{"id":23300,"date":"2019-06-05T21:27:21","date_gmt":"2019-06-06T00:27:21","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23300"},"modified":"2019-06-05T21:36:17","modified_gmt":"2019-06-06T00:36:17","slug":"tiananmen-30-anos-depois-o-massacre-que-nao-foi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23300","title":{"rendered":"Tiananmen 30 anos depois: o massacre que n\u00e3o foi"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/baobinhluan.com\/uploads\/news\/2017_06\/ohw6g9-20170622-tham-sat-thien-an-mon-oan-hon-hien-linh-mong-duoc-dan-ve-nha.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->REVISTA OPERA<\/p>\n<p>por Brian Becker<br \/>\nLiberation News \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o de Gabriel Deslandes<\/p>\n<p>Com o presente artigo do articulista americano Brian Becker, a Revista Opera inicia uma s\u00e9rie especial sobre os 30 anos do incidente da Pra\u00e7a da Paz Celestial em Pequim, em junho de 1989. Centro at\u00e9 hoje de pol\u00eamica pol\u00edtica nas rela\u00e7\u00f5es sino-ocidentais, esse epis\u00f3dio tem sido massivamente apresentado por governos, monop\u00f3lios de m\u00eddia e a historiografia dominante a partir de uma \u00fanica perspectiva oficial \u2013 sempre elogiosa aos manifestantes ocupantes da pra\u00e7a e condenat\u00f3ria da Rep\u00fablica Popular da China. Com o compromisso jornal\u00edstico de por \u00e0 prova discursos hegem\u00f4nicos e \u201cverdades consolidadas\u201d no senso comum, a Opera trar\u00e1 ao p\u00fablico brasileiro, neste m\u00eas de junho de 2019, artigos in\u00e9ditos em Portugu\u00eas de jornalistas, historiadores e pesquisadores que se debru\u00e7aram sobre o tema nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 30 anos atr\u00e1s, todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o dos EUA, juntamente com o ent\u00e3o presidente Bush e o Congresso americano, estavam agitando uma histeria em larga escala e atacando o governo chin\u00eas pelo que foi descrito como o massacre de milhares de estudantes n\u00e3o violentos e \u201cpr\u00f3-democracia\u201d que ocupavam a Pra\u00e7a Tiananmen \u2013 ou Pra\u00e7a da Paz Celestial \u2013 por sete semanas.<\/p>\n<p>A histeria gerada acerca do \u201cmassacre\u201d da Pra\u00e7a Tiananmen foi baseada em uma narrativa fict\u00edcia sobre o que realmente aconteceu quando o governo chin\u00eas finalmente esvaziou o local dos manifestantes em 4 de junho de 1989.<\/p>\n<p>A demoniza\u00e7\u00e3o da China foi altamente eficaz. Quase todos os setores da sociedade americana, incluindo a maior parte da \u201cesquerda\u201d, aceitaram a narrativa imperialista sobre o que aconteceu.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a contagem oficial do governo chin\u00eas foi imediatamente descartada como propaganda falsa. A China informou que cerca de 300 pessoas morreram em confrontos no dia 4 de junho e que muitos dos mortos eram soldados do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o do Povo. A China insistiu que n\u00e3o houve massacre de estudantes na Pra\u00e7a Tiananmen e, de fato, os soldados removeram os manifestantes da pra\u00e7a sem qualquer disparo. [1]<\/p>\n<p>O governo chin\u00eas tamb\u00e9m afirmou que soldados desarmados que entraram na Pra\u00e7a Tiananmen nos dois dias anteriores a 4 de junho foram incinerados e linchados, com seus cad\u00e1veres pendurados em \u00f4nibus. Outros soldados foram queimados vivos quando ve\u00edculos do ex\u00e9rcito foram incendiados, sendo impedidos de abandonarem seus carros, e muitos outros foram seriamente agredidos por violentos ataques de v\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>Essas contas eram verdadeiras e bem documentadas. N\u00e3o seria dif\u00edcil imaginar com que viol\u00eancia o Pent\u00e1gono e as ag\u00eancias policiais dos EUA teriam reagido se o movimento Occupy Wall Street, por exemplo, tivesse incendiado soldados e policiais, roubado suas armas e os linchado enquanto o governo removia os manifestantes dos espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Em um artigo de 5 de junho de 1989, o Washington Post descreveu como os combatentes antigoverno estavam organizados em forma\u00e7\u00f5es de 100 a 150 pessoas. Eles estavam armados com coquet\u00e9is molotov e barras de ferro para se defrontarem com o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o do Povo (ELP), que, at\u00e9 dois dias antes de 4 de junho, ainda estava desarmado.