{"id":23367,"date":"2019-06-14T13:52:58","date_gmt":"2019-06-14T16:52:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23367"},"modified":"2019-06-14T13:52:58","modified_gmt":"2019-06-14T16:52:58","slug":"notas-sobre-anticolonialismo-imperialismo-e-hegemonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23367","title":{"rendered":"Notas sobre anticolonialismo, imperialismo e hegemonia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/05\/jones-manoel-boitempo-coreia.jpg?w=620&amp;h=330\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Blog da Boitempo<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<\/p>\n<p>No distante ano de 2013, tive contato com o artigo de Domenico Losurdo \u201cComo nasceu e como morreu o \u2018marxismo ocidental\u2019\u201d. Nele, Losurdo observa a certa altura como Michael Hardt e Antonio Negri afirmam que os palestinos podem contar com a simpatia deles, mas que, a partir do momento em que a liberta\u00e7\u00e3o nacional palestina for conquistada, quando for constru\u00eddo o Estado nacional, n\u00e3o se pode mais estar do \u201clado deles\u201d. Ao ler esse trecho imediatamente pensei: ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia deve concordar com isso. Imaginei ser um racioc\u00ednio por demais infantil crer que s\u00f3 podemos apoiar um povo oprimido no seu momento de m\u00e1xima opress\u00e3o e, quando esse povo come\u00e7ar a construir sua emancipa\u00e7\u00e3o \u2013 o objetivo da luta \u2013, o encanto se acaba.<\/p>\n<p>Eu estava errado. No ano seguinte, ainda cursando Hist\u00f3ria na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), eu conversava com um professor que me disse ter participado quando jovem de protestos contra a Guerra do Vietn\u00e3. A pergunta imediata que lhe fiz foi a respeito da situa\u00e7\u00e3o do bravo pa\u00eds asi\u00e1tico hoje. A resposta n\u00e3o poderia ser mais chocante: \u201cn\u00e3o sei, depois que eles conseguiram derrotar os Estados Unidos, houve um processo de burocratiza\u00e7\u00e3o com a constru\u00e7\u00e3o do Estado Nacional, deixou de ser um processo revolucion\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>A resposta do meu antigo professor, longe de ser uma compreens\u00e3o particular, exprime o esp\u00edrito de nosso tempo: o Vietn\u00e3 s\u00f3 interessava quando era a encarna\u00e7\u00e3o m\u00e1xima e mais brutal da opress\u00e3o, uma esp\u00e9cie de representa\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica da f\u00e1bula b\u00edblica de Davi contra Golias; mas depois da liberta\u00e7\u00e3o, quando a prioridade da luta anticolonial e anti-imperialista passa a ser a constru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a institucionaliza\u00e7\u00e3o da descoloniza\u00e7\u00e3o, a luta perde o seu charme.<\/p>\n<p>Em 2018, a Boitempo lan\u00e7ou no Brasil o livro O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer. O marxista italiano trabalha v\u00e1rios problemas nesse livro, mas dois s\u00e3o os que mais nos interessam nessa reflex\u00e3o. Primeiro, Losurdo aponta como uma tend\u00eancia de longo prazo do que chama de \u201cmarxismo ocidental\u201d \u2013 sem o tom elogioso normalmente atrelado ao termo \u2013 a exclus\u00e3o da reflex\u00e3o sobre a quest\u00e3o nacional e colonial. Com an\u00e1lises r\u00e1pidas, mas profundas, coloca em revis\u00e3o a obra de uma s\u00e9rie de pensadores como Adorno, Horkheimer, \u017di\u017eek, Althusser e muitos outros, para demonstrar sua tese.