{"id":23322,"date":"2019-06-07T06:41:04","date_gmt":"2019-06-07T09:41:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23322"},"modified":"2019-06-11T08:12:20","modified_gmt":"2019-06-11T11:12:20","slug":"por-que-defendemos-o-feminismo-classista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23322","title":{"rendered":"Por que defendemos o feminismo classista"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/MiJeqwtIlX1laBwq-7H_d7TGLsFGNefcy9xzeu-8bB-aixrQ4i7GxeTHCn1fQgW2QxP1GbTExC10_6CWXiRZ4gyyiWJ_Hg93Z7ZEB3xDXm_lcpwqeQadXck41wze62wsecdYALreu76KsJBB3eK8MMfBNIvXZjvWqjm751_mY76vKdFzKzcy9YH3MF5pwoMO31eRmbt7CQeFVh8hvuZ8CN1NcxWzXwlb0LJyIenZLfshsDM7VbAjnZpwxGYaaCccD1fg-vHqszPFtqa-QUKBQ3JqcahwI7XNBXtwOcZ10j_T1nZ4AsX6bp_2Q-a-BqHbRCsx2RhYBJx24149lPcIi0MnU9XgH0XPwofvOr8gf3CjkVVI-bWv89hWahq4GgcHfv2di49Ur8kRlv9avPHqoZI1hWmQbyx0n9ayjlZYFrR7kk1gkG8rSmX6x26EW9aOdXY20U0U-6dcfXK2wsf2kweyD_Cp32xZV4WOZF5yrbCd-PaC_xjUjPdkWW9IPeJgOE31OfcbcCCcBNf8z9jIJhjhipEtCZPXWx-SBccS3yN6-AdDdFxwIuGkscr-MpldG9Noex3kAJXKAZlmXbhN87b59CDEZtcJEhOTODn7RQYnVXtSpuYFgR5CoueU-PdhOa4F6FF347RDLBVU9jtenw-Y9HvmtGdO=s720-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro \u2013 Natal\/RN<\/p>\n<p>N\u00f3s, feministas, sabemos bem que carregamos pesos a mais nesta sociedade. As mulheres da classe trabalhadora, principalmente as mulheres negras e a popula\u00e7\u00e3o LGBT, fogem do padr\u00e3o de indiv\u00edduo da sociedade burguesa; h\u00e9tero, branco e detentor de propriedade. Na exist\u00eancia desse padr\u00e3o \u2013 desse modelo a ser seguido, vivenciado, buscado, temos nossa diversidade, nossa individualidade t\u00e3o nossa e t\u00e3o universal, tolhida, violentada, censurada. Mas de onde vem esse padr\u00e3o? O que h\u00e1 por tr\u00e1s dele? Ele pode ser superado apenas com a educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Est\u00e1 mais do que em tempo de o movimento feminista, t\u00e3o importante e necess\u00e1rio a n\u00f3s brasileiras que vivenciamos a crescente precariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais, o aumento da pobreza e da viol\u00eancia que em todas as suas express\u00f5es incide ostensivamente em n\u00f3s, compreender as rela\u00e7\u00f5es sociais que fundamentam e determinam a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o que vivenciamos diariamente. Que nossas av\u00f3s e m\u00e3es sofreram e que as futuras gera\u00e7\u00f5es sofrer\u00e3o enquanto existir o capitalismo racista h\u00e9tero patriarcal.<\/p>\n<p>O feminismo classista \u00e9 constru\u00eddo por uma consci\u00eancia coletiva de que teoria e pr\u00e1tica n\u00e3o se separam. Jamais. A nossa teoria, materialista, hist\u00f3rica e dial\u00e9tica que, al\u00e9m de \u00fanica compromissada com a luta da humanidade contra o capital, \u00e9 a que melhor se aproxima da realidade, complexa e din\u00e2mica que vivemos, deve nortear todas as nossas a\u00e7\u00f5es, atividades, di\u00e1logos, reflex\u00f5es, falas\u2026 o trabalho de base que precisamos realizar para que as mulheres, da cidade e do campo, m\u00e3es, solteiras, religiosas, jovens, maduras, crian\u00e7as, despertem a consci\u00eancia de quem s\u00e3o, de seu potencial de enfrentamento e de quem s\u00e3o os reais inimigos das mulheres.<\/p>\n<p>As mulheres precisam da teoria revolucion\u00e1ria para compreender que a propriedade privada, por cuja supera\u00e7\u00e3o tanto lutamos, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social que permite a explora\u00e7\u00e3o de pessoas por outras pessoas, fundando assim a divis\u00e3o social de classes, entre aqueles que produzem a riqueza e os outros que exploram os produtores e produtoras da riqueza.