{"id":231,"date":"2009-01-07T09:55:58","date_gmt":"2009-01-07T09:55:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=231"},"modified":"2009-01-07T09:55:58","modified_gmt":"2009-01-07T09:55:58","slug":"a-crise-mundial-do-capitalismo-e-as-perspectivas-dos-trabalhadores-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/231","title":{"rendered":"A crise mundial do capitalismo e as perspectivas dos trabalhadores"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao contr\u00e1rio do que os meios de comunica\u00e7\u00e3o procuram difundir, esta n\u00e3o \u00e9 uma crise do setor imobili\u00e1rio, do cr\u00e9dito, da falta de liquidez, ou de regula\u00e7\u00e3o, ou ainda um fen\u00f4meno oriundo da gan\u00e2ncia dos especuladores inescrupulosos que colocaram em risco o capitalismo. Esta \u00e9 uma crise do conjunto do capitalismo: o sistema todo est\u00e1 doente e seus fundamentos est\u00e3o sendo questionados pela crise. Al\u00e9m disso, essa crise n\u00e3o \u00e9 administr\u00e1vel com os instrumentos cl\u00e1ssicos de pol\u00edtica monet\u00e1ria ou interven\u00e7\u00f5es t\u00f3picas para recuperar a credibilidade do sistema. Por isso, as tentativas de coordena\u00e7\u00e3o dos governos e Bancos Centrais n\u00e3o conseguem resolver o problema. A crise vai seguir objetivamente seu curso durante alguns anos, independentemente da vontade dos dirigentes dos pa\u00edses centrais, com repercuss\u00f5es em todas as esferas da vida social &#8211; na economia, na geopol\u00edtica e entre as classes sociais. Ressalte-se ainda que a forma particular como a crise se apresenta atualmente (financeira, imobili\u00e1ria, etc.) representa apenas a ponta do iceberg de um problema mais de fundo, que \u00e9 a superacumula\u00e7\u00e3o de capitais e a impossibilidade de valoriz\u00e1-los na esfera da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a crise tamb\u00e9m tem suas particularidades, como todas as crises do sistema capitalista, uma vez que cada crise traz consigo um conte\u00fado novo (Campos, 2001: 21) [1]. Esta crise fecha um longo ciclo de 30 anos da hegemonia do pensamento \u00fanico e encerra uma forma particular de acumula\u00e7\u00e3o, baseada na hegemonia das altas finan\u00e7as, mecanismo atrav\u00e9s do qual o grande capital capturava a mais-valia mundial, mediante uma infinidade de mecanismos de pun\u00e7\u00e3o, que envolvia desde o aprisionamento do or\u00e7amento do Estado at\u00e9 recursos das empresas produtivas e dos diversos fundos m\u00fatuos ou dos trabalhadores. Nada ser\u00e1 como antes ap\u00f3s o 15 de setembro. Podemos constatar com ferina ironia o desespero dos fundamentalistas neoliberais sendo obrigamos pelas leis objetivas da vida social a fazer o contr\u00e1rio de tudo que pregavam anteriormente e a desmoralizarem-se perante o mundo: abandonaram o discurso do livre mercado, chamaram de volta o Estado para socorrer a economia e praticamente \u201cestatizaram\u201d todo o sistema financeiro dos pa\u00edses centrais para salvar seus especuladores e agiotas.<\/p>\n<p>Como conseq\u00fc\u00eancia, em poucas semanas, a crise tamb\u00e9m quebrou todos os mitos neoliberais: o mercado como regulador da vida social e esp\u00e9cie de semi-deus com sua m\u00e3o invis\u00edvel a harmonizar interesses de produtores e assalariados; a retirada do Estado da economia, as privatiza\u00e7\u00f5es e a desregulamenta\u00e7\u00e3o, como forma de desobstruir os canais do livre mercado e transferir as empresas p\u00fablicas para o capital privado; a iniciativa privada, como operadora do sistema econ\u00f4mico, racional e eficiente, ao contr\u00e1rio das empresas estatais, ineficientes, esbanjadoras de recursos p\u00fablicos; a credibilidade das ag\u00eancias de risco, cujas institui\u00e7\u00f5es funcionavam como palmat\u00f3ria do mundo, a dar notas a pa\u00edses e empresas de acordo com os crit\u00e9rios e interesses do grande capital; o pensamento \u00fanico e o fim da hist\u00f3ria: a ideologia neoliberal era considerada o est\u00e1gio mais avan\u00e7ado do pensamento e o capitalismo neoliberal o sistema modelar de organiza\u00e7\u00e3o da economia, cujo funcionamento desregulado tornaria imposs\u00edvel qualquer tentativa de mudan\u00e7a no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Tudo isso desmanchou-se no ar em poucos dias como uma cortina de fuma\u00e7a. Em menos de um m\u00eas desapareceram do cen\u00e1rio econ\u00f4mico os cinco maiores bancos de investimentos dos Estados Unidos (o v\u00e9rtice da pir\u00e2mide do capital financeiro), as duas maiores empresas hipotec\u00e1rias do planeta, bem como a maior empresa seguradora do mundo. Se algu\u00e9m tivesse previsto uma conjuntura desse porte um m\u00eas antes, com certeza seria motivo de piada. Portanto, esta crise significa n\u00e3o s\u00f3 o dobre de finados do neoliberalismo, mas tamb\u00e9m a derrota moral do capitalismo e do bloco de for\u00e7as mais reacion\u00e1rio e mais parasit\u00e1rio do grande capital, que amealhou o poder nos pa\u00edses capitalistas centrais no final dos anos 70 e subordinou todos os outros setores \u00e0 l\u00f3gica da especula\u00e7\u00e3o financeira. Al\u00e9m disso, representa ainda grande possibilidade de um ascenso de massas de car\u00e1ter mundial que ir\u00e1 dar combate a um sistema ferido.<\/p>\n<p>A crise revelou tamb\u00e9m de forma cristalina o car\u00e1ter de classe do Estado e do governo: quando a economia estava bem, os lucros eram apropriados pela burguesia; agora que a economia vai mal, o Estado socializa os preju\u00edzos com os trabalhadores. Realmente, os governos dos pa\u00edses centrais j\u00e1 injetaram at\u00e9 agora mais de US$ 7,0 trilh\u00f5es na economia para salvar os especuladores. No entanto, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, essas mesmas autoridades pouco fizeram para resolver os problemas de milh\u00f5es de pessoas que perderam suas casas e est\u00e3o vivendo na rua, em barracas de lonas nos parques, em trailers, al\u00e9m dos outros milh\u00f5es de insolventes das d\u00edvidas com cart\u00f5es de cr\u00e9dito e outras d\u00edvidas pessoais. Esse esc\u00e2ndalo de classe, em algum momento da conjuntura, vai cobrar seu pre\u00e7o, pois cada vez mais ficar\u00e1 mais claro para a popula\u00e7\u00e3o a op\u00e7\u00e3o dos governantes pelos ricos.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio ressaltar ainda que, nos per\u00edodos de crise, o grande capital busca se entrincheirar no Estado e nos organismos institucionais, como os Bancos Centrais e organismos de coordena\u00e7\u00e3o internacionais, a fim de tentar salvar suas posi\u00e7\u00f5es e recuperar o que perderam com a crise. Procuram assim jogar todo o \u00f4nus da crise na conta dos trabalhadores. Primeiro, tentam vender a ilus\u00e3o de que na crise cada um deve dar sua contribui\u00e7\u00e3o para que todos possam se salvar, mesmo sabendo-se que quem quer se salvar \u00e9 a burguesia e seu sistema de explora\u00e7\u00e3o. Quando este m\u00e9todo n\u00e3o funciona, o capital marcha unido contra os trabalhadores buscando ampliar o raio de explora\u00e7\u00e3o e retirar-lhes direitos e garantias. Portanto, esta conjuntura dever\u00e1 acirrar as lutas sociais e as disputas entre as classes fundamentais da sociedade: trata-se de um momento especial da luta de classe em car\u00e1ter mundial, em que a burguesia vai utilizar todos os meios poss\u00edveis para sair vitoriosa da crise e o proletariado tamb\u00e9m deve estruturar seu projeto de sociedade para superar o capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Antecedentes da crise<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 enfatizara Marx, os capitais se movimentam permanentemente na busca de valoriza\u00e7\u00e3o e da maximiza\u00e7\u00e3o do lucro. \u201cO capital tem como \u00fanico impulso vital, o impulso de valorizar-se, de criar mais-valia, de absorver com sua parte constante, os meios de produ\u00e7\u00e3o, a maior massa poss\u00edvel de mais-trabalho (Marx, 1983:188-189) (&#8230;) O motivo que impulsiona e o objetivo que determina o processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 a maior autovaloriza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do capital (Marx, 1983: 263) [2] (&#8230;) Antes de mais nada, o objetivo da produ\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o \u00e9 apossar-se de outros bens, e sim apropriar-se de valor, de dinheiro, de riqueza abstrata\u201d (Marx, 1983: 939) [3]. Portanto, quando esse objetivo est\u00e1 sendo contrariado, ou seja, quando as taxas de lucro est\u00e3o caindo, o capital procura novas formas para restabelecer seu patamar de rentabilidade. Foi exatamente o que aconteceu a partir da segunda metade da d\u00e9cada de 60, quando as taxas de lucro come\u00e7aram a decrescer nos pa\u00edses centrais, especialmente nos Estados Unidos, onde concentraremos nossa an\u00e1lise. Diante dessa conjuntura, o grande capital realizou um movimento estrat\u00e9gico para recuperar as taxas de lucro, baseado em tr\u00eas eixos fundamentais:<\/p>\n<p>a) Parte expressiva dos setores industriais do EUA foi deslocada para a \u00c1sia, M\u00e9xico, Am\u00e9rica Latina e Am\u00e9rica Central em busca de m\u00e3o-de-obra barata e um conjunto de outras vantagens econ\u00f4micas e