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, nomes como Jean-Paul Sartre e Herbert Marcuse, intelectuais europeus que dedicaram grande aten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e te\u00f3rica a luta dos Condenados da Terra, s\u00e3o criticados por uma esp\u00e9cie de absolutiza\u00e7\u00e3o do momento da resist\u00eancia como oprimidos. Losurdo classifica o anticolonialismo de Sartre como populista e idealista. N\u00e3o tenho certeza se concordo com essa caracteriza\u00e7\u00e3o de Sartre, mas vale a pena ler as palavras do italiano:<\/p>\n<p>\u201cConcentrando sua aten\u00e7\u00e3o apenas no esfor\u00e7o desesperado dos \u201ccondenados da terra\u201d para romper as correntes da escravid\u00e3o colonial e reservando sua simpatia exclusivamente para o grupo em fus\u00e3o, protagonista do momento m\u00e1gico, mas breve, da revolu\u00e7\u00e3o, aquele entusiasmo gera respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o de um antigo regime universalmente odiado, Sartre \u00e9 o defensor de um anticolonialismo certamente apaixonado e merit\u00f3rio, mas que ao mesmo tempo \u00e9, contudo, populista e idealista. \u00c9 um anticolonialismo que n\u00e3o consegue compreender a fase da revolu\u00e7\u00e3o empenhada na constru\u00e7\u00e3o da nova ordem.\u201d (O marxismo ocidental, p. 115)<\/p>\n<p>Esse argumento ser\u00e1 o fio condutor de nossa reflex\u00e3o. A Palestina \u00e9 um exemplo de colonialismo cl\u00e1ssico. Ocupa\u00e7\u00e3o militar direta, regime de segrega\u00e7\u00e3o racial, papel central das for\u00e7as repressivas como media\u00e7\u00e3o de controle, desumaniza\u00e7\u00e3o e animaliza\u00e7\u00e3o do povo oprimido e produ\u00e7\u00e3o pol\u00edtica-ideol\u00f3gica do colonizador como um ser superior que quer apenas viver sua vida, mas os b\u00e1rbaros, o Outro violento, n\u00e3o permitem e, portanto, suas a\u00e7\u00f5es coloniais s\u00e3o apenas a defesa do seu \u201cestilo de vida\u201d. Mas h\u00e1 muito tempo sabemos que existem v\u00e1rias formas de domina\u00e7\u00e3o colonial-imperialista. \u00c9 poss\u00edvel que um povo se liberte da ocupa\u00e7\u00e3o militar direta do colonizador e continue dominado sob um regime classicamente denominado neocolonial.<\/p>\n<p>A independ\u00eancia pol\u00edtica, caso n\u00e3o acompanhada do desenvolvimento de um aparato produtivo, cient\u00edfico e t\u00e9cnico desenvolvido, al\u00e9m de uma capacidade de defesa efetiva da nova ordem, torna-se apenas formal. Um exemplo bastante ilustrativo \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios Estados africanos e sua depend\u00eancia neocolonial \u00e0 Fran\u00e7a. Esses Estados africanos, por exemplo, at\u00e9 hoje n\u00e3o t\u00eam um Banco Central e \u00e9 a Fran\u00e7a que controla a emiss\u00e3o de suas moedas.<\/p>\n<p>V\u00e1rios pensadores revolucion\u00e1rios, como Frantz Fanon, Ho Chi Minh, Mao Ts\u00e9-Tung, Am\u00edlcar Cabral etc., perceberam que a independ\u00eancia pol\u00edtica, ou a emancipa\u00e7\u00e3o nacional formal, pode se tornar uma h\u00e1bil armadilha do imperialismo. Quando a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa triunfou complemente em 1949, o imperialismo estadunidense flertou com a ideia de atacar o pa\u00eds com bombas at\u00f4micas e reduzi-lo a um grande nada, mas logo as mentes astutas do Imp\u00e9rio passaram a uma estrat\u00e9gia mais realista. Conscientes da pouca experi\u00eancia dos comunistas na administra\u00e7\u00e3o da economia urbana e cientes das pr\u00f3prias dificuldades de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds devastado por d\u00e9cadas de ocupa\u00e7\u00e3o colonial e guerras, os Estados Unidos passaram a aplicar uma s\u00e9rie de bloqueios econ\u00f4micos, sabotagens, press\u00f5es diplom\u00e1ticas e cercos de todo tipo. Era necess\u00e1rio impedir com todas as for\u00e7as o desenvolvimento econ\u00f4mico para tornar a revolu\u00e7\u00e3o anticolonial e socialista uma casca vazia.