{"id":23307,"date":"2019-06-05T21:39:45","date_gmt":"2019-06-06T00:39:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23307"},"modified":"2019-06-05T21:39:58","modified_gmt":"2019-06-06T00:39:58","slug":"um-novo-pacto-empresarial-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23307","title":{"rendered":"Um novo pacto empresarial militar?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2019\/05\/militares-brasilia.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Daniel Fabre<\/p>\n<p>LAVRA PALAVRA<\/p>\n<p>Vivemos um rearranjo da luta de classes no pa\u00eds e uma tentativa de alinhamento do Brasil em um ciclo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista mundial. O per\u00edodo que se iniciou com o governo Bolsonaro \u00e9 o fim do interl\u00fadio hist\u00f3rico que foram os anos 2016-2018, na sequ\u00eancia do golpe judicial-parlamentar contra a Presid\u00eancia de Dilma Rousseff. Primeiro com a farsa do impeachment, segundo com a trag\u00e9dia econ\u00f4mica e eleitoral. Um novo pacto entre o empresariado e os militares se desenha. No Brasil, o s\u00e9culo XX est\u00e1, enfim, morto.<\/p>\n<p>Os jornais noticiam que no atual governo cerca de cem militares comp\u00f5em a alta c\u00fapula do executivo em Bras\u00edlia, sem contar os demais espalhados em cargos estaduais e municipais. No primeiro escal\u00e3o do governo federal s\u00e3o cerca de um ter\u00e7o. Uma inteira gera\u00e7\u00e3o do oficialato que nunca teve experi\u00eancia na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica agora ocupa cargos decisivos na opera\u00e7\u00e3o da institucionalidade e de seu jogo com a economia. Pesquisas de 2014-2015 j\u00e1 anunciavam que o ex\u00e9rcito era a segunda institui\u00e7\u00e3o que os brasileiros depositam mais confian\u00e7a, seguindo a Igreja em primeiro lugar. No entanto, desde o primeiro governo civil de Jos\u00e9 Sarney, n\u00e3o havia militares no n\u00facleo duro do governo central. Seriam estes trinta anos apenas um entreatos hist\u00f3rico?<\/p>\n<p>O Regime de 1964<\/p>\n<p>O fim do regime militar coincidiu sem coincid\u00eancia alguma com o fim de um grande ciclo econ\u00f4mico mundial, aquele gerado no p\u00f3s-guerra do ocidente sob o imperialismo estadunidense. Um cen\u00e1rio marcado pela luta de manuten\u00e7\u00e3o do desenvolvimentismo e da industrializa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses perif\u00e9ricos do capitalismo global, que herdavam do entre guerras a oportunidade, que nos parece cada vez mais assombrosa, de inverter o papel subalterno da economia perif\u00e9rica por meio da substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em particular no Brasil, a partir do golpe militar de 1964, formou-se uma grande alian\u00e7a entre os militares que assaltaram o estado e amplos setores empresariais do capital nacional e internacional, voltada a aumentar a taxa geral de lucros pela manuten\u00e7\u00e3o de algum desenvolvimentismo e pela espolia\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras, sob a estabilidade pol\u00edtica do autoritarismo. O fim da d\u00e9cada de sessenta j\u00e1 anunciava o fim dos \u201canos dourados\u201d do capitalismo fordista, mas foi somente anos depois, no fim dos oitenta em que foi poss\u00edvel ao capitalismo global iniciar um novo ciclo de acumula\u00e7\u00e3o, baseado na derrocada do bloco socialista e em sua espolia\u00e7\u00e3o, nas novas tecnologias e seus usos econ\u00f4micos e no estabelecimento de uma nova pax pol\u00edtica e ideol\u00f3gica mundial, sonhada por gera\u00e7\u00f5es de burgueses, t\u00e3o saudosos do s\u00e9culo XIX, quando imperou no globo o liberalismo brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>O pacto empresarial-militar consumado ap\u00f3s 1964 no Brasil ocorreu em um contexto de fim de um ciclo de acumula\u00e7\u00e3o mundial do capitalismo e em especial da Am\u00e9rica Latina. A grandiosa transforma\u00e7\u00e3o da economia vivida desde os anos trinta encontrava \u00f3bices ao seu prosseguimento em virtude do fim da guerra, da reconstru\u00e7\u00e3o europeia, da retomada de uma economia de paz e do