{"id":23141,"date":"2019-05-21T20:36:41","date_gmt":"2019-05-21T23:36:41","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23141"},"modified":"2019-05-21T20:36:47","modified_gmt":"2019-05-21T23:36:47","slug":"atire-na-cabeca-as-classes-perigosas-na-mira-do-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23141","title":{"rendered":"\u201cAtire na cabe\u00e7a!\u201d: as &#8220;classes perigosas&#8221; na mira do Estado"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/BOP-na-favela-do-jacarezinho-foto-o-globo.jpg\"\/><!--more-->Decreto de porte de armas insere elite brasileira no mapa dos comerciantes de armamentos. O custo ser\u00e1 alto: grupos milicianos se fortalecer\u00e3o enquanto o Estado colocar\u00e1 as \u201cclasses perigosa\u201d em sua mira, eliminando os \u201cinimigos internos\u201d\n<\/p><p>\nOutrasPalavras\n<\/p><p>\npor Jo\u00e3o Pedro Moraleida\n<\/p><p>\nUma reportagem do dia 10 de maio da Folha de S\u00e3o Paulo anuncia a metamorfose causada pelo recente decreto ligado \u00e0 libera\u00e7\u00e3o do porte de armas no Brasil e aponta que a libera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se deu no n\u00edvel das importa\u00e7\u00f5es de armas e tecnologias militares. Se observarmos, esse decreto obedece a um comportamento, como a reportagem mesmo levanta, ao mesmo tempo que o positiva, praticado por pa\u00edses envolvidos interna (como o caso brasileiro) ou externamente (como os EUA, o Reino Unido e etc.) em guerras e conflitos definidos, segundo te\u00f3ricos militares norte-americanos, como guerras de baixa intensidade. Quais s\u00e3o os poss\u00edveis significados disso? As \u00e1reas urbanas s\u00e3o os principais campos de conflito armado, o que envolve amplos setores industriais de armamento hoje no mundo, do Oriente M\u00e9dio ao Haiti ou Rio de Janeiro. O que se pratica hoje \u2014 sob a figura de um ou mais inimigos produzidos por um imagin\u00e1rio feroz \u2014 \u00e9 a elimina\u00e7\u00e3o de civis sob pretextos diversos, do terrorista ao criminoso traficante. Isso se inclui no capital como um dos mercados mais promissores e rent\u00e1veis no mundo: o mercado da guerra. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Israel atravessou sua crise ap\u00f3s 2003 competindo e se tornando o lugar par execellence das altas tecnologias militares, de controle e guerra urbana. E, como lembrou uma reportagem recente, os gastos militares no mundo no \u00faltimo ano representaram os maiores gastos de diversos governos.\n<\/p><p>\nTrata-se de nos perguntar: \u201cque horas s\u00e3o no Brasil\u201d? \u00c9 o momento de virada de mesa para com uma fra\u00e7\u00e3o da \u201dburguesia interna\u201d, radicalizando a assun\u00e7\u00e3o do capital internacional no Brasil, agora tamb\u00e9m na ind\u00fastria de armas? O fato \u00e9 que esse decreto pode representar, e \u00e9 o que parece, a estrat\u00e9gia do atual governo e de seus dirigentes de incluir o Brasil no fluxo armamentista e de alta rentabilidade no mundo. O gr\u00e1fico abaixo aponta o faturamento desse mercado e quais s\u00e3o seus representantes:\n<\/p><p>\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/militar.jpg\"\/>O texto da FSP, entretanto, n\u00e3o menciona o grande mercado de seguran\u00e7a privada hoje no mundo, que ultrapassa a chamada \u201cseguran\u00e7a p\u00fablica\u201d em n\u00famero de agentes. Ora, a partir de ent\u00e3o vemos que junto a um evidente beneficiamento por esse decreto das atividades milicianas e paramilitares, bem como a garantia das despossess\u00f5es diversas, a chamada acumula\u00e7\u00e3o primitiva (como provavelmente iremos ver com a subida exponencial da viol\u00eancia no campo praticada por grandes fazendeiros) no Brasil aprofunda-se: em apenas 5 meses, o governo foi respons\u00e1vel, diga-se de passagem, por conseguir desestruturar uma s\u00e9rie de institui\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da exonera\u00e7\u00e3o de cargos, al\u00e9m de aumentar o n\u00edvel do desemprego e estimular a persegui\u00e7\u00e3o a professores, movimentos sociais diversos e a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, no grande fluxo global da guerra urbana. Isso envolve compras de altas tecnologias de combate e financiamento direto do Estado a esses desenvolvedores, que em sua maioria s\u00e3o estadunidenses e israelenses.