institucionais que possibilitassem ao capital operar de maneira mais vantajosa, de forma a elevar as taxas de lucro. O grande capital imaginava compensar, do ponto de vista econ\u00f4mico, uma poss\u00edvel fragilidade manufatureira nos Estados Unidos com as remessas de lucros e os pre\u00e7os de transfer\u00eancia de suas transnacionais para o interior dos EUA, al\u00e9m do controle do com\u00e9rcio mundial e, do ponto de vista pol\u00edtico, atrav\u00e9s da maior influ\u00eancia norte-americana nas v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>b) Os setores mais parasit\u00e1rios do capital que assumiram o poder nos Estados Unidos e Inglaterra no final da d\u00e9cada de 70 buscaram reconfigurar o mundo a partir da cria\u00e7\u00e3o de uma nova ordem econ\u00f4mica internacional, tendo como pilares a implanta\u00e7\u00e3o do monetarismo como forma de organizar a economia e o neoliberalismo como o gestor pol\u00edtico do sistema s\u00f3cio-econ\u00f4mico. Transformaram em pol\u00edtica de Estado a ideologia neoliberal: o mercado como regulador da economia, a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a liberaliza\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria, a livre mobilidade dos capitais pelo mundo, a retirada do Estado da economia e uma agressiva pol\u00edtica de transfer\u00eancia de bens do Estado para o setor privado, atrav\u00e9s das privatiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>c) Al\u00e9m dessas mudan\u00e7as de fundo, o grande capital norte-americano realizou na d\u00e9cada de 80 e 90 uma esp\u00e9cie de fuga para frente, buscando estruturar uma economia de servi\u00e7os, baseada na cria\u00e7\u00e3o da riqueza mediante o extraordin\u00e1rio desenvolvimento do capital fict\u00edcio. O objetivo era desenvolver um sistema financeiro sofisticado e hierarquizado a partir das institui\u00e7\u00f5es norte-americanas, capaz de capturar parte da mais valia mundial, e estruturar as rela\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f4micas mundiais a partir dos interesses dos Estados Unidos. Inova\u00e7\u00f5es financeiras e finan\u00e7as estruturadas, endividamento generalizado das fam\u00edlias e expans\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica, al\u00e9m de aumento dos gastos na \u00e1rea do complexo industrial militar, de forma a permitir o desenvolvimento da pol\u00edtica guerreira norte-americana, especialmente ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, foram a t\u00f4nica da estrat\u00e9gia nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Essa reestrutura\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do grande capital norte-americano, ao contr\u00e1rio do que seus idealizadores imaginavam, fragilizou de maneira acentuada a economia dos Estados Unidos, uma vez que as tr\u00eas vari\u00e1veis implementadas para resgatar as taxas de lucro e controlar o sistema financeiro mundial resultaram num conjunto de problemas estruturais que viriam emergir dramaticamente com a crise atual, tais como um d\u00e9ficit fiscal, um d\u00e9ficit na balan\u00e7a comercial, eleva\u00e7\u00e3o exponencial da d\u00edvida externa, da d\u00edvida das fam\u00edlias e corpora\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da constitui\u00e7\u00e3o de um sistema financeiro t\u00e3o especulativo, que construiu as pr\u00f3prias bases de sua desagrega\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, a reestrutura\u00e7\u00e3o neoliberal cobrou um enorme pre\u00e7o aos Estados Unidos, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico, quanto social e pol\u00edtico. Sen\u00e3o vejamos:<\/p>\n<p>A deslocaliza\u00e7\u00e3o de grande parte das ind\u00fastrias para outras regi\u00f5es gerou um d\u00e9ficit permanente na balan\u00e7a comercial, uma vez que os produtos elaborados no exterior entravam nos Estados Unidos como mercadorias importadas, ressaltando-se que mais de 30% dos alimentos consumidos nos EUA, al\u00e9m de um volume expressivo do petr\u00f3leo, s\u00e3o importados. O deslocamento das ind\u00fastrias ocorreu no ambiente da internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e da introdu\u00e7\u00e3o de novas tecnologias nas plantas industriais, que se expressaram na globaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o mundial, processo que elevou composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital (a rela\u00e7\u00e3o entre o capital social geral e a extra\u00e7\u00e3o da mais-valia). Essas modifica\u00e7\u00f5es, por sua vez, geraram dialeticamente novas contradi\u00e7\u00f5es: apesar da do barateamento da m\u00e3o-de-obra, o incremento da ci\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o estreitou, numa ponta, a base de extra\u00e7\u00e3o da mais-valia, ao reduzir o n\u00famero de trabalhadores por hora-m\u00e1quina; ao mesmo tempo, esse novo patamar de acumula\u00e7\u00e3o reduziu tamb\u00e9m o mercado para a realiza\u00e7\u00e3o das mercadorias.<\/p>\n<p>Os dois fatores lavariam inevitavelmente no m\u00e9dio prazo \u00e0 crise de superacumula\u00e7\u00e3o. Como j\u00e1 assinalara Marx, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista cria barreiras para si mesmo, uma vez que a acumula\u00e7\u00e3o promove a queda na taxa de lucro. \u201cQueda da taxa de lucro e acumula\u00e7\u00e3o acelerada s\u00e3o, nesse medida, apenas express\u00f5es diferentes do mesmo processo, j\u00e1 que ambas expressam o desenvolvimento da for\u00e7a produtiva. A acumula\u00e7\u00e3o, por sua vez, acelera a queda da taxa de lucro, \u00e0 medida que com ela est\u00e1 dada a concentra\u00e7\u00e3o dos trabalhos em larga escala e, com isso, uma composi\u00e7\u00e3o mais elevada do capital (&#8230;) sua queda retarda a forma\u00e7\u00e3o de novos capitais aut\u00f4nomos e assim aparece como amea\u00e7a para o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o capitalista; ela promove superprodu\u00e7\u00e3o, especula\u00e7\u00e3o, crises, capital sup\u00e9rfluo, ao lado de popula\u00e7\u00e3o sup\u00e9rflua (&#8230;) Esse modo de produ\u00e7\u00e3o cria uma barreira para si mesmo (&#8230;) e essa barreira popular testemunha a limita\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter t\u00e3o somente hist\u00f3rico e transit\u00f3rio do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d (Marx, 1984, 183-184) [4].<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar outros fatores negativos que contribu\u00edram para a crise: a \u201cdesindustrializa\u00e7\u00e3o\u201d manufatureira nos EUA, as derrotas impostas ao movimento sindical, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e a contrata\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra imigrante tiveram um papel dram\u00e1tico sobre a renda dos trabalhadores norte-americanos. Entre 1973 e 2005, os 80% dos trabalhadores que n\u00e3o exerciam fun\u00e7\u00f5es de supervis\u00e3o viram sua renda semanal cair de US$ 581,67 para US$ 543,65. Em outras palavras o poder de compra desse contingente de trabalhadores era menor em 2005 do que em 1973. Enquanto os sal\u00e1rios eram reduzidos, a produtividade aumentou de maneira extraordin\u00e1ria no mesmo per\u00edodo, atingindo um aumento de 75% no mesmo per\u00edodo (Wolff, 2008) [5]. Outros dados, para per\u00edodo mais recente, indicam o seguinte: \u201cEntre 2000 e 2006 a economia norte-americana cresceu 18%, mas a renda mediana dos domic\u00edlios dos trabalhadores caiu 1,1% em termos reais (&#8230;) Em contrapartida, os 10% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o viram sua renda crescer 32%. No caso dos 1% mais ricos o crescimento foi de 203%, e de 425% para o segmento representante dos 0,1% superior na pir\u00e2mide de renda\u201d (Valor Econ\u00f4mico) [6].<\/p>\n<p>Como as fam\u00edlias norte-americanas t\u00eam no padr\u00e3o de consumo um dos elementos de sua afirma\u00e7\u00e3o social, a queda na renda levou as fam\u00edlias ao endividamento generalizado, muito acima de suas possibilidades econ\u00f4micas, processo facilitado nos \u00faltimos anos pelas baixas taxas de juro. A d\u00edvida interna geral (hipotecas, cart\u00f5es de cr\u00e9dito, compras de produtos em geral, leasing soma US$ 38,6 trilh\u00f5es, tr\u00eas vezes o PIB americano (Moore, 2008) [7].<\/p>\n<p>As pol\u00edticas neoliberais de reduzir os impostos para os ricos, aliados aos gastos com as aventuras guerreiras no exterior e o desenvolvimento do complexo industrial militar criaram um enorme d\u00e9ficit fiscal, que tinha sido zerado na administra\u00e7\u00e3o Clinton. Esta situa\u00e7\u00e3o levou o governo a financi\u00e1-lo no exterior, mediante a emiss\u00e3o de t\u00edtulos, ampliando o endividamento externo. Os Estados Unidos passaram de na\u00e7\u00e3o credora at\u00e9 os anos 60 para a maior devedora do planeta. A d\u00edvida externa norte-americana est\u00e1 calculada em cerca de US$ 9,5 trilh\u00f5es<\/p>\n<p>A desregulamenta\u00e7\u00e3o transformou o sistema financeiro dos EUA e, por gravidade, as finan\u00e7as internacionais, num teatro de opera\u00e7\u00f5es especulativas sem precedentes na hist\u00f3ria do capitalismo, dado o tamanho do descolamento entre a esfera produtiva e a \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o. Para se ter uma id\u00e9ia, enquanto o PIB mundial est\u00e1 por volta de US$ 55 trilh\u00f5es, o valor escritural (notional) das opera\u00e7\u00f5es financeiras especulativas foi de US$ 683,7 trilh\u00f5es (BIS, 2008) [8] no final do primeiro semestre de 2008, cerca de 12 vezes o PIB mundial. Pela grandeza desse n\u00famero j\u00e1 se podia prever a intensidade da crise, pois n\u00e3o existe mais-valia capaz de remunerar essa quantidade de recursos especulativos.