<\/p>\n<p>O que aconteceu na China, que tirou a vida dos opositores do governo e dos soldados em 4 de junho, n\u00e3o foi um massacre de estudantes pac\u00edficos, mas uma batalha entre soldados do ELP e destacamentos armados do chamado \u201cmovimento pr\u00f3-democracia\u201d.<\/p>\n<p>Em uma avenida no oeste de Pequim, manifestantes incendiaram um comboio militar com mais de 100 caminh\u00f5es e ve\u00edculos blindados. Imagens a\u00e9reas de conflagra\u00e7\u00e3o e as colunas de fuma\u00e7a refor\u00e7aram poderosamente os argumentos do governo chin\u00eas de que as tropas eram v\u00edtimas e n\u00e3o executoras. Outras cenas mostram cad\u00e1veres de soldados e manifestantes retirando os rifles autom\u00e1ticos dos soldados que n\u00e3o resistiram, admitiu o Washington Post em uma mat\u00e9ria favor\u00e1vel \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o antigovernamental em 12 de junho de 1989.[2]<\/p>\n<p>O Wall Street Journal, voz maior do anticomunismo, serviu como uma vociferante l\u00edder de torcida do movimento \u201cpr\u00f3-democracia\u201d. Entretanto, sua cobertura logo ap\u00f3s 4 de junho reconheceu que muitos \u201cmanifestantes radicalizados, alguns agora dispondo de armas e ve\u00edculos, comandaram confrontos com os militares\u201d e estavam se preparando para lutas armadas maiores. A reportagem do Wall Street Journal sobre os acontecimentos de 4 de junho retrata uma imagem v\u00edvida:<\/p>\n<p>\u201cEnquanto colunas de tanques e dezenas de milhares de soldados se aproximavam de Tiananmen, muitas tropas foram atacadas por multid\u00f5es enfurecidas\u2026 Dezenas de soldados foram retirados de caminh\u00f5es, gravemente espancados e largados para morrer. Em um cruzamento a oeste da pra\u00e7a, o corpo de um jovem soldado, que havia sido espancado at\u00e9 a morte, foi despido e pendurado na lateral de um \u00f4nibus. O cad\u00e1ver de outro soldado foi amarrado em um cruzamento a leste da pra\u00e7a.\u201d[3]<\/p>\n<p>O massacre que n\u00e3o foi<br \/>\nNos dias imediatamente posteriores a 4 de junho de 1989, as manchetes, artigos e editoriais do New York Times utilizavam a cifra de que \u201cmilhares\u201d de ativistas pac\u00edficos haviam sido massacrados quando o ex\u00e9rcito mandou tanques e soldados para a pra\u00e7a. O n\u00famero que o Times estava usando como estimativa de mortos era de 2.600. Essa cifra foi usada como o n\u00famero de ativistas estudantis que foram assassinados em Tiananmen. Quase todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o dos EUA reportaram \u201cmuitos milhares\u201d mortos. Muitos desses ve\u00edculos afirmaram que mais de oito mil foram executados.<\/p>\n<p>Tim Russert, chefe do departamento da NBC em Washington, trabalhando mais tarde para o Meet the Press, disse que \u201cdezenas de milhares\u201d morreram na Pra\u00e7a Tiananmen.[4]<\/p>\n<p>A vers\u00e3o ficcional do \u201cmassacre\u201d foi depois corrigida em pequena medida por rep\u00f3rteres ocidentais que participaram das fabrica\u00e7\u00f5es e que estavam ansiosos para alterar seus registros para que pudessem alegar que fizeram \u201ccorre\u00e7\u00f5es\u201d. Mas a\u00ed j\u00e1 era tarde demais, e eles tamb\u00e9m sabiam disso. A consci\u00eancia p\u00fablica foi moldada. A narrativa falsa se tornou a narrativa dominante. Eles haviam massacrado com sucesso os fatos para atender \u00e0s necessidades pol\u00edticas do governo americano.