<\/p>\n<p>Quando o desenvolvimento econ\u00f4mico da na\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 totalmente impedido, o imperialismo, via de regra, parte para uma estrat\u00e9gia de cerco e isolamento mundial, transformando o pa\u00eds em uma esp\u00e9cie de p\u00e1ria do mundo. Enquanto existia campo socialista, Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e movimento terceiro-mundista, a efic\u00e1cia dessa estrat\u00e9gia de isolamento era relativa. Mas, como sabemos, desde o in\u00edcio dos anos 1990 o terceiro-mundismo e o comunismo foram derrotados. Os povos que ousam ser livres est\u00e3o mais sozinhos do que nunca.<br \/>\nMas e a Coreia?<\/p>\n<p>Agora podemos come\u00e7ar a falar da Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica da Coreia, normalmente chamada de Coreia do Norte. Mas falar da Coreia Popular, na conjuntura brasileira, significa antes de mais nada chamar aten\u00e7\u00e3o para dois aspectos. O primeiro \u00e9 a nossa ignor\u00e2ncia n\u00e3o s\u00f3 sobre o pa\u00eds como sobre o continente asi\u00e1tico de maneira geral. Repare: nas universidades brasileiras, os centros de estudo sobre a \u00c1sia, como o que existe na UFPE, s\u00e3o rar\u00edssimos. A oferta de disciplinas sobre o tema tamb\u00e9m \u00e9 algo bastante dif\u00edcil de encontrar. A exce\u00e7\u00e3o vem sendo o crescimento do interesse pela China \u2013 como o trabalho incr\u00edvel do LabChina da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Retrocedendo um pouco mais, na escola, os professores n\u00e3o est\u00e3o preparados para trabalhar hist\u00f3ria da \u00c1sia e nos livros did\u00e1ticos em geral ainda predomina a perspectiva euroc\u00eantrica da hist\u00f3ria, de forma que a \u00c1sia comparece no conte\u00fado did\u00e1tico apenas como elemento para contar a hist\u00f3ria europeia (como a expans\u00e3o imperialista do s\u00e9culo XIX).<\/p>\n<p>No mercado editorial a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 melhor. O n\u00famero de autores asi\u00e1ticos consumidos na cultura brasileira \u00e9 reduzid\u00edssimo. Quando publicados, como no caso dos sul-coreanos Ha-Joon Chang e Byung-Chul Han, s\u00e3o autores com produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica ocidentalizada. Estudiosos acad\u00eamicos da \u00c1sia de grande import\u00e2ncia, como o norte-americano Bruce Cumings, n\u00e3o t\u00eam tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas. Tamb\u00e9m n\u00e3o preciso falar muito sobre a aus\u00eancia de publica\u00e7\u00e3o das reflex\u00f5es de intelectuais da Coreia Popular sobre os rumos do seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Em suma, somos dominados por um colonialismo cultural de base euroc\u00eantrica que condiciona o nosso conhecimento para um estranhamento\/desconhecimento n\u00e3o s\u00f3 da \u00c1frica e da \u00c1sia, como de nosso pr\u00f3prio territ\u00f3rio \u2013 a Am\u00e9rca Latina.