{"id":2321,"date":"2012-01-26T15:12:24","date_gmt":"2012-01-26T15:12:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2321"},"modified":"2012-01-26T15:12:24","modified_gmt":"2012-01-26T15:12:24","slug":"por-tras-de-yoani-sanchez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2321","title":{"rendered":"Por tr\u00e1s de Yoani S\u00e1nchez"},"content":{"rendered":"\n<p>Com a aproxima\u00e7\u00e3o da viagem da presidente Dilma Rousseff a Havana, volta \u00e0 cena a blogueira Yoani S\u00e1nchez, hoje a mais conhecida opositora da revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa em 1959 e do sistema socialista que vigora em Cuba desde 1961. Yoani, ao contr\u00e1rio de outros opositores residentes em Cuba, n\u00e3o lidera um grupo pol\u00edtico, mas disp\u00f5e de um blog que \u00e9 traduzido em 18 l\u00ednguas. Ela gravou um v\u00eddeo pedindo \u00e0 presidente Dilma que interceda para que o governo cubano lhe d\u00ea autoriza\u00e7\u00e3o para vir ao Brasil. E o senador petista Eduardo Suplicy tem feito gest\u00f5es p\u00fablicas para a blogueira possa vir \u00e0 Bahia para o lan\u00e7amento de um document\u00e1rio em que \u00e9 personagem.<a name=\"1351a4429a00757a_more\" rel=\"nofollow\"><\/a>No Itamaraty, n\u00e3o oficialmente, h\u00e1 a suspeita de que a movimenta\u00e7\u00e3o em torno da vinda de Yoani est\u00e1 sendo feita por setores interessados em prejudicar a visita de Dilma a Ra\u00fal Castro, colocando-se na pauta da m\u00eddia um tema pol\u00edtico que possa constranger os cubanos e reduzir o impacto dos pontos econ\u00f4micos e comerciais da viagem. E Suplicy faz seu papel porque quer aparecer na m\u00eddia. \u00c9 poss\u00edvel, pois qualquer um que conhece o jeito cubano de enfrentar situa\u00e7\u00f5es adversas sabe que esse tipo de press\u00e3o \u00e9 o mais contraproducente poss\u00edvel caso o objetivo fosse realmente trazer Yoani \u00e0 Bahia.Para o governo cubano, Yoani, jovem, bonita e fluente, \u00e9 sustentada financeiramente pelos Estados Unidos para ser a mais influente opositora do regime, utilizando-se das redes sociais para disseminar pelo mundo posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias ao regime \u2013 embora, em Cuba, sua repercuss\u00e3o seja quase nula. Uma das maneiras de remuner\u00e1-la, segundo os cubanos, \u00e9 a concess\u00e3o de pr\u00eamios patrocinados por institui\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias a Cuba. O embaixador de Cuba em Bras\u00edlia, Carlos Zamora, assegura que oficialmente n\u00e3o foi apresentado ao consulado o documento b\u00e1sico para iniciar os tr\u00e2mites para a viagem: uma carta-convite formal a Yoani.O presidente cubano Ra\u00fal Castro j\u00e1 anunciou, em diversas ocasi\u00f5es, que haver\u00e1 mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o que regula as viagens de cubanos ao exterior, abrandando-se as exig\u00eancias. O tema, por\u00e9m, est\u00e1 associado a outra quest\u00e3o delicada: a pol\u00edtica dos Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o de cubanos para aquele pa\u00eds. Cuba acusa os Estados Unidos de negarem vistos de entrada a cubanos, ao mesmo tempo em que os incentivam a sair ilegalmente do pa\u00eds.Em 2010, Yoani deu uma entrevista ao jornalista franc\u00eas Salim Lamnarium, que conhece bem a hist\u00f3ria e a situa\u00e7\u00e3o de Cuba. \u00c9 na verdade um di\u00e1logo dele com a blogueira, em que ela se v\u00ea contestada e acaba caindo em contradi\u00e7\u00f5es e demonstrando desconhecimento sobre quest\u00f5es simples. Reproduzo o longo texto, j\u00e1 que a web permite, para que cada um fa\u00e7a seu ju\u00edzo. A prop\u00f3sito, as fotos sobre o alegado sequestro de Yoani nunca foram mostradas.<strong>A entrevista:<\/strong><em>Yoani S\u00e1nchez \u00e9 a nova personalidade da oposi\u00e7\u00e3o cubana. Desde a cria\u00e7\u00e3o de seu blog, Generaci\u00f3n Y, em 2007, obteve in\u00fameros pr\u00eamios internacionais: o pr\u00eamio de Jornalismo Ortega y Gasset (2008), o pr\u00eamio Bitacoras.com (2008), o pr\u00eamio The Bob&#8217;s (2008), o pr\u00eamio Maria Moors Cabot (2008) da prestigiada universidade norte-americana de Columbia. Do mesmo modo, a blogueira foi escolhida como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista Time (2008), em companhia de George W. Bush, de Hu Jintao e do Dalai Lama.<\/em><\/p>\n<p><em>Seu blog foi inclu\u00eddo na lista dos 25 melhores do mundo do canal CNN e da Time (2008). Em 30 de novembro de 2008, o di\u00e1rio espanhol El Pa\u00eds a incluiu na lista das 100 personalidades hispano-americanas mais influentes do ano (lista na qual n\u00e3o apareciam nem Fidel Castro, nem Ra\u00fal Castro). A revista Foreign Policy, por sua vez, a considerou um dos 10 intelectuais mais importantes do ano, enquanto a revista mexicana Gato Pardo fez o mesmo para 2008.<\/em><\/p>\n<p><em>Esta impressionante avalanche de distin\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas suscitou numerosas interroga\u00e7\u00f5es, ainda mais considerando que Yoani S\u00e1nchez, segundo suas pr\u00f3prias confiss\u00f5es, \u00e9 uma total desconhecida em seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Como uma pessoa desconhecida por seus vizinhos &#8211; segundo a pr\u00f3pria blogueira &#8211; pode integrar a lista das 100 personalidades mais influentes do ano?<\/em><\/p>\n<p><em>Um diplomata ocidental pr\u00f3ximo desta at\u00edpica opositora do governo de Havana havia lido uma s\u00e9rie de artigos que escrevi sobre Yoani S\u00e1nchez e que eram relativamente cr\u00edticos. Ele os mostrou \u00e0 blogueira cubana, que quis reunir-se comigo para esclarecer alguns pontos abordados.<\/em><\/p>\n<p><em>O encontro com a jovem dissidente de fama controvertida n\u00e3o ocorreu em algum apartamento escuro, com as janelas fechadas, ou em um lugar isolado e recluso para escapar aos ouvidos indiscretos da &#8220;pol\u00edcia pol\u00edtica&#8221;. Ao contr\u00e1rio, aconteceu no sagu\u00e3o do Hotel Plaza, no centro de Havana Velha, em uma tarde inundada de sol. O local estava bem movimentado, com numerosos turistas estrangeiros que perambulavam pelo imenso sal\u00e3o do edif\u00edcio majestoso que abriu suas portas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/em><\/p>\n<p><em>Yoani S\u00e1nchez vive perto das embaixadas ocidentais. De fato, uma simples chamada de meu contato ao meio-dia permitiu que combin\u00e1ssemos o encontro para tr\u00eas horas depois. \u00c0s 15h, a blogueira apareceu sorridente, vestida com uma saia longa e uma camiseta azul. Tamb\u00e9m usava uma jaqueta esportiva, para amenizar o relativo frescor do inverno havan\u00eas.<\/em><\/p>\n<p><em>Foram cerca de duas horas de conversa ao redor de uma mesa do bar do hotel, com a presen\u00e7a de seu marido, Reinaldo Escobar, que a acompanhou durante uns vinte minutos antes de sair para outro encontro. Yoani S\u00e1nchez mostrou-se extremamente cordial e af\u00e1vel e exibiu grande tranquilidade. Seu tom de voz era seguro e em nenhum momento ela pareceu incomodada. Acostumada aos meios ocidentais, domina relativamente bem a arte da comunica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Esta blogueira, personagem de apar\u00eancia fr\u00e1gil, inteligente e sagaz, tem consci\u00eancia de que, embora lhe seja dif\u00edcil admitir, sua midiatiza\u00e7\u00e3o no Ocidente n\u00e3o \u00e9 uma causalidade, mas se deve ao fato de ela preconizar a instaura\u00e7\u00e3o de um &#8220;capitalismo sui generis&#8221; em Cuba.<\/em><strong>O incidente de 6 de novembro de 2009<\/strong><em>Salim Lamrani &#8211; Comecemos pelo incidente ocorrido em 6 de novembro de 2009 em Havana. Em seu blog, a senhora explicou que foi presa com tr\u00eas amigos por &#8220;tr\u00eas robustos desconhecidos&#8221; durante uma &#8220;tarde carregada de pancadas, gritos e insultos&#8221;. A senhora denunciou as viol\u00eancias de que foi v\u00edtima por parte das for\u00e7as da ordem cubanas. Confirma sua vers\u00e3o dos fatos?<\/em><\/p>\n<p><em>Yoani S\u00e1nchez &#8211; Efetivamente, confirmo que sofri viol\u00eancia. Mantiveram-me sequestrada por 25 minutos. Levei pancadas. Consegui pegar um papel que um deles levava no bolso e o coloquei em minha boca. Um deles p\u00f4s o joelho sobre meu peito e o outro, no assento dianteiro, me batia na regi\u00e3o dos rins e golpeava minha cabe\u00e7a para que eu abrisse a boca e soltasse o papel. Por um momento, achei que nunca sairia daquele carro.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; O relato, em seu blog, \u00e9 verdadeiramente de terror. Cito textualmente: a senhora falou de &#8220;golpes e empurr\u00f5es&#8221;, de &#8220;golpes com os n\u00f3s dos dedos&#8221;, de &#8220;enxurrada de golpes&#8221;, do &#8220;joelho sobre o [seu] peito&#8221;, dos golpes nos &#8220;rins e [&#8230;] na cabe\u00e7a&#8221;, do &#8220;cabelo puxado&#8221;, de seu &#8220;rosto avermelhado pela press\u00e3o e o corpo dolorido&#8221;, dos &#8220;golpes [que] continuavam vindo&#8221; e &#8220;todas essas marcas roxas&#8221;. No entanto, quando a senhora recebeu a imprensa internacional, em 9 de novembro, todas as marcas haviam desaparecido. Como explica isso?