{"id":23339,"date":"2019-06-09T18:12:24","date_gmt":"2019-06-09T21:12:24","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23339"},"modified":"2019-06-09T18:12:24","modified_gmt":"2019-06-09T21:12:24","slug":"o-fantasma-comunista-no-seu-labirinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23339","title":{"rendered":"O fantasma comunista no seu labirinto"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/live.staticflickr.com\/1210\/4605284884_ae3e5172f2_z.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u2013 Notas &#8220;a partir de um obscuro rinc\u00e3o do mundo&#8221;<\/p>\n<p>Por N\u00e9stor Kohan<\/p>\n<p>O capitalismo em debate<\/p>\n<p>Depois de v\u00e1rias d\u00e9cadas de cozidos requentados p\u00f3s-modernos, sopas &#8220;p\u00f3s-marxistas&#8221;, saladas reformistas e sobremesas p\u00f3s-coloniais \u00e0 la carte, a discuss\u00e3o sobre o capitalismo mundial volta ao centro da mesa. Nos movimentos sociais, nas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e no mundo cultural. J\u00e1 ningu\u00e9m se conforma com os &#8220;microrrelatos&#8221;, os &#8220;micropoderes&#8221;, a &#8220;micro-hist\u00f3ria&#8221;. Todos os pretextos e malabarismos para n\u00e3o encarar as crises selvagens que atravessam o sistema capitalista s\u00e3o afastados, como migalhas sujas, para fora da toalha.<\/p>\n<p>O inc\u00eandio da crise de 2008 n\u00e3o se apaga. O fogo estende-se. O planeta range. Cada vez se tornam mais inadi\u00e1veis as explica\u00e7\u00f5es totalizantes sobre o que atravessamos.<\/p>\n<p>Estaremos, por fim, numa \u00e9poca de capitalismo &#8220;desterritorializado&#8221; e interdependente, sem imperialismo, metr\u00f3poles, depend\u00eancias nem periferias, onde um grupo de vendedores ambulantes de um bairro perdido do Haiti desempenha o mesmo papel no sistema mundial que o Bundesbank alem\u00e3o, uma aldeia long\u00ednqua da Indon\u00e9sia tem a mesma categoria de poder financeiro e pol\u00edtico-militar que a Wall Street ou o Pent\u00e1gono? Ou talvez continuemos localizados, ainda que n\u00e3o percebamos, no antigo capitalismo keynesiano do p\u00f3s-guerra, com cadeias produ\u00e7\u00e3o de valor ancoradas em cada pa\u00eds e capitais regulados em escala puramente nacional? Ter\u00e1 sido totalmente in\u00f3cua a contraofensiva capitalista iniciada em setembro de 1973 no Chile, estendida a seguir \u00e0 Argentina de 1976 e finalmente aplicada durante 1979-1980 na Londres de Margaret Thatcher e na Washington de Ronald Reagan? Que algu\u00e9m avance uma explica\u00e7\u00e3o por favor e nos esclare\u00e7a o panorama!<\/p>\n<p>N\u00e3o estaremos vivendo, talvez, uma nova fase do capitalismo, na qual se combinam as revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas do capitalismo tardio estudadas por Erneste Mandel, os cinco monop\u00f3lios mundiais explicados por Samir Amin e a reconquista planet\u00e1ria por expropria\u00e7\u00e3o (desposesi\u00f3n) sobre a qual nos alertou David Harvey?<\/p>\n<p>Seja qual for a resposta correta, o que est\u00e1 claro \u00e9 que a partir da crise feroz de 2008 e da reconvers\u00e3o dos antigos fan\u00e1ticos do livre com\u00e9rcio em &#8220;protecionistas&#8221; e &#8220;guerreiros comerciais&#8221; (EUA, Alemanha, China, etc), somadas \u00e0s invas\u00f5es, bombardeios, bloqueios econ\u00f4micos e interven\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-militares imperialistas da \u00faltima d\u00e9cada, qualquer an\u00e1lise s\u00e9ria do presente j\u00e1 n\u00e3o pode continuar a repetir os tiques, os slogans e as modula\u00e7\u00f5es da &#8220;coexist\u00eancia pac\u00edfica&#8221; de 1960.<\/p>\n<p>Aquele tosco e demasiado inocente &#8220;pacifismo&#8221; de Nikita Kruschev dos velhos document\u00e1rios em branco e preto, uma d\u00e9cada mais tarde adotado nas metr\u00f3poles ocidentais pelo eurocomunismo (acompanhado de refinadas e esquisitas argumenta\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas), hoje&#8230; nos atrasa!<\/p>\n<p>Afirmar que a grande meta estrat\u00e9gica do comunismo \u00e9&#8230; &#8220;a paz&#8221; (assim, em geral, como diziam os sovi\u00e9ticos) e a defesa &#8220;da democracia&#8221; (tamb\u00e9m em geral, sem especifica\u00e7\u00f5es e qualifica\u00e7\u00f5es), est\u00e1 demod\u00e9. N\u00e3o vai mais. N\u00e3o corresponde ao planeta em que vivemos.<\/p>\n<p>Flower power frente ao imperialismo ou estrat\u00e9gia comunista?<\/p>\n<p>O mundo mudou. Lamentavelmente n\u00e3o foi para melhor. O movimento hippie de John Lennon e Yoko Ono, junto com o flower power, ficaram no belo rinc\u00e3o da nostalgia est\u00e9tica e da mem\u00f3ria musical. Longe daqueles cabelos compridos e dos seus protestos pacifistas em len\u00e7\u00f3is brancos, nosso mundo atual parece-se muito mais com as sombrias imagens dist\u00f3picas onde proliferam as invas\u00f5es, as bases militares em escala planet\u00e1ria, a vigil\u00e2ncia global, a repress\u00e3o das massas empobrecidas migrantes e as guerras por recursos naturais n\u00e3o renov\u00e1veis.