<\/p>\n<p>As mulheres precisam da teoria revolucion\u00e1ria para compreender que a rela\u00e7\u00e3o social que funda a sociedade burguesa, essa em que vivemos, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do capital. Isso significa que nessa sociedade perdemos os meios e as possibilidades de produzir nosso sustento, nossa vida. Fomos obrigadas a vir para os centros urbanos vender nossa for\u00e7a de trabalho em ind\u00fastrias, f\u00e1bricas, empresas, em troca de um sal\u00e1rio sempre insuficiente para comprar e pagar tudo de que precisamos, pois nessa sociedade tudo \u00e9 mercadoria, nosso alimento, nossas roupas, moradia, sa\u00fade, lazer, conhecimento. Precisamos pagar por tudo. O mercado \u00e9 um grande rei e n\u00f3s somos todos s\u00faditos que a todo instante precisamos atirar-lhe nossas riquezas sem d\u00f3. A condi\u00e7\u00e3o de trabalhadoras nos torna inimigas dos capitalistas que n\u00e3o hesitar\u00e3o em promover a barb\u00e1rie em nossas vidas, se isso lhes trouxer riqueza e poder. A condi\u00e7\u00e3o de trabalhadoras nos torna potencialmente revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>As mulheres precisam compreender que existem rela\u00e7\u00f5es sociais de sexo, que nada mais s\u00e3o do que rela\u00e7\u00f5es que fundam e mant\u00eam a desigualdade entre homens e mulheres em todas as dimens\u00f5es da vida. As rela\u00e7\u00f5es sociais de sexo criam uma divis\u00e3o sexual do trabalho e do poder em que se constituem atividades legitimadas como femininas e outras como masculinas, sendo essas \u201cfemininas\u201d as mais precarizadas e desvalorizadas. J\u00e1 pensou por que a enfermagem, o servi\u00e7o social e a pedagogia s\u00e3o profiss\u00f5es majoritariamente femininas? E tamb\u00e9m de pouca valoriza\u00e7\u00e3o? A divis\u00e3o sexual do trabalho designa como femininas profiss\u00f5es que sejam reconhecidas socialmente por sua vincula\u00e7\u00e3o ao cuidado e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o que, por consequ\u00eancia, o patriarcado atribui como naturais do ser mulher. A n\u00f3s mulheres recaem a responsabilidade pelo cuidado e educa\u00e7\u00e3o dos filhos, o que limita nosso tempo e nossas possibilidades de estudo, trabalho, lazer e organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Legitima-se uma consci\u00eancia social de subordina\u00e7\u00e3o da mulher ao homem como sua propriedade, tolhendo nossa independ\u00eancia e autonomia. E ainda, essas rela\u00e7\u00f5es sociais obstaculizam nossa liberdade sexual, nos impondo a heterossexualidade como \u00fanica orienta\u00e7\u00e3o sexual aceita e rejeitando outras identidades de sexo.<\/p>\n<p>As mulheres precisam tamb\u00e9m compreender que existem rela\u00e7\u00f5es sociais de ra\u00e7a e etnia que fundam e mant\u00eam a desigualdade entre negras\/os e brancas\/os. Essas rela\u00e7\u00f5es sociais criam uma divis\u00e3o racial do trabalho em que se constituem atividades legitimadas como brancas e outras desempenhadas por mulheres negras. Por que a profiss\u00e3o de empregada dom\u00e9stica \u00e9 desempenhada majoritariamente por mulheres negras? Por que s\u00e3o as mulheres negras que mais ocupam os trabalhos informais e mais precarizados? Por que os cargos e espa\u00e7os de poder s\u00e3o majoritariamente ocupados por homens e brancos? O racismo e o colonialismo estruturam a domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o do povo negro, principalmente das mulheres negras e de periferia. Ainda que vejamos mais produtos para nossos cabelos crespos, mais negras como protagonistas de TV e mais discuss\u00f5es sobre racismo, o sol continua sem brilhar sobre n\u00f3s. Essas rela\u00e7\u00f5es possibilitam que as negras sejam as maiores v\u00edtimas de feminic\u00eddios e viol\u00eancias, sobretudo sexuais, f\u00edsicas e obst\u00e9tricas. S\u00e3o as que mais sentem o desemprego e todas as barb\u00e1ries produzidas pelo capital em nossas vidas. A condi\u00e7\u00e3o de ser negras nessa sociedade nos torna potencialmente revolucion\u00e1rias!