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; S\u00e3o profissionais do espancamento.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Certo, mas por que a senhora n\u00e3o tirou fotos das marcas?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Tenho as fotos. Tenho provas fotogr\u00e1ficas.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Tem provas fotogr\u00e1ficas?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Tenho as provas fotogr\u00e1ficas.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas por que n\u00e3o as publicou para desmentir todos os rumores segundo os quais a senhora havia inventado uma agress\u00e3o para que a imprensa falasse de seu caso?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Por enquanto prefiro guard\u00e1-las e n\u00e3o public\u00e1-las. Quero apresent\u00e1-las um dia perante um tribunal, para que esses tr\u00eas homens sejam julgados. Lembro-me perfeitamente de seus rostos e tenho fotos de pelo menos dois deles. Quanto ao terceiro, ainda n\u00e3o est\u00e1 identificado, mas, como se tratava do chefe, ser\u00e1 f\u00e1cil de encontrar. Tenho tamb\u00e9m o papel que tirei de um deles e que tem minha saliva, pois o coloquei na boca. Neste papel estava escrito o nome de uma mulher.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Certo. A senhora publica muitas fotos em seu blog. Para n\u00f3s \u00e9 dif\u00edcil entender por que prefere n\u00e3o mostrar as marcas desta vez.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Como j\u00e1 lhe disse, prefiro guard\u00e1-las para a Justi\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora entende que, com essa atitude, est\u00e1 dando cr\u00e9dito aos que pensam que a agress\u00e3o foi uma inven\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 minha escolha.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; No entanto, at\u00e9 mesmo os meios ocidentais que lhe s\u00e3o mais favor\u00e1veis tomaram precau\u00e7\u00f5es pouco habituais para divulgar seu relato. O correspondente da BBC em Havana, Fernando Ravsberg, por exemplo, escreve que a senhora &#8220;n\u00e3o tem hematomas, marcas ou cicatrizes&#8221;. A ag\u00eancia France Presse conta a hist\u00f3ria esclarecendo com muito cuidado que se trata de sua vers\u00e3o, sob o t\u00edtulo &#8220;Cuba: a blogueira Yoani S\u00e1nchez diz ter sido agredida e detida brevemente&#8221;. O jornalista afirma, por outro lado, que a senhora &#8220;n\u00e3o ficou ferida&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o quero avaliar o trabalho deles. N\u00e3o sou eu quem deve julg\u00e1-lo. S\u00e3o profissionais que passam por situa\u00e7\u00f5es muito complicadas, que n\u00e3o posso avaliar. O certo \u00e9 que a exist\u00eancia ou n\u00e3o de marcas f\u00edsicas n\u00e3o \u00e9 a prova do fato.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas a presen\u00e7a de marcas demonstraria que foram cometidas viol\u00eancias. Da\u00ed a import\u00e2ncia de publicar as fotos.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; O senhor deve entender que tratamos de profissionais da intimida\u00e7\u00e3o. O fato de tr\u00eas desconhecidos terem me levado at\u00e9 um carro sem me apresentar nenhum documento me d\u00e1 o direito de me queixar como se tivessem fraturado todos os ossos do corpo. As fotos n\u00e3o s\u00e3o importantes porque a ilegalidade est\u00e1 consumada. A precis\u00e3o de que &#8220;me doeu aqui ou me doeu ali&#8221; \u00e9 minha dor interior.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Sim, mas o problema \u00e9 que a senhora apresentou isso como uma agress\u00e3o muito violenta. A senhora falou de &#8220;sequestro no pior estilo da Camorra siciliana&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim, \u00e9 verdade, mas sei que \u00e9 minha palavra contra a deles. Entrar nesse tipo de detalhes, para saber se tenho marcas ou n\u00e3o, nos afasta do tema verdadeiro, que \u00e9 o fato de me terem sequestrado durante 25 minutos de maneira ilegal.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Perdoe-me a insist\u00eancia, mas creio que \u00e9 importante. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre um controle de identidade que dura 25 minutos e viol\u00eancias policiais. Minha pergunta \u00e9 simples. A senhora disse, textualmente: &#8220;Durante todo o fim de semana fiquei com a ma\u00e7\u00e3 do rosto e o superc\u00edlio inflamados.&#8221; Como tem as fotos, pode agora mostrar as marcas.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; J\u00e1 lhe disse que prefiro guard\u00e1-las para o tribunal.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora entende que, para algumas pessoas, ser\u00e1 dif\u00edcil acreditar em sua vers\u00e3o se a senhora n\u00e3o publicar as fotos?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Penso que, entrando nesse tipo de detalhes, perde-se a ess\u00eancia. A ess\u00eancia \u00e9 que tr\u00eas bloggers acompanhados por uma amiga dirigiam-se a um ponto da cidade que era a Rua 23, esquina com G. T\u00ednhamos ouvido falar que um grupo de jovens convocara uma passeata contra a viol\u00eancia. Pessoas alternativas, cantores de hip hop, de rap, artistas. Eu compareceria como blogueira para tirar fotos e public\u00e1-las em meu blog e fazer entrevistas. No caminho, fomos interceptados por um carro da marca Geely.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Para impedi-los de participar do evento?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; A raz\u00e3o, evidentemente, era esta. Eles nunca me disseram formalmente, mas era o objetivo. Disseram-me que entrasse no carro. Perguntei quem eles eram. Um deles me pegou pelo pulso e comecei a ir para tr\u00e1s. Isso aconteceu em uma zona bastante central de Havana, em um ponto de \u00f4nibus.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ent\u00e3o havia outras pessoas. Havia testemunhas.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; H\u00e1 testemunhas, mas n\u00e3o querem falar. T\u00eam medo.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Nem mesmo de modo an\u00f4nimo? Por que a imprensa ocidental n\u00e3o as entrevistou preservando seu anonimato, como faz muitas vezes quando publica reportagens cr\u00edticas sobre Cuba?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o posso lhe explicar a rea\u00e7\u00e3o da imprensa. Posso lhe contar o que aconteceu. Um deles era um homem de uns cinquenta anos, musculoso como se tivesse praticado luta livre em algum momento da vida. Digo-lhe isso porque meu pai praticou esse esporte e tem as mesmas caracter\u00edsticas. Tenho os pulsos muito finos e consegui escapar, e lhe perguntei quem era. Havia tr\u00eas homens al\u00e9m do motorista.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ent\u00e3o havia quatro homens no total, e n\u00e3o tr\u00eas.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim, mas n\u00e3o vi o rosto do motorista. Disseram-me: &#8220;Yoani, entre no carro, voc\u00ea sabe quem somos.&#8221; Respondi: &#8220;N\u00e3o sei quem s\u00e3o os senhores.&#8221; O mais baixo me disse: &#8220;Escute-me, voc\u00ea sabe quem sou, voc\u00ea me conhece.&#8221; Retruquei: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o sei quem \u00e9 voc\u00ea. N\u00e3o o conhe\u00e7o. Quem \u00e9 voc\u00ea? Mostre-me suas credenciais ou algum documento.&#8221; O outro me disse: &#8220;Entre, n\u00e3o torne as coisas mais dif\u00edceis.&#8221; Ent\u00e3o comecei a gritar: &#8220;Socorro! Sequestradores!&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora sabia que se tratava de policiais \u00e0 paisana?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Imaginava, mas eles n\u00e3o me mostraram seus documentos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Qual era seu objetivo, ent\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Queria que as coisas fossem feitas dentro da legalidade, ou seja, que me mostrassem seus documentos e me levassem depois, embora eu suspeitasse que eles representassem a autoridade. Ningu\u00e9m pode obrigar um cidad\u00e3o a entrar em um carro particular sem apresentar suas credenciais. Isso \u00e9 uma ilegalidade e um sequestro.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Como as pessoas no ponto de \u00f4nibus reagiram?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; As pessoas no ponto ficaram at\u00f4nitas, pois &#8220;sequestro&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma palavra que se usa em Cuba, n\u00e3o existe esse fen\u00f4meno. Ent\u00e3o se perguntaram o que estava acontecendo. N\u00e3o t\u00ednhamos jeito de delinquentes. Alguns se aproximaram, mas um dos policiais lhes gritou: &#8220;N\u00e3o se metam, que s\u00e3o contrarrevolucion\u00e1rios!