{"id":23120,"date":"2019-05-18T22:39:38","date_gmt":"2019-05-19T01:39:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23120"},"modified":"2019-05-18T22:39:44","modified_gmt":"2019-05-19T01:39:44","slug":"um-fragmento-da-ditadura-que-bolsonaro-quer-apagar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23120","title":{"rendered":"Um fragmento da ditadura que Bolsonaro quer apagar"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/x8gPEF6pcsBEvrm5ivjIhy6psjCq-Oeb1WxcctDamFZtDw2wfNReQdo19KUhxo06ppwjJshGRzZGMzmwBhTFqda9inUNRI1tjwYypzyEOGkrl7t0T5cKmjEMaUGnfiBsawYUM_MHZllJXGEYxHwnV8LTNNjFUmoC_WK0mPWtLqJqCDNJbABzuVtWDg4aDrhPB3nC658st97vYudng62je5bzvqV5vZWro4_VINZiygIIVE0u5QjJ9gOpU8dc6gJo040QQ_OwXhU5krEQpuG5BwPV3rlsweSmJPLfMTaaMMCqrwI97H9DXW121zwE7_6IDoBZZb5tKdzSC3M1o3eRJOpA22KAcr9RkAxbvkhLPn1TV-ykEXh2kLnTM7oVb4HSiBVSa1YF-L6ZJyu73bZyRTw9WHAD4TFGMJfY1ohPf9y1DbvDZvjVeBIZZy2HbieU75aaLkDqSvSAFPROfK2Y33X8UmIJzahsT2anLGbr4e_IgaC9ltaxC3TtnOf2YClnWOWh0oH3sQ3BPIAh9uD04TqiFmWMkZGJAPXhen5XvswEfy0_jtd8FZZCiiUd5cb1Vyh_WPQ2wRxWNi5EiLmu7n8D0K2f7u7ZjFdd5cnM2G1CXUG-y8dbwnKcsraD670YBmijPtjXswYB5D0A_YpbvQQw5geczfse=s606-no\"\/><!--more-->O governo Bolsonaro amea\u00e7a encerrar o trabalho do Grupo Trabalho Perus (GTP) com o Decreto 9.759. Trata-se de um grupo integrado pela Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos e respons\u00e1vel pela identifica\u00e7\u00e3o das cerca de 1.500 ossadas encontradas em 1990 na vala comum no Cemit\u00e9rio Dom Bosco situado no bairro de Perus, no extremo norte de S\u00e3o Paulo. O grupo recebe amparo em acordo entre a Uni\u00e3o, a Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP) e a Prefeitura de S\u00e3o Paulo. A medida \u00e9 extremamente desumana em rela\u00e7\u00e3o a v\u00edtimas e familiares que viveram sob tortura do regime. Bolsonaro diz que \u201cQuem procura osso \u00e9 cachorro\u201d e, com sua cruel ironia, mais uma vez nos mostra de que forma est\u00e1 comprometido com os valores da antiga ditadura, a fim de apagar toda a mem\u00f3ria sobre as lutas desenvolvidas pelos verdadeiros defensores do proletariado. O PCB e a pr\u00f3pria UJC foram organiza\u00e7\u00f5es das mais atacadas durante o per\u00edodo, pois centenas de camaradas foram mortos, desaparecidos, torturados e prejudicados em suas vidas.          \n<\/p><p>\nNo bairro de Perus at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o havia um cemit\u00e9rio; o mais pr\u00f3ximo era localizado na cidade de Caieiras, vizinha ao distrito. Logo ap\u00f3s sua funda\u00e7\u00e3o, o cemit\u00e9rio sofreu uma transforma\u00e7\u00e3o, tendo se tornado exclusivo para corpos de indigentes e indiv\u00edduos n\u00e3o identificados, ou, mais precisamente, pessoas mortas pela viol\u00eancia exercida na a\u00e7\u00e3o repressiva do regime empresarial-militar. Em 1971, durante a gest\u00e3o de Paulo Maluf, houve uma primeira tentativa de instalar no local um cremat\u00f3rio.