{"id":23249,"date":"2019-05-30T23:39:49","date_gmt":"2019-05-31T02:39:49","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23249"},"modified":"2019-06-05T21:48:59","modified_gmt":"2019-06-06T00:48:59","slug":"veneno-na-mesa-pra-servir-o-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23249","title":{"rendered":"Veneno na mesa pra servir o capital"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/atoms\/image\/939345-agrotoxico_.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O uso de agrot\u00f3xicos no Brasil: trag\u00e9dia social nas tramas do capital imperialista<\/p>\n<p>Por Marcela Pereira Rosa*<\/p>\n<p>O Brasil ocupa hoje a posi\u00e7\u00e3o de maior consumidor de agrot\u00f3xicos do mundo. Nesse ranking n\u00e3o h\u00e1 nada a ser comemorado. Somos respons\u00e1veis pelo consumo de 18%, ou seja, quase 1\/5 de todo agrot\u00f3xico comercializado mundialmente [1][2].<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio publicado no m\u00eas de abril pela ONG Public Eye, apontou que 32% dos produtos classificados como \u201cextremamente t\u00f3xicos\u201d produzidos pela Syngenta s\u00e3o consumidos no Brasil, que n\u00e3o por acaso \u00e9 tamb\u00e9m o pa\u00eds que mais compra essa classe de venenos [3]. A multinacional tem sua sede na Su\u00ed\u00e7a, pa\u00eds que n\u00e3o autoriza o consumo interno dos pesticidas a\u00ed inclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Em 1990 o Brasil consumia 3% dos agrot\u00f3xicos no mundo, o que significa que de l\u00e1 pra c\u00e1 houve um aumento de 9 vezes nesse consumo. Um atlas do uso de agrot\u00f3xicos no Brasil, publicado em 2017 pela ge\u00f3grafa Larissa Bombardi, aponta que o Brasil saltou de um consumo de cerca de 170.000 toneladas de agrot\u00f3xicos no ano 2000 para 500.000 toneladas em 2014, um aumento de 135%. Do total consumido, 52% s\u00e3o utilizados no cultivo da soja [2].<\/p>\n<p>O principal agrot\u00f3xico comercializado no Brasil \u00e9 o glifosato, um herbicida aplicado em diversos cultivos, como o de soja, milho e algod\u00e3o, que figuram entre os principais produtos produzidos no pa\u00eds. Pesquisas realizadas com animais apontaram que o glifosato pode causar c\u00e2ncer e \u00e9 tamb\u00e9m um potencial causador de altera\u00e7\u00f5es na estrutura do DNA e nas estruturas cromoss\u00f4micas das c\u00e9lulas humanas. Ainda assim, no ano de 2014 a venda desse herbicida no Brasil foi de 194.877,84 mil toneladas, mais da metade do volume total de agrot\u00f3xicos comercializados no pa\u00eds [2].<\/p>\n<p>No ranking de 2016, as citadas Monsanto e Syngenta figuram, ao lado de outras quatro, entre as principais empresas do setor, que lideram e concentram o mercado mundial de agrot\u00f3xicos e sementes. O oligop\u00f3lio dessas seis empresas \u2013 Syngenta (Su\u00ed\u00e7a), Bayer (Alemanha), Basf (Alemanha), Dow (EUA), Monsanto (EUA) e DuPont (EUA) \u2013 respondem a cerca de 75% do mercado mundial de agrot\u00f3xicos [2]. Recentemente esse quadro sofreu algumas altera\u00e7\u00f5es devido \u00e0 compra e fus\u00e3o de algumas dessas empresas. A Monsanto foi comprada pela Bayer, a ChemChina comprou a Syngenta e Dow e DuPont se fundiram, aumentando ainda mais a concentra\u00e7\u00e3o e o oligop\u00f3lio dessas empresas no setor. Vale lembrar que esse monop\u00f3lio n\u00e3o ocorre apenas com os agrot\u00f3xicos, mas tamb\u00e9m com as sementes produzidas por essas mesmas empresas.<\/p>\n<p>No Brasil e em outros pa\u00edses do mundo, vemos a agricultura capitalista avan\u00e7ar sobre o campo a passos largos e, com ela, o uso massivo de agrot\u00f3xicos. Os efeitos desse uso s\u00e3o danosos e incalcul\u00e1veis: incluem a devasta\u00e7\u00e3o da natureza, a contamina\u00e7\u00e3o dos solos e da \u00e1gua, a morte de animais, a aniquila\u00e7\u00e3o da diversidade produtiva, a intoxica\u00e7\u00e3o e morte de milhares de pessoas, preju\u00edzos ao desenvolvimento f\u00edsico e cognitivo e o aumento do n\u00famero de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Entre os anos de 2007 a 2014, os casos de