&#8221; Esta foi a confirma\u00e7\u00e3o de que se tratava de membros da pol\u00edcia pol\u00edtica, embora eu j\u00e1 imaginasse por causa do carro Geely, que \u00e9 chin\u00eas, de fabrica\u00e7\u00e3o atual, e n\u00e3o \u00e9 vendido em nenhuma loja em Cuba. Esses carros pertencem exclusivamente a membros do Minist\u00e9rio das For\u00e7as Armadas e do Minist\u00e9rio do Interior.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ent\u00e3o a senhora sabia desde o in\u00edcio, pelo carro, que se tratava de policiais \u00e0 paisana.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Intu\u00eda. Por outro lado, tive a confirma\u00e7\u00e3o quando um deles chamou um policial uniformizado. Uma patrulha formada por um homem e uma mulher chegou e levou dois de n\u00f3s. Deixou-nos nas m\u00e3os desses dois desconhecidos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas a senhora j\u00e1 n\u00e3o tinha a menor d\u00favida sobre quem eles eram.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o, mas n\u00e3o nos mostraram nenhum documento. Os policiais n\u00e3o nos disseram que representavam a autoridade. N\u00e3o nos disseram nada.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; \u00c9 dif\u00edcil entender o interesse das autoridades cubanas em agredi-la fisicamente, sob o risco de provocar um esc\u00e2ndalo internacional. A senhora \u00e9 famosa. Por que teriam feito isso?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Seu objetivo era radicalizar-me, para que eu escrevesse textos violentos contra eles. Mas n\u00e3o conseguir\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o se pode dizer que a senhora \u00e9 branda com o governo cubano.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Nunca recorro \u00e0 viol\u00eancia verbal nem a ataques pessoais. Nunca uso adjetivos incendi\u00e1rios, como &#8220;sangrenta repress\u00e3o&#8221;, por exemplo. Seu objetivo, ent\u00e3o, era radicalizar-me.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; No entanto, a senhora \u00e9 muito dura em rela\u00e7\u00e3o ao governo de Havana. Em seu blog, a senhora diz: &#8220;O barco que faz \u00e1gua a ponto de naufragar&#8221;. A senhora fala dos &#8220;gritos do d\u00e9spota&#8221;, de &#8220;seres das sombras, que, como vampiros, se alimentam de nossa alegria humana, nos incutem o medo por meio da agress\u00e3o, da amea\u00e7a, da chantagem&#8221;, e afirma que &#8220;naufragaram o processo, o sistema, as expectativas, as ilus\u00f5es. [\u00c9 um] naufr\u00e1gio [total]&#8221;. S\u00e3o palavras muito fortes.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Talvez, mas o objetivo deles era queimar o fen\u00f4meno Yoani S\u00e1nchez, demonizar-me. Por isso meu blog permaneceu bloqueado por um bom tempo.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Contudo, \u00e9 surpreendente que as autoridades cubanas tenham decidido atac\u00e1-la fisicamente.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Foi uma torpeza. N\u00e3o entendo por que me impediram de assistir \u00e0 passeata, pois n\u00e3o penso como aqueles que reprimem. N\u00e3o tenho explica\u00e7\u00e3o. Talvez eles n\u00e3o quisessem que eu me reunisse com os jovens. Os policiais acreditavam que eu iria provocar um esc\u00e2ndalo ou fazer um discurso incendi\u00e1rio. Voltando ao assunto da deten\u00e7\u00e3o, os policiais levaram meus amigos de maneira en\u00e9rgica e firme, mas sem viol\u00eancia. No momento em que me dei conta de que iriam nos deixar sozinhos com Orlando, com esses tr\u00eas tipos, agarrei-me a uma planta que havia na rua e Claudia agarrou-se a mim pela cintura para impedir a separa\u00e7\u00e3o, antes de os policiais a levarem.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Para que resistir \u00e0s for\u00e7as da ordem uniformizadas e correr o risco de ser acusada disso e cometer um delito? Na Fran\u00e7a, se resistimos \u00e0 pol\u00edcia, corremos o risco de sofrer san\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; De qualquer modo, eles nos levaram. A policial levou Claudia. As tr\u00eas pessoas nos levaram at\u00e9 o carro e comecei a gritar de novo: &#8220;Socorro! Um sequestro!&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Por qu\u00ea? A senhora sabia que se tratava de policiais \u00e0 paisana.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o me mostraram nenhum papel. Ent\u00e3o come\u00e7aram a me bater e me empurraram em dire\u00e7\u00e3o ao carro. Claudia foi testemunha e relatou isso.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora n\u00e3o acaba de me dizer que a patrulha a havia levado?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Ela viu a cena de longe, enquanto o carro de pol\u00edcia se afastava. Defendi-me e golpeei como um animal que sente que sua hora chegou. Deram uma volta r\u00e1pida e tentaram tirar-me o papel da boca. Agarrei um deles pelos test\u00edculos e ele redobrou a viol\u00eancia. Levaram-nos a um bairro bem perif\u00e9rico, La Timba, que fica perto da Pra\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o. O homem desceu, abriu a porta e pediu que sa\u00edssemos. Eu n\u00e3o quis descer. Eles nos fizeram sair \u00e0 for\u00e7a com Orlando e foram embora. Uma senhora chegou e dissemos que hav\u00edamos sido sequestrados. Ela nos achou malucos e se foi. O carro voltou, mas n\u00e3o parou. Eles s\u00f3 me jogaram minha bolsa, onde estavam meu celular e minha c\u00e2mera.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Voltaram para devolver seu celular e sua c\u00e2mera?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o lhe parece estranho que se preocupassem em voltar? Poderiam ter confiscado seu celular e sua c\u00e2mera, que s\u00e3o suas ferramentas de trabalho.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Bem, n\u00e3o sei. Tudo durou 25 minutos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas a senhora entende que, enquanto n\u00e3o publicar as fotos, as pessoas duvidar\u00e3o de sua vers\u00e3o, e isso lan\u00e7ar\u00e1 uma sombra sobre a credibilidade de tudo o que a senhora diz.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o importa.<\/em><strong>A Su\u00ed\u00e7a e o retorno a Cuba<\/strong><em>SL &#8211; Em 2002, a senhora decidiu emigrar para a Su\u00ed\u00e7a. Dois anos depois, voltou a Cuba. \u00c9 dif\u00edcil entender por que a senhora deixou o &#8220;para\u00edso europeu&#8221; para regressar ao pa\u00eds que descreve como um inferno. A pergunta \u00e9 simples: por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 uma \u00f3tima pergunta. Primeiro, gosto de nadar contra a corrente. Gosto de organizar minha vida \u00e0 minha maneira. O absurdo n\u00e3o \u00e9 ir embora e voltar a Cuba, e sim as leis migrat\u00f3rias cubanas, que estipulam que toda pessoa que passa onze meses no exterior perde seu status de residente permanente. Em outras condi\u00e7\u00f5es eu poderia permanecer dois anos no exterior e, com o dinheiro ganho, voltar a Cuba para reformar a casa e fazer outras coisas. Ent\u00e3o o surpreendente n\u00e3o \u00e9 o fato de eu decidir voltar a Cuba, e sim as leis migrat\u00f3rias cubanas.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; O mais surpreendente \u00e9 que, tendo a possibilidade de viver em um dos pa\u00edses mais ricos do mundo, a senhora tenha decidido voltar a seu pa\u00eds, que descreve de modo apocal\u00edptico, apenas dois anos depois de sua sa\u00edda.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; As raz\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias. Primeiro, n\u00e3o pude ir embora com minha fam\u00edlia. Somos uma pequena fam\u00edlia, mas minha irm\u00e3, meus pais e eu somos muito unidos. Meu pai ficou doente em minha aus\u00eancia e tive medo de que ele morresse sem que eu pudesse v\u00ea-lo. Tamb\u00e9m me sentia culpada por viver melhor do que eles. A cada vez que comprava um par de sapatos, que me conectava \u00e0 internet, pensava neles. Sentia-me culpada.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Certo, mas, da Su\u00ed\u00e7a, a senhora podia ajud\u00e1-los enviando dinheiro.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 verdade, mas h\u00e1 outro motivo. Pensei que, com o que havia aprendido na Su\u00ed\u00e7a, poderia mudar as coisas voltando a Cuba. H\u00e1 tamb\u00e9m a saudade das pessoas, dos amigos. N\u00e3o foi uma decis\u00e3o pensada, mas n\u00e3o me arrependo. Tinha vontade de voltar e voltei. \u00c9 verdade que isso pode parecer pouco comum, mas gosto de fazer coisas incomuns. Criei um blog e as pessoas me perguntaram por que eu fiz isso, mas o blog me satisfaz profissionalmente.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Entendo. No entanto, apesar de todas essas raz\u00f5es, \u00e9 dif\u00edcil entender o motivo de seu regresso a Cuba quando no Ocidente se acredita que todos os cubanos querem abandonar o pa\u00eds. \u00c9 ainda mais surpreendente em seu caso, pois a senhora apresenta seu pa\u00eds, repito, de modo apocal\u00edptico.