\n<\/p><p>\nResta dizer que, independentemente do decreto, uma tecnologia j\u00e1 foi importada e agora ganhou ares leg\u00edtimos com o atual governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. O \u201catirar na cabe\u00e7a\u201d, descobrimos, \u00e9 uma tecnologia vinda de Israel, uma forma na qual eles eliminam os palestinos; no Reino Unido, ela ficou conhecida como Kratos (e a conhecemos, tamb\u00e9m, pela hist\u00f3ria do brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela pol\u00edcia inglesa em 2005). No RJ, h\u00e1 longa data, os voos de morte acontecem. Restaria nos perguntar se isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma tecnologia de guerra aperfei\u00e7oada durante a ocupa\u00e7\u00e3o militar brasileira no Haiti, principalmente em grandes favelas como Cit\u00e9 Soleil. Ocupa\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, que n\u00f3s brasileiros n\u00e3o nos preocupamos o suficiente em compreender, mas que representa, para al\u00e9m da viol\u00eancia generalizada, uma laborat\u00f3rio de guerra e controle das popula\u00e7\u00f5es pobres nas cidades e retorna, como bem parece, nas chamadas UPPs. Em 2014, o atual ministro-chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, Augusto Heleno, general e primeiro comandante brasileiro da miss\u00e3o no Haiti, revelou, como mostra a reportagem de Jos\u00e9 Arbex Jr na Caros Amigos do mesmo ano, que: \u201cOs militares entenderam, no Haiti, que era preciso fixar bases dentro das favelas.\u201d Heleno omite o fato trazido pelo jornalista de que em 2008 oficiais do Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais (Bope) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) foram treinadas no Haiti. A surpresa seria o fato de assessores dos EUA, da CIA, do FBI e da DEA participarem, atrav\u00e9s de escrit\u00f3rios e assist\u00eancias diversas, das a\u00e7\u00f5es em favelas do Brasil desde o governo de Fernando Henrique Cardoso. Ali\u00e1s, os EUA e Israel s\u00e3o os pa\u00edses que fabricam os caveir\u00f5es utilizados no RJ.\n<\/p><p>\nO que o decreto traz \u2014 al\u00e9m de toda a gest\u00e3o da (in)seguran\u00e7a que envolve o mercado de armamento e o aumento do n\u00famero de assassinados, sabemos, de negros e pobres nas cidades e agora tamb\u00e9m de camponeses e ind\u00edgenas \u2014 \u00e9, em suma, a reposi\u00e7\u00e3o do Brasil no processo global e altamente lucrativo daquilo que o ge\u00f3grafo Stephen Graham chama de \u201cnovo urbanismo militar\u201d. N\u00e3o vamos nos iludir de que todas essas novidades n\u00e3o podem e n\u00e3o v\u00e3o trazer mudan\u00e7as significativas no \u00e2mbito, digamos, do massacre da popula\u00e7\u00e3o brasileira atrav\u00e9s de novas tecnologias importadas e flexibilizadas pelo novo decreto. As mil\u00edcias s\u00e3o o nosso presente e futuro, nesse caso. Mas como lembrou a mesma reportagem de Arbex Jr: \u201cOs estrangeiros se preparam. J\u00e1 em abril, durante a feira militar LAAD, no Rio de Janeiro, o tema seguran\u00e7a era frequente. \u2018Temos solu\u00e7\u00f5es integradas de seguran\u00e7a, e dominamos como poucos a tecnologia para operar drones\u2019, afirmou ent\u00e3o Eli Alfassi, vice-presidente de marketing da Israel Aerospace Industries. Israel, pa\u00eds cujo atual governo \u00e9 um dos mais pr\u00f3ximos da gest\u00e3o Bolsonaro, produz ampla gama de produtos aplicados \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica.