travamos ao longo da hist\u00f3ria.\n<\/p><p>\nOs motivos cruciais para o fim da escravid\u00e3o contam com instabilidade interna e externamente, nas esferas econ\u00f4mica e pol\u00edtica, englobando o crescimento das revoltas dos escravizados e um modelo econ\u00f4mico insustent\u00e1vel pelo encarecimento dos produtos, obrigando o Imp\u00e9rio do Brasil a abolir a escravatura antes de um colapso total. A medida provocou resist\u00eancia dos setores mais atrasados da classe dominante, mas foi uma medida urgente para suprimir os motins: ao inv\u00e9s de ter um regime derrubado pelas m\u00e3os dos oprimidos, realizou-se a reforma por cima, pelo Estado, buscando ofuscar a luta negra e popular pela sua liberta\u00e7\u00e3o.\n<\/p><p>\nA partir da vig\u00eancia da lei, um novo momento surge para a popula\u00e7\u00e3o negra, j\u00e1 que, diante de motiva\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e ideol\u00f3gicas, o projeto de transi\u00e7\u00e3o para o trabalho livre n\u00e3o a inclui, ao inv\u00e9s disso h\u00e1 uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o para trazer for\u00e7a de trabalho europeia, principalmente italiana. A importa\u00e7\u00e3o de europeus para assumirem o posto de trabalhador livre rendeu altas taxas de lucro para os setores da navega\u00e7\u00e3o e ag\u00eancias que propagandeavam uma nova vida de sucesso para os imigrantes. A forte ideologia de branqueamento da sociedade brasileira se dava pela concep\u00e7\u00e3o do negro como elemento perigoso, indesejado, pregui\u00e7oso, entre outras caracter\u00edsticas atribu\u00eddas, com o intuito de marginaliz\u00e1-lo e demoniz\u00e1-lo.\n<\/p><p>\nDesprovidos de terras ou empregos nas fazendas, onde habitaram por gera\u00e7\u00f5es de maneira for\u00e7ada, foram obrigados a buscar nas cidades alguma possibilidade de trabalho e modos de suprir suas necessidades b\u00e1sicas garantindo sua subsist\u00eancia. O Estado brasileiro n\u00e3o se mobilizou para garantir qualquer direito a indeniza\u00e7\u00e3o, trabalho, estudo ou moradia.\n<\/p><p>\nEsse processo criou feridas que ainda est\u00e3o longe de cicatrizar, com nossa popula\u00e7\u00e3o amargando at\u00e9 os dias de hoje as piores estat\u00edsticas, como criminalidade, homic\u00eddios, residindo nos bairros mais prec\u00e1rios, possuindo os piores sal\u00e1rios. O capitalismo brasileiro tem intr\u00ednseco a sua estrutura o racismo, n\u00e3o s\u00f3 pela sua acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital, como tamb\u00e9m na fun\u00e7\u00e3o de nosso povo na din\u00e2mica do capitalismo contempor\u00e2neo, com os menores sal\u00e1rios (amplia\u00e7\u00e3o da mais valia absoluta), na regula\u00e7\u00e3o e conten\u00e7\u00e3o do aumento do sal\u00e1rio m\u00e9dio (a popula\u00e7\u00e3o negra engrossando o ex\u00e9rcito de reserva, ou seja, os desempregados, causando uma conten\u00e7\u00e3o no aumento do sal\u00e1rio), nosso ingresso em empregos prec\u00e1rios e de alta insalubridade, entre outras formas.\n<\/p><p>\nEm s\u00edntese, embora o 13 de Maio seja a data oficialmente reconhecida como marco do fim da escravid\u00e3o, tendo seu discurso ideol\u00f3gico replicado nos mais variados meios (materiais did\u00e1ticos que educam a nossa classe, na televis\u00e3o, nos jornais, nas produ\u00e7\u00f5es ficcionais, etc), n\u00f3s do Coletivo Negro Minervino de Oliveira\u200b, assim como grande parte do Movimento Negro, fazemos uma leitura cr\u00edtica sobre tal narrativa, indicando sua contradi\u00e7\u00e3o, enfatizando a import\u00e2ncia de conhecermos os processos de resist\u00eancia dos nossos antepassados, na luta por melhores condi\u00e7\u00f5es para a popula\u00e7\u00e3o negra. Sendo a hist\u00f3ria da humanidade a hist\u00f3ria da luta de classes, nosso povo tem em sua ess\u00eancia a potencialidade para subverter a ordem estabelecida e enfim alcan\u00e7ar a plena emancipa\u00e7\u00e3o humana.\n<\/p><p>\nLutar! Criar! Poder Popular!\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23077\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[124],"tags":[223],"class_list":["post-23077","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c137-coletivo-minervino-de-oliveira","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-60d","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23077","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23077"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23077\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}