{"id":23298,"date":"2019-06-04T21:17:38","date_gmt":"2019-06-05T00:17:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23298"},"modified":"2019-06-04T21:17:38","modified_gmt":"2019-06-05T00:17:38","slug":"sobre-os-resultados-das-eleicoes-europeias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23298","title":{"rendered":"Sobre os resultados das elei\u00e7\u00f5es europeias"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.tveuropa.pt\/cnt\/uploads\/F19PE013-696x464.jpg\"\/><!--more-->R\u00e9my Herrera<\/p>\n<p>ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>Ainda est\u00e1 por se fazer a an\u00e1lise em profundidade das elei\u00e7\u00f5es europeias. Dos seus resultados em cada pa\u00eds e da sua repercuss\u00e3o no conjunto da UE e fora dela. A Fran\u00e7a foi um dos pa\u00edses em que a extrema-direita ganhou. E \u00e9 urgente identificar as raz\u00f5es que levam um partido de extrema-direita consolidar e alargar o seu apoio entre as camadas populares.<\/p>\n<p>A bem dizer, os resultados das elei\u00e7\u00f5es europeias de 25-26 de maio revelaram poucas surpresas. Em quase todo o lado os partidos das direitas extremas obtiveram bons e mesmo muito bons resultados. A tend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 nova no \u00e2mbito do continente. Ela confirma-se, consolida-se. E inquieta. O Rassemblement national (RN, ex-Front national) de Marine Le Pen venceu na Fran\u00e7a, com 23,3% dos votos expressos, enquanto na It\u00e1lia a Liga do Norte (Lega Nord per l\u2019 Indipendenza della Padania) do atual ministro do Interior e Vice-presidente do Conselho de Ministros italiano, Matteo Salvini, registou 34,3% dos votos. Al\u00e9m dos 22 franceses do RN e dos 28 italianos da Liga, o grupo \u201cEuropa das na\u00e7\u00f5es e das liberdades\u201d contaria tamb\u00e9m com tr\u00eas deputados austr\u00edacos do Partido da Liberdade da \u00c1ustria (Freiheitliche Partei \u00d6sterreichs), tr\u00eas do partido nacionalista Interet Flamand (Vlaams Belang) e um do partido populista est\u00f4nio (Eesti Konservatiivne Rahvaerakond). A este grande contingente da extrema-direita oficialmente proclamada deveriam sem d\u00favida ser adicionados, pontualmente, os membros das for\u00e7as reacion\u00e1rias \u201ceuroc\u00e9ticas\u201d do Direito e Justi\u00e7a da Pol\u00f4nia (Prawo I Sprawiedliwo\u015b\u0107) e da Uni\u00e3o C\u00edvica H\u00fangara (FIDESZ), entre outras. Em geral, fora da Fran\u00e7a e da It\u00e1lia, as direitas conservadora e neoliberal ganharam em toda a Europa \u2013 com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, onde a esquerda ganhou.<\/p>\n<p>Neste quadro europeu que gradualmente se obscurece, o caso da Fran\u00e7a \u00e9 bastante singular. L\u00e1, o partido da maioria presidencial, a Rep\u00fablica em Marcha (LREM) criada em 2016 por e para Emmanuel Macron \u2013 que confiscou a campanha europeia pelos seus \u201cone-man-shows\u201d do Grande Debate, e depois pelo seu envolvimento pessoal, a ponto de figurar nos cartazes eleitorais e de eclipsar a cabe\u00e7a de lista \u2013 , perdeu claramente (22,4%) face ao RN. Perdeu apesar da nega\u00e7\u00e3o de um chefe de Estado emparedado no autismo pol\u00edtico, que se considera \u201cconfortado\u201d na sua recusa de \u201cmudar de rumo\u201d e apesar das acrobacias de linguagem de um governo decidido a passar \u00e0 \u201csegunda fase das reformas\u201d do mandato presidencial. Os dois partidos \u2013 nos quais t\u00eam parcialmente origem o LRM \u2013 Les Republicains (a direita tradicional) e os res\u00edduos do Partido Socialista (de direita tamb\u00e9m, mas da nova tend\u00eancia neoliberal globalista, euro-id\u00f3latra e pr\u00f3-atlantista), foram ao tapete: 8,5% dos votos para o primeiro, 6,2% para o segundo \u2013 com a generosidade de se arredondarem as suas percentagens \u00e0 casa decimal superior. Os resultados conjuntos das duas forma\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias que h\u00e1 quase 40 anos t\u00eam em conjunto aplicado as pol\u00edticas neoliberais \u2013 por vezes sob a forma da coabita\u00e7\u00e3o entre um presidente da Rep\u00fablica e um Primeiro-ministro de lados \u201copostos\u201d \u2013 n\u00e3o chegam a 15%. A rejei\u00e7\u00e3o do neoliberalismo \u00e9 portanto maci\u00e7a. Continuar\u00e1 ainda a ser imposto aos franceses. Democraticamente, \u00e9 o que nos dizem. Quando uns 23 613 483 cidad\u00e3os (ou seja quase 49,9% dos inscritos, pouco menos do que os eleitores que votaram) decidiram n\u00e3o participar na vota\u00e7\u00e3o, abstendo-se. E 551 235 outros votaram em branco (um modo de express\u00e3o agora contabilizado). Mais um meio milh\u00e3o suplementar de boletins de voto anulados.