<\/p>\n<p><strong>A din\u00e2mica da especula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que imagina o senso comum, a especula\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo recorrente e parte constitutiva do sistema capitalista e o capital fict\u00edcio, de tempos em tempos, sempre encontra um setor da economia para desenvolver a especula\u00e7\u00e3o financeira. John Kenneth Galbraith, em um livro muito ilustrativo sobre a hist\u00f3ria das crises financeira, narra com detalhes a euforia das bolhas especulativas, a din\u00e2mica das crises e os tra\u00e7os comuns entre elas. Galbraith assinala que os processos especulativos s\u00e3o muito semelhantes: come\u00e7am num setor qualquer da economia com uma inova\u00e7\u00e3o financeira, desenvolvem-se em fun\u00e7\u00e3o da euforia dos ganhos f\u00e1ceis e entram em colapso quando se desinfla a bolha especulativa.<\/p>\n<p>\u201cDe maneira uniforme, em todos os eventos especulativos, est\u00e1 a id\u00e9ia de que h\u00e1 algo novo no mundo &#8230; das tulipas na Holanda, ouro na Luisiana, terrenos na Fl\u00f3rida &#8230; Algum acontecimento novo e desej\u00e1vel toma conta da mente financeira. O pre\u00e7o do objeto da especula\u00e7\u00e3o dispara. T\u00edtulos, terrenos, objetos de arte, ou outros bens adquiridos hoje passam a valer mais amanh\u00e3. Esse aumento e a esperan\u00e7a de novos aumentos atraem novos compradores; os novos compradores garantem novos aumentos. Outros tantos s\u00e3o atra\u00eddos e outros tantos tamb\u00e9m compram. E o movimento altista continua: a especula\u00e7\u00e3o alimenta-se de si mesma e confere a si mesma o seu pr\u00f3prio \u00edmpeto\u201d (Galbraith, 1992: 2, 12) [9].<\/p>\n<p>Os setores interessados na especula\u00e7\u00e3o desenvolvem intensa campanha para criar uma imagem positiva da euforia financeira, o que \u00e9 reproduzido de maneira exaustiva pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, autoridades governamentais e pelos mecanismos de mercado. Se por acaso algu\u00e9m questiona o processo especulativo, imediatamente \u00e9 desqualificado e execrado perante a sociedade: trata-se de algu\u00e9m que n\u00e3o quer a prosperidade do Pa\u00eds, que se incomoda o lucro das pessoas, empresas e institui\u00e7\u00f5es e que t\u00eam id\u00e9ias obsoletas. A euforia s\u00f3 se encerra quando vem o colapso financeiro e os imensos preju\u00edzos para aqueles que n\u00e3o se safaram antes da crise. Mas as crises especulativas t\u00eam um denominador comum: \u201cTodas as crises envolvem um endividamento que, de uma ou outra maneira, tornou-se perigosamente desproporcional aos meios de pagamentos subjacentes\u201d (Galbraith, 1992: 14) [10].<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o de Galbraith corresponde exatamente aos dois \u00faltimos processos especulativos ocorridos nos Estados Unidos. Nos anos 90, a especula\u00e7\u00e3o se formou em torno das empresas ponto com, empresas de tecnologia que obtiveram enorme valoriza\u00e7\u00e3o nas bolsas. Falava-se em nova economia, comandada pelas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e cuja express\u00e3o maior eram os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es nas bolsas. \u201cNa primavera de 2000, no \u00e1pice da alta do mercado de a\u00e7\u00f5es, a despeito do fato de as companhias de telecomunica\u00e7\u00f5es terem produzido menos de 3% do PIB, a capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado (o valor de suas a\u00e7\u00f5es em circula\u00e7\u00e3o) alcan\u00e7ou assombrosos US$ 2,7 trilh\u00f5es, quase 15% da soma de todas as corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o financeiras norte-americanas\u201d (Brenner, 2003: 22) [11].<\/p>\n<p>Essa bolha especulativa desinflou em 2001, levando enormes preju\u00edzos para a sociedade. \u201cEm meados de 2002, as a\u00e7\u00f5es de telecomunica\u00e7\u00f5es perderam 95% de seu valor, o que resultou no desaparecimento de aproximadamente US$ 2,5 trilh\u00f5es da capitaliza\u00e7\u00e3o do mercado. Apenas no breve per\u00edodo entre o final de 2000 e meados de 2002, mais e 60 companhias faliram e a ind\u00fastria de telecomunica\u00e7\u00f5es demitiu mais de 500 mil trabalhadores, 50% a mais do que tinha contratado durante a espetacular expans\u00e3o do per\u00edodo entre 1996 e 2000\u201d (Brenner, 2003: 25, 26) [12].<\/p>\n<p>A crise das empresas ponto com, como pode ser observado, foi uma esp\u00e9cie de avant premi\u00e8re da crise atual que envolve o sistema capitalista, ressaltando-se que a crise das empresas de tecnologia trouxe \u00e0 tona uma escandalosa fraude cometida pelas principais empresas e bancos norte-americanos, fato que vem se repetindo com mais intensidade na atual crise.<\/p>\n<p>Concentremo-nos agora nos elementos constitutivos da crise atual. O governo norte-americano, atrav\u00e9s do FED, visando retomar economia que entrara em recess\u00e3o ap\u00f3s a crise de 2001, reduziu de maneira acelerada a taxa de juros, que chegou a ficar 31 meses negativa. Como a renda das fam\u00edlias n\u00e3o aumentava, a sa\u00edda para manter os elevados padr\u00f5es de consumo dos norte-americanos foi a amplia\u00e7\u00e3o do endividamento, uma vez que \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o nos Estados medir o sucesso individual ou familiar pelo padr\u00e3o de consumo. Os baixos juros e o cr\u00e9dito em abund\u00e2ncia possibilitaram a retomada da demanda, mas ao mesmo tempo criaram uma bomba de efeito retardado, uma vez que, se o cr\u00e9dito funciona como dinamizador da economia, em contrapartida deve ser pago em algum momento do tempo. Se as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas estiverem favor\u00e1veis, o cr\u00e9dito cumpre uma fun\u00e7\u00e3o especial de facilitar a produ\u00e7\u00e3o e a demanda, mas se as taxas de juros mudam ou as condi\u00e7\u00f5es da economia n\u00e3o possibilitam o aumento da renda, a inadimpl\u00eancia \u00e9 o caminho natural de parcela expressiva dos endividados.<\/p>\n<p>Marx tamb\u00e9m j\u00e1 advertira sobre o papel do cr\u00e9dito e as conseq\u00fc\u00eancia de sua expans\u00e3o for\u00e7ada da economia. \u201cNum sistema de produ\u00e7\u00e3o em que toda a conex\u00e3o do processo de reprodu\u00e7\u00e3o repousa sobre o cr\u00e9dito, quando ent\u00e3o o cr\u00e9dito subitamente cessa e passa apenas a valer o pagamento em esp\u00e9cie, tem de sobrevir evidentemente uma crise, uma corrida violenta aos meios de pagamento. \u00c0 primeira vista a crise apresenta apenas como crise de cr\u00e9dito e crise monet\u00e1ria. E de fato trata-se apenas da conversibilidade das letras em dinheiro. Mas essas letras representam, em sua maioria, compras e vendas reais, cuja extens\u00e3o, que ultrapassa de longe as necessidades sociais, est\u00e1 em \u00faltima inst\u00e2ncia na base de toda a crise (&#8230;) Enquanto o processo de reprodu\u00e7\u00e3o mant\u00e9m a fluidez, assegurando com isso o refluxo do capital, esse cr\u00e9dito perdura e se expande e sua expans\u00e3o se baseia sobre a expans\u00e3o do pr\u00f3prio processo de reprodu\u00e7\u00e3o. T\u00e3o logo ocorre uma estagna\u00e7\u00e3o, em conseq\u00fc\u00eancia de refluxos retardados, mercados saturados, ou pre\u00e7os em queda, h\u00e1 excesso de capital industrial, mas numa forma que n\u00e3o pode desempenhar sua fun\u00e7\u00e3o. Massas de capital-mercadoria, mas invend\u00e1veis. Massas de capital fixo, em virtude da paralisa\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o, em grande parte desocupadas. O cr\u00e9dito contrai-se 1) porque esse capital est\u00e1 desocupado, isto \u00e9, paralisado em uma das fases de sua reprodu\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o pode completar sua metamorfose; 2) porque a confian\u00e7a na fluidez do processo de reprodu\u00e7\u00e3o est\u00e1 quebrada; 3) porque a procura por esse cr\u00e9dito diminui\u201d (Marx 1983, 23-28) [13].<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es vantajosas do cr\u00e9dito, aliadas \u00e0 desregulamenta\u00e7\u00e3o, estimularam o capital especulativo a desenvolver um conjunto de inova\u00e7\u00f5es financeiras relacionadas com as d\u00edvidas de cart\u00f5es de cr\u00e9dito, compra de autom\u00f3veis, d\u00edvidas corporativas e, especialmente, as d\u00edvidas hipotec\u00e1rias. Vale lembrar que, para facilitar a a\u00e7\u00e3o especulativa, o Congresso norte-americano revogou, em 1999, a Lei Glass-Steagall, que disciplinava a atividade banc\u00e1ria e separava os bancos comerciais dos bancos de investimento. Desregulamentado e com carta branca para criar os mais diversos tipos de inova\u00e7\u00f5es financeiras, o sistema financeiro correspondeu plenamente aos novos tempos e desenvolveu esquemas de engenharia financeira que beirava \u00e0 insanidade.