{"id":2315,"date":"2012-01-25T23:34:15","date_gmt":"2012-01-25T23:34:15","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2315"},"modified":"2012-01-25T23:34:15","modified_gmt":"2012-01-25T23:34:15","slug":"a-memoria-de-antonio-gramsci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2315","title":{"rendered":"\u00c0 mem\u00f3ria de Antonio Gramsci"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Em 22 de janeiro de 1891 nascia, em Ales (Cagliari, Sardenha, It\u00e1lia), Antonio Gramsci, um dos mais importantes pensadores marxistas e valoroso combatente comunista, uma dupla condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podemos esquecer.<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>&#8220;Alguns me consideram um dem\u00f4nio, outros quase um santo. N\u00e3o quero ser m\u00e1rtir nem her\u00f3i. Acredito ser simplesmente um homem m\u00e9dio, que tem suas convic\u00e7\u00f5es profundas e n\u00e3o as troca por nada no mundo.&#8221;<\/em> Carta de Gramsci, do c\u00e1rcere, a seu irm\u00e3o Carlo, em 12 de setembro de 1927.<\/strong><\/p>\n<p>Morreu em 1937, v\u00edtima do ditador fascista Benito Mussolini. Em 1926, Gramsci foi condenado por um tribunal fascista, em 1926, a vinte anos de deten\u00e7\u00e3o, num processo no qual o promotor, com a brutalidade t\u00edpica dos fascistas, mencionava a necessidade de &#8220;evitar que esse c\u00e9rebro continue funcionando&#8221;. Apesar das duras condi\u00e7\u00f5es da pris\u00e3o, Gramsci deixou ao morrer uma obra de grande import\u00e2ncia escrita no c\u00e1rcere: 33 cadernos manuscritos, totalizando 2.848 p\u00e1ginas, conhecidos como os Cadernos do c\u00e1rcere. Coube ao dirigente revolucion\u00e1rio italiano um papel extraordin\u00e1rio no que diz respeito \u00e0 teoriza\u00e7\u00e3o do Estado, do poder e da pol\u00edtica. Tendo por base o conceito de hegemonia, elaborado e amplamente utilizado por L\u00eanin, em particular em sua obra O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o, Gramsci o viria a desenvolver de forma criativa.\u00a0<strong>As reflex\u00f5es de Gramsci se inscrevem como um cap\u00edtulo fecundo na tradi\u00e7\u00e3o marxista, estabelecendo uma perspectiva cr\u00edtica capaz de entender o mundo e, o que \u00e9 mais importante, transform\u00e1-lo.<\/strong> Contudo, a leitura dos escritos de Gramsci n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil. Indiscutivelmente, nas reflex\u00f5es dos Cadernos do c\u00e1rcere est\u00e1 presente a proposi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de que as classes sociais, o conflito de classes e a consci\u00eancia de classe existem e desempenham um papel na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Para entender Gramsci<\/strong><\/p>\n<p>Para compreender um autor, \u00e9 necess\u00e1rio conhecer profundamente o contexto hist\u00f3rico-pol\u00edtico-cultural com o qual est\u00e1 envolvido. Um pensador da envergadura de Antonio Gramsci requer entender o processo de forma\u00e7\u00e3o da sua personalidade pol\u00edtica e intelectual. A viv\u00eancia dos momentos mais dram\u00e1ticos das lutas que agitaram a Europa e, particularmente, das mobiliza\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas que levaram, ao menos na R\u00fassia, \u00e0 vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o em 1917. O progressivo deslocamento de Gramsci da esfera de influ\u00eancia do neo-idealismo, destacando o distanciamento cr\u00edtico e a supera\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento de Benedetto Croce e Giovanni Gentile. Seu referencial marxista assumido,\u00a0<strong>que o leva a formular propostas interpretativas voltadas para a explica\u00e7\u00e3o de modos de domina\u00e7\u00e3o social em meio \u00e0 din\u00e2mica do conflito, da luta de classes<\/strong>. A espinhosa interlocu\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Gramsci no interior do pr\u00f3prio marxismo e os embates travados com as correntes mecanicistas, dogm\u00e1ticas e messi\u00e2nicas\u00a0<strong>[1]<\/strong>. A problem\u00e1tica gramsciana de &#8220;explicar a domina\u00e7\u00e3o de classes, recusando determinismos de cunho mecanicistas e procurando explicitar mecanismos culturais (sem reivindicar-lhes exclusividade ou determinismo de p\u00f3lo inverso) que alimentam a domina\u00e7\u00e3o, bem como espa\u00e7os de resist\u00eancia a esta domina\u00e7\u00e3o que se constroem em meio \u00e0s lutas de classes&#8221;\u00a0<strong>[2]<\/strong>.