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Como fil\u00f3loga, eu discutiria a palavra, pois &#8220;apocal\u00edptico&#8221; \u00e9 um termo grandiloquente. H\u00e1 um aspecto que caracteriza meu blog: a modera\u00e7\u00e3o verbal.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o \u00e9 sempre assim. A senhora, por exemplo, descreve Cuba como &#8220;uma imensa pris\u00e3o, com muros ideol\u00f3gicos&#8221;. Os termos s\u00e3o bastante fortes.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Nunca escrevi isso.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; S\u00e3o as palavras de uma entrevista concedida ao canal franc\u00eas France 24 em 22 de outubro de 2009.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; O senhor leu isso em franc\u00eas ou em espanhol?<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Em franc\u00eas.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Desconfie das tradu\u00e7\u00f5es, pois eu nunca disse isso. Com frequ\u00eancia me atribuem coisas que eu n\u00e3o disse. Por exemplo, o jornal espanhol ABC me atribuiu palavras que eu nunca havia pronunciado, e protestei. O artigo foi finalmente retirado do site na internet.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Quais eram essas palavras?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; &#8220;Nos hospitais cubanos, morre mais gente de fome do que de enfermidades.&#8221; Era uma mentira total. Eu jamais havia dito isso.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ent\u00e3o a imprensa ocidental manipulou o que a senhora disse?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Eu n\u00e3o diria isso.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Se lhe atribuem palavras que a senhora n\u00e3o pronunciou, trata-se de manipula\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; O Granma [jornal do Partido Comunista de Cuba]manipula a realidade mais do que a imprensa ocidental ao afirmar que sou uma cria\u00e7\u00e3o do grupo midi\u00e1tico Prisa [grupo espanhol que edita El Pa\u00eds].<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Justamente, a senhora n\u00e3o tem a impress\u00e3o de que a imprensa ocidental a usa porque a senhora preconiza um &#8220;capitalismo sui generis&#8221; em Cuba?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o sou respons\u00e1vel pelo que a imprensa faz. Meu blog \u00e9 uma terapia pessoal, um exorcismo. Tenho a impress\u00e3o de que sou mais manipulada em meu pr\u00f3prio pa\u00eds do que em outra parte. O senhor sabe que existe uma lei em Cuba, a lei 88, chamada lei da &#8220;morda\u00e7a&#8221;, que p\u00f5e na cadeia as pessoas que fazem o que estamos fazendo.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; O que isso quer dizer?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Que nossa conversa pode ser considerada um delito, que pode ser punido com uma pena de at\u00e9 15 anos de pris\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Perdoe-me, o fato de eu entrevist\u00e1-la pode lev\u00e1-la para a cadeia?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 claro!<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o tenho a impress\u00e3o de que isso a preocupe muito, pois a senhora est\u00e1 me concedendo uma entrevista em plena tarde, no sagu\u00e3o de um hotel no centro de Havana Velha.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o estou preocupada. Esta lei estipula que toda pessoa que denuncie as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos em Cuba colabora com as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pois Washington justifica a imposi\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es contra Cuba pela viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Se n\u00e3o me engano, a lei 88 foi aprovada em 1996 para responder \u00e0 Lei-Helms Burton e sanciona, sobretudo, as pessoas que colaboram com a aplica\u00e7\u00e3o desta legisla\u00e7\u00e3o em Cuba. Por exemplo, fornecendo informa\u00e7\u00f5es a Washington sobre os investidores estrangeiros no pa\u00eds, para que sejam perseguidos pelos tribunais norte-americanos. Que eu saiba, ningu\u00e9m at\u00e9 agora foi condenado por isso. Falemos de liberdade de express\u00e3o. A senhora goza de certa liberdade de tom em seu blog. Est\u00e1 sendo entrevistada em plena tarde em um hotel. N\u00e3o v\u00ea uma contradi\u00e7\u00e3o entre o fato de afirmar que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma liberdade de express\u00e3o em Cuba e a realidade de seus escritos e suas atividades, que provam o contr\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim, mas o blog n\u00e3o pode ser acessado em Cuba, porque est\u00e1 bloqueado.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Posso lhe assegurar que o consultei esta manh\u00e3 antes da entrevista, no hotel.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 poss\u00edvel, mas ele permanece bloqueado a maior parte do tempo. De todo modo, hoje em dia, mesmo sendo uma pessoa moderada, n\u00e3o posso ter nenhum espa\u00e7o na imprensa cubana, nem no r\u00e1dio, nem na televis\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas pode publicar o que tem vontade em seu blog.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Mas n\u00e3o posso publicar uma \u00fanica palavra na imprensa cubana.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Na Fran\u00e7a, que \u00e9 uma democracia, amplos setores da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam nenhum espa\u00e7o nos meios, j\u00e1 que a maioria pertence a grupos econ\u00f4micos e financeiros privados.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim, mas \u00e9 diferente.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora recebeu amea\u00e7as por suas atividades? Alguma vez a amea\u00e7aram com uma pena de pris\u00e3o pelo que escreve?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Amea\u00e7as diretas de pena de pris\u00e3o, n\u00e3o, mas n\u00e3o me deixam viajar ao exterior. Fui convidada h\u00e1 pouco para um congresso sobre a l\u00edngua espanhola no Chile, fiz todos os tr\u00e2mites, mas n\u00e3o me deixam sair.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Deram-lhe alguma explica\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Nenhuma, mas quero dizer uma coisa. Para mim, as san\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos contra Cuba s\u00e3o uma atrocidade. Trata-se de uma pol\u00edtica que fracassou. Afirmei isso muitas vezes, mas n\u00e3o se publica, pois \u00e9 inc\u00f4modo o fato de eu ter esta opini\u00e3o que rompe com o arqu\u00e9tipo do opositor.<\/em><strong>As san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas<\/strong><em>SL &#8211; Ent\u00e3o a senhora se op\u00f5e \u00e0s san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Absolutamente, e digo isso em todas as entrevistas. H\u00e1 algumas semanas, enviei uma carta ao Senado dos Estados Unidos pedindo que os cidad\u00e3os norte-americanos tivessem permiss\u00e3o para viajar a Cuba. \u00c9 uma atrocidade impedir que os cidad\u00e3os norte-americanos viajem a Cuba, do mesmo modo que o governo cubano me impede de sair de meu pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; O que acha das esperan\u00e7as suscitadas pela elei\u00e7\u00e3o de Obama, que prometeu uma mudan\u00e7a na pol\u00edtica para Cuba, mas decepcionou muita gente?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Ele chegou ao poder sem o apoio do lobby fundamentalista de Miami, que defendeu o outro candidato. De minha parte, j\u00e1 me pronunciei contra as san\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Este lobby fundamentalista \u00e9 contra a suspens\u00e3o das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; O senhor pode discutir com eles e lhes expor meus argumentos, mas eu n\u00e3o diria que s\u00e3o inimigos da p\u00e1tria. N\u00e3o penso assim.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Uma parte deles participou da invas\u00e3o de seu pr\u00f3prio pa\u00eds em 1961, sob as ordens da CIA. V\u00e1rios est\u00e3o envolvidos em atos de terrorismo contra Cuba.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Os cubanos no ex\u00edlio t\u00eam o direito de pensar e decidir. Sou a favor de que eles tenham direito ao voto. Aqui, estigmatizou-se muito o ex\u00edlio cubano.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; O ex\u00edlio &#8220;hist\u00f3rico&#8221; ou os que emigraram depois, por raz\u00f5es econ\u00f4micas?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Na verdade, oponho-me a todos os extremos. Mas essas pessoas que defendem as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas n\u00e3o s\u00e3o anticubanas. Considere que elas defendem Cuba segundo seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Talvez, mas as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas afetam os setores mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o cubana, e n\u00e3o os dirigentes. Por isso \u00e9 dif\u00edcil ser a favor das san\u00e7\u00f5es e, ao mesmo tempo, querer defender o bem-estar dos cubanos.