<\/p>\n<p>Por exemplo, no setor imobili\u00e1rio, onde a crise ficou mais conhecida, o mecanismo funcionava da seguinte maneira: os bancos at\u00e9 ent\u00e3o realizavam neg\u00f3cios imobili\u00e1rios e ficavam com as hipotecas negociadas como garantia do pagamento. Quando o cliente quitava o d\u00e9bito recebia de volta a hipoteca. No entanto, estimulados pela desregulamenta\u00e7\u00e3o e pelo incentivo do pr\u00f3prio governo, interessado no desenvolvimento das finan\u00e7as, as institui\u00e7\u00f5es financeiras resolveram inovar radicalmente, criando as chamadas finan\u00e7as estruturadas: transformaram as hipotecas e todo tipo de divida em t\u00edtulos, os empacotavam junto com outros t\u00edtulos de origem diferente, e os vendiam para institui\u00e7\u00f5es financeiras, investidores em geral e agentes econ\u00f4micos do mundo inteiro, que por sua vez, com esses t\u00edtulos podiam obter empr\u00e9stimos para comprar novos t\u00edtulos e assim por diante, surgindo da\u00ed uma enorme alavancagem financeira especulativa.<\/p>\n<p>O circuito se completava com a entrada das companhias seguradoras: para se garantir contra os riscos dos t\u00edtulos, empresas e institui\u00e7\u00f5es em geral faziam o seguro dos t\u00edtulos empacotados e as empresas de seguro, com os recursos obtidos, tamb\u00e9m participavam ativamente da ciranda financeira. Para se tornarem atrativos, os t\u00edtulos derivativos (oriundos das opera\u00e7\u00f5es securitizadas) rendiam muito mais que as taxas de juros do FED, o que proporcionava ganhos expressivos para todos que estavam no frenesi especulativo. O processo de sucuritiza\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas era chamado de dispers\u00e3o do risco. Cada agente passava o risco para a frente e embolsava as comiss\u00f5es e lucros \u2013 todos estavam ganhando e assim seguia a euforia financeira. Novamente Galbraith descreve com exatid\u00e3o e ironia a din\u00e2mica especulativa: \u201cQuem est\u00e1 envolvido na especula\u00e7\u00e3o vivencia um aumento de sua riqueza. Ningu\u00e9m deseja acreditar que isso \u00e9 fortuito ou imerecido; todos querem crer que \u00e9 o resultado da superioridade de seus insights ou intui\u00e7\u00f5es pessoais. O pr\u00f3prio aumento dos valores toma conta dos cora\u00e7\u00f5es e mentes dos que s\u00e3o por ele beneficiados. A especula\u00e7\u00e3o suga, de uma maneira perfeitamente pr\u00e1tica, a intelig\u00eancia daqueles envolvidos\u201d (Gralbraith, 1992: 4) [14].<\/p>\n<p>Para dar solidez a esses neg\u00f3cios, as ag\u00eancias independentes de risco, especialmente as tr\u00eas principais, Satandard Poors, Moody\u2019s e Fitch, respons\u00e1veis por 80% do mercado, realizavam a classifica\u00e7\u00e3o desses t\u00edtulos e os davam nota m\u00e1xima: um tr\u00edplice A (AAA), que significava a ben\u00e7\u00e3o do mercado e dos seus t\u00e9cnicos mais gabaritados para seriedade dos neg\u00f3cios. A classifica\u00e7\u00e3o das ag\u00eancias de risco abriu espa\u00e7o para que os investidores institucionais (fundos de pens\u00e3o, corretoras e outras institui\u00e7\u00f5es oficiais regulamentadas), que s\u00f3 poderiam comprar t\u00edtulos com esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o, entrassem no mercado colocando ainda mais gasolina no processo especulativo. Isso porque esses fundos e institui\u00e7\u00f5es, especialmente os fundos de pens\u00e3o, centralizam uma enorme quantidade de recursos da sociedade, o que lhes davam um grande poder para influenciar os mercados.<\/p>\n<p>Esse mecanismo (ou essa corrente da felicidade) criou um enorme boom imobili\u00e1rio. Com um n\u00famero cada vez maior de pessoas com cr\u00e9ditos para adquirir casas, os pre\u00e7os dos im\u00f3veis aumentaram de maneira acentuada, pois a demanda por resid\u00eancias era maior que a capacidade de constru\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Surgia assim o efeito riqueza, as pessoas que adquiriam im\u00f3veis se tornavam mais ricas em fun\u00e7\u00e3o do aumento dos pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o. Os bancos novamente utilizavam esta situa\u00e7\u00e3o para desenvolver ainda mais a especula\u00e7\u00e3o: chamavam os clientes com im\u00f3veis valorizados e os ofereciam cr\u00e9ditos correspondentes entre o valor original da hipoteca e o pre\u00e7o de mercado dos im\u00f3veis. Esses cr\u00e9ditos eram geralmente investidos na compra de novos t\u00edtulos empacotados, afinal todos queriam lucrar com a euforia financeira, o que aumentava ainda mais a procura por esse tipo de pap\u00e9is, elevava sua valoriza\u00e7\u00e3o e os ganhos dos especuladores.<\/p>\n<p>Nessa orgia especulativa, as institui\u00e7\u00f5es financeiras ampliaram ainda mais a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, ao realizar uma verdadeira ca\u00e7a \u00e0s pessoas para aceitar cr\u00e9ditos imobili\u00e1rios, mesmo aqueles que n\u00e3o tinham a menor condi\u00e7\u00e3o para pagar os empr\u00e9stimos. Isso \u00e9 compreens\u00edvel porque, para os bancos, o que interessava mesmo era a posse da hipoteca em carteira, pois esta logo seria transformada em t\u00edtulos securitizados e vendida para outros agentes econ\u00f4micos no mundo inteiro. Ali\u00e1s, os bancos poderiam ganhar duplamente com esses neg\u00f3cios \u201csubprime\u201d. Ao vender os t\u00edtulos, livravam-se dos riscos do neg\u00f3cio. Caso o devedor n\u00e3o conseguisse pagar as presta\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o o banco arrestava a casa e vendia para outro cliente. Um dos artif\u00edcios utilizados para que a venda dos im\u00f3veis parecesse vantajosa era o sistema de pagamentos das presta\u00e7\u00f5es a taxas de juros flex\u00edveis &#8211; muito baixos no in\u00edcio contrato, para depois ir aumentando com o tempo. A justificativa era a de que, com a valoriza\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis, seus propriet\u00e1rios teriam condi\u00e7\u00f5es e cr\u00e9ditos para pagar presta\u00e7\u00f5es mais altas.<\/p>\n<p>No auge da euforia financeira, autoridades governamentais denominavam esse processo de cria\u00e7\u00e3o de riqueza, capitalismo popular. Parecia uma imensa plat\u00e9ia encantada com as m\u00e1gicas de profissionais habilidosos: todos estavam felizes em ganhar dinheiro a partir do nada. Praticamente o dinheiro estava se multiplicando como p\u00e9 de jaboticaba: dava frutos dos troncos at\u00e9 os galhos menores. Para se ter uma id\u00e9ia do tamanho do mercado hipotec\u00e1rio, basta dizer que \u00e9 de cerca US$ 11 trilh\u00f5es. Essa base, multiplicada pela especula\u00e7\u00e3o com t\u00edtulos, mais as d\u00edvidas securitizadas dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, pode ter chegado a algo pr\u00f3ximo dos US$ 35 trilh\u00f5es, quase tr\u00eas vezes o PIB dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Os primeiros sintomas da crise<\/strong><\/p>\n<p>No final de 2006, iniciou-se um processo de revers\u00e3o das expectativas nos Estados Unidos, em fun\u00e7\u00e3o da conjuntura econ\u00f4mica: nesse per\u00edodo, a economia norte-americana j\u00e1 n\u00e3o apresentava mais o mesmo dinamismo do per\u00edodo anterior. Os juros negativos ou muito baixos por longo tempo ampliaram a capacidade de compra da economia e come\u00e7aram a surgir os primeiros sinais de aumento da infla\u00e7\u00e3o. O governo foi ent\u00e3o reajustando a pol\u00edtica de juros, que de 1% passou (um por cento) no per\u00edodo anterior, chegou a 5,25%. A combina\u00e7\u00e3o de desacelera\u00e7\u00e3o da economia, aumento de juros e queda na renda das fam\u00edlias provocou um efeito dram\u00e1tico no mercado especulativo: a inadimpl\u00eancia come\u00e7ou a surgir nos setores dos chamados cr\u00e9ditos subprime, foi evoluindo at\u00e9 se generalizar para o conjunto da economia, envolvendo d\u00edvidas como as de cart\u00f5es de cr\u00e9dito, d\u00edvidas corporativas, entre outras. A falta de pagamento dos cart\u00f5es aumentou 30% no primeiro semestre de 2007. Mas foi a crise do subprime, mercado muito maior, que acendeu a luz amarela para o conjunto do sistema especulativo: as institui\u00e7\u00f5es financeiras que compraram os pacotes lastreados nesses t\u00edtulos come\u00e7aram a perceber a possibilidade dos preju\u00edzos.<\/p>\n<p>Dispara-se ent\u00e3o o processo de revers\u00e3o da bolha especulativa: as institui\u00e7\u00f5es, empresas, fundos de pens\u00e3o, corretoras e todos os agentes econ\u00f4micos envolvidos na ciranda financeira procuraram desfazer-se dos pap\u00e9is securitizados mediante a venda no mercado. Quando mais o movimento de venda aumentava, mas os pre\u00e7os desses pap\u00e9is caiam. E quanto mais os pre\u00e7os iam caindo mais aumentava o movimento de venda e os pre\u00e7os caiam ainda mais. A not\u00edcia da crise vai se espalhando pelo conjunto do sistema e ningu\u00e9m quer mais comprar esses pap\u00e9is. Os pre\u00e7os despencam verticalmente e h\u00e1 um p\u00e2nico generalizado entre os investidores. Agora todos sentem nos bolsos a ressaca da especula\u00e7\u00e3o financeira. Quando mais os pre\u00e7os caem, mais carregam consigam preju\u00edzos para todas as institui\u00e7\u00f5es compradoras e tamb\u00e9m para as institui\u00e7\u00f5es que os lan\u00e7aram, pois agora o valor de mercado dos seus ativos est\u00e1 abaixo do valor patrimonial. Nos balan\u00e7os trimestrais v\u00e1rias empresas come\u00e7am a divulgar os preju\u00edzos. Isso leva mais p\u00e2nico ao mercado, os pre\u00e7os dos pap\u00e9is caem mais ainda e muitas empresas s\u00e3o obrigadas a fechar. Instaura-se o efeito pobreza, pois agora todos perderam da noite para o dia o valor potencial de seus t\u00edtulos, os propriet\u00e1rios v\u00eaem o valor dos im\u00f3veis rebaixados, al\u00e9m da possibilidade de perder suas casas. Instaura-se um clima de expectativas negativas que vai gradativamente se espalhando para a economia real.