<\/p>\n<p>\u201cA maioria das centenas de jornalistas estrangeiros naquela noite, inclusive eu, estava em outras partes da cidade ou foi removida da pra\u00e7a para que n\u00e3o pudesse testemunhar o cap\u00edtulo final da hist\u00f3ria estudantil. Aqueles que tentaram permanecer pr\u00f3ximos apresentaram relatos dram\u00e1ticos que, em alguns casos, refor\u00e7aram o mito de um massacre estudantil\u201d, escreveu Jay Mathews, o primeiro chefe de reda\u00e7\u00e3o do Washington Post em Pequim, em um artigo de 1998 da Columbia Journalism Review.<\/p>\n<p>O artigo de Mathews, que inclui suas pr\u00f3prias admiss\u00f5es quanto ao uso da terminologia \u201cmassacre da Pra\u00e7a Tiananmen\u201d, veio nove anos ap\u00f3s o ocorrido, e ele reconheceu que corre\u00e7\u00f5es a posteriori t\u00eam pouco impacto. \u201cOs fatos da Tiananmen s\u00e3o conhecidos h\u00e1 muito tempo. Quando Clinton visitou a pra\u00e7a em junho deste ano, tanto The Washington Post quanto The New York Times explicaram que ningu\u00e9m morreu l\u00e1 [na Pra\u00e7a Tiananmen] durante a repress\u00e3o de 1989. Mas essas foram explica\u00e7\u00f5es breves, no final de longos artigos. Eu duvido que elas contribu\u00edram muito para matar o mito.\u201d[5]<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, todas as reportagens sobre o massacre dos estudantes diziam basicamente a mesma coisa e, portanto, parecia que elas deviam ser verdadeiras. Contudo, essas reportagens n\u00e3o estavam baseadas em depoimentos de testemunhas oculares.<\/p>\n<p>O que realmente aconteceu<br \/>\nPor sete semanas at\u00e9 4 de junho, o governo chin\u00eas foi extraordinariamente comedido em n\u00e3o confrontar aqueles que paralisaram o centro da \u00e1rea central da capital chinesa. O primeiro-ministro se reuniu diretamente com os l\u00edderes dos protestos, e a reuni\u00e3o foi transmitida pela televis\u00e3o nacional. Isso n\u00e3o desarmou a situa\u00e7\u00e3o, mas encorajou os l\u00edderes dos manifestantes, que sabiam que contavam com o total apoio dos EUA.<\/p>\n<p>Os l\u00edderes do protesto ergueram no meio da Pra\u00e7a Tiananmen uma enorme est\u00e1tua que lembrava a Est\u00e1tua da Liberdade de Nova York. Eles estavam sinalizando para o mundo inteiro que suas simpatias pol\u00edticas estavam com os pa\u00edses capitalistas e, em particular, os EUA. Eles proclamavam que continuariam os protestos at\u00e9 que o governo chin\u00eas fosse deposto.<\/p>\n<p>Sem nenhum fim \u00e0 vista, a lideran\u00e7a chinesa decidiu acabar com os protestos limpando a Pra\u00e7a Tiananmen. Tropas entraram na pra\u00e7a sem armas em 2 de junho, e muitos soldados foram espancados, alguns foram mortos, e seus ve\u00edculos do ex\u00e9rcito incendiados.<\/p>\n<p>Em 4 de junho, o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o do Povo voltou a entrar na pra\u00e7a com armas. De acordo com os relatos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o dos EUA, esse foi o momento em que os soldados da ELP, de metralhadoras, ceifaram a vida de pac\u00edficos manifestantes estudantis em um massacre de milhares de pessoas.<\/p>\n<p>A China respondeu que os relatos do \u201cmassacre\u201d na Pra\u00e7a Tiananmen foram uma inven\u00e7\u00e3o criada tanto pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais quanto pelos l\u00edderes do protesto, que usaram tal m\u00eddia como plataforma para uma campanha de propaganda internacional em prol de seus interesses.<\/p>\n<p>Em 12 de junho de 1989, oito dias ap\u00f3s o confronto, o New York Times publicou uma reportagem \u201cexaustiva\u201d, por\u00e9m totalmente falsa, de um estudante que teria sido testemunha ocular do Massacre de Tiananmen, Wen Wei Po. O texto era cheio de relatos detalhados de brutalidade, assassinato em massa e heroicas batalhas de rua. Recontava o n\u00famero de metralhadoras do ELP presentes no telhado do Museu da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, com vista para a pra\u00e7a e para os estudantes que estavam sendo mortos. Essa reportagem foi difundida pela m\u00eddia em todos os EUA.