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 a opini\u00e3o deles. \u00c9 assim.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Eles n\u00e3o s\u00e3o ing\u00eanuos. Sabem que os cubanos sofrem com as san\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; S\u00e3o simplesmente diferentes. Acreditam que poder\u00e3o mudar o regime impondo san\u00e7\u00f5es. Em todo caso, creio que o bloqueio tem sido o argumento perfeito para o governo cubano manter a intoler\u00e2ncia, o controle e a repress\u00e3o interna.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; As san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas t\u00eam efeitos. Ou a senhora acha que s\u00e3o apenas uma desculpa para Havana?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; S\u00e3o uma desculpa que leva \u00e0 repress\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Afetam o pa\u00eds de um ponto de vista econ\u00f4mico, para a senhora? Ou \u00e9 apenas um efeito marginal?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; O verdadeiro problema \u00e9 a falta de produtividade em Cuba. Se amanh\u00e3 suspendessem as san\u00e7\u00f5es, duvido muito que v\u00edssemos os efeitos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Neste caso, por que os Estados Unidos n\u00e3o suspendem as san\u00e7\u00f5es, tirando assim a desculpa do governo? Assim perceber\u00edamos que as dificuldades econ\u00f4micas devem-se apenas \u00e0s pol\u00edticas internas. Se Washington insiste tanto nas san\u00e7\u00f5es apesar de seu car\u00e1ter anacr\u00f4nico, apesar da oposi\u00e7\u00e3o da imensa maioria da comunidade internacional &#8212; 187 pa\u00edses em 2009 &#8211;, apesar da oposi\u00e7\u00e3o de uma maioria da opini\u00e3o p\u00fablica dos Estados Unidos, apesar da oposi\u00e7\u00e3o do mundo dos neg\u00f3cios, deve ser por algum motivo, n\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Simplesmente porque Obama n\u00e3o \u00e9 o ditador dos Estados Unidos e n\u00e3o pode eliminar as san\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ele n\u00e3o pode elimin\u00e1-las totalmente porque n\u00e3o h\u00e1 um acordo no Congresso, mas pode alivi\u00e1-las consideravelmente, o que n\u00e3o fez at\u00e9 agora, j\u00e1 que, salvo a elimina\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es impostas por Bush em 2004, quase nada mudou.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade, pois ele tamb\u00e9m permitiu que as empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es norte-americanas fizessem transa\u00e7\u00f5es com Cuba.<\/em><strong>Os pr\u00eamios internacionais, o blog e Barack Obama<\/strong><em>SL &#8211; A senhora ter\u00e1 de admitir que \u00e9 bem pouco, quando se sabe que Obama prometeu um novo enfoque para Cuba. Voltemos a seu caso pessoal. Como explica esta avalanche de pr\u00eamios, assim como seu sucesso internacional?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o tenho muito a dizer, a n\u00e3o ser expressar minha gratid\u00e3o. Todo pr\u00eamio implica uma dose de subjetividade por parte do jurado. Todo pr\u00eamio \u00e9 discut\u00edvel. Por exemplo, muitos escritores latino-americanos mereciam o Pr\u00eamio Nobel de Literatura mais que Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora afirma isso porque acredita que ele n\u00e3o tem tanto talento ou por sua posi\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o cubana? A senhora n\u00e3o nega seu talento de escritor, ou nega?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 minha opini\u00e3o, mas n\u00e3o direi que ele obteve o pr\u00eamio por esse motivo nem vou acus\u00e1-lo de ser um agente do governo sueco.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ele obteve o pr\u00eamio por sua obra liter\u00e1ria, enquanto a senhora foi recompensada por suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contra o governo. \u00c9 a impress\u00e3o que temos.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Falemos do pr\u00eamio Ortega y Gasset, do jornal El Pa\u00eds, que suscita mais pol\u00eamica. Venci na categoria &#8220;Internet&#8221;. Alguns dizem que outros jornalistas n\u00e3o conseguiram, mas sou uma blogueira e sou pioneira neste campo. Considero-me uma personagem da internet. O j\u00fari do pr\u00eamio Ortega y Gasset \u00e9 formado por personalidades extremamente prestigiadas e eu n\u00e3o diria que elas se prestaram a uma conspira\u00e7\u00e3o contra Cuba.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora n\u00e3o pode negar que o jornal espanhol El Pa\u00eds tem uma linha editorial totalmente hostil a Cuba. E alguns acham que o pr\u00eamio, de 15 mil euros, foi uma forma de recompensar seus escritos contra o governo.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; As pessoas pensam o que querem. Acredito que meu trabalho foi recompensado. Meu blog tem 10 milh\u00f5es de visitas por m\u00eas. \u00c9 um furac\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Como a senhora faz para pagar os gastos com a administra\u00e7\u00e3o de semelhante tr\u00e1fego?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Um amigo na Alemanha se encarregava disso, pois o site estava hospedado na Alemanha. H\u00e1 mais de um ano est\u00e1 hospedado na Espanha, e consegui 18 meses gratuitos gra\u00e7as ao pr\u00eamio The Bob&#8217;s.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; E a tradu\u00e7\u00e3o para 18 l\u00ednguas?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; S\u00e3o amigos e admiradores que o fazem volunt\u00e1ria e gratuitamente.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Muitas pessoas acham dif\u00edcil acreditar nisso, pois nenhum outro site do mundo, nem mesmo os das mais importantes institui\u00e7\u00f5es internacionais, como as Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, a OCDE, a Uni\u00e3o Europeia, disp\u00f5em de tantas vers\u00f5es de idioma. Nem o site do Departamento de Estado dos EUA, nem o da CIA, contam com semelhante variedade.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Digo-lhe a verdade.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; O presidente Obama inclusive respondeu a uma entrevista que a senhora fez. Como explica isso?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Em primeiro lugar, quero dizer que n\u00e3o eram perguntas complacentes.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Tampouco podemos afirmar que a senhora foi cr\u00edtica, j\u00e1 que n\u00e3o pediu que ele suspendesse as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sobre as quais a senhora diz que &#8220;s\u00e3o usadas como justificativa tanto para o descalabro produtivo quanto para reprimir os que pensam diferente&#8221;. \u00c9 exatamente o que diz Washington sobre o tema. O momento de maior atrevimento foi quando a senhora perguntou se ele pensava em invadir Cuba. Como a senhora explica que o presidente Obama tenha dedicado tempo a lhe responder apesar de sua agenda extremamente carregada, com uma crise econ\u00f4mica sem precedentes, a reforma do sistema de sa\u00fade, o Iraque, o Afeganist\u00e3o, as bases militares na Col\u00f4mbia, o golpe de Estado em Honduras e centenas de pedidos de entrevista dos mais importantes meios do mundo \u00e0 espera?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Tenho sorte. Quero lhe dizer que tamb\u00e9m enviei perguntas ao presidente Ra\u00fal Castro e ele n\u00e3o me respondeu. N\u00e3o perco a esperan\u00e7a. Al\u00e9m disso, ele agora tem a vantagem de contar com as respostas de Obama.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Como a senhora chegou at\u00e9 Obama?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Transmiti as perguntas a v\u00e1rias pessoas que vinham me visitar e poderiam ter um contato com ele.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Em sua opini\u00e3o, Obama respondeu porque a senhora \u00e9 uma blogueira cubana ou porque se op\u00f5e ao governo?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o creio. Obama respondeu porque fala com os cidad\u00e3os.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ele recebe milh\u00f5es de solicita\u00e7\u00f5es a cada dia. Por que lhe respondeu, se a senhora \u00e9 uma simples blogueira?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Obama \u00e9 pr\u00f3ximo de minha gera\u00e7\u00e3o, de meu modo de pensar.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas por que a senhora? Existem milh\u00f5es de blogueiros no mundo. N\u00e3o acha que foi usada na guerra midi\u00e1tica de Washington contra Havana?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Em minha opini\u00e3o, ele talvez quisesse responder a alguns pontos, como a invas\u00e3o de Cuba. Talvez eu tenha lhe dado a oportunidade de se manifestar sobre um tema que ele queria abordar havia muito tempo. A propaganda pol\u00edtica nos fala constantemente de uma poss\u00edvel invas\u00e3o de Cuba.