<\/p>\n<p>As grandes corpora\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m come\u00e7am a sofrer enormes preju\u00edzos e a crise j\u00e1 envolve o conjunto do sistema. As autoridades governamentais, buscando reduzir o p\u00e2nico entre as institui\u00e7\u00f5es envolvidas na especula\u00e7\u00e3o, come\u00e7am a injetar recursos na economia porque avaliam que com essa medida estar\u00e1 ampliando a liquidez e dando condi\u00e7\u00f5es \u00e0s institui\u00e7\u00f5es financeiras de evitarem uma corrida dos clientes aos guich\u00eas ou aos mouses de computadores para resgatar seus recursos. Mas a crise j\u00e1 \u00e9 bem maior que a percep\u00e7\u00e3o das autoridades monet\u00e1rias e sua capacidade de contorn\u00e1-la. Um dos cinco maiores bancos de investimentos dos Estados Unidos, o Bear Stearns, quebrou em meio \u00e0 tormenta e o FED foi obrigado a financiar sua aquisi\u00e7\u00e3o na bacia das almas pela J. P. Morgan. Posteriormente teve que emprestar recursos pela primeira vez aos bancos de investimento (setor n\u00e3o regulamentado) para salv\u00e1-los da insolv\u00eancia, tendo como contrapartida os t\u00edtulos t\u00f3xicos, que ningu\u00e9m mais queria comprar. Mas tamb\u00e9m j\u00e1 era tarde: logo depois o Lehman Brothers, um banco com 158 anos de exist\u00eancia, n\u00e3o teve a mesma sorte do Bear Stearns &#8211; foi \u00e0 fal\u00eancia pura e simples. O Merril Linch foi comprado pelo Bank of Am\u00e9rica e o Goldman Sachs e o Morgan Stanley deixaram de ser bancos de investimento. Em s\u00edntese, em poucos dias os cinco maiores bancos de investimento dos EUA desapareceram do cen\u00e1rio econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Mas a crise estava apenas no seu come\u00e7o: os maiores problemas vieram quando as duas principais empresas hipotec\u00e1rias, a Fannie Mae e a Freddie Mac, tamb\u00e9m foram \u00e0 lona. O governo ent\u00e3o foi obrigado a intervir abertamente e estatizar as duas institui\u00e7\u00f5es, num movimento envolvendo US$ 250 bilh\u00f5es. Para se ter uma id\u00e9ia da import\u00e2ncia da Fannie e da Freddie basta dizer que estas duas institui\u00e7\u00f5es detinham, sozinhas, US$ 5,4 trilh\u00f5es em t\u00edtulos hipotec\u00e1rios. Posteriormente, a maior empresa seguradora do mundo, a AIG, tamb\u00e9m n\u00e3o teve condi\u00e7\u00f5es de cumprir seus compromissos e o governo foi obrigado a estatiz\u00e1-la. Nessa conjuntura, centenas de institui\u00e7\u00f5es menores tamb\u00e9m foram \u00e0 bancarrota. Em clima de p\u00e2nico institucional, o secret\u00e1rio do Tesouro, em alian\u00e7a com o FED, estruturaram um pacote global de socorro da economia de US$ 700 bilh\u00f5es. Num primeiro momento, o Congresso rejeitou o pacote e s\u00f3 o aprovou depois com um conjunto de emendas. O mais ir\u00f4nico dessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o governo Bush, antes um agressivo defensor do livre mercado e da retirada do Estado da economia, agora tornara-se o principal defensor da m\u00e3o vis\u00edvel do Estado para socorrer o sistema financeiro com o dinheiro do contribuinte. No entanto, para revelar o car\u00e1ter de classe do governo, n\u00e3o existe nenhum pacote financeiro para salvar os propriet\u00e1rios dos im\u00f3veis da inadimpl\u00eancia e do arrestamento de suas resid\u00eancias, mesmo sabendo-se que milh\u00f5es de norte-americanos perder\u00e3o suas casas e ter\u00e3o que ficar no olho da rua.<\/p>\n<p>A crise n\u00e3o parou de crescer: se espalhou para o conjunto da Europa, cuja economia estava profundamente vinculada \u00e0 economia norte-americana, pelos pa\u00edses da \u00c1sia, pela Austr\u00e1lia e Am\u00e9rica Latina. A maior parte dos pa\u00edses centrais j\u00e1 est\u00e1 em recess\u00e3o. Os governos da Europa, da \u00c1sia, Austr\u00e1lia tamb\u00e9m j\u00e1 apresentaram planos gigantescos, envolvendo trilh\u00f5es de d\u00f3lares, para salvar o sistema do colapso. Os dirigentes dos principais pa\u00edses centrais agora falam na constitui\u00e7\u00e3o de um novo Bretton Woods e at\u00e9 numa refunda\u00e7\u00e3o do capitalismo, com o sistema financeiro devidamente regulamentado. Mais a crise \u00e9 muito maior que a capacidade de regula\u00e7\u00e3o das autoridades governamentais e o sistema capitalista vai passar por um enorme per\u00edodo de dificuldades nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Nesta crise, h\u00e1 ainda um dado que se assemelha com o processo da crise das empresas ponto com: a fraude empresarial. As institui\u00e7\u00f5es financeiras encontraram uma forma especial de contabilizar os neg\u00f3cios especulativos: passaram a colocar fora do balan\u00e7o os riscos de cr\u00e9dito, visando ampliar a alavancagem financeira. Com essas opera\u00e7\u00f5es fora de balan\u00e7o, essas institui\u00e7\u00f5es ganhavam maior capacidade para realizar novos empr\u00e9stimos, sem que isso implicasse legalmente numa rela\u00e7\u00e3o de alavancagem perigosa. Por isso mesmo \u00e9 que at\u00e9 agora ningu\u00e9m tem condi\u00e7\u00f5es de avaliar corretamente a massa de recursos especulativos, ou lixo t\u00f3xico que contamina as economias dos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p><strong>O significado da crise<\/strong><\/p>\n<p>Esta crise cont\u00e9m v\u00e1rios elementos de originalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crises anteriores, fruto do pr\u00f3prio desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e financeiras do capitalismo contempor\u00e2neo. Ocorre num momento em que o capitalismo se transformou num sistema mundial completo e maduro. No per\u00edodo anterior \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o o sistema era completo apenas no que se refere a duas vari\u00e1veis da \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o: a exporta\u00e7\u00e3o de capitais e o com\u00e9rcio mundial. Mas ao expandir a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e das finan\u00e7as mundialmente, o sistema amadureceu a reprodu\u00e7\u00e3o do capital em escala internacional e unificou globalmente o ciclo do capital, fechando assim um processo iniciado com a revolu\u00e7\u00e3o inglesa de 1640 (Costa, 2002) [15]. Essa performance possibilitou a constitui\u00e7\u00e3o de um ciclo mundial \u00fanico do capital, gerando uma crise sist\u00eamica, sim\u00e9trica e avassaladora, tanto nos pa\u00edses centrais como na periferia, o que impossibilita no curto prazo as possibilidades de fuga da crise para outras regi\u00f5es como no passado.<\/p>\n<p>Portanto, a crise n\u00e3o pode ser analisada a partir de alguns de seus aspectos espec\u00edficos, tais como a crise imobili\u00e1ria, a crise financeira ou a gan\u00e2ncia dos especuladores de Wall Street. Esta \u00e9 uma crise global do sistema de acumula\u00e7\u00e3o mundial e representa, na macroestrutura, a superacumula\u00e7\u00e3o de capitais e a impossibilidade de valoriz\u00e1-los na esfera produtiva. \u201cAs verdadeiras crises capitalistas, qualquer que seja a sua causa inicial, s\u00e3o colapso da totalidade, do conjunto da estrutura da produ\u00e7\u00e3o, do consumo, da circula\u00e7\u00e3o\u201d (Campos, 2001) [16]. Por isso, as tentativas de coordena\u00e7\u00e3o dos governos centrais e, particularmente, dos Estados Unidos, n\u00e3o produzem os efeitos desejados, uma vez que esta crise expressa uma quantidade e uma qualidade diferente que as crises c\u00edclicas tradicionais ou as grandes crises sist\u00eamicas do s\u00e9culo XIX e XX. Pois n\u00e3o se trata de falta de liquidez, de falta de cr\u00e9dito ou de regula\u00e7\u00e3o. O sistema todo est\u00e1 enfermo e todos os seus fundamentos est\u00e3o sendo questionados pelo colapso da economia.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 64 anos os Estados Unidos foram o v\u00e9rtice do sistema mundial capitalista, o que lhe possibilitou atrair a maior parte das economias ocidentais para seu modelo de acumula\u00e7\u00e3o, tanto no per\u00edodo da vig\u00eancia de Bretton Woods quanto no per\u00edodo iniciado com Tatcher e Reagan, mais conhecido como neoliberalismo. Portanto, como o epicentro da crise se encontra justamente no cora\u00e7\u00e3o da economia norte-americana, esse processo arrasta consigo todos os pa\u00edses ligados \u00e0 economia l\u00edder. E a profundidade da crise em cada na\u00e7\u00e3o depender\u00e1 do grau de proximidade ou subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 economia norte-americana. As possibilidades de sa\u00edda da crise dentro do modelo estruturado nos \u00faltimos 30 anos, no curto prazo, s\u00e3o marginais, a n\u00e3o ser que ocorra no bojo dessa conjuntura uma ruptura de um determinado Pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o ao sistema de poder norte-americano.