novo modelo de imperialismo estadunidense, baseado na presen\u00e7a massiva de multinacionais nas economias do resto do globo. Em um cen\u00e1rio em que o trabalhismo varguista e o crescimento da classe m\u00e9dia pressionavam os ganhos empresariais e alimentavam agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, viu-se necess\u00e1rio \u00e0 burguesia nacional e interessante ao grande capital internacional, que o estado fosse controlado diretamente por um pacto empresarial-militar. Por essa mesma raz\u00e3o, o que se viu n\u00e3o foi uma ruptura prematura com o ciclo ent\u00e3o vigente, mas uma tentativa autorit\u00e1ria de retomada dos ganhos do empresariado, da aristocracia alijada do poder pelo varguismo e dos interesses imperialistas no pa\u00eds. A fisionomia econ\u00f4mica permaneceu, metade do PIB brasileiro no fim dos anos oitenta ainda era oriundo da ind\u00fastria.<\/p>\n<p>A Terceira Rep\u00fablica<\/p>\n<p>O que se viu a partir da\u00ed, a despeito da tentativa neodesenvolvimentista dos anos 2000, foi o lento e silencioso desmantelamento da ind\u00fastria nacional. Como j\u00e1 mencionado, o in\u00edcio do per\u00edodo institucionalmente democr\u00e1tico coincidiu sem coincid\u00eancias com um novo regime de acumula\u00e7\u00e3o mundial, amparado por rela\u00e7\u00f5es multilaterais globais, onde as mat\u00e9rias primas brasileiras, em especial o ferro, a soja e o gado, simbolizaram a paulatina concretiza\u00e7\u00e3o do novo papel do Brasil na economia mundial, condenado a n\u00e3o ser mais do que uma pedreira e uma fazenda tropicais, como ocorrido por toda sua hist\u00f3ria com exce\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX. Mesmo sob o lulismo a ind\u00fastria paulatinamente diminuiu e perdeu import\u00e2ncia na economia nacional frente ao crescimento vertiginoso do \u2018agrobusiness\u2019 \u2013 esta impressionante retomada, meio s\u00e9culo depois, da primazia aristocr\u00e1tica, do poder terratenente no Brasil -, sob o impulso da mecaniza\u00e7\u00e3o e da moderniza\u00e7\u00e3o do campo. Ainda assim, houve estabilidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica enquanto foi poss\u00edvel ao estado, em especial o lulista, manter a espolia\u00e7\u00e3o das conquistas seculares das classes trabalhadoras (como a previd\u00eancia social, as leis do trabalho, os servi\u00e7os p\u00fablicos) fonte de acumula\u00e7\u00e3o de capital caracter\u00edstica do neoliberalismo ainda vigente, e ao mesmo tempo, pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda, amplamente apoiadas nos tributos da Uni\u00e3o oriundos das crescentes exporta\u00e7\u00f5es de commodities. Com a crise do regime global de acumula\u00e7\u00e3o em 2008, a crise do subprime, lentamente no caso brasileiro, viu-se o esgotamento do pacto de classes lulista que havia garantido um grande crescimento da economia durante pouco mais de uma d\u00e9cada. A partir de 2013 a crise foi deflagrada no terreno pol\u00edtico, mas ela est\u00e1, antes de tudo, determinada por dados fundamentais da hist\u00f3ria e da economia.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, est\u00e1 a queda substancial de exporta\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias-primas, influenciada pelo \u201cdesaquecimento\u201d geral da economia mundial no p\u00f3s-crise de 2008, que, obviamente, gerou o decrescimento do consumo mundial e da produ\u00e7\u00e3o industrial oriental, em especial a chinesa, e, consequentemente, de sua demanda por mat\u00e9rias primas, principais mercadorias respons\u00e1veis por irrigar os cofres do estado brasileiro no per\u00edodo anterior. O estado, por sua vez, mantinha um mercado interno \u201caquecido\u201d, por meio de pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda, como o demonizado bolsa-fam\u00edlia, respons\u00e1veis por alimentar um regime interno de acumula\u00e7\u00e3o de capital, sobretudo no setor de servi\u00e7os e na agonizante ind\u00fastria nacional de baixo valor agregado, que contribuiu com o senso de moderniza\u00e7\u00e3o que marcou a \u00e9poca.