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas ocorreu uma, n\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Quando?<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Em 1961. E, em 2003, Roger Noriega, subsecret\u00e1rio de Estado para Assuntos Interamericanos, disse que qualquer onda migrat\u00f3ria cubana em dire\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos seria considerada uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a nacional e exigiria uma resposta militar.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 outro assunto. Voltando ao tema da entrevista, creio que ela permitiu esclarecer alguns pontos. Tenho a impress\u00e3o de que h\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o de ambos os lados de n\u00e3o normalizar as rela\u00e7\u00f5es, de n\u00e3o se entender. Perguntei-lhe quando encontrar\u00edamos uma solu\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A seu ver, quem \u00e9 respons\u00e1vel por este conflito entre os dois pa\u00edses?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 dif\u00edcil apontar um culpado.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Neste caso espec\u00edfico, s\u00e3o os Estados Unidos que imp\u00f5em san\u00e7\u00f5es unilaterais a Cuba, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim, mas Cuba confiscou propriedades dos Estados Unidos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Tenho a impress\u00e3o de que a senhora faz o papel de advogada de Washington.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Os confiscos ocorreram.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; \u00c9 verdade, mas foram realizados conforme o direito internacional. Cuba tamb\u00e9m confiscou propriedades da Fran\u00e7a, Espanha, It\u00e1lia, B\u00e9lgica, Reino Unido, e indenizou estas na\u00e7\u00f5es. O \u00fanico pa\u00eds que recusou as indeniza\u00e7\u00f5es foram os Estados Unidos.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Cuba tamb\u00e9m permitiu a instala\u00e7\u00e3o de bases militares em seu territ\u00f3rio e de m\u00edsseis de um imp\u00e9rio distante&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Como os Estados Unidos instalaram bases nucleares contra a URSS na It\u00e1lia e na Turquia.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Os m\u00edsseis nucleares podiam alcan\u00e7ar os Estados Unidos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Assim como os m\u00edsseis nucleares norte-americanos podiam alcan\u00e7ar Cuba ou a URSS.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 verdade, mas creio que houve uma escalada no confronto por parte de ambos os pa\u00edses.<\/em><strong>Os cinco presos pol\u00edticos cubanos e a dissid\u00eancia<\/strong><em>SL &#8211; Abordemos outro tema. Fala-se muito dos cinco presos pol\u00edticos cubanos nos Estados Unidos, alguns condenados \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua por se infiltrarem em grupelhos de extrema direita na Fl\u00f3rida envolvidos no terrorismo contra Cuba.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o \u00e9 um tema que interesse \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 propaganda pol\u00edtica.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas qual \u00e9 seu ponto de vista a respeito?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Tentarei ser o mais neutra poss\u00edvel. S\u00e3o agentes do Minist\u00e9rio do Interior que se infiltraram nos Estados Unidos para coletar informa\u00e7\u00f5es. O governo de Cuba disse que eles n\u00e3o desempenhavam atividades de espionagem, mas, sim, que haviam se infiltrado em grupos cubanos para evitar atos terroristas. Mas o governo cubano sempre afirmou que esses grupos estavam ligados a Washington.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ent\u00e3o os grupos radicais de exilados t\u00eam la\u00e7os com o governo dos Estados Unidos?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 o que diz a propaganda pol\u00edtica.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Se \u00e9 verdade, significa que os cinco realizavam atividades de espionagem.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Neste caso, os Estados Unidos t\u00eam de reconhecer que os grupos violentos fazem parte do governo.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 verdade.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora acha que os cinco devem ser libertados ou merecem a puni\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Creio que valeria a pena revisar os casos, mas em um contexto pol\u00edtico mais apaziguado. N\u00e3o acho que o uso pol\u00edtico deste caso seja bom para eles. O governo cubano midiatiza demais este assunto.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Talvez por ser um assunto totalmente censurado pela imprensa ocidental.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Creio que seria bom salvar essas pessoas, que s\u00e3o seres humanos, t\u00eam uma fam\u00edlia, filhos. Por outro lado, contudo, tamb\u00e9m h\u00e1 v\u00edtimas.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas os cinco n\u00e3o cometeram crimes.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o, mas forneceram informa\u00e7\u00f5es que causaram a morte de v\u00e1rias pessoas.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora se refere aos acontecimentos de 24 de fevereiro de 1996, quando dois avi\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o radical Brothers to the Rescue foram derrubados depois de violar v\u00e1rias vezes o espa\u00e7o a\u00e9reo cubano e lan\u00e7ar convoca\u00e7\u00f5es \u00e0 rebeli\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; No entanto, o promotor reconheceu que era imposs\u00edvel provar a culpa de Gerardo Hern\u00e1ndez [um dos cinco, condenado a duas pris\u00f5es perp\u00e9tuas mais 15 anos] neste caso.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 verdade. Penso que, quando a pol\u00edtica se intromete em assuntos de justi\u00e7a, chegamos a isso.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora acha que se trata de um caso pol\u00edtico?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Para o governo cubano, \u00e9 um caso pol\u00edtico.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; E para os Estados Unidos?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Penso que existe uma separa\u00e7\u00e3o dos poderes no pa\u00eds, mas \u00e9 poss\u00edvel que o ambiente pol\u00edtico tenha influenciado os ju\u00edzes e jurados. N\u00e3o creio, no entanto, que se trate de um caso pol\u00edtico dirigido por Washington. \u00c9 dif\u00edcil ter uma imagem clara deste caso, pois jamais obtivemos uma informa\u00e7\u00e3o completa a respeito. Mas a prioridade para os cubanos \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos.<\/em><strong>O financiamento dos dissidentes cubanos<\/strong><em>SL &#8211; Wayne S. Smith, \u00faltimo embaixador dos Estados Unidos em Cuba, declarou que era &#8220;ilegal e imprudente enviar dinheiro aos dissidentes cubanos&#8221;. Acrescentou que &#8220;ningu\u00e9m deveria dar dinheiro aos dissidentes, muito menos com o objetivo de derrubar o governo cubano&#8221;. Ele explica: &#8220;Quando os Estados Unidos declaram que seu objetivo \u00e9 derrubar o governo cubano e depois afirmam que um dos meios para conseguir isso \u00e9 oferecer fundos aos dissidentes cubanos, estes se encontram de fato na posi\u00e7\u00e3o de agentes pagos por uma pot\u00eancia estrangeira para derrubar seu pr\u00f3prio governo&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Creio que o financiamento da oposi\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos tem sido apresentado como uma realidade, o que n\u00e3o \u00e9 o caso. Conhe\u00e7o v\u00e1rios membros do grupo dos 75 dissidentes presos em 2003 e duvido muito dessa vers\u00e3o. N\u00e3o tenho provas de que os 75 tenham sido presos por isso. N\u00e3o acredito nas provas apresentadas nos tribunais cubanos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o creio que seja poss\u00edvel ignorar esta realidade.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; O pr\u00f3prio governo dos Estados Unidos afirma que financia a oposi\u00e7\u00e3o interna desde 1959. Basta consultar, al\u00e9m dos arquivos liberados ao p\u00fablico, a se\u00e7\u00e3o 1.705 da lei Torricelli, de 1992, a se\u00e7\u00e3o 109 da lei Helms-Burton, de 1996, e os dois informes da Comiss\u00e3o de Assist\u00eancia para uma Cuba Livre, de maio de 2004 e julho de 2006. Todos esses documentos revelam que o presidente dos Estados Unidos financia a oposi\u00e7\u00e3o interna em Cuba com o objetivo de derrubar o governo de Havana.