<\/p>\n<p>Se tivermos os p\u00e9s na terra e n\u00e3o confundirmos o princ\u00edpio do prazer (e a imagina\u00e7\u00e3o psicod\u00e9lica) com o princ\u00edpio da realidade, o trauma da queda do Muro de Berlim e as antigas nostalgias, hoje imperantes, devem ser superadas de uma vez por todas. De nada serve invoc\u00e1-las periodicamente para reinventar novos reformismos.<\/p>\n<p>Num livro recente, Estudiando la contrainsurgencia de Estados Unidos. Manuales, mentalidades y uso de la antropolog\u00eda [NR] (2019), o antrop\u00f3logo mexicano Gilberto L\u00f3pez y Rivas descreve o sistema mundial capitalista da nossa \u00e9poca. \u00c9 s\u00f3 uma tentativa poss\u00edvel, mas a nosso ver muito \u00fatil e realista.<\/p>\n<p>No momento de definir as caracter\u00edsticas centrais e o tipo de capitalismo que predomina nos nossos dias, o autor recusa de fato as vers\u00f5es apolog\u00e9ticas de uma suposta globaliza\u00e7\u00e3o &#8220;homog\u00eanea, plana, sem assimetrias nem desenvolvimentos desiguais&#8221;. Gilberto L\u00f3pez y Rivas afirma que o sistema capitalista do nosso presente constitui um imperialismo global lan\u00e7ado sem escr\u00fapulo algum numa &#8220;recoloniza\u00e7\u00e3o do mundo&#8221;. Sua tese, arriscada e precisa, desmonta na pr\u00e1tica esse lugar comum das academias (financiadas por funda\u00e7\u00f5es &#8220;desinteressadas&#8221; como a NED ou a USAID) segundo a qual &#8220;num mundo globalizado, governado pela informa\u00e7\u00e3o e o capitalismo cognitivo, os Estados Unidos, a Europa ocidental e os pa\u00edses capitalistas mais desenvolvidos j\u00e1 n\u00e3o necessitam da Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica nem dos pa\u00edses pobres da \u00c1sia, ou seja, do Terceiro Mundo&#8221;. Essa formula\u00e7\u00e3o trivial, repetida at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o por especialistas em guerra psicol\u00f3gica, opini\u00f3logos do marketing midi\u00e1tico e diletantes v\u00e1rios a soldo do imp\u00e9rio, depara-se com as guerras permanentes contra pa\u00edses perif\u00e9ricos, os bombardeios &#8220;humanit\u00e1rios&#8221; contra as sociedades dependentes, os bloqueios econ\u00f4micos e comerciais contra qualquer governo desobediente \u2013 nomeados com desd\u00e9m como um &#8220;regime&#8221; s\u00f3 pelo facto de n\u00e3o se ajoelhar perante as ordens das embaixadas estadunidenses, da Uni\u00e3o Europeia ou as receitas do FMI e do Banco Mundial \u2013 e o saqueio ininterrupto dos recursos naturais e da biodiversidade do Terceiro Mundo. Esse processo renovado de domina\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o, ou a tentativa de lev\u00e1-lo a cabo por m\u00e9todos violentos, constitui a manifesta\u00e7\u00e3o de um &#8220;neocolonialismo imperialista&#8221;, segundo a an\u00e1lise rigorosa de Gilberto L\u00f3pez y Rivas. Toda uma defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O arco-\u00edris da bandeira vermelha<\/p>\n<p>Dentro deste contexto global, n\u00e3o cabe a passividade. As resist\u00eancias s\u00e3o m\u00faltiplas. Ainda que nem todas tenham a mesma capacidade de organiza\u00e7\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o, nem a mesma nitidez ideol\u00f3gica para convocar e unir em escala internacional as iras populares, as rebeldias antissist\u00eamicas e as dissid\u00eancias contra &#8220;a nova ordem mundial&#8221;, cada dia mais ca\u00f3tica, cruel e desapiedada. As bandeiras das massas oprimidas e dos movimentos sociais em escala planet\u00e1ria t\u00eam as cores mais diversas, desde o verde ecologista e o violeta feminista at\u00e9 o emblema multicor LGTBI, entre muit\u00edssimas outras express\u00f5es da palestra rebelde. Mas de todas as cores e matizes, necessariamente variados e coexistentes, acreditamos que o horizonte vermelho do marxismo continua a ser a perspectiva te\u00f3rico-pol\u00edtica mais abrangente, inclusiva e integradora e a que permite articular e unir todas as demais rebeldias \u00e0 escala mundial, como h\u00e1 alguns anos assinalou a pensadora dos Estados Unidos Ellen Meiksins Wood no seu conhecido livro A renova\u00e7\u00e3o do materialismo hist\u00f3rico. Democracia contra capitalismo (2000).<\/p>\n<p>A nova resist\u00eancia. Pol\u00eamicas 90 anos depois da Primeira Confer\u00eancia Comunista sul-americana<\/p>\n<p>H\u00e1 &#8220;apenas&#8221; 90 anos, quando n\u00e3o existia internet nem TV, destacamentos de diversas organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias da Nossa Am\u00e9rica reuniram-se em Buenos Aires (Argentina) para organizar a resist\u00eancia das classes trabalhadoras, o mundo plebeu e popular. Tratava-se ent\u00e3o de enfrentar de forma unida e organizada o imperialismo daquele tempo e sua famosa crise capitalista de 1929.