\n<\/p><p>\nTanto Maluf quanto o diretor do IML da \u00e9poca, Harry Shibata, tentaram contratar uma empresa brit\u00e2nica especializada na constru\u00e7\u00e3o de fornos cremat\u00f3rios. O projeto n\u00e3o teve continuidade, pois em virtude da crescente onda de viol\u00eancia do regime, a empresa considerou a atividade suspeita. O projeto dos fornos n\u00e3o inclu\u00eda uma capela para ora\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de supostamente haver mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o para crema\u00e7\u00f5es. O projeto foi repassado ao Cemit\u00e9rio Vila Nova Cachoeirinha (Zona Norte de S\u00e3o Paulo), onde tamb\u00e9m n\u00e3o houve efetividade, tendo sido posteriormente transferido para o Cemit\u00e9rio Vila Alpina (na Zona Leste), onde funciona at\u00e9 os dias atuais o Cremat\u00f3rio Municipal de S\u00e3o Paulo.\n<\/p><p>\nO cemit\u00e9rio de Perus n\u00e3o foi o \u00fanico a ter essa finalidade. O primeiro cemit\u00e9rio utilizado no per\u00edodo imediatamente ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o do AI-5 foi o da Vila Formosa (Zona Leste de S\u00e3o Paulo), onde foi enterrado como indigente Carlos Marighella, ex-militante do PCB e fundador da ALN (Alian\u00e7a Nacional Libertadora), antes de ter seus restos mortais transladados para a Bahia. O Cemit\u00e9rio de Campo Grande (Socorro, Zona Sul de S\u00e3o Paulo) tamb\u00e9m foi utilizado para as a\u00e7\u00f5es e somente descoberto atrav\u00e9s de pesquisas de familiares das vitimas sobre documentos do cemit\u00e9rio e do IML.\n<\/p><p>\nO Cemit\u00e9rio do Lageado (Guaianases, Zona Leste de S\u00e3o Paulo) tamb\u00e9m recebia corpos considerados de indigentes e n\u00e3o identificados. Certas desconfian\u00e7as surgiram sobre dois inc\u00eandios ocorridos em meados de 1974 e 1985, quando foram queimados salas de arquivos, registros, fotografias e documentos, al\u00e9m da carboniza\u00e7\u00e3o de um funcion\u00e1rio.\n<\/p><p>\nCom a abertura do processo de &#8220;redemocratiza\u00e7\u00e3o&#8221;, a imprensa teve possibilidade de tratar casos at\u00e9 ent\u00e3o sigilosos sobre o regime. As emissoras exploravam casos de viol\u00eancia policial e tiveram acesso a laudos do IML. Assim, foi poss\u00edvel encontrar, em diversas fichas, a letra \u201cT\u201d de terrorista, que identificava militantes perseguidos e mortos pelos policiais do DOPS. A den\u00fancia foi feita durante o governo de Luiza Erundina, que determinou, em setembro de 1990, a abertura da Vala Clandestina de Perus. Nesse per\u00edodo foi tamb\u00e9m instalada uma CPI para investigar a origem das ossadas.\n<\/p><p>\nTransferidas pelo Governo de S\u00e3o Paulo para a Universidade Federal de Campinas (UNICAMP), as ossadas encontradas come\u00e7am a ser verificadas por peritos, entidades dos direitos humanos e familiares. As comiss\u00f5es exigiram uma s\u00e9rie de presta\u00e7\u00f5es de contas sobre as pesquisas realizadas, pois faltavam respostas concretas sobre o andamento das identifica\u00e7\u00f5es das ossadas. Muitas irresponsabilidades foram cometidas ao longo de 15 anos, n\u00e3o se garantindo \u00e0s fam\u00edlias qualquer tipo de resposta mais efetiva a respeito. Nos anos 2000 \u00e9 firmado um conv\u00eanio com a Faculdade de Medicina da USP e tamb\u00e9m \u00e9 realizada a transfer\u00eancia de 1049 ossadas para o Cemit\u00e9rio do Ara\u00e7\u00e1 (Consola\u00e7\u00e3o, Centro de S\u00e3o Paulo).