<\/em><\/p>\n<p><em>YS: N\u00e3o sei, mas&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Se me permite, vou citar as leis em quest\u00e3o. A se\u00e7\u00e3o 1.705 da lei Torricelli estipula que &#8220;os Estados Unidos proporcionar\u00e3o assist\u00eancia \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais adequadas para apoiar indiv\u00edduos e organiza\u00e7\u00f5es que promovem uma mudan\u00e7a democr\u00e1tica n\u00e3o violenta em Cuba.&#8221; A se\u00e7\u00e3o 109 da lei Helms-Burton tamb\u00e9m \u00e9 muito clara: &#8220;O presidente [dos Estados Unidos] est\u00e1 autorizado a proporcionar assist\u00eancia e oferecer todo tipo de apoio a indiv\u00edduos e organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais independentes para unir os esfor\u00e7os a fim de construir uma democracia em Cuba&#8221;. O primeiro informe da Comiss\u00e3o de Assist\u00eancia para uma Cuba Livre prev\u00ea a elabora\u00e7\u00e3o de um &#8220;s\u00f3lido programa de apoio que favore\u00e7a a sociedade civil cubana&#8221;. Entre as medidas previstas h\u00e1 um financiamento de 36 milh\u00f5es de d\u00f3lares para o &#8220;apoio \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e ao fortalecimento da sociedade civil emergente&#8221;. O segundo informe da Comiss\u00e3o de Assist\u00eancia para uma Cuba Livre prev\u00ea um or\u00e7amento de 31 milh\u00f5es de d\u00f3lares para financiar ainda mais a oposi\u00e7\u00e3o interna. Al\u00e9m disso, est\u00e1 previsto para os anos seguintes um financiamento anual de pelo menos 20 milh\u00f5es de d\u00f3lares, com o mesmo objetivo, &#8220;at\u00e9 que a ditadura deixe de existir&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Quem lhe disse que esse dinheiro chegou \u00e0s m\u00e3os dos dissidentes?<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A Se\u00e7\u00e3o de Interesses norte-americanos afirmou em um comunicado: &#8220;A pol\u00edtica norte-americana, faz muito tempo, \u00e9 proporcionar assist\u00eancia humanit\u00e1ria ao povo cubano, especificamente a fam\u00edlias de presos pol\u00edticos. Tamb\u00e9m permitimos que as organiza\u00e7\u00f5es privadas o fa\u00e7am&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Bem&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Inclusive a Anistia Internacional, que lembra a exist\u00eancia de 58 presos pol\u00edticos em Cuba, reconhece que eles est\u00e3o detidos &#8220;por ter recebido fundos ou materiais do governo norte-americano para realizar atividades que as autoridades consideram subversivas e prejudiciais para Cuba&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o sei se&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Por outro lado, os pr\u00f3prios dissidentes admitem receber dinheiro dos Estados Unidos. Laura Poll\u00e1n, das Damas de Branco, declarou: &#8220;Aceitamos a ajuda, o apoio, da ultradireita \u00e0 esquerda, sem condi\u00e7\u00f5es&#8221;. O opositor Vladimiro Roca tamb\u00e9m confessou que a dissid\u00eancia cubana \u00e9 subvencionada por Washington, alegando que a ajuda financeira recebida era &#8220;total e completamente l\u00edcita&#8221;. Para o dissidente Ren\u00e9 G\u00f3mez, o apoio econ\u00f4mico por parte dos Estados Unidos &#8220;n\u00e3o \u00e9 algo a esconder ou de que precisemos nos envergonhar&#8221;. Inclusive a imprensa ocidental reconhece. A ag\u00eancia France Presse informa que &#8220;os dissidentes, por sua parte, reivindicaram e assumiram essas ajudas econ\u00f4micas&#8221;. A ag\u00eancia espanhola EFE menciona os &#8220;opositores financiados pelos Estados Unidos&#8221;. Quanto \u00e0 ag\u00eancia de not\u00edcias brit\u00e2nica Reuters, &#8220;o governo norte-americano fornece abertamente um apoio financeiro federal \u00e0s atividades dos dissidentes, o que Cuba considera um ato ilegal&#8221;. E eu poderia multiplicar os exemplos.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Tudo isso \u00e9 culpa do governo cubano, que impede a prosperidade econ\u00f4mica de seus cidad\u00e3os, que imp\u00f5e um racionamento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso fazer fila para conseguir produtos. \u00c9 necess\u00e1rio julgar antes o governo cubano, que levou milhares de pessoas a aceitar a ajuda estrangeira.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; O problema \u00e9 que os dissidentes cometem um delito que a lei cubana e todos os c\u00f3digos penais do mundo sancionam severamente. Ser financiado por uma pot\u00eancia estrangeira \u00e9 um grave delito na Fran\u00e7a e no restante do mundo.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Podemos admitir que o financiamento de uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma prova de inger\u00eancia, mas&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Mas, neste caso, as pessoas que a senhora qualifica de presos pol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o presos pol\u00edticos, pois cometeram um delito ao aceitar dinheiro dos Estados Unidos, e a justi\u00e7a cubana as condenou com base nisso.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Creio que este governo se intrometeu muitas vezes nos assuntos internos de outros pa\u00edses, financiando movimentos rebeldes e a guerrilha. Interveio em Angola e&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Sim, mas se tratava de ajudar os movimentos independentistas contra o colonialismo portugu\u00eas e o regime segregacionista da \u00c1frica do Sul. Quando a \u00c1frica do Sul invadiu a Nam\u00edbia, Cuba interveio para defender a independ\u00eancia deste pa\u00eds. Nelson Mandela agradeceu publicamente a Cuba e esta foi a raz\u00e3o pela qual fez sua primeira viagem a Havana, e n\u00e3o a Washington ou Paris.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Mas muitos cubanos morreram por isso, longe de sua terra.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Sim, mas foi por uma causa nobre, seja em Angola, no Congo ou na Nam\u00edbia. A batalha de Cuito Cuanavale, em 1988, permitiu que se pusesse fim ao apartheid na \u00c1frica do Sul. \u00c9 o que diz Mandela! N\u00e3o se sente orgulhosa disso?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Concordo, mas, no fim das contas, incomoda-me mais a inger\u00eancia de meu pa\u00eds no exterior. O que faz falta \u00e9 despenalizar a prosperidade.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Inclusive o fato de se receber dinheiro de uma pot\u00eancia estrangeira?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; As pessoas t\u00eam de ser economicamente aut\u00f4nomas.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Se entendo bem, a senhora preconiza a privatiza\u00e7\u00e3o de certos setores da economia.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o gosto do termo &#8220;privatizar&#8221;, pois tem uma conota\u00e7\u00e3o pejorativa, mas colocar em m\u00e3os privadas, sim.<\/em><strong>Conquistas sociais em Cuba<\/strong><em>SL &#8211; \u00c9 uma quest\u00e3o sem\u00e2ntica, ent\u00e3o. Quais s\u00e3o, para a senhora, as conquistas sociais deste pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Cada conquista teve um custo enorme. Todas as coisas que podem parecer positivas tiveram um custo em termos de liberdade. Meu filho recebe uma educa\u00e7\u00e3o muito doutrin\u00e1ria e contam-lhe uma hist\u00f3ria de Cuba que em nada corresponde \u00e0 realidade. Preferiria uma educa\u00e7\u00e3o menos ideol\u00f3gica para meu filho. Por outro lado, ningu\u00e9m quer ser professor neste pa\u00eds, pois os sal\u00e1rios s\u00e3o muito baixos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Concordo, mas isso n\u00e3o impede que Cuba seja o pa\u00eds com o maior n\u00famero de professores por habitante do mundo, com salas de 20 alunos no m\u00e1ximo, o que n\u00e3o ocorre na Fran\u00e7a, por exemplo.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim, mas houve um custo, e por isso a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras conquistas para mim.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o podemos negar algo reconhecido por todas as institui\u00e7\u00f5es internacionais. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, o \u00edndice de analfabetismo \u00e9 de 11,7% na Am\u00e9rica Latina e 0,2% em Cuba. O \u00edndice de escolaridade no ensino prim\u00e1rio \u00e9 de 92% na Am\u00e9rica Latina e 100% em Cuba, e no ensino secund\u00e1rio \u00e9 de 52% e 99,7%, respectivamente. S\u00e3o cifras do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o da Unesco.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Certo, mas, em 1959, embora Cuba vivesse em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era t\u00e3o ruim. Havia uma vida intelectual florescente, um pensamento pol\u00edtico vivo. Na verdade, a maioria das supostas conquistas atuais, apresentadas como resultados do sistema, eram inerentes a nossa idiossincrasia. Essas conquistas existiam antes.