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o de 1929 teve lugar na Nossa Am\u00e9rica, dez anos depois de os bolcheviques fundarem a Internacional Comunista (faz agora 100 anos).<\/p>\n<p>A obra que re\u00fane as interven\u00e7\u00f5es, palestras, debates e discuss\u00f5es daquele rico encontro hist\u00f3rico tem o t\u00edtulo El movimiento revolucionario latinoamericano. Versiones de la Primera Conferencia Comunista latinoamericana del 1 al 12 de junio de 1929 [NR] . Foi editada por &#8220;La correspondencia Sudamericana&#8221;, Buenos Aires, 1929. O grosso volume \u2013 durante muitos anos em poder de escassos colecionadores \u2013 pode-se hoje ler e baixar na \u00edntegra e gratuitamente no seguinte link: http:\/\/cipec.nuevaradio.org\/?p=92 [Obtivemos o exemplar digitalizado da biblioteca pessoal do historiador marxista Rodolfo Puiggr\u00f3s, por isso varias p\u00e1ginas t\u00eam o seu carimbo].<\/p>\n<p>Em algumas investiga\u00e7\u00f5es e livros tent\u00e1mos analisar os eixos e discuss\u00f5es daquela lend\u00e1ria reuni\u00e3o que tentava desenvolver na Nossa Am\u00e9rica os ensinamentos de Lenine e dos bolcheviques, tomando [ch\u00e1] mate, ouvindo m\u00fasica latino-americana e conversando em idioma castelhano. N\u00e3o repetiremos agora essas an\u00e1lises.<\/p>\n<p>Contudo, 90 anos depois, soubemos que em abril de 2019 voltaram a reunir-se organiza\u00e7\u00f5es comunistas de v\u00e1rios pa\u00edses (Argentina, Bol\u00edvia, Brasil, Chile, Col\u00f4mbia, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) em Montevideo, Uruguai. Estas organiza\u00e7\u00f5es publicaram um documento conjunto onde, invocando aquela Confer\u00eancia Comunista de 1929, tentam descrever como veem o capitalismo atual e quais deveriam ser as estrat\u00e9gica e t\u00e1ticas para lutar contra ele.<\/p>\n<p>Pode-se consultar a Declaraci\u00f3n del Encuentro de Partidos Comunistas de Suram\u00e9rica no seguinte link: http:\/\/www.pcu.org.uy\/index.php\/noticias\/item\/3110 (datada na web de 30\/Abril\/2019).<\/p>\n<p>A essa reuni\u00e3o n\u00e3o assistiram todos os comunistas do continente. Alguns n\u00facleos, inclusive, fizeram fortes cr\u00edticas ao documento. Por exemplo, pode-se consultar: A prop\u00f3sito de la Declaraci\u00f3n de Montevideo. Resposta do Comit\u00e9 Central del Partido Comunista de M\u00e9xico, no seguinte link: comunistas-mexicanos.org\/&#8230; (datada na web de 24\/Maio\/2019).<\/p>\n<p>At\u00e9 onde sabemos e temos not\u00edcias, a organiza\u00e7\u00e3o comunista de Cuba (em outras d\u00e9cadas, em vida de Fidel, cabe\u00e7a ideol\u00f3gica da revolu\u00e7\u00e3o continental na Nossa Am\u00e9rica) n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o participou como, al\u00e9m disso, nem sequer se manifestou acerca de nenhuma das duas posi\u00e7\u00f5es encontradas. Desde que foi dissolvido o c\u00e9lebre &#8220;Departamento Am\u00e9rica&#8221; do comunismo cubano (outrora conhecido como &#8220;Departamento de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, sob a dire\u00e7\u00e3o de Manuel Pi\u00f1eiro Losada [&#8220;el gallego&#8221;, comandante &#8220;Barbarroja&#8221;]), Cuba pronuncia-se em escala internacional prioritariamente atrav\u00e9s do seu Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Mas nesta ocasi\u00e3o nem sequer por essa via oficial-diplom\u00e1tica-institucional ouviram-se ou leram-se pronunciamentos cubanos.<\/p>\n<p>Em meio a este debate pol\u00edtico-ideol\u00f3gico aberto em escala continental e perante o sil\u00eancio de Cuba, uma terceira organiza\u00e7\u00e3o que at\u00e9 h\u00e1 muito pouco tempo reclamava-se e definia-se como comunista tampouco se pronunciou no debate, pois est\u00e1 atravessando uma crise aguda \u00e0 beira da divis\u00e3o, tornada p\u00fablica por todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o do mundo. Trata-se das antigas FARC-EP (For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia &#8211; Ex\u00e9rcito do Povo, vinculadas anteriormente ao Partido Comunista Clandestino da Col\u00f4mbia, PCCC], definidas antes do seu desarmamento, reconvers\u00e3o e do acordo com o Estado colombiano como um &#8220;partido comunista em armas&#8221;.