\n<\/p><p>\nAnos depois, foi fundada em S\u00e3o Paulo a Coordena\u00e7\u00e3o de Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e \u00e0 Verdade, como um \u00f3rg\u00e3o auxiliador das investiga\u00e7\u00f5es das ossadas, formando o Grupo Trabalho Perus (GTP) em 2014, atrav\u00e9s da Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos (CEMDP) e a Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP).\n<\/p><p>\nO grupo hoje amea\u00e7ado pelo governo Bolsonaro possui dois comit\u00eas principais para seu funcionamento: Comit\u00ea de Acompanhamento e Comit\u00ea Cient\u00edfico, contando com a presen\u00e7a de familiares dos mortos e desaparecidos, \u00f3rg\u00e3os da uni\u00e3o, comiss\u00f5es, antrop\u00f3logos e arque\u00f3logos. O grupo tamb\u00e9m se destaca por promover pol\u00edticas de mem\u00f3ria para al\u00e9m de apoiar a an\u00e1lise das ossadas, com a\u00e7\u00f5es culturais, interven\u00e7\u00f5es, forma\u00e7\u00e3o de semin\u00e1rios e di\u00e1logo com trabalhadores no bairro de Perus. O trabalho realizado conseguiu identificar cerca de 580 ossadas at\u00e9 agora.\n<\/p><p>\nO N\u00facleo Noroeste da UJC, que tem por finalidade atuar nos respectivos bairros da regi\u00e3o noroeste de S\u00e3o Paulo, incluindo o bairro de Perus, se manifesta a favor da perman\u00eancia das continuidades dos trabalhos exercidos pelo GTP. \n<\/p><p>\nPerus foi mais um dos por\u00f5es secretos da ditadura, localizada em meio ao territ\u00f3rio perif\u00e9rico, revirado pelos atos cru\u00e9is dos militares. O Cemit\u00e9rio Dom Bosco ainda guarda consigo in\u00fameras hist\u00f3rias e suposi\u00e7\u00f5es que at\u00e9 hoje perduram sobre os atos desempenhados na ditadura. O bairro historicamente foi palco importante das lutas populares, onde se desencadeou uma s\u00e9rie de lutas durante a ditadura civil-militar, com greves e a\u00e7\u00f5es clandestinas articuladas pela for\u00e7a dos movimentos sindicais.\n<\/p><p>\nUma grande tarefa almejada no processo de constru\u00e7\u00e3o do poder popular \u00e9 o resgate da mem\u00f3ria das lutas ocorridas em nossos bairros, as quais devem ser preservadas como momentos decisivos no desenvolvimento da luta de classes, tendo em vista que governantes, a servi\u00e7o do capital, desejam sempre ocultar e destruir nossos legados hist\u00f3ricos. Ainda presenciamos a responsabilidade do estado burgu\u00eas sobre os atos do regime civil-militar, n\u00e3o oferecendo sequer alguma respostas \u00e0s fam\u00edlias das v\u00edtimas, desconsiderando os valores legais, humanos e democr\u00e1ticos. \u201cAos nossos mortos, nenhum minuto de sil\u00eancio, mas toda uma vida de luta\u201d.\n<\/p><p>\nExigimos a mem\u00f3ria, justi\u00e7a e a verdade de nossos revolucion\u00e1rios.\n<\/p><p>\nN\u00facleo Noroeste da UJC &#8211; SP\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23120\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53,27],"tags":[225],"class_list":["post-23120","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","category-c27-ujc","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-60U","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23120\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}