{"id":2311,"date":"2012-01-25T00:29:32","date_gmt":"2012-01-25T00:29:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2311"},"modified":"2017-08-25T00:55:35","modified_gmt":"2017-08-25T03:55:35","slug":"os-retratos-do-velho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2311","title":{"rendered":"Os retratos do Velho"},"content":{"rendered":"\n<p>Lilia e Z\u00e9 Maur\u00edcio ainda comemoravam a chegada do primog\u00eanito quando os blocos foram para as ruas. O carnaval de 1951 foi no in\u00edcio de mar\u00e7o e naquele ano, para variar, marchinhas caminhavam para a eternidade.<em>Tomara que chova<\/em> e\u00a0<em>Sapato de pobre<\/em> mantinham acesa a rivalidade Emilinha\/Marlene, blockbusters da r\u00e1dio Nacional. Dalva de Oliveira n\u00e3o estava para brincadeira e vinha de\u00a0<em>Zum zum<\/em> (oi zum zum zum\u00a0zum zum, t\u00e1 faltando um &#8230;). Correndo por fora, trote de pangar\u00e9, vinha a surpreendente<em>Retrato do velho<\/em>, de Haroldo Lobo (um campe\u00e3o, compositor de p\u00e9rolas como<em>Ala-la-\u00f4, \u00cdndio quer apito <\/em>e<em> Em\u00edlia<\/em>) e Marino Pinto (parceiro, entre outros, de Ataulfo Alves, Herivelto Martins e Tom Jobim; como ningu\u00e9m \u00e9 perfeito, trabalhou como censor do Departamento Federal de Seguran\u00e7a P\u00fablica). Era uma exalta\u00e7\u00e3o \u00e0 volta de Get\u00falio Vargas \u00e0 presid\u00eancia. O ditador filofascista do Estado Novo retornava legitimado pelas elei\u00e7\u00f5es do ano anterior. A letra, inspira\u00e7\u00e3o para puxa-sacos de baixos e altos coturnos, dizia:\u00a0<em>Bota o retrato do velho outra vez\/Bota no mesmo lugar\/O retrato do velhinho faz a gente trabalhar<\/em>. As cr\u00f4nicas da \u00e9poca dizem que a musiquinha se saiu muito bem, turbinada pelo vozeir\u00e3o do Chico Viola.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz muito, outro Velho, com v mai\u00fasculo mesmo, voltou a ser not\u00edcia. Parte da fam\u00edlia de Luiz Carlos Prestes, carinhosamente chamado de Velho por seus camaradas do Partid\u00e3o, doou ao Arquivo Nacional cartas, fotos e documentos do acervo do l\u00edder comunista. A divulga\u00e7\u00e3o de algumas fotos mais \u00edntimas, que mostram Prestes celebrando anivers\u00e1rio de uma neta, cavalgando na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ou descansando numa praia nordestina, despertou controv\u00e9rsia. A vi\u00fava Maria alegou ser importante mostrar o lado \u201chumano\u201d do Cavaleiro da Esperan\u00e7a. A filha Anita, que a imprensa burguesa teima em pintar como um boneco de gelo, condenou a banaliza\u00e7\u00e3o da imagem do homem a quem mesmo seus inimigos\u00a0consideram um dos mais importantes pol\u00edticos brasileiros do s\u00e9culo passado. Entendo a preocupa\u00e7\u00e3o de Anita, imperturb\u00e1vel na preserva\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito revolucion\u00e1rio de seu pai. Esse esp\u00edrito inclui, certamente, a separa\u00e7\u00e3o entre as vidas p\u00fablica e privada. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia, em qualquer sentido, de saber se Prestes usava sunga na praia ? Bisbilhotar, voyeurizar e mexericar: eis a Sant\u00edssima Trindade da sociedade do espet\u00e1culo, onde as imagens escravizam a Raz\u00e3o, dissolvem o racioc\u00ednio e mediocrizam a vida. Se as fotos de um comunista servissem para discutir o que um jornalista d\u2019o Globo chamou de \u201clegado prestista\u201d, que viessem em cascata ! Claro que n\u00e3o foi essa a inten\u00e7\u00e3o. Tratou-se apenas de um momento\u00a0<em>paparazzo<\/em>, um gostinho de supresa(?) para vender mais jornais e revistas. Mais conveniente manter o Velho congelado nas Rolleiflex empoeiradas &#8230;<\/p>\n<p>Mal a \u201cpol\u00eamica\u201d sobre as fotos do Prestes saiu do forno e o\u00a0<em>business<\/em> visual j\u00e1 manipulava novas excita\u00e7\u00f5es. Inaugurada a temporada 2012 do indigente Big Brother (algu\u00e9m perguntou se um livro, um m\u00edsero exemplar sobre qualquer assunto, j\u00e1 foi flagrado no c\u00e1rcere de luxo do Projac) e um suposto estupro &#8230; alavancou a audi\u00eancia. Consultei minhas bases para entender como funciona a coisa. \u00c9 um assombro. Junta-se um grupo disposto a se expor publicamente por algumas semanas. De um modo geral jovens, que topam tudo, tudo mesmo, para ganhar uma grana. Acrescenta-se doses industriais de \u00e1lcool, festinhas de embalo e, desconfio, est\u00edmulos para se gerar cenas \u201cpicantes\u201d (e bater recordes de acesso\u00a0pela internet). Resultado ? Um Coliseu hormonal, com milh\u00f5es de basbaques grudados nas telinhas, ciceroneados por um d\u00e9bil mental estridente, que, sem piscar, assegura que \u201co amor \u00e9 lindo\u201d, confundindo descaradamente um ato sexual pr\u00e9-fabricado com a rela\u00e7\u00e3o complexo-po\u00e9tica de dois indiv\u00edduos. Esgoto puro, vendido como \u201cshow da realidade\u201d. Dou a palavra \u00e0 psicanalista Maria Rita Kehl: \u201cParece que o p\u00fablico que prefere o Big Brother n\u00e3o quer ser iludido com a vida \u00e1gua com a\u00e7\u00facar das novelas. Engano. O que o p\u00fablico est\u00e1 pedindo \u00e9 para se iludir melhor. Os reality shows s\u00e3o a forma mais eficiente de ilus\u00e3o que a cultura de massas j\u00e1 produziu: vendem aos espectadores o espelho fiel de sua vida amesquinhada sob a \u00e9gide severa das \u201cleis de mercado\u201d. Vendem a imagem da selva em que a concorr\u00eancia transforma as rela\u00e7\u00f5es humanas. S\u00f3 que elevados ao estatuto de espet\u00e1culo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nJacques Gruman\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2311\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-2311","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Bh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2311","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2311"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2311\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2311"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2311"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2311"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}