[6]<\/p>\n<p>Embora tratado como prova evang\u00e9lica e irrefut\u00e1vel de que o governo chin\u00eas estava mentindo, a reportagem de \u201ctestemunha ocular\u201d de Wen Wei Po era t\u00e3o exagerada e desacreditaria o New York Times de tal forma na China que o correspondente do Times em Pequim, Nicholas Kristof, que tinha servido como porta-voz dos manifestantes, se viu obrigado a relativizar os principais pontos do artigo.<\/p>\n<p>Kristof escreveu em um artigo de 13 de junho de 1989:<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o de onde os tiroteios ocorreram \u00e9 importante por causa da alega\u00e7\u00e3o do governo de que ningu\u00e9m foi baleado na Pra\u00e7a Tiananmen. A televis\u00e3o estatal chegou a mostrar filmes de estudantes marchando pacificamente para longe da pra\u00e7a, pouco depois do amanhecer, como prova de que n\u00e3o foram abatidos.<\/p>\n<p>A cena central no artigo [de testemunhas] \u00e9 de tropas batendo e metralhando estudantes desarmados no entorno do Monumento aos Her\u00f3is do Povo, no meio da pra\u00e7a Tiananmen. V\u00e1rias outras testemunhas, chinesas e estrangeiras, afirmam que isso n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que soldados com metralhadoras foram posicionados no telhado do museu, conforme relatado no artigo de Wen Wei Po. Este rep\u00f3rter estava estacionado ao norte do museu e n\u00e3o viu metralhadoras ali. Outros rep\u00f3rteres e testemunhas na vizinhan\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiram v\u00ea-los.<\/p>\n<p>O tema central do artigo de Wen Wei Po foi que as tropas subsequentemente espancaram e metralharam estudantes na \u00e1rea ao redor do monumento e que uma linha de ve\u00edculos blindados cortou sua retirada. Mas as testemunhas dizem que os ve\u00edculos blindados n\u00e3o cercaram o monumento \u2013 eles ficaram no extremo norte da pra\u00e7a \u2013 e que as tropas n\u00e3o atacaram os estudantes agrupados ao redor do monumento. V\u00e1rios outros jornalistas estrangeiros tamb\u00e9m estiveram perto do monumento naquela noite, e ningu\u00e9m reportou que os estudantes foram atacados ao redor do monumento.\u201d[7]<\/p>\n<p>O governo chin\u00eas reconhece que os combates de rua e confrontos armados aconteceram em bairros pr\u00f3ximos. O governo afirma que aproximadamente 300 morreram naquela noite, incluindo muitos soldados que morreram de tiros, coquet\u00e9is molotov e espancamentos. Por\u00e9m, os chineses insistiram que n\u00e3o houve massacre.<\/p>\n<p>Kristof tamb\u00e9m diz que houve confrontos em v\u00e1rias ruas, mas refuta o relato de \u201ctestemunha ocular\u201d sobre um massacre de estudantes na Pra\u00e7a Tiananmen: \u201cos estudantes e um cantor pop, Hou Dejian, estavam negociando com as tropas e decidiram sair de madrugada, entre 5 e 6 da manh\u00e3. Os estudantes todos sa\u00edram juntos. A televis\u00e3o chinesa mostrou cenas de estudantes saindo e da pra\u00e7a aparentemente vazia enquanto as tropas se deslocavam para a sa\u00edda dos estudantes\u201d.<\/p>\n<p>Tentativa de contrarrevolu\u00e7\u00e3o na China<br \/>\nNa verdade, o governo americano esteve ativamente envolvido na promo\u00e7\u00e3o dos protestos \u201cpr\u00f3-democracia\u201d por meio de uma extensa m\u00e1quina de propaganda internacionalmente coordenada, que financiou rumores, meias-verdades e mentiras a partir do momento em que os protestos come\u00e7aram em meados de abril de 1989.