<\/p>\n<p>A desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira, a livre mobilidade dos capitais e a constru\u00e7\u00e3o de instrumentos securitizados e derivativos geraram um processo de especula\u00e7\u00e3o no qual a riqueza em circula\u00e7\u00e3o na da \u00f3rbita das finan\u00e7as \u00e9 cerca de doze vezes maior que a gerada no setor produtivo, justamente o que gera valor ou riqueza nova. Para se ter uma id\u00e9ia do elevado grau de especula\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as mundiais, \u00e9 importante destacar o mais recente levantamento realizado semestralmente pelo Banco de Compensa\u00e7\u00f5es Internacionais (BIS) sobre o valor notional (escritural) apenas dos derivativos em circula\u00e7\u00e3o no mundo. De acordo com o \u00faltimo relat\u00f3rio do BIS (novembro de 2008), o valor negociado no mercado de balc\u00e3o com esses t\u00edtulos atingiu US$ 683,7 trilh\u00f5es. Um descolamento dessa magnitude entre as duas \u00f3rbitas do grande capital \u00e9 um fato in\u00e9dito na hist\u00f3ria do capitalismo e n\u00e3o poderia ter um resultado deferente do que a crise atual do sistema, pois \u00e9 imposs\u00edvel manter esta rela\u00e7\u00e3o no longo prazo, at\u00e9 mesmo porque n\u00e3o existiria mais-valia suficiente para remunerar a crescente progress\u00e3o da massa de recursos especulativos.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a primeira grande crise realmente completa do sistema capitalista, por isso mais complexa e potencialmente explosiva, uma vez que envolve toda a vida social do sistema capitalista \u2013 a esfera da produ\u00e7\u00e3o, da circula\u00e7\u00e3o, do cr\u00e9dito, das d\u00edvidas p\u00fablicas e privadas, do sistema social, do meio ambiente, dos valores neoliberais, da cultura individualista e, especialmente, de um determinado tipo de Estado como articulador do processo de acumula\u00e7\u00e3o. A crise \u00e9 t\u00e3o extensa que at\u00e9 agora nenhuma das autoridades dos pa\u00edses centrais teve condi\u00e7\u00f5es de saber com exatid\u00e3o a profundidade do desastre. Como n\u00e3o conseguem ter um diagn\u00f3stico preciso, n\u00e3o t\u00eam tamb\u00e9m condi\u00e7\u00f5es de resolv\u00ea-la com os m\u00e9todos tradicionais de pol\u00edtica monet\u00e1ria e fiscal. Isso porque a crise \u00e9 muito maior que a vis\u00e3o tradicional das velhas lideran\u00e7as atuais do mundo capitalista, viciadas no senso comum e nas vari\u00e1veis ideol\u00f3gicas neoliberais dos \u00faltimos 30 anos.<\/p>\n<p>A crise ocorre tamb\u00e9m num momento em que sistema imperialista est\u00e1 fragilizado econ\u00f4mica e politicamente ap\u00f3s oito anos de governo Bush, muito embora ainda possua um poderio militar maior que todos os outros pa\u00edses. Mas nenhum imp\u00e9rio pode se manter simplesmente pela for\u00e7a militar. A hegemonia n\u00e3o pode ser exercida por muito tempo apenas com a for\u00e7a bruta. Por isso, os Estados Unidos s\u00e3o hoje o que se pode chamar de um gigante ferido: trata-se do maior devedor do mundo, quando na d\u00e9cada de 60 era um pa\u00eds credor; de um pa\u00eds com um d\u00e9ficit comercial cr\u00f4nico, oriundo do processo de deslocaliza\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias para outras regi\u00f5es; com um d\u00e9ficit fiscal cada vez maior e com as empresas e consumidores com elevados graus de endividamento.<\/p>\n<p>Como sempre, as crises sist\u00eamicas representam o momento da verdade para todos: nessas crises se revelam de maneira expl\u00edcita a natureza das classes sociais, da ideologia, dos Estados e da gest\u00e3o da economia. As crises tamb\u00e9m s\u00e3o educativas e tornam mais claras as posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas dos partidos pol\u00edticos, dos movimentos sociais, dos intelectuais org\u00e2nicos e colocam por terra as dubiedades pol\u00edticas, o oportunismo e o reformismo. Em tempos de crise h\u00e1 um aprendizado r\u00e1pido do proletariado: este aprende mais em poucos meses do que em d\u00e9cadas de calmarias. Em tempos de calmaria as mudan\u00e7as s\u00e3o muito pequenas, o proletariado realiza apenas lutas espec\u00edficas, uma vez que a economia vai bem e o controle ideol\u00f3gico da burguesia \u00e9 maior, mas as crises funcionam como parteiras de uma nova \u00e9poca, tanto para a burguesia quanto para o proletariado. As mudan\u00e7as s\u00e3o velozes, independem da vontade das pessoas. \u00c9 exatamente nas crises que se abrem as janelas de oportunidades para que o proletariado possa reafirmar seu projeto de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As crises sist\u00eamicas tamb\u00e9m representam um per\u00edodo dif\u00edcil para a burguesia, pois esta se encontra desorganizada do ponto de vista econ\u00f4mico, seu poder pol\u00edtico est\u00e1 enfraquecido e sua hegemonia moral da sociedade em questionamento. O proletariado tamb\u00e9m est\u00e1 na defensiva, em fun\u00e7\u00e3o da fragmenta\u00e7\u00e3o operada pela reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, pelas debilidades do movimento sindical e pelas sucessivas derrotas sofridas ao longo dos \u00faltimos 30 anos. A crise que estamos vivendo agora \u00e9 um destes momentos hist\u00f3ricos pr\u00f3digos para acontecimentos inesperados, tanto por parte da burguesia como do proletariado. A crise representa o confronto aberto entre os projetos das duas classes fundamentais da sociedade. Cada classe vai buscar resolver a crise de acordo com os seus interesses e com seu projeto pol\u00edtico de sociedade. Quanto mais grave a crise, mais h\u00e1 a possibilidade de um acirramento da luta de classe.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que n\u00e3o existe crise sem sa\u00edda, n\u00e3o existe crise sem solu\u00e7\u00e3o. Poderemos, por um lado, observar uma violenta ofensiva da burguesia, que se torna mais agressiva nesta \u00e9poca porque quer recuperar a todo custo as taxas de lucro e o controle do sistema. O exemplo do nazismo e do fascismo ainda est\u00e3o bem vivos para nos advertir do que a burguesia \u00e9 capaz para manter o seu dom\u00ednio. Mas tamb\u00e9m \u00e9 nas crises que as lutas sociais e pol\u00edticas do proletariado podem ganhar uma dimens\u00e3o muito maior em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior: setores que antes pareciam adormecidos, acomodados e envolvidos pela ideologia do capital, podem irromper na cena pol\u00edtica com um vigor capaz de deixar perplexos n\u00e3o s\u00f3 aqueles que estavam dominados pela fatalidade do dom\u00ednio burgu\u00eas, mas at\u00e9 o pr\u00f3prio inimigo de classe, que \u00e9 tomado de surpresa pela ousadia das massas. Trata-se do momento em que o proletariado pode passar do patamar de classe em si para classe para si.<\/p>\n<p><strong>Em termos anal\u00edticos, as crises sist\u00eamicas desenvolvem-se obedecendo a seguinte hierarquia de acontecimentos:<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro, surge a crise econ\u00f4mica: emergem de maneira abrupta todas as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo. As principais institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, antes s\u00f3lidas e respeit\u00e1veis, desmoralizam-se diante da crise. Grandes bancos, grandes empresas, fundos de investimentos v\u00e3o \u00e0 bancarrota \u00e0 medida que a crise se aprofunda. As bolsas de valores despencam em queda livre. O p\u00e2nico se alastra entre os especuladores, empresas, institui\u00e7\u00f5es e a burguesia em geral. As autoridades governamentais interv\u00eam colocando recursos p\u00fablicos para tentar salvar a classe dominante. Torna-se mais claro o car\u00e1ter de classe do governo. A crise se alastra para o conjunto do sistema com perdas econ\u00f4micas e financeiras.<\/p>\n<p>Posteriormente, vem a crise social: com a quebra das principais institui\u00e7\u00f5es e a incapacidade do governo em superar a crise, h\u00e1 um curto-circuito no metabolismo econ\u00f4mico, que trava o fluxo de recursos entre as v\u00e1rias \u00f3rbitas do capital. Come\u00e7a a recess\u00e3o econ\u00f4mica, que traz consigo o desemprego, a queda na renda dos trabalhadores e as tens\u00f5es sociais. Em sociedades tipo a norte-americana, onde os fundos de pens\u00e3o e as bolsas de valores t\u00eam um papel preponderante na economia, os preju\u00edzos nessas duas institui\u00e7\u00f5es, mais o rebaixamento dos proventos das aposentadorias, levam aos protestos dos aposentados e dos participantes dos fundos, aos quais se aliam os perdedores nas bolsas e os desempregados. Nessa conjuntura, a crise econ\u00f4mica, o desemprego, a queda na renda, o rebaixamento das pens\u00f5es, a amplia\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e o desprest\u00edgio do d\u00f3lar como moeda mundial mudam radicalmente o clima psicol\u00f3gico das massas, que come\u00e7am a se manifestar contra o governo.