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o \u00e9 verdade. Vou citar uma fonte acima de qualquer suspeita: um informe do Banco Mundial. \u00c9 uma cita\u00e7\u00e3o bastante longa, mas vale a pena. &#8220;Cuba \u00e9 internacionalmente reconhecida por seus \u00eaxitos no campo da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade, com um servi\u00e7o social que supera o da maior parte dos pa\u00edses em desenvolvimento e, em certos setores, compar\u00e1vel ao dos pa\u00edses desenvolvidos. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o cubana de 1959 e do estabelecimento de um governo comunista com partido \u00fanico, o pa\u00eds criou um sistema de servi\u00e7os sociais que garante o acesso universal \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade, proporcionado pelo Estado. Este modelo permitiu que Cuba alcan\u00e7asse uma alfabetiza\u00e7\u00e3o universal, a erradica\u00e7\u00e3o de certas enfermidades, o acesso geral \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e a salubridade p\u00fablica de base, uma das taxas de mortalidade infantil mais baixas da regi\u00e3o e uma das maiores expectativas de vida. Uma revis\u00e3o dos indicadores sociais de Cuba revela uma melhora quase cont\u00ednua desde 1960 at\u00e9 1980. V\u00e1rios \u00edndices importantes, como a expectativa de vida e a taxa de mortalidade infantil, continuaram melhorando durante a crise econ\u00f4mica do pa\u00eds nos anos 90&#8230; Atualmente, o servi\u00e7o social de Cuba \u00e9 um dos melhores do mundo em desenvolvimento, como documentam numerosas fontes internacionais, entre elas a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento e outras ag\u00eancias da ONU, e o Banco Mundial. Segundo os \u00edndices de desenvolvimento do mundo em 2002, Cuba supera amplamente a Am\u00e9rica Latina e o Caribe e outros pa\u00edses com renda m\u00e9dia nos mais importantes indicadores de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e salubridade p\u00fablica.&#8221; Al\u00e9m disso, os n\u00fameros comprovam. Em 1959, a taxa de mortalidade infantil era de 60 por mil. Em 2009, era de 4,9. Trata-se da taxa mais baixa do continente americano do Terceiro Mundo; inclusive mais baixa que a dos Estados Unidos.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Bom, mas&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A expectativa de vida era de 58 anos antes da Revolu\u00e7\u00e3o. Agora \u00e9 de quase 80 anos, similar \u00e0 de muitos pa\u00edses desenvolvidos. Cuba tem hoje 67 mil m\u00e9dicos frente aos 6 mil de 1959. Segundo o di\u00e1rio ingl\u00eas The Guardian, Cuba tem duas vezes mais m\u00e9dicos que a Inglaterra para uma popula\u00e7\u00e3o quatro vezes menor.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Certo, mas, em termos de liberdade de express\u00e3o, houve um recuo em rela\u00e7\u00e3o ao governo de Batista. O regime era uma ditadura, mas havia uma liberdade de imprensa plural e aberta, programas de r\u00e1dio de todas as tend\u00eancias pol\u00edticas.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o \u00e9 verdade. A censura da imprensa tamb\u00e9m existia. Entre dezembro de 1956 e janeiro de 1959, durante a guerra contra o regime de Batista, a censura foi imposta em 630 de 759 dias. E aos opositores reservava-se um triste destino.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 verdade que havia censura, intimida\u00e7\u00f5es e mortos ao final.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ent\u00e3o a senhora n\u00e3o pode dizer que a situa\u00e7\u00e3o era melhor com Batista, j\u00e1 que os opositores eram assassinados. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o caso hoje. A senhora acha que a data de 1\u00ba de janeiro [vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o, em 1959] \u00e9 uma trag\u00e9dia para a hist\u00f3ria de Cuba?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o, de modo algum. Foi um processo que motivou muita esperan\u00e7a, mas traiu a maioria dos cubanos. Foi um momento luminoso para boa parte da popula\u00e7\u00e3o, mas puseram fim a uma ditadura e instauraram outra. Mas n\u00e3o sou t\u00e3o negativa como alguns.<\/em><strong>Luis Posada Carriles, a lei de Ajuste Cubano e a emigra\u00e7\u00e3o<\/strong><em>SL &#8211; O que acha de Luis Posada Carriles, ex-agente da CIA respons\u00e1vel por numerosos crimes em Cuba e a quem os Estados Unidos recusam-se a julgar?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 um tema pol\u00edtico que n\u00e3o interessa \u00e0s pessoas. \u00c9 uma cortina de fuma\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Interessa, pelo menos, aos parentes das v\u00edtimas. Qual \u00e9 seu ponto de vista a respeito?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o gosto de a\u00e7\u00f5es violentas.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Condena seus atos terroristas?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Condeno todo ato de terrorismo, inclusive os cometidos atualmente no Iraque por uma suposta resist\u00eancia iraquiana que mata os iraquianos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Quem mata os iraquianos? Os ataques da resist\u00eancia ou os bombardeios dos Estados Unidos?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; N\u00e3o sei.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Uma palavra sobre a lei de Ajuste Cubano, que determina que todo cubano que emigra legal ou ilegalmente para os Estados Unidos obt\u00e9m automaticamente o status de residente permanente.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9 uma vantagem que os demais pa\u00edses n\u00e3o t\u00eam. Mas o fato de os cubanos emigrarem para os Estados Unidos deve-se \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil aqui.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Al\u00e9m disso, os Estados Unidos s\u00e3o o pa\u00eds mais rico do mundo. Muitos europeus tamb\u00e9m emigram para l\u00e1. A senhora reconhece que a lei de Ajuste Cubano \u00e9 uma formid\u00e1vel ferramenta de incita\u00e7\u00e3o \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o legal e ilegal?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; \u00c9, efetivamente, um fator de incita\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; A senhora n\u00e3o v\u00ea isso como uma ferramenta para desestabilizar a sociedade e o governo?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Neste caso, tamb\u00e9m podemos dizer que a concess\u00e3o da cidadania espanhola aos descendentes de espanh\u00f3is nascidos em Cuba \u00e9 um fator de desestabiliza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; N\u00e3o tem nada a ver, pois existem raz\u00f5es hist\u00f3ricas e, al\u00e9m disso, a Espanha aplica esta lei a todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e n\u00e3o s\u00f3 a Cuba, enquanto a lei de Ajuste Cubano \u00e9 \u00fanica no mundo.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Mas existem fortes rela\u00e7\u00f5es. Joga-se beisebol em Cuba como nos Estados Unidos.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Na Rep\u00fablica Dominicana tamb\u00e9m, mas n\u00e3o existe uma lei de ajuste dominicano.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Existe, no entanto, uma tradi\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; Ent\u00e3o por que esta lei n\u00e3o foi aprovada antes da Revolu\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Por que os cubanos n\u00e3o queriam deixar seu pa\u00eds. Na \u00e9poca, Cuba era um pa\u00eds de imigra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de emigra\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; \u00c9 absolutamente falso, j\u00e1 que, nos anos 50, Cuba ocupava o segundo lugar entre os pa\u00edses americanos em termos de emigra\u00e7\u00e3o rumo aos Estados Unidos, imediatamente atr\u00e1s do M\u00e9xico. Cuba mandava mais emigrantes para os Estados Unidos que toda a Am\u00e9rica Central e toda a Am\u00e9rica do Sul juntas, enquanto atualmente Cuba s\u00f3 ocupa o d\u00e9cimo lugar, apesar da lei de Ajuste Cubano e das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Talvez, mas n\u00e3o havia essa obsess\u00e3o de abandonar o pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p><em>SL &#8211; As cifras demonstram o contr\u00e1rio. Atualmente, repito, Cuba s\u00f3 ocupa o d\u00e9cimo lugar no continente americano em termos de fluxo migrat\u00f3rio para os Estados Unidos. Ent\u00e3o a obsess\u00e3o da qual voc\u00ea me fala \u00e9 mais forte em nove pa\u00edses do continente, pelo menos.<\/em><\/p>\n<p><em>YS &#8211; Sim, mas naquela \u00e9poca os cubanos iam e regressavam.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 3.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor H\u00e9lio Doyle, no s\u00edtio\u00a0Brasil 247:\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2321\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2321","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Br","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2321"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2321\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}