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 claro \u00e9 que j\u00e1 ningu\u00e9m se atribui nem exerce a fun\u00e7\u00e3o internacional de &#8220;partido guia&#8221;. Nem o antigo partido comunista da R\u00fassia (que liderava o universo &#8220;pr\u00f3-sovi\u00e9tico&#8221;), nem o da China (outrora \u00e0 testa da constela\u00e7\u00e3o mao\u00edsta), nem o da Coreia do Norte, nem o da antiga Alb\u00e2nia, nem o da Gr\u00e9cia, nem o j\u00e1 mencionado partido comunista de Cuba (durante d\u00e9cadas, farol das insurg\u00eancias latino-americanas e inclusive com influ\u00eancias diretas nas Panteras Negras dos EUA). Ainda que existam afinidades, simpatias e aproxima\u00e7\u00f5es internacionais, o comunismo mundial j\u00e1 n\u00e3o tem Vaticano nem Meca ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>E se isto acontece com o mundo comunista, algo n\u00e3o muito diferente experimenta tamb\u00e9m a gal\u00e1xia de recorte trotsquista, dividida em n\u00e3o menos de oito coordenadoras, todas autobatizadas &#8220;Quarta Internacional&#8221;, mas na pr\u00e1tica nenhuma delas aglutina mais de dez representa\u00e7\u00f5es, de diferentes pa\u00edses (no caso das maiorit\u00e1rias, v\u00e1rias outras s\u00e3o integradas por apenas dois ou tr\u00eas grupos diferentes).<\/p>\n<p>Contrainsurg\u00eancia, correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e problema nacional<\/p>\n<p>Assim, o debate aberto em 2019 tem muitas arestas. Desde como definir o novo tipo de capitalismo mundial at\u00e9 o projeto alternativo pelo qual se deveria lutar se se pretende resistir e mudar o mundo.<\/p>\n<p>Os marxistas e em particular os comunistas devem ter um projeto progressista, de reformas democr\u00e1ticas e em defesa da paz ou, em alternativa, deveriam tentar construir alian\u00e7as e acumular for\u00e7as em fun\u00e7\u00e3o de um projeto revolucion\u00e1rio, anti-imperialista e anticapitalista? Quando avan\u00e7am as for\u00e7as da extrema direita, neofascistas e anti-institucionais (no caso latino-americano: Brasil e Col\u00f4mbia, ambos os guarda-chuvas dos EUA e de Israel, ainda que algumas destas correntes neofascistas tamb\u00e9m proliferem na Europa), devem as for\u00e7as comunistas defender, como estrat\u00e9gia, o parlamento, a legalidade, a constitui\u00e7\u00e3o e a paz a qualquer custo ou, em alternativa, devem-se preparar para enfrentar mediante todas as formas de luta poss\u00edveis a contrainsurg\u00eancia, hoje retroalimentada e ati\u00e7ada em tempos de ofensiva capitalista?<\/p>\n<p>No plano da estrat\u00e9gia de longo prazo, quando na Am\u00e9rica Latina &#8220;o ciclo progressista&#8221; se enfraqueceu notavelmente e a direita mais agressiva mostra seu punho de ferro, devem os comunistas promover frentes democr\u00e1ticas, seguindo as velhas palavras de ordem de Jorge Dimitrov e do S\u00e9timo Congresso da Internacional Comunista de 1935 ou em alternativa devem propiciar uma frente \u00fanica das for\u00e7as revolucion\u00e1rias, antifascistas, anti-imperialistas e anticapitalistas?<\/p>\n<p>No \u00e2mbito das t\u00e1ticas de curto prazo, qual deveria ser a proposta a apresentar no seio dos movimentos de massas para derrotar os governos neoliberais (Macri na Argentina, Bolsonaro no Brasil, Duque-Uribe na Col\u00f4mbia, Pi\u00f1era no Chile, etc)? Priorizar &#8220;a paz e a democracia&#8221;, diluindo-se em partidos tradicionais do sistema que encabecem as pesquisas eleitorais, sem mostrar a identidade pr\u00f3pria (ou inclusive escondendo-a) ou, pelo contr\u00e1rio, promover frentes unit\u00e1rias de liberta\u00e7\u00e3o que tenham como objetivo recuperar a soberania nacional espezinhada pelo imperialismo (do econ\u00f4mico, o produtivo e o financeiro at\u00e9 o territorial e o geopol\u00edtico) e portanto tentar influir ideologicamente nas grandes massas que participam de processos eleitorais com uma identidade definida atrav\u00e9s de um programa antineoliberal, mas ao mesmo tempo propondo medidas anti-imperialistas e com perspectivas anticapitalistas?<\/p>\n<p>A disjuntiva \u00e9 atual, \u00e9 urgente, mas tem uma longa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Recordemos que j\u00e1 naquela Confer\u00eancia Comunista de 1929 o grupo liderado por Victorio Codovilla (com anu\u00eancia do PC da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, presente atrav\u00e9s do bukarinista Jules Humbert-Droz [&#8220;camarada Lu\u00eds&#8221;]) acabou por impor a estrat\u00e9gia continental da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa, &#8220;agr\u00e1ria-anti-imperialista&#8221;, baseando-se no suposto &#8220;feudalismo&#8221; latino-americano&#8221;. Posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica que enfrentou, com nome e sobrenome, as propostas dos delegados de Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, que propunha como estrat\u00e9gia continental o seguinte: &#8220;A pr\u00f3pria palavra revolu\u00e7\u00e3o, nesta Am\u00e9rica das pequenas revolu\u00e7\u00f5es, presta-se bastante ao equ\u00edvoco. Temos que reivindic\u00e1-la rigorosa e intransigentemente. Temos que restituir-lhe seu sentido estrito e cabal. A revolu\u00e7\u00e3o latino-americana ser\u00e1 nada mais e nada menos que uma etapa, uma fase da revolu\u00e7\u00e3o mundial. Ser\u00e1 simples e puramente a revolu\u00e7\u00e3o socialista. A esta palavra acrescentai, conforme os casos, todos os adjetivos que quiserdes: &#8220;anti-imperialista&#8221;, &#8220;agrarista&#8221;, &#8220;nacionalista-revolucion\u00e1ria&#8221;. O socialismo os sup\u00f5e, os antecede, os abrange a todos&#8221; (editorial da revista Amauta: &#8220;Anivers\u00e1rio e balan\u00e7o&#8221;, Setembro de 1928).