<\/p>\n<p>Concomitante \u00e0 crise pol\u00edtica, as receitas oriundas do petr\u00f3leo tamb\u00e9m sofreram com a queda induzida de seu pre\u00e7o pelos Estados Unidos em alian\u00e7a com a Ar\u00e1bia Saudita, almejando alavancar sua retomada econ\u00f4mica e ao mesmo tempo atacar regimes como os do Ir\u00e3, R\u00fassia, Venezuela e talvez o pr\u00f3prio Brasil (lembre-se do epis\u00f3dio divulgado por Julian Assange sobre a espionagem da Petrobras e do gabinete de Dilma Rousseff), onde h\u00e1 pouco se havia sedimentado um avan\u00e7ado regime de explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal, que destinava imensa parte dos ganhos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. \u00c9 verdade que a tecnologia de extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo do xisto, denominada fracking, tamb\u00e9m influenciou o pre\u00e7o do petr\u00f3leo, ainda que n\u00e3o tanto quanto o imenso aporte saudita ao mercado global por volta de 2010, sem nenhuma justifica econ\u00f4mica plaus\u00edvel, derrubando seu pre\u00e7o para cerca de quarenta d\u00f3lares, algo impressionante: menos da metade do pre\u00e7o praticado na primeira d\u00e9cada do mil\u00eanio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o decl\u00ednio industrial brasileiro \u2013 anestesiado durante duas d\u00e9cadas pelo preciso arranjo de classes lulista em fun\u00e7\u00e3o da economia mundial \u2013 t\u00e3o vertiginoso quanto seu surgimento, foi crescentemente aparecendo na situa\u00e7\u00e3o social como um sintoma do mal-estar na vida das grandes cidades. A vida citadina brasileira, criada pela ind\u00fastria e para a ind\u00fastria, viu sua estrutura e equipamentos urbanos serem abandonados, bem como seu poder de investimento. Todo o imenso contingente populacional que desde os anos trinta havia migrado para a vida urbana do pa\u00eds, atendendo \u00e0s demandas industriais por for\u00e7a de trabalho e por seu barateamento, tornou-se crescentemente \u201c\u00f3rf\u00e3o\u201d de emprego e renda, e por consequ\u00eancia, todo o estado social gestado sobre esta rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. A esperan\u00e7a de que as cidades pudessem transformar a vida social brasileira \u2013 tropicano-perif\u00e9rica, herdeira da escravid\u00e3o tardia \u2013 tornando camponeses, marginalizados, ex-escravos e desgarrados em prolet\u00e1rios assalariados de um mundo desenvolvido, durou pouco afinal.<\/p>\n<p>Com o decl\u00ednio da ind\u00fastria, este imenso contingente populacional urbanizado vive agora ao puro sabor das sucessivas ondas neoliberais. As cidades e a burguesia nacional n\u00e3o necessitam e n\u00e3o s\u00e3o capazes de lidar com o contingente populacional urbano, mas tampouco a aristocracia modernizada rural. Esta popula\u00e7\u00e3o, que havia constitu\u00eddo as classes m\u00e9dias do pa\u00eds, viu sua qualidade de vida decair brutalmente. N\u00e3o apenas o desemprego aumentou, mas tamb\u00e9m sua precariedade. A falta de emprego e sua precariedade n\u00e3o apenas pressionam a vida das classes m\u00e9dias, mas tamb\u00e9m os recursos estatais, cujos impostos incidem sobre a atividade econ\u00f4mica, em especial para o estado social, que \u00e9 assentado sobre o emprego formal, celetista. As cidades foram, ent\u00e3o, paulatinamente perdendo seu poder de investimento e de transforma\u00e7\u00e3o urbana, aliando-se \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de emprego e renda, crucialmente no setor de servi\u00e7os, deteriorando em geral a vida nas grandes cidades brasileiras. N\u00e3o foi outro o estopim das jornadas de 2013, oriundas das manifesta\u00e7\u00f5es pela manuten\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do transporte p\u00fablico.