<\/p>\n<p>Por fim, a crise pol\u00edtica. Com as manifesta\u00e7\u00f5es de massas crescendo e o governo sem condi\u00e7\u00f5es para resolver a crise, inicia-se a repress\u00e3o aberta contra as manifesta\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. No caso dos Estados Unidos, uma sociedade com longa tradi\u00e7\u00e3o institucional da democracia burguesa, a repress\u00e3o pode ampliar a luta de massas, gerando uma grave crise pol\u00edtica. O governo ter\u00e1 duas op\u00e7\u00f5es: aprofundar a repress\u00e3o e instituir um governo abertamente fascista, coisa que Bush iniciou com a Lei Patri\u00f3tica, ou os setores mais esclarecidos das classes dominantes buscam uma sa\u00edda ao estilo do New Deal , como no per\u00edodo do presidente Roosevelt. Mas o destino desse processo depende fundamentalmente da interven\u00e7\u00e3o das massas no cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>A crise e as perspectivas dos trabalhadores<\/strong><\/p>\n<p>Em todas as grandes crises ocorreram mudan\u00e7as de fundo na forma de gerir o capitalismo. A grande depress\u00e3o de 1873-1896 resultou no capitalismo monopolista e no imperialismo, a fase superior do capitalismo. A crise de 1930 foi a parteira do nazismo, do fascismo, da Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, da vit\u00f3ria do socialismo em cerca de um ter\u00e7o da humanidade. Nos pa\u00edses capitalistas centrais, em fun\u00e7\u00e3o do perigo comunista, a burguesia foi obrigada a ceder um conjunto de direitos e garantias para os trabalhadores, cuja express\u00e3o maior foi o Estado do Bem Estar Social e a gest\u00e3o keynesiana da economia. J\u00e1 a crise de 1974-75 trouxe em seu bojo a derrota do movimento oper\u00e1rio e a vit\u00f3ria do setor mais reacion\u00e1rio e parasit\u00e1rio do grande capital, que ao longo de 30 anos implantou o neoliberalismo, as finan\u00e7as especulativas e uma enorme regressividade social que aumentou a concentra\u00e7\u00e3o de renda e ampliou a pobreza no mundo.<\/p>\n<p>Esta crise, independentemente de qual dos projetos venha a se tornar vitorioso, tamb\u00e9m trar\u00e1 mudan\u00e7as profundas na economia e na sociedade como ocorreu nas crises anteriores. Estamos assistindo um fim de um longo ciclo da economia capitalista e o t\u00e9rmino de uma forma particular de acumula\u00e7\u00e3o onde o grande capital privilegiou o setor financeiro e buscou construir uma hegemonia mundial solit\u00e1ria a partir dos Estados Unidos. Este ciclo, na verdade, representou uma tentativa desesperada do grande capital de realizar a acumula\u00e7\u00e3o fugindo da lei do valor. Ao fim dessa crise, teremos uma nova situa\u00e7\u00e3o internacional, que tanto pode ser um novo ciclo comandado por outras fra\u00e7\u00f5es do capital, com outras formas particulares de acumula\u00e7\u00e3o, como pode tamb\u00e9m ocorrer profundas transforma\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas dirigidas pelo proletariado. Tudo depende de como os trabalhadores e suas vanguardas intervir\u00e3o no processo que se abre com a atual crise.<\/p>\n<p>Os trabalhadores n\u00e3o poder\u00e3o deixar de levar em conta que o capitalismo \u00e9 um sistema que tem uma extraordin\u00e1ria capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e, por mais paradoxal que pare\u00e7a, \u00e9 exatamente nos per\u00edodos de crise que o sistema se recicla, queimando, concentrando e centralizando capitais para alcan\u00e7ar um patamar superior. At\u00e9 mesmo nas grandes crises depressivas, quando houve possibilidade de questionamento mais profundo do sistema, o capitalismo encontrou meios de se adaptar \u00e0s circunst\u00e2ncias e sair vitorioso. Trata-se de um inimigo esperto, que acumulou uma enorme experi\u00eancia com as crises passadas. Por isso, tanto uma vit\u00f3ria da burguesia quanto uma perspectiva de transforma\u00e7\u00e3o fazem parte do jogo de possibilidade para as duas classes em disputa.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar ainda que esta crise, por suas dimens\u00f5es, vai colocar em questionamento a hegemonia norte-americana e o d\u00f3lar como moeda mundial. Mesmo que isto ainda n\u00e3o esteja plenamente configurado em fun\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio curso da crise, \u00e9 insustent\u00e1vel no longo prazo um pa\u00eds manter sua hegemonia baseada numa moeda insolvente e no poderio militar. Hoje, a economia dos Estados Unidos n\u00e3o apresenta o mesmo dinamismo que atingia no passado e sua moeda tem valor apenas fiduci\u00e1rio. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 insustent\u00e1vel diante da crise econ\u00f4mica e de seus desdobramentos, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto pol\u00edtico. Quanto mais se acirrar a crise, mais haver\u00e1 a possibilidade de questionamento da hegemonia norte-americana e um acirramento da disputa inter-imperialista, pois a crise pode gerar um clima de salve-se quem puder.<\/p>\n<p>Existe ainda uma possibilidade concreta de uma maxi-desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar ou de um calote generalizado da d\u00edvida externa norte-americana, que est\u00e1 por volta de US$ 9,5 trilh\u00f5es ou 72% do PIB, sendo que desse total mais de US$ 2,5 trilh\u00f5es est\u00e3o com a China e o Jap\u00e3o. N\u00e3o se trata de uma possibilidade quim\u00e9rica: todos devem lembrar que em 1971 o presidente Nixon acabou unilateralmente com a paridade d\u00f3lar-ouro, o que significou um enorme calote mundial. Se isso ocorrer, a crise se aprofundar\u00e1 de tal maneira que existe a possibilidade de aventuras militares por parte dos Estados Unidos para restabelecer a ordem no sistema. No entanto, este n\u00e3o \u00e9 a tend\u00eancia principal em virtude de os Estados Unidos j\u00e1 estarem realizando duas guerras \u2013 uma no Afeganist\u00e3o e outra no Iraque, com derrotas militares e pol\u00edticas. S\u00f3 numa situa\u00e7\u00e3o de extremo desespero seria capaz de realizar outras aventuras militares.<\/p>\n<p>Em todos os momentos de crise desse tipo surgem os questionamentos te\u00f3ricos, as indefini\u00e7\u00f5es paralisadoras, os oportunismos e vacila\u00e7\u00f5es de toda ordem. Os que n\u00e3o querem lutar costumam afirmar que esta \u00e9 apenas mais uma crise do capitalismo e que esse modo de produ\u00e7\u00e3o, ao final do processo, retomar\u00e1 seu curso num patamar superior como o fez ao longo de sua hist\u00f3ria. Outros sentenciam confiantes que esta \u00e9 a crise final do capitalismo. N\u00f3s entendemos que as duas posi\u00e7\u00f5es est\u00e3o equivocadas. A primeira porque considera na pr\u00e1tica o capitalismo um sistema eterno e, por isso mesmo, apenas luta por algumas reformas para melhorar a vida do povo. O segundo tem um costume recorrente de transformar toda crise do capitalismo em crise final. E quando n\u00e3o ocorre a revolu\u00e7\u00e3o, creditam seus erros de avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o a uma an\u00e1lise incorreta da realidade, mas \u00e0 falta de dire\u00e7\u00e3o do movimento.<\/p>\n<p>N\u00f3s entendemos dialeticamente que as crises e, especialmente, crise como esta, s\u00e3o sempre oportunidades para que o proletariado possa contestar a ordem burguesa. Mas isso n\u00e3o significa que esta crise se transformar\u00e1 em revolu\u00e7\u00e3o. Quem vai decidir o destino da crise \u00e9 a capacidade do proletariado de irromper na cena pol\u00edtica de forma independente, com um grau de for\u00e7a tal que seja capaz de derrotar a burguesia e conquistar a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da sociedade. N\u00f3s entendemos que h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es objetivas para a retomada do movimento de massas em car\u00e1ter mundial e a possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o do sistema capitalista. Ao contr\u00e1rio do per\u00edodo de L\u00eanin, que imaginava que o capitalismo monopolista seria a ante-sala da revolu\u00e7\u00e3o socialista, acreditamos que somente agora quando o capitalismo se transformou num sistema mundial completo e maduro, tendo em vista que internacionalizou a produ\u00e7\u00e3o e as finan\u00e7as e unificou globalmente o ciclo do capital, est\u00e3o dadas as condi\u00e7\u00f5es para a revolu\u00e7\u00e3o mundial. Nessa perspectiva, estamos muito mais pr\u00f3ximos de uma nova sociedade do que est\u00e1vamos no in\u00edcio do capitalismo monopolista.<\/p>\n<p>Ou seja, como tudo na natureza e na sociedade est\u00e1 sob a lei da dial\u00e9tica, podemos dizer que o capitalismo, ao revolucionar as formas produtivas e as finan\u00e7as em termos mundiais, cumpriu seu papel hist\u00f3rico e tende, como ocorreu em outras \u00e9pocas hist\u00f3ricas, a passar pelo mesmo processo de transforma\u00e7\u00e3o que as forma\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f4micas anteriores. Como diz\u00edamos em nosso trabalho de 2002 [17], as condi\u00e7\u00f5es para esta mudan\u00e7a de qualidade s\u00f3 estariam maduras quando a crise atingisse o cora\u00e7\u00e3o do sistema, onde potencialmente pulsa mais forte a luta de classe. Agora a crise atingiu o cora\u00e7\u00e3o do sistema e chegou a hora da verdade para a burguesia e o proletariado.