<\/p>\n<p>Noventa anos depois, reaparece o debate. Ficamos s\u00f3 na defesa &#8220;da democracia&#8221; a seco, em geral, ou nos esfor\u00e7amos por disputar a hegemonia pol\u00edtico cultural puxando da corda rumo a posi\u00e7\u00f5es socialistas, entrecruzadas, na Nossa Am\u00e9rica, com antigas, adiadas e irresolutas exig\u00eancias \u00e9tnico-nacionais (como acontece com a na\u00e7\u00e3o mapuche, os mais de trinta povos-na\u00e7\u00f5es do estado plurinacional da Bol\u00edvia, os povos origin\u00e1rios do Peru, os do Equador, os da Guatemala, os do M\u00e9xico, etc).<\/p>\n<p>Tem sentido suicidar uma insurg\u00eancia? Balan\u00e7o de invent\u00e1rio<\/p>\n<p>Ao avaliar as diferen\u00e7as atuais entre os comunistas do cone sul e os mexicanos, n\u00e3o se deveria perder de vista o contexto regional e a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e0 escala continental.<\/p>\n<p>Nesse horizonte, perguntamos com a cabe\u00e7a fria e absoluta serenidade: ter\u00e1 sido uma boa decis\u00e3o desarmar (ou suicidar?) o maior ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio do continente quando proliferam e multiplicam-se as bases militares estadunidenses? (Sobre este tema pode-se consultar a volumosa obra de Telma Luzzani (2012): Territorios vigilados. C\u00f3mo opera la red de bases militares norteamericanas en Sudam\u00e9rica, Buenos Aires, Editorial Debate). Desde 2012, quando esse livro documentado foi publicado, at\u00e9 hoje, as bases militares estadunidenses continuaram a aumentar. N\u00e3o \u00e9 nenhum segredo que o governo do presidente Macri entregou parte do territ\u00f3rio argentino para essas novas bases. No livro Estudiando la contrainsurgencia de Estados Unidos (2019) de Gilberto L\u00f3pez y Rivas encontram-se v\u00e1rias descri\u00e7\u00f5es pormenorizadas dos diferentes tipos de bases operativas estadunidenses fora do territ\u00f3rio norte-americano.<\/p>\n<p>Ao levantar a barreira geopol\u00edtica que a insurg\u00eancia comunista \u2013 com uma experi\u00eancia pr\u00e1tica de mais de meio s\u00e9culo de luta \u2013 interpunha entre os estados da Col\u00f4mbia e da Venezuela, n\u00e3o ter\u00e3o sido deixados de m\u00e3os livres os paramilitarismo e o narco estado colombiano para que arremeta contra o governo bolivariano do chavismo e tente, pela m\u00e3o dos &#8220;falc\u00f5es&#8221; do Pent\u00e1gono e da administra\u00e7\u00e3o Trump, derrub\u00e1-lo por vias violentas?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o governo cubano imaginou que, ajudando a desativar, em nome &#8220;da paz&#8221;, o \u00faltimo contingente pol\u00edtico-militar de envergadura, seria afrouxado o bloqueio criminoso contra essa ilha heroica e rebelde? Pelo pouco que se sabe, aparentemente o referido bloqueio est\u00e1 mais duro do que nunca&#8230;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o governo do presidente leg\u00edtimo da Venezuela pensou que, desaparecida a guerrilha bolivariana, o estado colombiano iria finalmente respeitar a lei, o direito internacional e a &#8220;boa vizinhan\u00e7a&#8221;? As apar\u00eancias indicam o contr\u00e1rio. Desaparecidas as FARC-EP como for\u00e7a beligerante, o uribismo (o oficial e o paralelo) est\u00e1 mais cevado do que nunca&#8230; e seus paramilitares podem dispor da fronteira para cometer todo tipo de malfeitorias e viol\u00eancias contra o valoroso e abnegado povo venezuelano.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no interior da Col\u00f4mbia, o Estado executou 135 ex-combatentes, desarmados, assassinados a sangue frio. Sem contar toda a milit\u00e2ncia social e de direitos humanos que foi reprimida nos \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>At\u00e9 o jornal The New York Times, insuspeito de posi\u00e7\u00f5es marxistas, publicou nos EUA um artigo assinado por Nicholas Casey, gerando um alvoro\u00e7o de alcance internacional. Ali alerta sobre as execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais na Col\u00f4mbia, o papel do ex-presidente Uribe e o desconhecimento permanente do atual presidente Duque dos acordos de paz. At\u00e9 79 congressistas do Partido Democrata dos Estados Unidos pediram \u00e0 Casa Branca para suspender todo apoio aos sabotadores (estatais) da paz na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Segundo o di\u00e1rio