<\/p>\n<p>Junho marcou tamb\u00e9m o decl\u00ednio relativo das tradicionais organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, especialmente as legitimadas com o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o durante os anos oitenta. N\u00e3o apenas o arranjo pol\u00edtico que representava os setores conservadores e reacion\u00e1rios foi afetado \u2013 ao redor do PSDB \u2013, mas sobretudo o arranjo pol\u00edtico das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas progressistas e trabalhistas, como movimentos sociais, sindicatos e partidos \u2013 ao redor do PT \u2013, que durante mais de tr\u00eas d\u00e9cadas desfrutaram de legalidade e legitimidade n\u00e3o apenas pol\u00edtica, mas jur\u00eddica e estatal, especialmente durante o per\u00edodo lulista. As organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, perdidas nos labirintos do estado, divididas em pautas isoladas e identit\u00e1rias, foram incapazes de representar o que se anunciava. O pacto pol\u00edtico oriundo da grande demonstra\u00e7\u00e3o popular das diretas j\u00e1, enfim, caducava.<\/p>\n<p>O Interl\u00fadio 2016-2018<\/p>\n<p>O golpe de estado contra a presid\u00eancia de Dilma Rousseff marca a reapresenta\u00e7\u00e3o do processo que as jornadas de junho de 2013 haviam deflagrado. O movimento vitorioso de genu\u00edno engajamento pol\u00edtico foi habilmente manobrado por amplos e distintos setores burgueses, tornando-se o ventr\u00edloquo da insurg\u00eancia da elite e de setores das camadas altas da classe m\u00e9dia contra o pacto de classes lulista. A conjun\u00e7\u00e3o material da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-econ\u00f4mica do pa\u00eds, sobretudo no centro imperial sudestino, tornou poss\u00edvel uma ofensiva em busca da retomada das decrescentes taxas de lucro. A efervesc\u00eancia da pol\u00edtica de rua, o bloqueio institucional estabelecido pelo Congresso Nacional ap\u00f3s 2014, imortalizado na figura de Eduardo Cunha, o deterioro econ\u00f4mico, bem como a j\u00e1 mencionada press\u00e3o sobre as contas e pol\u00edticas p\u00fablicas do estado lulista, concretizou aos setores burgueses a necess\u00e1ria correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para a derrubada do governo eleito. Derrubada esta, ocorrida especificamente sob o manto da ideologia jur\u00eddica e da legalidade, orquestrada brilhantemente pelo oligop\u00f3lio midi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Os setores burgueses, uma vez apossados do estado \u2013 este, que desde a instaura\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica nunca deixou de ter a pr\u00f3pria forma da burguesia \u2013 trataram de levar a cabo uma nova onda neoliberal, espoliando uma vez mais o que restava do estado social constru\u00eddo por tr\u00eas ou quatro gera\u00e7\u00f5es das classes trabalhadoras brasileiras ao longo do grandioso s\u00e9culo XX. A reforma liberal trabalhista de 2017, a nova lei do petr\u00f3leo, que abdicou de praticamente toda a receita do pr\u00e9-sal prevista pelo supracitado marco legal de explora\u00e7\u00e3o aprovado pelo lulismo, as sucessivas reformas previdenci\u00e1rias, a privatiza\u00e7\u00e3o das restantes empresas p\u00fablicas, o contingenciamento or\u00e7ament\u00e1rio, s\u00e3o exemplos dos despojos conquistados no interl\u00fadio entre o processo de deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff e a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro. Mas a vit\u00f3ria foi se dando tamb\u00e9m no campo ideol\u00f3gico, na vis\u00e3o geral de mundo da popula\u00e7\u00e3o, em seu balan\u00e7o moral e imaginativo. Viu-se o desenvolvimento do revisionismo hist\u00f3rico acerca da ditadura militar, o surgimento de destacamentos fascistas de fato mobilizados, os movimentos de direita, a ascens\u00e3o evang\u00e9lica, enfim, as bases da elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro.<\/p>\n<p>A toupeira havia cavado por demasiado tempo o subsolo. A fisionomia da pol\u00edtica brasileira fora alterada, acompanhando a culmin\u00e2ncia dos processos econ\u00f4micos e hist\u00f3ricos do \u00faltimo per\u00edodo. Se o s\u00e9culo XX na periferia sul-americana foi marcado pelo sonho do desenvolvimento, da moderniza\u00e7\u00e3o, da industrializa\u00e7\u00e3o, da soberania nacional, da a\u00e7\u00e3o do estado para educar, promover a sa\u00fade, diminuir as desigualdades, incluir as minorias, estabilizar a economia, ent\u00e3o o s\u00e9culo XX est\u00e1, enfim, morto. A destrui\u00e7\u00e3o direta do projeto nacional de desenvolvimento deflagrada por Bolsonaro, reapresenta na situa\u00e7\u00e3o atual o que o golpe contra Dilma Rousseff havia primeiro apresentado. Fim n\u00e3o apenas do lulismo, mas do que responde pelo pr\u00f3prio nome de s\u00e9culo XX no Brasil.