intoxica\u00e7\u00e3o notificados junto ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade corresponderam a uma m\u00e9dia de 3.125 por ano, ou seja, diariamente ocorrem no Brasil 8 casos notificados de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos. Calcula-se, no entanto, que para cada caso notificado, h\u00e1 outros 50 n\u00e3o notificados, o que eleva em n\u00edveis descomunais os \u00edndices de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos. Do total anual, 148 levam \u00e0 morte, o que significa que a cada dois dias e meio uma pessoa morre no Brasil intoxicada pelo uso de agrot\u00f3xicos agr\u00edcolas. Na maioria dos estados brasileiros, 20% das intoxica\u00e7\u00f5es notificadas dizem respeito a crian\u00e7as e adolescentes [2].<\/p>\n<p>Estas preocupantes cifras tamb\u00e9m atingem beb\u00eas de 0 a 12 meses de idade. De 2007 a 2014 tivemos uma m\u00e9dia de 42 beb\u00eas intoxicados por ano. Se levarmos em conta que para cada caso notificado h\u00e1 50 casos n\u00e3o notificados, temos um n\u00famero de 2.100 casos de beb\u00eas intoxicados por agrot\u00f3xicos anualmente no Brasil [2].<\/p>\n<p>Cabe destacar que uma das principais causas de contamina\u00e7\u00e3o do meio ambiente e de intoxica\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es \u00e9 a \u201cderiva\u201d, fen\u00f4meno que se refere \u00e0 quantidade de agrot\u00f3xicos que n\u00e3o atinge o cultivo-alvo no caso da pr\u00e1tica de pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, pr\u00e1tica proibida na Uni\u00e3o Europeia desde 2009. Os gastos com a sa\u00fade p\u00fablica decorrentes de todas as consequ\u00eancias geradas pelo uso de agrot\u00f3xicos n\u00e3o s\u00e3o contabilizados na cadeia do agroneg\u00f3cio e, ao fim, quem paga a conta \u00e9 a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros \u00edndices alarmantes referem-se \u00e0 quantidade de res\u00edduos de agrot\u00f3xicos permitida nos alimentos pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira. A quantidade de glifosato permitido no caf\u00e9 \u00e9 10 vezes maior do que a permitida na Uni\u00e3o Europeia; na cana-de-a\u00e7\u00facar \u00e9 20 vezes maior; e na soja \u00e9 200 vezes maior. No feij\u00e3o, o Brasil permite um res\u00edduo m\u00e1ximo de melationa \u2013 inseticida \u2013 400 vezes maior e no br\u00f3colis 250 vezes maior, tamb\u00e9m comparados \u00e0 Uni\u00e3o Europeia [2].<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio publicado em 2017 pelo Greenpeace apontou que 60% das amostras de alimentos analisadas pela ONG continham res\u00edduos de agrot\u00f3xicos e que 36% apresentavam irregularidades \u2013 como a presen\u00e7a de algum tipo de agrot\u00f3xico n\u00e3o permitido para aquele alimento espec\u00edfico ou presen\u00e7a acima do limite m\u00e1ximo permitido por lei. Dentre os alimentos testados estavam o tomate, a couve, o piment\u00e3o verde, o caf\u00e9, arroz integral, arroz branco, feij\u00e3o preto, feij\u00e3o carioca, mam\u00e3o formosa, laranja pera, banana prata e banana nanica [4].<\/p>\n<p>Em 2018, a Anvisa analisou em torno de 2.500 amostras de 18 tipos de alimentos, apontando que cerca de 1\/3 dos vegetais mais consumidos no Brasil apresentam um n\u00edvel de agrot\u00f3xico acima do permitido \u2013 note-se a\u00ed que estamos falando da legisla\u00e7\u00e3o brasileira, que, como vimos, j\u00e1 permite n\u00edveis altamente elevados. Na lista dos alimentos que mais apresentaram problemas estavam o piment\u00e3o (91,8% das amostras), o morango (63,4%), o pepino (57,4%), a alface (54,2%) e a cenoura (49,6) [5].<\/p>\n<p>O problema estende-se tamb\u00e9m \u00e0 \u00e1gua. Na \u00e1gua pot\u00e1vel brasileira s\u00e3o permitidos um limite m\u00e1ximo de res\u00edduo de atrazina \u2013 herbicida \u2013 20 vezes maior do que na Uni\u00e3o Europeia; de 2,4-D \u2013 herbicida, segundo agrot\u00f3xico mais vendido no Brasil \u2013 300 vezes maior; e de glifosato 5 mil vezes maior [2]. Dados recentes do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade apontaram que 1 a cada 4 munic\u00edpios brasileiros t\u00eam sua \u00e1gua contaminada com agrot\u00f3xicos. Entre os agrot\u00f3xicos encontrados em mais de 80% dos testes realizados, cinco s\u00e3o classificados como prov\u00e1veis cancer\u00edgenos pela Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos Estados Unidos. Do total dos 27 pesticidas encontrados na \u00e1gua brasileira, 21 est\u00e3o proibidos na Uni\u00e3o Europeia devido aos riscos de seu uso e consumo [6].