<\/p>\n<p>O objetivo do governo dos EUA era promover uma mudan\u00e7a de regime na China e derrubar o Partido Comunista, que est\u00e1 no poder desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 1949. Como muitos militantes de movimentos progressistas de hoje n\u00e3o eram nascidos ou eram crian\u00e7as pequenas na \u00e9poca do incidente de Tiananmen em 1989, o melhor exemplo recente de como funciona uma opera\u00e7\u00e3o imperialista de desestabiliza\u00e7\u00e3o\/mudan\u00e7a de regime est\u00e1 revelado na recente derrubada do governo ucraniano. Protestos pac\u00edficos na pra\u00e7a central recebem apoio internacional, financiamento e apoio da m\u00eddia americana e das pot\u00eancias ocidentais; eles eventualmente acabam ficando sob a lideran\u00e7a de grupos armados que s\u00e3o saudados como combatentes da liberdade pelo Wall Street Journal, Fox News e outros meios de comunica\u00e7\u00e3o; e finalmente o governo alvo da derrubada pela CIA \u00e9 totalmente demonizado caso empregue for\u00e7as policiais ou militares.<\/p>\n<p>No caso dos protestos \u201cpr\u00f3-democracia\u201d na China em 1989, o governo dos EUA estava tentando criar uma guerra civil. A Voz da Am\u00e9rica aumentou suas transmiss\u00f5es em l\u00edngua chinesa para 11 horas por dia e direcionou seu sinal \u201cdiretamente para cerca de 2.000 antenas parab\u00f3licas na China operadas, em sua maioria, pelo Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o do Povo\u201d.[8]<\/p>\n<p>As transmiss\u00f5es da Voz da Am\u00e9rica para as unidades do ELP foram preenchidas com relatos de que algumas unidades do ELP estavam atirando umas nas outras, e diferentes unidades passaram a ser leais aos manifestantes, enquanto outras ao governo.<\/p>\n<p>A Voz da Am\u00e9rica e os meios de comunica\u00e7\u00e3o americanos tentaram criar confus\u00e3o e p\u00e2nico entre os apoiadores do governo chin\u00eas. Pouco antes de 4 de junho, eles informaram que o primeiro-ministro, Li Peng, havia sido preso e que Deng Xiaoping estava \u00e0 beira da morte.<\/p>\n<p>A maior parte do governo americano e da m\u00eddia esperava que o governo chin\u00eas fosse derrubado por for\u00e7as pol\u00edticas pr\u00f3-ocidentais, tal como estava come\u00e7ando a acontecer com a derrubada de governos socialistas em toda a Europa Oriental e Central naquela \u00e9poca (1988-1991), ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o do reformas pr\u00f3-capitalistas de Gorbachev na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991.<\/p>\n<p>Na China, o movimento de protesto \u201cpr\u00f3-democracia\u201d foi liderado por estudantes privilegiados e bem relacionados de universidades de elite que pediam explicitamente a substitui\u00e7\u00e3o do socialismo pelo capitalismo. Seus l\u00edderes estavam particularmente ligados aos EUA. \u00c9 claro que milhares de outros estudantes que participaram dos protestos estavam na pra\u00e7a porque tinham queixas contra o governo.<\/p>\n<p>Contudo, a lideran\u00e7a do movimento ligada ao imperialismo tinha um plano expl\u00edcito para derrubar o governo. Chai Ling, que foi reconhecida como a l\u00edder dos estudantes, deu uma entrevista aos rep\u00f3rteres ocidentais na v\u00e9spera do dia 4 de junho, em que ela reconheceu que seu objetivo era liderar a popula\u00e7\u00e3o em uma luta para derrubar o Partido Comunista da China, algo que, ela explicou, s\u00f3 seria poss\u00edvel se tivesse sucesso em provocar o governo a atacar violentamente as manifesta\u00e7\u00f5es. Essa entrevista foi ao ar no filme \u201cPort\u00e3o da Paz Celestial\u201d. Chai Ling tamb\u00e9m explicou o motivo pelo qual as lideran\u00e7as n\u00e3o conseguiam explicar aos manifestantes estudantes sobre seus planos reais.