<\/p>\n<p>As mulheres precisam do feminismo classista para compreender que capitalismo, patriarcado e racismo n\u00e3o se separam. S\u00e3o articulados. Um se estrutura e interage com o outro conformando uma realidade social de explora\u00e7\u00e3o combinando a opress\u00e3o do sexo, da ra\u00e7a e da classe. O racismo e o patriarcado existem porque existe uma base material, a propriedade privada, que imp\u00f5e concretamente a explora\u00e7\u00e3o. Esses sistemas conformam o modo capitalista de produzir nossa vida e determinam a vida das mulheres marcada pelo trabalho extensivo, intensivo e intermitente, pela viola\u00e7\u00e3o de Direitos, pelas viol\u00eancias dom\u00e9sticas, sexuais, patrimonial, f\u00edsicas, obst\u00e9tricas e psicol\u00f3gicas sofridas. Pelo peso da responsabiliza\u00e7\u00e3o pelo cuidado da casa e dos filhos, pela afli\u00e7\u00e3o e desespero ao ver as condi\u00e7\u00f5es de vida cada vez mais dif\u00edceis, o p\u00e3o cada vez mais caro e o emprego cada vez mais distante.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o do ser mulher, branca, doce, resignada n\u00e3o surge do nada. \u00c9 produto de uma sociabilidade cujo norte \u00e9 o lucro violento dos que comandam essa terra, oprimindo para isso todos que fogem do gosto do capital. O que h\u00e1 por tr\u00e1s desse padr\u00e3o \u00e9 toda uma organiza\u00e7\u00e3o social destruindo a natureza e transformando toda a nossa riqueza humana, cores, cultos, saberes, culturas, gostos, tra\u00e7os, em desigualdades.<\/p>\n<p>Ainda que a educa\u00e7\u00e3o seja um elemento imprescind\u00edvel, ela por si s\u00f3 n\u00e3o tem poder de mudar uma sociedade. A educa\u00e7\u00e3o na sociedade burguesa, inclusive n\u00e3o nos permite aprender nem mesmo nossa hist\u00f3ria e nosso papel como produtores do mundo humano. N\u00e3o estudamos sobre \u00c1frica e nossa Am\u00e9rica, n\u00e3o discutimos sobre racismo ou patriarcado, n\u00e3o aprendemos o porqu\u00ea de nossa condi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabemos por que as mulheres s\u00e3o estupradas e trocadas como mercadorias e nem quando isso come\u00e7ou e n\u00e3o conhecemos nossos Direitos. N\u00e3o aprendemos na escola que devemos lutar contra todo e qualquer ataque a nossa individualidade e humanidade.<\/p>\n<p>Nossa condi\u00e7\u00e3o s\u00f3 mudar\u00e1 quando nos tornamos conscientes de tudo o que o capital obstinadamente nos esconde e de como a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes est\u00e1 fadada ao que \u00e9 conveniente \u00e0 burguesia. Quando nos organizarmos nas fileiras da luta por um mundo poss\u00edvel e t\u00e3o urgente que precisa ser pensado e constru\u00eddo no presente. As mulheres precisam do feminismo classista para enfrentar as tantas e cotidianas agress\u00f5es do capitalismo racista h\u00e9tero patriarcal enquanto negras, imigrantes, l\u00e9sbicas, transexuais, m\u00e3es\u2026 trabalhadoras que, como j\u00e1 nos disse a camarada Ana Montenegro \u2013 lutando por p\u00e3o, terra e trabalho, sendo um pa\u00eds que tem isso, almejamos liberdade!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23322\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,180,20],"tags":[223],"class_list":["post-23322","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-feminista","category-c1-popular","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-64a","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23322","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23322"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23322\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}