<\/p>\n<p>Tanto os leitores j\u00e1 familiarizados com Antonio Gramsci quanto os novos, a meu ver, disp\u00f5em da necessidade de contato com os chamados &#8220;especialistas&#8221; ou int\u00e9rpretes dos escritos gramscianos. Justamente por apresentar-se \u2013 nas palavras do pr\u00f3prio autor \u2013 como um conjunto de notas &#8220;escritas ao correr da pena, como r\u00e1pidos apontamentos para ajudar a mem\u00f3ria&#8221;\u00a0<strong>[3]<\/strong>, a obra da maturidade de Antonio Gramsci \u2013 os Cadernos do c\u00e1rcere \u2013 tem proporcionado as mais variadas interpreta\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pol\u00edticas da mesma \u2013 e at\u00e9 contrastantes leituras\u00a0<strong>[4]<\/strong>. Decerto, as condi\u00e7\u00f5es peculiares nas quais os Cadernos foram escritos parecem corroborar para que muitos leitores acentuem al\u00e9m da conta o car\u00e1ter fragment\u00e1rio da obra, acarretando um instrumental gramsciano distorcido e, de todo, retirado do contexto em que faz sentido. Acaba-se, em muitos casos, contando menos o que Gramsci disse do que aquilo que os seus leitores julgam encontrar em sua obra \u2013 o anacronismo \u00e9 freq\u00fcente. Da\u00ed a necessidade de uma correta contextualiza\u00e7\u00e3o e um estudo filol\u00f3gico dos textos, ou seja, uma leitura &#8220;gen\u00e9tica&#8221; dos Cadernos do c\u00e1rcere, considerando a riqueza de seus contrastes, de suas ambig\u00fcidades e at\u00e9 de seus limites\u00a0<strong>[5]<\/strong>.\u00a0<strong>Isso permite aos leitores de Gramsci, veteranos ou novatos, encontrar o trajeto unit\u00e1rio e coerente do seu pensamento, possibilitando ler os Cadernos como resultado de uma concep\u00e7\u00e3o de mundo org\u00e2nica e unit\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p>O conjunto de categorias desenvolvidas por Antonio Gramsci constitui um campo aberto de cria\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, apesar dos limites inerentes a qualquer conceito. Mas o que explica essa &#8220;ado\u00e7\u00e3o&#8221; de Gramsci \u00e9 a an\u00e1lise da validade operat\u00f3ria de muitas de suas categorias para formular interpreta\u00e7\u00f5es mais aprofundadas da realidade concreta no \u00e2mbito nacional ou internacional.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> Para compreender o processo de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e intelectual de Gramsci ver: LOSURDO, Domenico. Antonio Gramsci: do liberalismo ao &#8220;comunismo cr\u00edtico&#8221;. Rio de Janeiro: Revan, 2006; MAESTRI, M\u00e1rio e CANDREVA, Luigi. Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucion\u00e1rio. 2 ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2007.<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong> MATTOS, Marcelo Badar\u00f3. &#8220;Os historiadores e os oper\u00e1rios: um balan\u00e7o&#8221;. In: ____ . (coord.). Greves e repress\u00e3o policial ao sindicalismo carioca: 1945-1964. Rio de Janeiro: APERJ \/ FAPERJ, 2003, p. 33.<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong> GRAMSCI, A. Cadernos do C\u00e1rcere. V. 1. Introdu\u00e7\u00e3o ao estudo da filosofia. A filosofia de Benedetto Croce. 3 ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2004, p. 85.<\/p>\n<p><strong>[4]<\/strong> <strong>Por exemplo, h\u00e1 muita pol\u00eamica em torno das interpreta\u00e7\u00f5es dos usos de &#8220;sociedade civil&#8221;, &#8220;sociedade pol\u00edtica&#8221; e Estado em Gramsci.<\/strong><\/p>\n<p><strong>[5]<\/strong> Muitos estudos atendem a esse prop\u00f3sito, entre eles: BARATTA, Giorgio. As rosas e os Cadernos: o pensamento dial\u00f3gico de Antonio Gramsci. Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2004; BIANCHI, \u00c1lvaro. O laborat\u00f3rio de Gramsci: filosofia, hist\u00f3ria e pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2008; COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento pol\u00edtico. 2 ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003; LIGUORI, Guido. Roteiros para Gramsci. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2007; SEMERARO, Giovanni. Gramsci e a sociedade civil: cultura e educa\u00e7\u00e3o para a democracia. 2 ed. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2001.<\/p>\n<p><strong>Marcos Cesar de Oliveira Pinheiro<\/strong> \u00e9 historiador e professor de hist\u00f3ria no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>GRIFO MEU [PK]<\/p>\n<p>Fonte:<strong><a href=\"http:\/\/prestesaressurgir.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">Prestes a Ressurgir<\/a> <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Prestes a Ressurgir\n\n\n\n\n\n\n\n\nMarcos Cesar de Oliveira Pinheiro\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2315\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2315","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Bl","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2315","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2315"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2315\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}