<\/p>\n<p>\u201cA busca pela riqueza \u00e9 parte do \u00edmpeto pela democracia\u201d, explicou outro l\u00edder estudantil, Wang Dan, em entrevista ao Washington Post em 1993, no quarto anivers\u00e1rio do incidente. Wang Dan esteve em todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o americanos antes e depois do incidente de Tiananmen. Ele era famoso por explicar por que os l\u00edderes estudantis elitistas n\u00e3o queriam que os trabalhadores chineses ingressassem em seu movimento. Ele afirmou que \u201co movimento n\u00e3o est\u00e1 pronto para a participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores porque a democracia deve primeiro ser absorvida pelos estudantes e intelectuais para que eles possam propag\u00e1-la para os outros\u201d.[9]<\/p>\n<p>30 anos depois \u2013 EUA ainda buscam uma mudan\u00e7a de regime e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o na China<br \/>\nA a\u00e7\u00e3o do governo chin\u00eas para dispersar o chamado movimento pr\u00f3-democracia em 1989 foi recebida com uma frustra\u00e7\u00e3o amarga dentro do establishment pol\u00edtico dos EUA.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, os EUA impuseram san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas \u00e0 China, mas seu impacto foi m\u00ednimo, e tanto o establishment pol\u00edtico de Washington quanto Wall Street perceberam que as empresas e bancos americanos seriam os grandes perdedores nos anos 1990 se tentassem isolar completamente a China no momento em que o pa\u00eds asi\u00e1tico estava abrindo ainda mais seu vasto mercado de trabalho interno e suas commodities para o investimento direto de corpora\u00e7\u00f5es ocidentais. Os maiores bancos e corpora\u00e7\u00f5es colocaram suas pr\u00f3prias margens de lucro em primeiro lugar, e os pol\u00edticos de Washington seguiram a sugest\u00e3o da classe bilion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Todavia, a quest\u00e3o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na China retornar\u00e1 novamente. As reformas econ\u00f4micas que foram inauguradas ap\u00f3s a morte de Mao abriram o pa\u00eds ao investimento estrangeiro. Essa estrat\u00e9gia de desenvolvimento foi projetada para superar rapidamente o legado da pobreza e do subdesenvolvimento pela importa\u00e7\u00e3o de tecnologia estrangeira. Em troca, as corpora\u00e7\u00f5es ocidentais receberam megalucros. A lideran\u00e7a p\u00f3s-Mao no Partido Comunista calculou que a estrat\u00e9gia beneficiaria a China em virtude de uma r\u00e1pida transfer\u00eancia de tecnologia do mundo imperialista para o pa\u00eds. E, de fato, a China fez grandes avan\u00e7os econ\u00f4micos. Por\u00e9m, al\u00e9m do desenvolvimento econ\u00f4mico, tamb\u00e9m desenvolveu uma grande classe capitalista interna, e uma parcela significativa dessa classe e seus filhos est\u00e3o sendo cortejados por todos os tipos de institui\u00e7\u00f5es financiadas, pelo governo dos EUA, grupos financeiros e centros acad\u00eamicos americanos. O Partido Comunista da China tamb\u00e9m \u00e9 dividido em fac\u00e7\u00f5es e tend\u00eancias pr\u00f3-EUA e pr\u00f3-socialistas.<\/p>\n<p>Hoje, o governo dos Estados Unidos est\u00e1 aplicando uma press\u00e3o militar cada vez maior contra a China. Est\u00e1 acelerando a luta contra a ascens\u00e3o do pa\u00eds ao consolidar novas alian\u00e7as militares e estrat\u00e9gicas com outros pa\u00edses asi\u00e1ticos. Espera-se tamb\u00e9m que, com press\u00e3o suficiente, alguns pol\u00edticos chineses que queiram abandonar a Coreia do Norte obtenham vantagens por parte dos americanos.<\/p>\n<p>Se a contrarrevolu\u00e7\u00e3o tivesse tido bem-sucedida na China, as consequ\u00eancias seriam catastr\u00f3ficas para o povo chin\u00eas e para o pa\u00eds. A China como na\u00e7\u00e3o, muito provavelmente, se fragmentaria, como aconteceu com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica quando o Partido Comunista foi derrubado. O mesmo destino se abateu sobre a ex-Iugosl\u00e1via. A contrarrevolu\u00e7\u00e3o e o desmembramento iriam atrasar a China. Isso refrearia na espetacular ascens\u00e3o pac\u00edfica chinesa do subdesenvolvimento.