<\/p>\n<p>Todos esses dados nos revelam um cen\u00e1rio catastr\u00f3fico, surgido no bojo da agricultura capitalista. Fica claro que o agroneg\u00f3cio \u00e9 um modelo insustent\u00e1vel a longo prazo, incentivado, no entanto, pelo pr\u00f3prio aparato estatal, que cumpre zelosamente sua fun\u00e7\u00e3o de serventia aos interesses da classe dominante. No Brasil, o plano Safra de 2017-2018 disponibilizou cerca de R$200 bilh\u00f5es para o agroneg\u00f3cio e apenas R$30 bilh\u00f5es para a agricultura familiar, uma diferen\u00e7a de 75%. Um dos resultados dessa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 o fato de que o Brasil tem posto mais ingredientes nocivos no prato da popula\u00e7\u00e3o, cen\u00e1rio que vem se agravando ainda mais ao adentrarmos em um processo desenfreado de autoriza\u00e7\u00e3o de novos agrot\u00f3xicos, como j\u00e1 vem ocorrendo.<\/p>\n<p>Ainda no governo Temer, no ano de 2018, 450 novos produtos foram liberados, ano em que tamb\u00e9m foi colocado em pauta o Projeto de Lei 6299\/02, conhecido como o PL do Veneno [7]. A proposta \u00e9 de Blairo Maggi, que foi ministro da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento durante o governo Temer e \u00e9 um dos principais acionistas do grupo Amaggi, fundado pelo seu pai, Andr\u00e9 Maggi. A Amaggi est\u00e1 entre as 20 maiores exportadoras de commodities do Brasil. Somente no Mato Grosso, o grupo \u00e9 respons\u00e1vel por administrar 252,3mil hectares de terras para agricultura. Tamb\u00e9m conhecido como o \u201crei da soja\u201d, Blairo j\u00e1 foi o maior produtor individual de soja do mundo [8]. A PL do Veneno proposta por Blairo pretende facilitar a produ\u00e7\u00e3o, venda e uso de agrot\u00f3xicos no Brasil, propondo altera\u00e7\u00f5es em diversos pontos, como produ\u00e7\u00e3o, importa\u00e7\u00e3o e rotulagem.<\/p>\n<p>Em 2019, com o governo Bolsonaro, a perspectiva para esse cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 nada animadora. Atualmente \u00e0 frente do Minist\u00e9rio da Agricultura, temos a ruralista Tereza Cristina. Apelidada como \u201cmusa do veneno\u201d por seu amplo apoio \u00e0 PL do Veneno e por ter chefiado a comiss\u00e3o que aprovou o projeto de lei, Tereza possui liga\u00e7\u00f5es indiretas com a Syngenta. Sua campanha ao cargo de deputada federal nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es teve como um de seus maiores financiadores o empres\u00e1rio Celso Grieseang, que doou R$37,5 mil \u00e0 candidatura da ministra. Celso \u00e9 um dos propriet\u00e1rios da Sementes Tropical, empresa que comercializa fungicidas em parceria com a Syngenta [9].<\/p>\n<p>Nos tr\u00eas primeiros meses de governo Bolsonaro tivemos um registro recorde de agrot\u00f3xicos. Somente nos cem primeiros dias de governo foram aprovados 121 novos agrot\u00f3xicos e outros 31 j\u00e1 foram inclu\u00eddos na fila de registro [10]. As corpora\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s desses agrot\u00f3xicos t\u00eam em comum hist\u00f3ricos de conflitos agr\u00e1rios, processos e den\u00fancias de contamina\u00e7\u00e3o. Entre as campe\u00e3s em novas certifica\u00e7\u00f5es despontam velhas conhecidas, como a Syngenta e a Adama, s\u00e9tima maior produtora de qu\u00edmicos agr\u00edcolas do mundo [9].