norte-americano, o governo ultradireitista de Iv\u00e1n Duque e seus principais comandos militares ordenaram voltar \u00e0 pr\u00e1tica suja dos &#8220;falsos positivos&#8221;. Ou seja, executar civis disfar\u00e7ando-os de insurgentes e aumentar os &#8220;ca\u00eddos em combates&#8221; (falsos). At\u00e9 o ponto de o jornal The New York Times ter confirmado que as for\u00e7as armadas da Col\u00f4mbia iniciaram uma investiga\u00e7\u00e3o interna para descobrir as fontes militares que deixaram escapar a informa\u00e7\u00e3o dessas novas opera\u00e7\u00f5es contrainsurgentes. Perante semelhante evid\u00eancia, tem sentido continuarmos teimosamente abra\u00e7ados a um papel assinado em Havana do qual a burguesia colombiana e seu imenso aparelho de guerra se ri em p\u00fablico?<\/p>\n<p>Neutralizar, desarmar, dividir e aniquilar<\/p>\n<p>Essas parecem ter sido as fases estrat\u00e9gicas da contra-insurgencia colombiana, dirigida com muita precis\u00e3o a partir dos Estados Unidos e de Israel. Talvez tenha chegado a hora de interrogar acerca das debilidades ideol\u00f3gicas que permitiram semelhante opera\u00e7\u00e3o. Ou foi s\u00f3 &#8220;perf\u00eddia&#8221;? Ser\u00e1 que a categoria &#8220;perf\u00eddia&#8221; chega para explicar todo esse processo?<\/p>\n<p>Nesse contexto inscreve-se o triste e vergonhoso caso do sequestro \u2013 completamente ilegal e for\u00e7ado \u2013 de Jes\u00fas Santrich, acusando-o de narcotraficante, montagem grosseira no melhor estilo DEA\/CIA. Como explic\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Valendo-se de uma montagem digna do famoso computador m\u00e1gico de Ra\u00fal Reyes (de onde brotavam os del\u00edrios mais hilariantes, as hist\u00f3rias mais descabeladas), recrutou-se um militante da organiza\u00e7\u00e3o, seguindo o manual de opera\u00e7\u00f5es da CIA. Todo o mundo recorda como Philip Agee, antigo agente da &#8220;companhia&#8221; que escreveu h\u00e1 d\u00e9cada um livro famoso, Inside the Company [traduzido para castelhano com o t\u00edtulo Diario de la CIA ], descreve o m\u00e9todo de recrutamento cl\u00e1ssico da intelig\u00eancia estadunidense: o dinheiro. Mediante este m\u00e9todo, a montagem DEA\/CIA contra o revolucion\u00e1rio cego Santrich, recorreu mais uma vez \u00e0 figura do &#8220;arrependido&#8221; (assim os chamavam na It\u00e1lia dos anos 70 quando o estado burgu\u00eas venceu as Brigadas Vermelhas; na Argentina denominavam-nos &#8220;quebrados&#8221;, em cada pa\u00eds s\u00e3o conhecidos com nomes diferentes). Mas neste caso n\u00e3o se trata de algum antigo militante revolucion\u00e1rio que n\u00e3o aguenta a tortura e colabora \u2013 como na It\u00e1lia ou na Argentina \u2013 e sim de algu\u00e9m que muda de lado sem press\u00f5es f\u00edsicas e sim mediante dinheiro). Na montagem contra Jes\u00fas Santrich (dirigente insurgente comunista e bolivariano, mas tamb\u00e9m escritor, poeta, m\u00fasico e fil\u00f3sofo), seu &#8220;acusador&#8221; tomou um voo imediato para os EUA onde imediatamente come\u00e7ou a trabalhar, segundo os meios de comunica\u00e7\u00e3o, para a DEA, como na s\u00e9rie mais imaginativa do Netflix).<\/p>\n<p>Que objetivo perseguiu este injusto, ilegal e cruel encarceramento? Na nossa opini\u00e3o os objetivos foram v\u00e1rios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica de um dirigente revolucion\u00e1rio conhecido internacionalmente \u2013 t\u00edpica opera\u00e7\u00e3o de guerra psicol\u00f3gica para causar baixas morais \u00e0 tropa inimiga \u2013, o principal objetivo consistiu em dividir as FARC e todos os comunistas da Col\u00f4mbia. Gerar intrigas, enfrentar entre si os revolucion\u00e1rios, debilitar todo projeto de mudan\u00e7a. Uma velha receita&#8230; que o reformismo aceita desde que o sistema o tolere.<\/p>\n<p>As provas est\u00e3o \u00e0 vista. Parte dos dirigentes oficiais do novo partido reciclado, que j\u00e1 n\u00e3o menciona as palavras &#8220;marxismo&#8221; nem &#8220;comunismo&#8221;, tratou de desentender-se de Santrich. Inclusive um dos seus editorialistas estrelas, agora convertido, deu certa credibilidade \u00e0 montagem oficial deixando nas m\u00e3os da v\u00edtima a carga probat\u00f3ria da sua inoc\u00eancia, ao inv\u00e9s de negar rotundamente o que evidentemente era uma manobrada fabricada artificialmente contra um dos seus companheiros. Esse mesmo editorialista-estrela que, com inten\u00e7\u00f5es evidentes de provoca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, acusou Iv\u00e1n M\u00e1rquez de estar &#8220;assessorado&#8221; por peritos trotskistas estrangeiros. A direita, feliz, aplaudia em del\u00edrio! A fam\u00edlia comunista sangrava e dividia-se sem pena nem gl\u00f3ria em troca de&#8230; nada.