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, tem havido uma s\u00e9ria discuss\u00e3o dentro do establishment da pol\u00edtica externa americana acerca do desmembramento do pa\u00eds asi\u00e1tico, que enfraqueceria a China como na\u00e7\u00e3o e permitiria que os EUA e as pot\u00eancias ocidentais aproveitassem suas partes mais lucrativas. Esse \u00e9 precisamente o cen\u00e1rio que lan\u00e7ou a China em seu S\u00e9culo de Humilha\u00e7\u00e3o, quando as pot\u00eancias capitalistas do Ocidente dominaram o pa\u00eds.[10]<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa passou por muitos est\u00e1gios, vit\u00f3rias, recuos e retrocessos. Suas contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o inumer\u00e1veis. Mas ela ainda assim permanece. No confronto entre o imperialismo mundial e a Rep\u00fablica Popular da China, todos os progressistas devem saber onde est\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 \u00e0 margem dele.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] \u2013 Jim Abrams, \u201cUnidades militares rivais lutam em Pequim\u201d, Associated Press, 6 de junho de 1989.<\/p>\n<p>[2] \u2013 John Burgess, \u201cImagens vilificam manifestantes; Chineses lan\u00e7am campanha de propaganda\u201d, Washington Post, 12 de junho de 1989<\/p>\n<p>[3] \u2013 James P. Sterba, Adi Ignatius e Robert S. Greenberger, \u201cLuta de classes: as duras a\u00e7\u00f5es da China amea\u00e7am retroceder a reforma de 10 anos \u2013 Suspeitas de ocidentaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o ascendentes, e o ex\u00e9rcito tem novamente um papel pol\u00edtico \u2013 Um movimento improv\u00e1vel de morrer\u201d, Wall Street Journal, 5 de junho de 1989<\/p>\n<p>[4] \u2013 Jay Mathews, \u201cO Mito da Tiananmen e o pre\u00e7o de uma imprensa passiva\u201d, Columbia Journalism Review, setembro\/outubro de 1998<\/p>\n<p>[5] \u2013 Mathews, ibid.<\/p>\n<p>[6] \u2013 Wen Wei Po, \u201cTurbul\u00eancia na China; Estudante conta a hist\u00f3ria de Tiananmen: E ent\u00e3o as metralhadoras atiraram\u201d, New York Times, 12 de junho de 1989<\/p>\n<p>[7] \u2013 Nicholas Kristof, \u201cTurbul\u00eancia na China; Repress\u00e3o a Tiananmen: o relato do estudante foi questionado sobre os pontos principais\u201d, New York Times, 13 de junho de 1989<\/p>\n<p>[8] \u2013 \u201cVoz da Am\u00e9rica direciona sinais de TV para a China\u201d, New York Times, 9 de junho de 1989<\/p>\n<p>[9] \u2013 Lena Sun, \u201cUma Transforma\u00e7\u00e3o Radical 4 anos depois da Tiananmen\u201d, Washington Post, 6 de junho de 1993.<\/p>\n<p>[10] \u2013 \u201cResolu\u00e7\u00e3o PSL: Para a defesa da China contra a contrarrevolu\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o imperialista e desmembramento\u201d, China: Revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o, PSL Publications, 2008. Leia on-line em http:\/\/www.pslweb.org\/liberationnews\/pages\/for-the -defesa-de-china.html<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"eYrs0iR1oi\"><p><a href=\"https:\/\/revistaopera.com.br\/2019\/06\/04\/tiananmen-30-anos-depois-o-massacre-que-nao-foi\/\">Tiananmen 30 anos depois: O massacre que n\u00e3o foi<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&#8220;Tiananmen 30 anos depois: O massacre que n\u00e3o foi&#8221; &#8212; Revista Opera\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/revistaopera.com.br\/2019\/06\/04\/tiananmen-30-anos-depois-o-massacre-que-nao-foi\/embed\/#?secret=eYrs0iR1oi\" data-secret=\"eYrs0iR1oi\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23300\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[350],"tags":[226],"class_list":["post-23300","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-china","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-63O","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23300"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23300\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}