<\/p>\n<p>A flexibiliza\u00e7\u00e3o do registro de agrot\u00f3xicos no Brasil serve como mais uma das artimanhas do mercado. Dado que a legisla\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como os da Uni\u00e3o Europeia, por exemplo, tem sido cada vez mais r\u00edgida, o afrouxamento na legisla\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, como o Brasil, permite a recupera\u00e7\u00e3o do mercado internacional de agrot\u00f3xicos. As empresas tendem a realocar sua produ\u00e7\u00e3o em mercados menos restritivos. Dados de 2017 apontam que 30% dos agrot\u00f3xicos permitidos no Brasil, dentre os quais figuram dois dos mais vendidos em terras brasileiras, s\u00e3o proibidos na Uni\u00e3o Europeia [2]. Como apontou Pedro Serafim, coordenador do F\u00f3rum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrot\u00f3xicos, trata-se de fazer do Brasil um celeiro ou um cemit\u00e9rio de agrot\u00f3xicos [9].<\/p>\n<p>\u00c9 preciso destacar ainda que no Brasil h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o de 60% do ICMS e isen\u00e7\u00e3o total da contribui\u00e7\u00e3o para a Seguridade Social (PIS\/COFINS) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio de agrot\u00f3xicos. O Estado, portanto, subvenciona o capital dessas grandes ind\u00fastrias de agroqu\u00edmicos e, com ele, o avan\u00e7o da degrada\u00e7\u00e3o ambiental e da sa\u00fade humana [2]. Tudo \u00e9 feito em nome do lucro das empresas privadas.<\/p>\n<p>O mercado mundial de agrot\u00f3xicos movimenta atualmente US$ 57 bilh\u00f5es por ano [11]. Nesta longa cadeia do agroneg\u00f3cio, o alimento \u00e9 destitu\u00eddo de seu valor enquanto forma de alimenta\u00e7\u00e3o humana e transforma-se em commodity, mercadoria a ser negociada no mercado como qualquer outra. A produ\u00e7\u00e3o alimentar deixa de ser quest\u00e3o estrat\u00e9gica nacional e passa a ser mercadoria adquirida no mercado mundial [12], minando, portanto, qualquer possiblidade do que chamamos de soberania alimentar. A soberania alimentar envolve o direito dos povos decidirem sobre sua pr\u00f3pria pol\u00edtica agr\u00edcola e alimentar de modo que a popula\u00e7\u00e3o tenha controle direto e democr\u00e1tico de elementos importantes de sua sociedade, como do que e como se alimenta e como usa e mant\u00e9m a terra, a \u00e1gua e outros recursos no seu entorno para o benef\u00edcio das gera\u00e7\u00f5es atuais e futuras [13].<\/p>\n<p>O uso massivo de agrot\u00f3xicos \u00e9 um dos elementos centrais da trama que permite a convers\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria em commodities. O que vemos ganhar contornos nesse cen\u00e1rio \u00e9 mais uma das muitas faces do imperialismo. O lugar de maior consumidor mundial de agrot\u00f3xicos que ocupamos desde 2008 est\u00e1 diretamente ligado ao modelo econ\u00f4mico mundial, que coloca o Brasil no lugar de produtor e exportador de commodities, produtos prim\u00e1rios com baixa tecnologia agregada. Dos dez principais produtos de exporta\u00e7\u00e3o brasileira sete s\u00e3o de origem agropecu\u00e1ria. S\u00e3o eles: soja, a\u00e7\u00facar, carne de frango, farelo de soja, carne bovina, celulose e caf\u00e9 em gr\u00e3o [2]. Nessa longa hist\u00f3ria de submiss\u00e3o, os interesses externos do capital se sobrep\u00f5em aos interesses de desenvolvimento e de uma verdadeira soberania nacional, constru\u00edda pelos trabalhadores e trabalhadoras. Nas tramas do imperialismo seguimos alijados da perspectiva de nossa autodetermina\u00e7\u00e3o enquanto povo brasileiro.<\/p>\n<p>Parte central de toda esta engrenagem, as multinacionais do veneno, com suas sedes em pa\u00edses de capitalismo central, despejam toneladas de agrot\u00f3xicos em terras brasileiras, j\u00e1 que em seus pr\u00f3prios pa\u00edses a comercializa\u00e7\u00e3o desses produtos n\u00e3o \u00e9 permitida. Fazem do Brasil e da Am\u00e9rica Latina o quintal para onde escoam sua produ\u00e7\u00e3o e de onde retiram seus lucros. Atualiza-se a\u00ed a mesma l\u00f3gica colonial de outrora, agora com novas roupagens, novos mecanismos e novos mitos: \u201co agro \u00e9 tech, o agro \u00e9 pop, o agro \u00e9 tudo\u201d. Como dissera Eduardo Galeano, \u201cna alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno\u201d [14].