<\/p>\n<p>Ainda no interl\u00fadio de 2016-2018, quanto ao cen\u00e1rio internacional, viu-se a ascens\u00e3o dos partidos e governos de extrema-direita em todo o mundo. N\u00e3o apenas a tecnologia, em especial, a experi\u00eancia massificada do acesso \u00e0 internet por smartphones, mas tamb\u00e9m a continuidade da estagna\u00e7\u00e3o do mercado mundial ap\u00f3s 2008, alterou as regras do jogo pol\u00edtico e possibilitou novas formas de organiza\u00e7\u00e3o, as quais foram majoritariamente capturadas e financiadas por obscuros movimentos de extrema direita global. Lembremos o nome de Steve Bannon, que, mais do que um marqueteiro, \u00e9 tamb\u00e9m um pr\u00f3prio ide\u00f3logo e conselheiro dos governos de extrema direita eleitos ao redor do mundo nesse per\u00edodo, na sequ\u00eancia de Donald Trump nos Estados Unidos. Este movimento global altamente reacion\u00e1rio \u00e9 certamente obra de setores da alta burguesia ocidental, mas sua vit\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m fruto da continuidade e agravamento da crise econ\u00f4mica em alguns pa\u00edses e da estagna\u00e7\u00e3o do mercado mundial, provavelmente, por responsabilidade da pr\u00f3pria burguesia e do estado norte-americano, interessados t\u00e3o somente em recuperar a hegemonia global contestada ap\u00f3s 2008. Os epis\u00f3dios da guerra comercial entre Estados Unidos e China a partir de 2018, com as mais altas san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas mutuamente aplicadas da hist\u00f3ria, \u00e9 o sintoma da continuidade da estagna\u00e7\u00e3o do mercado mundial e de seu poss\u00edvel agravamento.<\/p>\n<p>Internamente, os instrumentos constru\u00eddos ou fortalecidos para o golpe de estado n\u00e3o cessaram sua a\u00e7\u00e3o, gestada para a desestabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Os meios midi\u00e1ticos e as novas for\u00e7as conservadoras continuaram a impulsionar a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o. O governo de Temer, altamente rejeitado, n\u00e3o negou esfor\u00e7os para aprovar pol\u00edticas antipopulares, como a reforma trabalhista, o congelamento dos gastos sociais por 20 anos, a venda da Embraer, reforma da previd\u00eancia, etc. Estes fatores foram respons\u00e1veis por manter no pa\u00eds o clima de instabilidade gerado a partir da crise econ\u00f4mica e da deposi\u00e7\u00e3o do governo eleito, instabilidade esta t\u00e3o sens\u00edvel aos mercados especulativos internacionalizados e aos fluxos de capital. A possibilidade de retomada do projeto nacional anterior e a aposta petista no lan\u00e7amento do altamente rejeitado Lula, ainda tanto quanto amado, levou o pa\u00eds ao clima pol\u00edtico de pr\u00e9vio desmantelamento do tecido social visto nas elei\u00e7\u00f5es de 2018, quando Jair Bolsonaro concretizou sua vit\u00f3ria, que n\u00e3o se tratou, definitivamente, de uma simples vit\u00f3ria eleitoral, mas principalmente de uma vit\u00f3ria pol\u00edtica e ideol\u00f3gica sobre o balan\u00e7o geral de valores da sociedade. Parlamentar insignificante por quase trinta anos, Bolsonaro n\u00e3o foi eleito apenas por encarnar o antipetismo e apresentar um projeto de continuidade do desmantelamento do estado social, mas tamb\u00e9m por representar a defesa e afirma\u00e7\u00e3o da identidade conservadora e reacion\u00e1ria, ferida pelas recentes vit\u00f3rias das formas majoritariamente identit\u00e1rias de luta pol\u00edtica da esquerda.<\/p>\n<p>Bases do Novo Pacto<\/p>\n<p>A instabilidade do interl\u00fadio hist\u00f3rico de 2016-2018 foi o principal impulsor da, at\u00e9 ent\u00e3o inacredit\u00e1vel, retomada das for\u00e7as militares na pol\u00edtica institucional. Temer n\u00e3o apenas iniciou o processo de nomea\u00e7\u00e3o de militares para cargos do alto escala\u00e7\u00e3o governamental, como promoveu a inconstitucional e j\u00e1 fracassada interven\u00e7\u00e3o militar na cidade do Rio de Janeiro, inserindo os militares definitivamente de volta \u00e0 vida p\u00fablica brasileira. Com a ascens\u00e3o de Jair Bolsonaro, concretizou-se tamb\u00e9m a massiva elei\u00e7\u00e3o de militares para diversos cargos p\u00fablicos, do legislativo e executivo de outras unidades federadas.