\u201d\n<\/p><p>\nTudo isso envolve um grande esfor\u00e7o de estudo e entendimento de como o atual governo pretende gerir os pobres de maneira diferente dos governos anteriores, em que a chamada gest\u00e3o do social pender\u00e1, mais ainda que antes, como numa reta, para a gest\u00e3o armada, o que j\u00e1 vinha ganhando contornos ap\u00f3s a ditadura civil-militar e aperfei\u00e7oada durante os governos seguintes, FHC e Lula-Dilma. Nesse momento, o que poder\u00edamos chamar de \u201ccampo do social\u201d (dos programas de assist\u00eancia, est\u00edmulo ao consumo, aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo) v\u00ea sua revers\u00e3o brutal, como j\u00e1 ocorre com o desemprego crescente, muito embora continue a garantir a rentabilidade mundial, nessa mesma reta, no n\u00edvel do mercado da guerra. \n<\/p><p>\nVemos, dessa forma, aquilo que um amigo, o soci\u00f3logo mineiro Mois\u00e9s Augusto Gon\u00e7alves, apontou como a restitui\u00e7\u00e3o da ideia do s\u00e9culo XIX de classes perigosas, conceito desenvolvido sob forte influ\u00eancia racista, em que naquele momento essas classes precisavam ser administradas e controladas, um outro tempo em que o trabalho era a disputa tanto pelos grandes movimentos oper\u00e1rios quanto pela burguesia; ele alerta que essas classes perigosas, no mundo atual, s\u00e3o restitu\u00eddas atrav\u00e9s da ideia de inutilidade \u2013 n\u00e3o h\u00e1 trabalho para todos e nem haver\u00e1, resta, ademais, os chamados bicos, como entreposto para o desemprego e, posteriormente a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica. \n<\/p><p>\nO mercado da guerra move a m\u00e1quina capitalista e o Brasil atual se esfor\u00e7a para administrar o que refor\u00e7a ainda mais o poder do Norte Global, principalmente em momento de forte mudan\u00e7a na geopol\u00edtica mundial. S\u00e3o sonhos de uma vida armada e nossa resposta, al\u00e9m da nega\u00e7\u00e3o, precisar partir pela imagina\u00e7\u00e3o e conflito nas brechas poss\u00edveis de enfrentamento a esse processo, sabendo, de antem\u00e3o, o risco representado pelos atuais dirigentes. \n<\/p><p>\nA paralisa\u00e7\u00e3o que ocorreu no dia 15 de maio pode ser um come\u00e7o para que pensemos um para al\u00e9m dessa condi\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 se efetiva na aus\u00eancia de uma exig\u00eancia constante, coletiva e desejante por outra sociedade; dessa forma \u00e9 opor a pol\u00edtica, o acontecimento e o conflito ao poder policial para al\u00e9m dos campos de domestica\u00e7\u00e3o de nossa pot\u00eancia, pois policial n\u00e3o se trata de t\u00e3o somente aquilo que ordinariamente designamos como pol\u00edcia militar, civil e etc, mas sim de um poder que insiste em fazer coincidir pol\u00edtica com consenso, pol\u00edtica com uma representa\u00e7\u00e3o do povo, em simular a inser\u00e7\u00e3o popular nas demandas que s\u00e3o unicamente do governo e de suas oligarquias e, por \u00faltimo, de governar as condutas e insistir que a comunidade \u00e9 aquilo que tal oligarquia fabrica como bem comum. Pol\u00edtica \u00e9 outra coisa, \u00e9 imagina\u00e7\u00e3o e enfrentamento a essa pr\u00e1tica que n\u00e3o se cansa de forjar uma rep\u00fablica e um pa\u00eds de todos, sempre haver\u00e1 aqueles que n\u00e3o s\u00e3o parte do todo, e exigir a parte \u00e9 desenrodilhar as representa\u00e7\u00f5es do bem e da paz e dizer: mais, mais ainda. E queremos?\n<\/p><p>\nBibliografia:\nARBEX, Jos\u00e9. Fascismo made in Brazil. Revista Caros Amigos, maio de 2014.\n<\/p><p>\nGIELOW, Igor. Abertura do mercado de armas por Bolsonaro assusta ind\u00fastrias de defesa. Folha de S\u00e3o Paulo, 10 de maio de 2019.\n<\/p><p>\nGRAHAM, Stephen. Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016.\n<\/p><p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"9ve1YauxPF\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/atire-na-cabeca\/\">\u201cAtire na cabe\u00e7a!\u201d<\/a><\/blockquote><iframe loading=\"lazy\" title=\"&#8220;\u201cAtire na cabe\u00e7a!\u201d&#8221; &#8212; Outras Palavras\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/atire-na-cabeca\/embed\/#?secret=9ve1YauxPF\" data-secret=\"9ve1YauxPF\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23141\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[244],"tags":[222],"class_list":["post-23141","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-violencia","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-61f","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23141","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23141"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23141\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}