<\/p>\n<p>Isso levou a que Iv\u00e1n M\u00e1rquez, principal l\u00edder insurgente (que em Agosto de 2017 ficou em primeiro lugar nas vota\u00e7\u00f5es da nova organiza\u00e7\u00e3o, com 888 votos, ao passo que Rodrigo Londo\u00f1o Echeverri [&#8220;Timol\u00e9on Jim\u00e9nez&#8221;, &#8220;Timochenko&#8221;] ficou em quinto lugar, abaixo inclusive dos votos obtidos por Jes\u00fas Santrich), escrevesse uma carta p\u00fablica intitulada &#8220;Aos guerrilheiros nos ETCR [Espacios Territoriales de Capacitaci\u00f3n y Reincorporaci\u00f3n] e a todos os colombianos&#8221;, que se pode consultar no link: https:\/\/www.lahaine.org\/mundo.php\/a-los-guerrilleros-en-los (publicada na web em 21\/Maio\/2019). Nela faz uma autocr\u00edtica p\u00fablica pela entrega de armas ao estado colombiano antes de este concretizar o prometido.<\/p>\n<p>Em lugar de ler com humildade o apelo, refletir em conjunto, assumir debilidades e pensar um futuro plano coletivo para tentar reconstruir \u2013 nas novas condi\u00e7\u00f5es \u2013 o politicamente perdido, a carta p\u00fablica de Iv\u00e1n M\u00e1rquez foi respondida instantaneamente por Rodrigo Londo\u00f1o, o qual &#8220;decretou&#8221; que Iv\u00e1n M\u00e1rquez&#8230; era separado das FARC. A decis\u00e3o de Londo\u00f1o foi aplaudida por toda a direita e pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o monopolistas, amea\u00e7ando os dirigentes pol\u00edticos, ex-guerrilheiros, perante um eventual regresso \u00e0 luta.<\/p>\n<p>Cumprido o objetivo, Santrich \u00e9 posto em liberdade. Os Estados Unidos e o narco estado colombiano j\u00e1 haviam obtido o que queriam.<\/p>\n<p>Refletindo &#8220;A partir de um obscuro rinc\u00e3o do mundo&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 meio s\u00e9culo o velho professor marxista Rodolfo Puiggr\u00f3s escreveu que, como n\u00f3s os argentinos n\u00e3o conseguimos tomar o poder e fazer nossa pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o socialista, vamos pelo mundo a inspecionar revolu\u00e7\u00f5es alheias. Essa aguda ironia de Puiggr\u00f3s, l\u00facida e s\u00e1bia, acompanha-me desde a primeira vez que a li. \u00c9 um chamado \u00e0 humildade. Um bem escasso na nossa esquerda. N\u00e3o obstante, respeitando as decis\u00f5es pol\u00edticas de cada pa\u00eds, ao menos pode-se opinar.<\/p>\n<p>Acreditamos que as \u00fanicas op\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias n\u00e3o s\u00e3o as que se autodenominam exclusivamente &#8220;PC&#8221;. Muita \u00e1gua correu sob a ponte desde a Confer\u00eancia Comunista de 1929 e da outra, ainda maior, de 1960 (&#8220;de partidos comunistas e oper\u00e1rios&#8221;), para mencionar apenas duas.<\/p>\n<p>Se deixarmos de lado as denomina\u00e7\u00f5es e as autoproclama\u00e7\u00f5es, onde est\u00e1 hoje representado o movimento revolucion\u00e1rio latino-americano? A resposta n\u00e3o \u00e9 categ\u00f3rica nem matem\u00e1tica. Est\u00e1 no espa\u00e7o dos &#8220;PC&#8221;, mas tamb\u00e9m em outros espa\u00e7os politicamente cont\u00edguos, que muitas vezes foram formados em pol\u00eamicas com os &#8220;PC&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existem outras coordena\u00e7\u00f5es, n\u00e3o denominadas exclusivamente &#8220;PC&#8221;, mas que implicitamente assumem essa cultura, como o Movimento Continental Bolivariano (MCB), onde o marxismo e a heran\u00e7a de Lenin se entrecruzam com as hist\u00f3rias de luta pela independ\u00eancia (neste caso simbolizadas na figura de Sim\u00f3n Bol\u00edvar, ainda que tamb\u00e9m seria preciso acrescentar Che Guevara). N\u00e3o ser\u00e1 hora de revitaliz\u00e1-lo e ampli\u00e1-lo?<\/p>\n<p>E em paralelo existem tamb\u00e9m movimentos que se nutrem do marxismo, entrecruzando-o com o indianismo revolucion\u00e1rio (como no caso da Bol\u00edvia e de Chiapas), ou tamb\u00e9m com a teologia da liberta\u00e7\u00e3o, de inspira\u00e7\u00e3o marxista e crist\u00e3 (como \u00e9 o caso do Brasil e de alguns pa\u00edses centro-americanos).<\/p>\n<p>Em todos estes casos e espa\u00e7os, uma das chaves centrais para enfrentar os desafios pendentes \u00e9 assumir uma posi\u00e7\u00e3o internacionalista que n\u00e3o dependa de &#8220;capitais&#8221; nem &#8220;vaticanos&#8221; ou &#8220;mecas&#8221; ideol\u00f3gicas, seja Moscou, Pequim, Havana, Paris, Atenas, etc.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o entre reformismo e revolu\u00e7\u00e3o tornou-se mais complexa. Cinquenta anos de guerra civil s\u00f3 para alcan\u00e7ar a paz? N\u00e3o estava na agenda a transforma\u00e7\u00e3o social, a tomada do poder, a revolu\u00e7\u00e3o? Quem tiver visto, pelo menos na web, algum v\u00eddeo do velho Manuel Marulanda sabe perfeitamente o que o l\u00edder insurgente com mais anos de insurg\u00eancia em todo o continente (pois come\u00e7ou inclusive antes de Fidel) repetiu mil vezes: &#8220;Que ningu\u00e9m se confunda. N\u00f3s lutamos pelo poder. Esse \u00e9 o melhor sonho e o maior que sonh\u00e1mos: o poder&#8221; (pode-se procurar no YouTube ou em outras plataformas da web). Enquanto diz isto, o velho l\u00edder colombiano sorri diante da c\u00e2mara.