<\/p>\n<p>Entretanto, a grande coaliz\u00e3o de direita que elegeu Bolsonaro em outubro de 2018, que se apresentava ent\u00e3o de forma monol\u00edtica, congregando setores religiosos reacion\u00e1rios de diversas classes, militares, revisionistas, empres\u00e1rios, o capital internacional, a classe pol\u00edtica, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, dentre tantos outros setores, n\u00e3o tardou a revelar suas j\u00e1 conhecidas fissuras e contradi\u00e7\u00f5es. Empossado, o governo n\u00e3o levou um m\u00eas a desatar uma primeira crise pol\u00edtica, com o caso das candidaturas laranjas do PSL e a queda fulminante do ex-ministro Bebiano (Diga-se de passagem, nos \u00e1udios de whatsapp vazados de sua conversa com o presidente, Bebiano apontou como os militares rejeitaram sua presen\u00e7a e de outros civis em suas reuni\u00f5es no pal\u00e1cio, denotando que formam um grupo a parte dentro do governo). A verdade \u00e9 que o burlesco cen\u00e1rio de um governo composto por uma fam\u00edlia de trato est\u00fapido e paranoico, pela influ\u00eancia de um astr\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o duvidosa, e a participa\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos setores empresariais, militares, evang\u00e9licos, com vis\u00f5es de mundo e interesses conflitantes n\u00e3o pode muito contribuir com a suposta estabilidade pol\u00edtica e institucional necess\u00e1ria a radicalidade das altera\u00e7\u00f5es legais e econ\u00f4micas propostas.<\/p>\n<p>A impossibilidade de promover as prometidas reformas radicais do estado, principalmente a da previd\u00eancia social, que entrega a administra\u00e7\u00e3o dos valores arrecadados e a poupan\u00e7a popular ao mercado financeiro, foi paulatinamente solapando a euforia especulativa do capital e das altas camadas da sociedade. Os epis\u00f3dios dantescos dos bolsonaros nas redes sociais, as falas de seus ministros de estado, a guerra contra o Congresso e a inabilidade administrativa e pol\u00edtica, foram passo a passo afetando a legitimidade do governo, que em menos de seis meses viu sua rejei\u00e7\u00e3o beirar cinquenta por cento. As manifesta\u00e7\u00f5es de maio contra o corte no or\u00e7amento da educa\u00e7\u00e3o foram uma imensa demonstra\u00e7\u00e3o de rea\u00e7\u00e3o aos rumos do governo. Talvez, desde os anos oitenta e com o movimento das diretas n\u00e3o tenha havido uma manifesta\u00e7\u00e3o t\u00e3o significativa por pautas razoavelmente progressistas, foram \u00e0s ruas mais de um milh\u00e3o de pessoas em todas os estados federados.<\/p>\n<p>Os militares aparentemente nunca estiveram totalmente alinhados com o n\u00facleo bolsonarista, lembremos da crise gerada pela persegui\u00e7\u00e3o desmedida do setor do astr\u00f3logo aos generais em maio de 2019. Estes passaram a demonstrar publicamente cada vez mais sua independ\u00eancia e suposta imparcialidade em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto desvairado dos civis no governo. O vice-presidente, Hamilton Mour\u00e3o, que at\u00e9 agosto de 2018 falava em acabar com o 13\u00aa sal\u00e1rio, ou em interven\u00e7\u00e3o militar caso Lula fosse candidato, por exemplo, em fevereiro de 2019 passou a ,sem cerim\u00f4nias, defender o aborto em alguns casos, recebeu no governo o sindicalismo (t\u00e3o combatido pelo governo) e passou a demonstrar \u00e0 cada situa\u00e7\u00e3o um pretenso equil\u00edbrio e maturidade pol\u00edtica, que soam como m\u00fasica aos ouvidos de diversos setores da sociedade diante da mediocridade do n\u00facleo do governo. Mour\u00e3o tornou-se rapidamente um h\u00e1bil ventr\u00edloquo das necessidades das elites com o falso discurso conciliador esperado dos gestores do capitalismo mundial, manifestando a cada falha de Bolsonaro qual seria a linha correta, apontando que pode se converter em um verdadeiro pr\u00edncipe de Maquiavel, pairando sobre os incessantes conflitos de classe. N\u00e3o bastasse, not\u00edcias do primeiro semestre apontam que Mour\u00e3o mant\u00e9m conex\u00f5es diretas com amplos e poderosos setores empresariais (o Valor Econ\u00f4mico not\u00edcia em mar\u00e7o que Skaf o recebeu em sua mans\u00e3o com \u201crepresentantes dos 30 maiores grupos empresariais do pa\u00eds).