<\/p>\n<p>Se queremos transformar o catastr\u00f3fico cen\u00e1rio da explora\u00e7\u00e3o imperialista, \u00e9 preciso olhar com muita aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o da agricultura brasileira. Nosso projeto de uma nova sociedade, liberta da explora\u00e7\u00e3o e da expropria\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, s\u00f3 se tornar\u00e1 vi\u00e1vel a partir de t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias pol\u00edticas que tenham clareza das rela\u00e7\u00f5es indissoci\u00e1veis existentes entre o campo e o urbano. A trag\u00e9dia do uso de agrot\u00f3xicos \u00e9 a trag\u00e9dia humana e ambiental de toda a sociedade. Os riscos e consequ\u00eancias desse uso n\u00e3o atingem apenas os trabalhadores rurais, mas tamb\u00e9m os trabalhadores urbanos, j\u00e1 que estamos falando da possibilidade de contamina\u00e7\u00e3o por exposi\u00e7\u00e3o direta, da contamina\u00e7\u00e3o pelo consumo de alimentos e \u00e1gua com agrot\u00f3xicos, da contamina\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ambiente e, portanto, da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida humana.<\/p>\n<p>Os desdobramentos desse uso s\u00e3o hoje marcas da vida cotidiana no campo e no urbano, que trazem impactos irrevers\u00edveis para a sa\u00fade e o meio ambiente. Estamos frente a um genoc\u00eddio cotidiano e silencioso que arrasa terras e \u00e1guas, precariza nossa alimenta\u00e7\u00e3o e violenta a pr\u00f3pria vida humana. \u00c9 preciso ter clareza de que a luta contra os grilh\u00f5es do imperialismo \u00e9 tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o e a luta por um projeto de soberania alimentar e nacional, que passa necessariamente por um novo projeto de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>* Militante do PCB em S\u00e3o Paulo; psic\u00f3loga social e pesquisadora de temas relacionados ao campesinato brasileiro<\/p>\n<p>[1] https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2019\/04\/22\/brasil-consome-18-dos-agrotoxicos-no-mundo\/<br \/>\n[2] BOMBARID, L.M. Geografia do uso de agrot\u00f3xicos no Brasil e conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. S\u00e3o Paulo: FFLCH, USP, 2017.<br \/>\n[3] PUBLIC EYE. Highly hazardous profits: how Syngenta makes billions by selling toxic pesticides. Lousanne: Public Eye, 2019.<br \/>\n[4] http:\/\/greenpeace.org.br\/agricultura\/segura-este-abacaxi.pdf<br \/>\n[5] https:\/\/www.hypeness.com.br\/2016\/07\/anvisa-divulga-lista-de-alimentos-com-maior-nivel-de-contaminacao-por-agrotoxicos\/<br \/>\n[6] https:\/\/apublica.org\/2019\/04\/coquetel-com-27-agrotoxicos-foi-achado-na-agua-de-1-em-cada-4-municipios-consulte-o-seu\/<br \/>\n[7] http:\/\/contraosagrotoxicos.org\/agrotoxicos-os-interesses-economicos-nao-podem-se-sobrepor-aos-interesses-da-vida\/<br \/>\n[8] https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11082\/blairo-maggi-um-barao-da-soja-no-ministerio-da-agricultura\/<br \/>\n[9] https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2019\/03\/28\/conheca-as-empresas-que-pediram-os-novos-pesticidas-extremamente-toxicos\/<br \/>\n[10] https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2019\/04\/01\/governo-concede-em-marco-mais-35-registros-de-agrotoxicos-ja-sao-121-produtos-liberados-no-ano\/<br \/>\n[11] CUT. Rotas do veneno: mercado de agrot\u00f3xicos, desafios e propostas para o mundo do trabalho. S\u00e3o Paulo: CUT, 2017.<br \/>\n[12] OLIVEIRA, A.U. A mundializa\u00e7\u00e3o da agricultura brasileira. S\u00e3o Paulo: Iand\u00e9 Editorial, 2016.<br \/>\n[13] https:\/\/viacampesina.org\/en\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2018\/02\/Food-Sovereignty-a-guide-ES-version-low-res.pdf<br \/>\n[14] GALEANO, E. As veias abertas da Am\u00e9rica Latina. Porto Alegre: L&amp;M Pocket, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23249\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239,20],"tags":[221],"class_list":["post-23249","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","category-c1-popular","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-62Z","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23249\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}