<\/p>\n<p>O que talvez fosse preciso perguntar e explicar \u00e9 o desarmamento ideol\u00f3gico, anterior a todo desarmamento pol\u00edtico ou militar. Como e por que raz\u00f5es foi levado a cabo? Como poderia ser revertido? Ainda que important\u00edssima, talvez a quest\u00e3o n\u00e3o seja em que momento se realizou &#8220;o abandono das armas&#8221; e sim as raz\u00f5es pelas quais foi tomada semelhante decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Tampouco \u00e9 determinante se no cone sul do continente se postula unicamente a luta pela democracia e o progressismo, deixando o socialismo para um horizonte j\u00e1 indistingu\u00edvel no tempo e no espa\u00e7o. O problema \u00e9 que voltou \u00e0 tona da muita antiga cultura da &#8220;frente democr\u00e1tica&#8221;. Aquelas velhas teses de Dimitrov, mas de uma maneira muit\u00edssimo mais light e descafeinada.<\/p>\n<p>Porque uma coisa \u00e9 que, numa conjuntura determinada, numa situa\u00e7\u00e3o concreta, n\u00e3o haja for\u00e7as suficientes para postular a tomada do poder e o socialismo e algo totalmente diferente \u00e9 que esse projeto seja arquivado definitivamente e seja abandonado para a eternidade. Recordamos quando o jovem Hugo Ch\u00e1vez disse com enorme lucidez e valentia pol\u00edtica: &#8220;Fracassamos&#8230; por agora &#8220;. Outra seria a hist\u00f3ria deste continente se houvesse dito: &#8220;Fracass\u00e1mos&#8221;. E ponto.<\/p>\n<p>Na nossa modesta opini\u00e3o, n\u00e3o se trata de voltar \u00e0 nostalgia, de vestir uma camiseta com a sigla CCCP (URSS), como costumam fazer alguns jovens que cultivam a moda &#8220;retro&#8221;. T\u00e3o pouco se trata de continuar a girar em torno de se Trotsky reprimiu anarquistas no Kronstadt e se Stalin por sua vez assassinou Trotsky e se por sua vez Kruschev traiu Stalin voltando-se para o pacifismo, redobrado at\u00e9 o paroxismo pelo eurocomunismo e assim por diante. N\u00e3o. Definitivamente n\u00e3o.<\/p>\n<p>O que se trata \u00e9 de abandonar a s\u00edndrome do Muro de Berlim. Recuperar a ofensiva ideol\u00f3gica. Ter os p\u00e9s na terra e n\u00e3o cair na dupla moral de proclamar palavras de ordem ultrarradicais mantendo uma pr\u00e1tica quotidiana ultrarreformista. Sabemos que a conjuntura n\u00e3o atua a nosso favor. Mas n\u00e3o abandonemos a perspectiva revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Se num contexto de contrainsurg\u00eancia global as organiza\u00e7\u00f5es marxistas revolucion\u00e1rias t\u00eam de fazer alian\u00e7as com for\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o anticapitalistas, ser\u00e1 preciso ter flexibilidade. Os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional (recordemos o exemplo vietnamita, para n\u00e3o mencionar outros mais pr\u00f3ximos) assim o exigiram. Mas isso n\u00e3o implica diluir-se, apagar a pr\u00f3pria identidade, carecer de uma estrat\u00e9gia pr\u00f3pria nem abandonar para sempre o sonho da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo \u00e9 ilus\u00e3o, menos o poder&#8221;, escreveu Lenin certa vez. Mari\u00e1tegui, Mella e Farabundo Mart\u00ed propuseram [alcan\u00e7ar] o poder, inclusive quando n\u00e3o puderam concretiz\u00e1-lo. Fidel, o Che, Marulanda, Marighella, etc continuaram esse caminho. Outros e outras, que n\u00e3o se definiram dentro da cultura &#8220;PC&#8221; (como Robi Santucho, Ra\u00fal Sendic, Miguel Enriquez, Carlos Fonseca, Roque Dalton, Camilo Torres, etc) na pr\u00e1tica&#8230; deram a vida pela revolu\u00e7\u00e3o e o comunismo. Chamaram-se como se chamaram. Suas mem\u00f3rias, que s\u00e3o as nossas, merecem muito mais que ir a reboque da burguesia.<\/p>\n<p>30\/Maio\/2019<br \/>\n[NR] Pode ser descarregado em resistir.info\/livros\/livros.html<\/p>\n<p>[*] Professor da Universidade de Buenos Aires, onde coordena a C\u00e1tedra Che Guevara.<\/p>\n<p>O original encontra-se em www.lahaine.org\/mundo.php\/el-fantasma-comunista-en-su<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23339\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[226],"class_list":["post-23339","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-64r","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23339","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23339"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23339\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23339"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23339"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23339"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}