<\/p>\n<p>O recrudescimento da crise no mercado internacional com a nova rodada de san\u00e7\u00f5es na guerra comercial entre EUA e China, que pressiona a j\u00e1 anunciada recess\u00e3o da economia brasileira no primeiro semestre, somado \u00e0 retomada da pol\u00edtica de rua com face progressista, a instabilidade oriunda da disputa entre o governo e o Congresso, dentre outros fatores desagregadores, fortalecer\u00e1 cada vez mais a possibilidade de um impedimento ou de descr\u00e9dito e falta de legitimidade do governo de Jair Bolsonaro. Ao manter sua independ\u00eancia mesmo ocupando parte do executivo, os militares se apresentam cada vez mais dotados da unidade, autoridade e legitimidade necess\u00e1rias \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o dessa tentativa de inser\u00e7\u00e3o do Brasil no novo arranjo geopol\u00edtico mundial capitaneado pelo ocidente trumpista, que almeja, ainda sem sucesso, a instaura\u00e7\u00e3o de um novo ciclo de acumula\u00e7\u00e3o mundial capitalista, novamente liderado pela economia estadunidense atrav\u00e9s da consequente reorganiza\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o internacional do trabalho \u2013 como sinaliza a tentativa de Trump de reindustrializar o pa\u00eds, com a taxa\u00e7\u00e3o de produtos industrializados orientais e mexicanos. Um ciclo n\u00e3o mais baseado em um arranjo econ\u00f4mico mundial multilateral e livre-alfandeg\u00e1rio, mas sim, protecionista e bilateral, ao menos enquanto o estado norte-americano buscar a hegemonia mundial contestada ap\u00f3s 2008 e sua independ\u00eancia em face da economia chinesa.<\/p>\n<p>No Brasil, delineia-se no horizonte a silhueta de um novo pacto empresarial-militar. A espolia\u00e7\u00e3o do estado social iniciada pelo capital com o golpe de 2016, que \u00e9 parte causa da instabilidade pol\u00edtica e parte consequ\u00eancia da estagna\u00e7\u00e3o do mercado mundial \u2013 deixando as altas camadas impossibilitadas de obter seu mais-valor pelo crescimento da economia, sen\u00e3o pela espolia\u00e7\u00e3o das conquistas obreiras do s\u00e9culo XX \u2013 n\u00e3o pode continuar a se desenvolver sem estabilidade. As disputas p\u00fablicas entre os setores do governo (empresarial, capitaneado por Guedes, o bolsonarista-olavista e o militar) contribuem com a instabilidade, mas tamb\u00e9m demonstram que as reformas necessitam em alguma medida de um projeto pol\u00edtico autorit\u00e1rio. A cada ato desastroso do n\u00facleo bolsonarista-olavista, condutor do governo, o n\u00facleo militar se apresenta como o \u00fanico capaz de oferec\u00ea-lo. Entretanto, as sinaliza\u00e7\u00f5es parcimoniosas dos militares, especialmente de Mour\u00e3o, demonstram que \u00e9 muito improv\u00e1vel que ocorra uma ditadura militar, como muitos temem frente aos fantasmas do passado. O que parece mais poss\u00edvel do que nunca \u00e9 um governo militar institucional ou democraticamente eleito, ainda que seja, mais uma vez, escolha da op\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria para a condu\u00e7\u00e3o do pa\u00eds atrav\u00e9s da forte turbul\u00eancia que parece se avizinhar no horizonte do capitalismo global.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2019\/06\/03\/um-novo-pacto-empresarial-militar\/\">Um novo pacto empresarial-militar?<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23307\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[222],"class_list":["post-23307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-63V","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23307\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}