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter estudado latim na escola para constatar que o espet\u00e1culo oferecido pela esquerda \u00e9 sinistro. A Fran\u00e7a insubmissa (com 6,3%) congratulou-se com a elei\u00e7\u00e3o de seis deputados, quanto n\u00e3o tinha nenhum \u2013 normal, afinal de contas, o movimento impulsionado por Jean-Luc M\u00e9lenchon n\u00e3o existia ainda quando das elei\u00e7\u00f5es de 2014. Culto do chefe (\u00e9 certo que excepcionalmente talentoso e culto), sectarismo da sua envolvente mais pr\u00f3xima, incapacidade definitiva em produzir um programa ao mesmo tempo radical e coerente explicam particularmente este fiasco. O Partido Comunista Franc\u00eas? H\u00e1 muito que deixou de falar de socialismo, apenas do social, e mais frequentemente do societal\u2026 Chegou aos 2,5%, ou seja, abaixo dos 3% (sem reembolso de despesas de campanha) e, portanto, tamb\u00e9m abaixo dos 5% (nenhum eleito ao Parlamento Europeu). Os trotskistas da Lutte Ouvri\u00e9re est\u00e3o nos 0,7%; imperturb\u00e1veis. Seguramente n\u00e3o trotskista, o Partido Revolucion\u00e1rio Comunistas est\u00e1 nos 0, 1%. N\u00e3o procure mais! A ta\u00e7a est\u00e1 vazia. V\u00e3o nos dizer: o futuro \u00e9 a ecologia. E estaremos certos. Mas provavelmente n\u00e3o com os nossos. Do alto dos seus 13,5%, sentem lhes crescer as asas e querem \u201chegemonizar\u201d a esquerda. Porque ainda falta esclarecer se o seu partido, Europe \u00c9cologie, \u00e9 de esquerda! Yannick Jadot, o cabe\u00e7a de lista \u00e0s Europeias, n\u00e3o se manifestou favor\u00e1vel a uma reforma da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica e \u00e0 sua \u00abaproxima\u00e7\u00e3o ao estatuto da fun\u00e7\u00e3o privada\u00bb? Tal como deseja o Presidente Macron! Que esperar de Pascal Canfin, eleito \u2013 sem qualquer vergonha \u2013 deputado ao Parlamento Europeu na segunda posi\u00e7\u00e3o na lista macronista\u2026 A lista de algu\u00e9m que retrocedeu na sua promessa de banir o glifosato antes de 2021, que se sentou sobre os Acordos de Paris sobre o Clima e se prostra frente aos lobbies dos poluidores! E que dizer de um Cohn-Bendit? \u00c9 in\u00fatil gastar energia, tinta e papel para evocar este palha\u00e7o. Papel higi\u00eanico ser\u00e1 suficiente. Os meus pensamentos v\u00e3o apenas para os pobres veteranos do Maio de 68 que t\u00eam que engolir a sua m\u00e1scara bochechuda e sorridente de traidor nas fotos dos livros de Hist\u00f3ria!<\/p>\n<p>Regressemos antes ao essencial, isto \u00e9, \u00e0 vit\u00f3ria da extrema-direita na Fran\u00e7a. Por que raz\u00e3o ganhou? Por que raz\u00e3o se beneficia de um apoio crescente entre as classes populares que, tendo em vista o seu gosto pronunciado pela mesti\u00e7agem, n\u00e3o parecem racistas? Numerosas causas, trabalhando a sociedade em profundidade por um longo per\u00edodo, de natureza socioecon\u00f4mica, ideol\u00f3gica, mesmo psicol\u00f3gica, poderiam ser mobilizadas. Especificando que as nossas hip\u00f3teses dizem respeito a um tema: que o racismo \u00e9 uma doutrina intrinsecamente de direita e visceralmente difundida pelo pensamento burgu\u00eas a fim de dividir as classes dominadas; que as classes populares n\u00e3o s\u00e3o geneticamente mais est\u00fapidas do que as outras e assim \u2013 ainda que manipuladas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o s\u00e3o menos capazes de identificar o seu interesse de classe; e que largas parcelas destas mesmas classes laboriosas est\u00e3o hoje dispon\u00edveis para uma mudan\u00e7a social radical, prontas para uma \u201csa\u00edda do sistema\u201d (certas partes das classes m\u00e9dias parecendo tamb\u00e9m na imin\u00eancia de se deslocar para o mesmo campo). Arrisquemo-nos a avan\u00e7ar uma dessas causas, entre outras, importante naquilo que diz respeito \u00e0 esquerda. Mas tabu. Ei-la: mais e mais segmentos das classes laboriosas d\u00e3o o seu apoio \u00e0 extrema-direita porque a julgam \u2013 erradamente &#8211; como mais capaz de lhes dar respostas aos in\u00fameros sofrimentos que os afligem e aos medos que os assombram. Medo face ao desemprego, \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o social, medo face \u00e0 abertura das fronteiras e \u00e0 perda da soberania nacional, medo finalmente face \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. Tudo ao mesmo tempo, como diz o outro. Porque eles pensam tamb\u00e9m \u2013 justamente neste caso \u2013 que a maioria das organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias da esquerda, tal como funcionam atualmente, com as suas contradi\u00e7\u00f5es, as suas divis\u00f5es, as suas hesita\u00e7\u00f5es, as suas defici\u00eancias, renunciaram (ou deixaram de ter capacidade) de defend\u00ea-los.