<\/p>\n<p>Outro ponto importante \u00e9 o fato de que os desdobramentos desta crise v\u00e3o atingir profundamente os trabalhadores em termos do emprego e da renda e v\u00e3o acirrar a luta de classes nos pa\u00edses centrais e na periferia. Ao contr\u00e1rio do senso comum e de muitos companheiros da esquerda, n\u00f3s achamos que o potencial de luta da classe oper\u00e1ria e dos trabalhadores \u00e9 muito mais forte nos pa\u00edses centrais que na periferia, pois \u00e9 exatamente nos pa\u00edses centrais onde se encontra a classe oper\u00e1ria mais avan\u00e7ada do ponto de vista das for\u00e7as produtivas e onde o capitalismo est\u00e1 mais maduro. \u00c9 um teatro de opera\u00e7\u00f5es muito mais favor\u00e1vel para a luta de classes que nos pa\u00edses atrasados. \u00c9 bem verdade que os elos d\u00e9beis continuar\u00e3o cumprindo um papel essencial no desgaste e fustigamento do grande capital, mas as transforma\u00e7\u00f5es qualitativas do sistema capitalista ser\u00e3o muito mais definitivas se ocorrerem no cora\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>Portanto, a a\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria e dos trabalhadores em geral vai depender n\u00e3o s\u00f3 das condi\u00e7\u00f5es objetivas detonadas pela pr\u00f3pria crise, mas especialmente das condi\u00e7\u00f5es subjetivas para a emerg\u00eancia dos trabalhadores como sujeitos hist\u00f3ricos. Se olharmos apenas a apar\u00eancia dos fen\u00f4menos, poderemos dizer que \u00e9 muito dif\u00edcil um levantamento dos trabalhadores nos pa\u00edses centrais. Os 30 anos de neoliberalismo foram anos de derrota: fragmentaram a classe oper\u00e1ria, enfraqueceram o movimento sindical e desorientaram, com poucas exce\u00e7\u00f5es, suas vanguardas pol\u00edticas. Al\u00e9m disso, os trabalhadores perderam a \u00e2ncora socialista e o grande capital avan\u00e7ou sobre os direitos e garantias conquistados historicamente. No entanto, as crises s\u00e3o fen\u00f4menos que trazem em seu bojo a\u00e7\u00f5es inesperadas das classes trabalhadoras, que possibilitam um aprendizado intensivo da luta de classes. N\u00e3o est\u00e1 fora de cogita\u00e7\u00e3o a emerg\u00eancia de um novo movimento oper\u00e1rio e uma nova vanguarda pol\u00edtica, criada a partir dos fragmentos das que existem ou da cria\u00e7\u00e3o de novas vanguardas oper\u00e1rias, que voltem a colocar na ordem do dia a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e a implanta\u00e7\u00e3o do socialismo como uma nova forma de sociabilidade.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos num desses momentos fundamentais da hist\u00f3ria em que n\u00e3o deve haver espa\u00e7o para a vacila\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores n\u00e3o podem cair no conto de que \u00e9 poss\u00edvel reformar o capitalismo ou torn\u00e1-lo mais humano. Esse sistema est\u00e1 condenado pela hist\u00f3ria. Devemos levar ainda em conta que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista para sair da crise, crescer novamente e reorganizar a sociedade tem que amea\u00e7ar a vida e continuidade da esp\u00e9cie humana. Cada vez fica mais claro: hoje capitalismo e humanidade est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o. Para o capitalismo se manter \u00e9 necess\u00e1rio amea\u00e7ar a humanidade e n\u00e3o resta para a humanidade outra op\u00e7\u00e3o do que procurar se salvar atrav\u00e9s da supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Esta \u00e9 a disjuntiva que se coloca neste momento para o proletariado. Essa crise \u00e9 da burguesia e n\u00e3o dos trabalhadores. O proletariado deve aproveitar esse momento hist\u00f3rico para apresentar o seu projeto de sociedade e disputar com a burguesia o futuro da humanidade, pois s\u00f3 o proletariado tem condi\u00e7\u00f5es de construir uma sociedade da abund\u00e2ncia e da felicidade.<\/p>\n<p>A burguesia vai utilizar todas as suas ferramentas para sair vitoriosa da crise. Vai fazer todo o poss\u00edvel para manter os seus interesses de classe, seus objetivos estrat\u00e9gicos &#8211; econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos -, de forma a recuperar as taxas de lucro e a disciplina social perdida durante os momentos da turbul\u00eancia. Vai tentar implantar a ferro e fogo o seu projeto e, nesse sentido, n\u00e3o vacilar\u00e1 um minuto, como a hist\u00f3ria tem nos ensinado, mesmo que para tanto tenha que provocar guerras e destrui\u00e7\u00f5es em massa. Vai tentar sair da crise rebaixando sal\u00e1rios, direitos e garantias dos trabalhadores, concentrando a renda, realizando a mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida, incentivando o complexo industrial-militar destruindo ainda mais o meio ambiente, ampliando a mis\u00e9ria e a viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse momento especial da luta de classe os trabalhadores devem se preparar da melhor maneira poss\u00edvel para emergir na luta com um projeto emancipador e revolucion\u00e1rio. N\u00e3o existe empate na luta de classe: na situa\u00e7\u00e3o em que estamos vivendo, ou a burguesia sai vitoriosa e retoma o capitalismo num patamar superior; ou o proletariado derrota a burguesia e inicia a constru\u00e7\u00e3o da nova sociedade com seus aliados fundamentais. Apesar da crise estar abalando todo o sistema, os trabalhadores n\u00e3o devem ficar de bra\u00e7os cruzados esperando o capitalismo cair de maduro. O capitalismo s\u00f3 cair\u00e1 se for derrubado e esta \u00e9 a tarefa do proletariado neste momento da hist\u00f3ria. Portanto, m\u00e3os \u00e0 obra camaradas!<\/p>\n<p>Notas: [1] CAMPOS, Lauro. A Crise Completa \u2013 A Economia Pol\u00edtica do N\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2001. [2] MARX, Karl, O Capital, Vol. I, Tomo I. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983. [3] MARX, Karl. Teorias da Mais-Valia, Vol. III. Rio de Janeiro: Difel, 1983. [4] MARX, Karl. O Capital. Vol. III, Tomo I. S\u00e3o Paulo: 1984. [5] WOLFF, Rick. A Economia Subprime dos EUA. <a href=\"http:\/\/www.resistir.info\" target=\"_blank\">www.resistir.info<\/a>. Acesso em 30 de outubro de 2008. [6] VALOR Econ\u00f4mico. S\u00e3o Paulo, 29\/10\/2008. [7] MOORE, Walter. La estafa global de los Estados Unidos est\u00e1 llegando a su fim. <a href=\"http:\/\/www.socialismo-o-barbarie.org\" target=\"_blank\">www.socialismo-o-barbarie.org<\/a>. Acesso em 05 de fevereiro de 2008. [8] BIS (Bank for International Settlement). OTC derivatives market activity in the first half of 2008. Switzerland: novembro, 2008. [9] GALBRAITH, John Kennet. Uma Breve Hist\u00f3ria da Euforia Financeira. S\u00e3o Paulo: Pioneira, 1992. [10] GALBRAITH, op. cit. [11] BRENNER, Robert. O Boon e a Bolha \u2013 O Estados Unidos na economia mundial. Rio de Janeiro: Record, 2003 [12] BRENNER, op. cit. [13] MARX, Karl. O Capital. Vol. III. Tomo 2. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1985. [14] GRALBRAITH, op. cit. [15] COSTA, Edmilson. A globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal e as novas dimens\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo. Tese de p\u00f3s-doutorado realizada no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Unicamp. Campinas, 2002. [16] CAMPOS, op. cit. [17] Trata-se da tese de p\u00f3s-doutoramento realizada no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Unicamp, op. cit.<\/p>\n<p>Trabalho apresentado no Semin\u00e1rio Nacional sobre A Crise Mundial e os Trabalhadores, realizado em 01 de novembro em S\u00e3o Paulo, promovido pelo Instituto Caio Prado ]r. e o Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p>* Edmilson Costa \u00e9 doutor em Economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da mesma Institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 autor de O imperialismo (Global, 1987), A Pol\u00edtica Salarial no Brasil (Boitempo, 1997), Um Projeto Para o Brasil (Tecno-Cient\u00edfica, 1998) e A Globaliza\u00e7\u00e3o e o Capitalismo Contempor\u00e2neo (Express\u00e3o Popular, 2008). \u00c9 diretor de pesquisa do Instituto Caio Prado Jr. e membro do Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\nEdmilson Costa*\nIntrodu\u00e7\u00e3o\nA crise que envolve o conjunto do sistema capitalista e, especialmente os pa\u00edses centrais, \u00e9 devastadora, profunda e de longa dura\u00e7\u00e3o. Estamos apenas no in\u00edcio de um processo que envolver\u00e1 a derrocada do sistema financeiro internacional tal como conhecemos hoje, queda brusca no com\u00e9rcio mundial, uma grande recess\u00e3o, desemprego generalizado, e graves tens\u00f5es sociais no centro e na periferia. Por suas dimens\u00f5es econ\u00f4micas e financeiras, esta crise \u00e9 muito maior que a de 1929, com o agravante de que atinge de maneira sincronizada o cora\u00e7\u00e3o do sistema capitalista e torna praticamente sem efeito as tentativas de coordena\u00e7\u00e3o ensaiadas pelos l\u00edderes das principais economias mundiais. A crise reflete ainda um conjunto de contradi\u00e7\u00f5es que o capitalismo vem acumulando desde a segunda metade da d\u00e9cada de 60 (super-acumula\u00e7\u00e3o de capitais, financeiriza\u00e7\u00e3o da riqueza e frenesi especulativo) e que agora se expressam com rudeza expl\u00edcita em toda a vida social contempor\u00e2nea das na\u00e7\u00f5es que fazem parte do processo de acumula\u00e7\u00e3o mundial.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/231\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-231","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3J","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/231\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}