{"id":2333,"date":"2012-01-28T23:42:48","date_gmt":"2012-01-28T23:42:48","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2333"},"modified":"2012-01-28T23:42:48","modified_gmt":"2012-01-28T23:42:48","slug":"solidariedade-a-ocupacao-do-pinheirinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2333","title":{"rendered":"Solid\u00e1riedade \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o do Pinheirinho"},"content":{"rendered":"\n<p>Este texto \u00e9 um desabafo. N\u00e3o pretendo que seja uma an\u00e1lise aprofundada. Outros artigos est\u00e3o sendo escritos com esse prop\u00f3sito, por gente bem mais capacitada que eu. Expresso aqui a revolta que contamina meu cora\u00e7\u00e3o desde domingo passado, quando acordei com a not\u00edcia de que os milhares de moradores do Pinheirinho, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, estavam sendo desalojados.<\/p>\n<p>Estive l\u00e1 na semana passada, numa visita de solidariedade \u00e0quelas pessoas que estavam na imin\u00eancia de serem despejadas de um terreno que ocupavam desde 2004. A ju\u00edza M\u00e1rcia Faria Mathey Loureiro, da 6\u00aa Vara C\u00edvel de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, assinou a reintegra\u00e7\u00e3o de posse (pomposo termo jur\u00eddico para despejo) em favor do senhor Naji Robert Nahas, not\u00f3rio especulador cujo nome aparece nas manchetes de jornal associado a crimes como lavagem de dinheiro, forma\u00e7\u00e3o de quadrilha e evas\u00e3o de divisas.<\/p>\n<p>Foram muitos os esfor\u00e7os para tentar deter o despejo, de advogados que se voluntariaram a ajudar os moradores do Pinheirinho, at\u00e9 sindicalistas, militantes de partidos de esquerda, movimento dos sem-teto, dos sem-terra, parlamentares, artistas como o rapper Emicida. Formou-se uma verdadeira rede de apoio, como h\u00e1 muito eu n\u00e3o via. Fiz quest\u00e3o de visitar o Pinheirinho porque queria fazer mais por aqueles moradores do que simplesmente desenhar charges. Fiz quest\u00e3o tambem de registrar imagens da ocupa\u00e7\u00e3o, sempre mostrada pela imprensa como um acampamento de rebeldes que armados de paus e pedras se recusavam a acatar pacificamente uma ordem judicial.<\/p>\n<p>O que encontrei n\u00e3o foi surpresa. Estive em visita a ocupa\u00e7\u00f5es urbanas e rurais por algumas vezes na vida. Os moradores do Pinheirinho me lembravam os camponeses que conheci em Rond\u00f4nia e no Paraguai. Aqueles olhares, os sorrisos de boas vindas e os p\u00e9s descal\u00e7os, gente humilde, de poucos recursos mas de muita coragem, que precisa de terra pra viver, e n\u00e3o para a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. No Pinheirinho conheci uma fam\u00edlia que saiu do interior da Bahia, onde sobreviviam do que conseguiam achar num lix\u00e3o, e que constru\u00edram uma vida nova a custa de muito trabalho. O pai catando materiais recicl\u00e1veis, a m\u00e3e vendendo secos e molhados em casa e a filha fazendo fraldas descart\u00e1veis. Tenho at\u00e9 hoje o papelzinho com o pre\u00e7o das fraldas. Conheci tamb\u00e9m o seu Jaime, um paranaense que veio com a fam\u00edlia, e que me mostrou orgulhoso a horta que cuidou com tanto carinho, incluindo os p\u00e9s de caf\u00e9 que trouxe do Paran\u00e1. Visitei a Pamela e sua filhinha de 30 dias, e vi seu quintal, todo decorado pelo seu companheiro com brinquedos coloridos.<\/p>\n<p>Vi crian\u00e7as jogando bola, brincando no ch\u00e3o de terra enlameado depois da chuva, vi a jovem m\u00e3e levando seu filho no carrinho, tentando desviar das po\u00e7as de lama. Com um celular ia compartilhando estas imagens com os internautas. Queria que todos vissem de que se tratava de gente, de carne, osso e alma, e n\u00e3o apenas figuras sem nome no notici\u00e1rio da TV. Por esse exerc\u00edcio de humanidade n\u00e3o passam os que usam suas canetas de ouro para assinar ordens de despejo, nem t\u00e3o pouco os policiais que as cumprem.<\/p>\n<p>\u00c9 comum a gente imaginar que por tr\u00e1s dessas decis\u00f5es judiciais estejam figuras engravatadas que tem prazer em desalojar fam\u00edlias pobres, que acham gra\u00e7a, riem, fazem piada, como vil\u00f5es de filmes ou hist\u00f3rias em quadrinhos. Cheguei a conclus\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 bem assim. O despejo dos 9000 residentes daquele terreno foi uma a\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, desprovida de sentimento. Fora os policiais militares, esses sim, que tem prazer em seu of\u00edcio brutal, os burocratas sequer tem contato com as vidas que destroem. As fam\u00edlias do Pinheirinho s\u00e3o apenas obst\u00e1culos a serem removidos. Quando fa\u00e7o charges associando tais a\u00e7\u00f5es ao nazismo \u00e9 porque identifico nelas a mesma aus\u00eancia de humanidade. Penso em Adolf Eichmann e a tranquilidade com que descrevia o processo pelo qual deportou milhares para campos de concentra\u00e7\u00e3o. Aquilo era para ele t\u00e3o somente um ato administrativo<strong>. Nem a ju\u00edza M\u00e1rcia Faria, nem Naji Nahas, nem o prefeito de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos Eduardo Cury ou o governador de S\u00e3o Paulo Geraldo Alckmin se dispuseram a visitar a ocupa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que seus moradores n\u00e3o s\u00e3o ningu\u00e9m<\/strong>, n\u00e3o s\u00e3o nada al\u00e9m de um estorvo, um obst\u00e1culo ao imp\u00e9rio da ordem e da ind\u00fastria imobili\u00e1ria. Milhares de almas jogadas na rua, sem qualquer remorso ou compaix\u00e3o, em favor de alguem que, diferente dos moradores do Pinheirinho, n\u00e3o precisa trabalhar para viver, sustenta-se atrav\u00e9s da falcatrua, da corrup\u00e7\u00e3o, das amizades influentes. Os moradores ficaram sem lar, mas os que os despejaram, voltaram para o conforto de suas casas.<\/p>\n<p>Quem vai se lembrar daquela gente quando, no terreno onde antes havia o Pinheirinho, for constru\u00eddo um mega shopping center? Quem sabe o novo empreendimento seja batizado como &#8220;Pinheirinho Mall&#8221; ou talvez a palavra Pinheirinho nem seja mais usada pela administra\u00e7\u00e3o municipal, na tentativa de apagar de vez a mem\u00f3ria do que antes foi uma ocupa\u00e7\u00e3o. Mas como diz o ditado popular,\u00a0<strong>&#8220;quem bate esquece, quem apanha lembra&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.diarioliberdade.org\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=23810:texto-de-carlos-latuff-pinheirinho-quem-apanha-lembra&amp;catid=242:repressom-e-direitos-humanos&amp;Itemid=156\" target=\"_blank\">Di\u00e1rio Liberdade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 3.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nCarlos Latuff\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2333\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-2333","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-BD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2333"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2333\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}