<\/p>\n<p>As for\u00e7as da esquerda n\u00e3o est\u00e3o encostadas \u00e0 parede, est\u00e3o no fundo da parede. Da parede capitalista. Ou elas finalmente entendem que n\u00e3o haver\u00e1 sa\u00edda da crise capitalista sen\u00e3o pela sa\u00edda do pr\u00f3prio sistema capitalista, ou o pa\u00eds (e a Europa com ele) seguir\u00e1 inelutavelmente a via que os EUA acabam de empreender, a do acesso ao poder de uma extrema-direita. Como \u00e9 o caso dos seus dois aliados indefect\u00edveis que s\u00e3o Israel e a Ar\u00e1bia Saudita. E muito recentemente do Brasil, onde Jair Bolsonaro \u00e9 um produto fatal do fracasso do reformismo. Portanto, sair do capitalismo surge como o imperativo absoluto de todos os verdadeiros progressistas. Ambientalistas inclu\u00eddos, \u00e9 claro, e em primeiro lugar, que devem tomar consci\u00eancia de que se trata de uma quest\u00e3o de vida ou de morte, que a alternativa fundamental permanece mais do que nunca a de socialismo ou barb\u00e1rie. Se 88 milh\u00f5es de europeus vivem em condi\u00e7\u00f5es inaceit\u00e1veis de pobreza, uns privados de emprego, outros lan\u00e7ados \u00e0 competi\u00e7\u00e3o entre trabalhadores, todos vendo os seus direitos eliminados, \u00e9 porque a lei da selva do capitalismo o imp\u00f5e. Se o \u201cEstado franc\u00eas\u201d &#8211; para nomear aquilo em que est\u00e1 em vias de se tornar \u2013 vende a retalho o melhor da ind\u00fastria nacional (entre 1.000 exemplos poss\u00edveis, o ramo de energia da Alstom \u00e0 General Electric. .. que despede 1.000 assalariados em Belfort), foi porque fez a escolha de abdicar face aos ditames de Bruxelas e \u00e0 ditadura do grande capital globalizado. Se os migrantes procuram alcan\u00e7ar as costas da Europa \u2013 e \u00e9 devido receb\u00ea-los e trat\u00e1-los dignamente \u2013, \u00e9 porque a mis\u00e9ria e a guerra os impelem a faz\u00ea-lo, arriscando as suas vidas, porque o capitalismo saqueia as suas sociedades e porque o imperialismo que gera os faz sofrer conflitos criminosos.Se a crise clim\u00e1tica provoca tanta devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 porque nenhum limite \u00e9 colocado \u00e0 loucura e \u00e0 rapacidade dos exploradores. \u00c9 preciso arrancar de n\u00f3s essa espiral destrutiva.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de Justi\u00e7a exige uma ruptura com o capitalismo e a cessa\u00e7\u00e3o das guerras imperialistas. Face aos \u00f3dios, \u00e0s raivas, \u00e0s viol\u00eancias em germe na extrema-direita &#8211; \u00faltimo baluarte do sistema capitalista \u2013 a raz\u00e3o apela \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as progressistas, que passa pelo abandono do reformismo hip\u00f3crita e colaboracionista e ao retorno ao projeto p\u00f3s-capitalista de transi\u00e7\u00f5es socialistas. Nos anos 1920-30, os fascismos se alastraram sobre o continente europeu para se opor aos comunistas que, se n\u00e3o triunfavam na esteira do Outubro Vermelho, combatiam de armas na m\u00e3o, heroicamente, at\u00e9 ao fim, dos Spartakusbund \u00e0s Brigadas Internacionais. As figuras que nos servem de exemplo e nos fazem levantar a cabe\u00e7a chamam-se Rosa Luxemburgo ou Dolores Ib\u00e1rruri G\u00f3mez. As extremas direitas modernas t\u00eam por seu lado prosperado naturalmente sobre o estrume nauseabundo deixado no meio da cena pol\u00edtica pelos l\u00edderes de uma esquerda socialdemocratizada, aburguesada, feita de vacuidade, saciada pelas migalhas que os capitalistas lhe lan\u00e7am, domesticada por uma renda imperialista extorquida aos povos do Sul. L\u00edderes que se confessaram derrotados e capitularam miseravelmente sem sequer pensar em lutar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23298\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[18],"tags":[225],"class_list":["post-23298","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s22-europa","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-63M","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23298","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23298"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23298\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23298"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}