<\/p>\n<p>A despeito disso, quase todos os militantes de esquerda no Brasil t\u00eam uma opini\u00e3o negativa sobre a Coreia Popular. Quem forma essa opini\u00e3o? Os monop\u00f3lios de m\u00eddia. \u00c9 necess\u00e1rio refletir com mais profundidade sobre a produ\u00e7\u00e3o dessas not\u00edcias. No geral, sobre os monop\u00f3lios de m\u00eddia nativos, sabemos que pertencem a um pequeno n\u00famero de fam\u00edlias e t\u00eam ramifica\u00e7\u00f5es com diversos neg\u00f3cios capitalistas e com partidos e pol\u00edticos da ordem. Mas e quanto \u00e0s not\u00edcias internacionais? Como elas s\u00e3o produzidas? Domenico Losurdo, no seu livro Democracia ou Bonapartismo, cita um dado do final dos anos 1990 muito interessante:<\/p>\n<p>\u201cO mercado da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 quase monop\u00f3lio de quatro ag\u00eancias: Associated Press e United Press (Estados Unidos), Reuters (Gr\u00e3-Bretanha) e France Press. Todas as r\u00e1dios, todas as cadeias de televis\u00e3o, todos os jornais do mundo compram os servi\u00e7os destas ag\u00eancias. 65% das \u201cinforma\u00e7\u00f5es\u201d mundiais partem dos Estados Unidos\u201d. (Latouche apud Losurdo, 2004, p. 280-281).\u201d<\/p>\n<p>Recentemente, fui buscar dados atualizados sobre as famigeradas Ag\u00eancias de Not\u00edcias \u2013 tema pouco falado, mas de fundamental import\u00e2ncia para entender a disputa pela hegemonia no mundo. Hoje apenas tr\u00eas ag\u00eancias de not\u00edcia controlam o mercado global de \u201cinforma\u00e7\u00f5es\u201d. Associated Press (EUA), Agence France-Presse (Fran\u00e7a) e Reuters (Inglaterra, mas como escrit\u00f3rio principal em Nova York). Essas tr\u00eas ag\u00eancias t\u00eam um poder t\u00e3o grande que \u201cum estudo sobre a cobertura da guerra na S\u00edria por nove dos principais jornais europeus ilustra claramente essas quest\u00f5es: 78% de todas as publica\u00e7\u00f5es foram baseadas, completa ou parcialmente, em not\u00edcias de ag\u00eancias e 0% em pesquisa investigativa\u201d. Ou seja, \u00e9 de Paris, Londres e Nova York que s\u00e3o distribu\u00eddas as \u201cnot\u00edcias internacionais\u201d sobre o mundo. Algu\u00e9m pode argumentar que essa concentra\u00e7\u00e3o monop\u00f3lica n\u00e3o significa que a qualidade em si das not\u00edcias seja ruim.<\/p>\n<p>Vejamos a quest\u00e3o mais de perto. O estudo que acompanhamos mostra como as ag\u00eancias de not\u00edcia s\u00e3o onipresentes no jornal, na TV, no r\u00e1dio, nos portais da internet e afins. Normalmente, esses ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o citam suas fontes, mas elas s\u00e3o essas ag\u00eancias. Se alguma das tr\u00eas grandes n\u00e3o noticia um acontecimento, ele se torna de autom\u00e1tico um n\u00e3o-acontecimento. Mas e os correspondentes internacionais? No geral, s\u00e3o poucos ou inexistentes- \u2013 e quando atuam, n\u00e3o t\u00eam capacidade de oferecer um volume de informa\u00e7\u00f5es como essas ag\u00eancias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 raro encontrar correspondentes internacionais que mal dominam o idioma local ou que n\u00e3o t\u00eam qualquer bagagem intelectual sobre o pa\u00eds. Sua fun\u00e7\u00e3o, no geral, \u00e9 servir de elo entre a ag\u00eancia de not\u00edcias e a reda\u00e7\u00e3o da empresa no qual s\u00e3o empregados, ou aparecer ao vivo no local de modo a emprestar um ar de maior credibilidade \u00e0 not\u00edcia produzida. O ambiente constru\u00eddo n\u00e3o permite muitos questionamentos sobre a vers\u00e3o oficial dos fatos. Algumas pessoas poderiam pensar que isso est\u00e1 relacionado apenas aos interesses privados, comerciais e financeiros envoltos na quest\u00e3o. Na realidade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso.<\/p>\n<p>\u201cEntre os atores mais ativos em \u2018plantar\u2019 not\u00edcias geopol\u00edticas question\u00e1veis \u200b\u200best\u00e3o os minist\u00e9rios militares e de defesa. Em 2009, por exemplo, o chefe da ag\u00eancia de not\u00edcias americana AP, Tom Curley, divulgou que o Pent\u00e1gono emprega mais de 27 mil especialistas em RP que trabalham na m\u00eddia circulando manipula\u00e7\u00f5es direcionadas, com um or\u00e7amento anual de quase 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. N\u00e3o obstante, generais de alto escal\u00e3o dos EUA amea\u00e7aram \u201carruinar\u201d a AP e o Tom Curley caso os jornalistas cobrissem criticamente demais o ex\u00e9rcito dos EUA. Apesar \u2013 ou por causa? \u2013 de tais amea\u00e7as dos militares, nossos meios de comunica\u00e7\u00e3o publicam, regularmente, informa\u00e7\u00f5es duvidosas com base em \u2018informantes\u2019 n\u00e3o identificados dos \u2018c\u00edrculos de defesa dos EUA\u2019 [\u2026] Obviamente, os servi\u00e7os de intelig\u00eancia tamb\u00e9m possuem um grande n\u00famero de contatos diretos na nossa m\u00eddia, os quais podem \u2018vazar\u2019 informa\u00e7\u00f5es se necess\u00e1rio. Por\u00e9m, sem o papel central das ag\u00eancias de not\u00edcias globais, a sincroniza\u00e7\u00e3o mundial de propaganda hegem\u00f4nica e de desinforma\u00e7\u00e3o nunca seria t\u00e3o eficiente. Por meio do \u2018multiplicador de propaganda\u2019, hist\u00f3rias e informa\u00e7\u00f5es suspeitas de especialistas em RP \u2013 que trabalham para governos, militares e servi\u00e7os de intelig\u00eancia \u2013 chegam ao p\u00fablico em geral praticamente sem serem checadas ou filtradas. Isto \u00e9, os jornalistas citam as ag\u00eancias de not\u00edcias, e as ag\u00eancias de not\u00edcias citam as suas fontes; embora, muitas vezes, os jornalistas tentem apontar incertezas com termos como \u2018aparente\u2019, \u2018alegado\u2019 e similares para se protegerem, embora a essa altura o boato j\u00e1 se espalhou para o mundo e causou seu efeito\u201d.1<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de poder pol\u00edtico e geopol\u00edtico, tratada como raz\u00e3o de Estado pelo imperialismo mundial. Com o sucesso das interpreta\u00e7\u00f5es reformistas da obra de Ant\u00f4nio Gramsci, passou a se tratar a luta pela hegemonia (isto \u00e9, a disputa pela dire\u00e7\u00e3o moral e intelectual da sociedade a partir de aparelhos \u2018privados\u2019 de hegemonia), como algo que se realizaria a partir de condi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas: uma esp\u00e9cie de competi\u00e7\u00e3o mais ou menos igual entre as classes exploradas e burguesas na disputa pela hegemonia.2 Nada mais falso.<\/p>\n<p>Junte o or\u00e7amento de todos os aparelhos de hegemonia das classes populares brasileira que se dedicam ao jornalismo: esse montante n\u00e3o vai chegar nem perto dos 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares gastos pelo Pent\u00e1gono para propagar as not\u00edcias \u201cadequadas\u201d. A despeito disso, h\u00e1 uma estranha l\u00f3gica na milit\u00e2ncia de esquerda brasileira: repetem como mantra que a \u201cGlobo ou a m\u00eddia no geral mentem\u201d, mas acreditam piamente nas \u201cnot\u00edcias internacionais\u201d estilo Assad usando armas qu\u00edmicas contra civis quando a guerra estava quase ganha, Venezuela prendendo crian\u00e7as, Cuba torturando opositores, Kaddafi bombardeando civis com ca\u00e7as a\u00e9reos etc., etc., etc.<\/p>\n<p>No caso da Coreia Popular, a a\u00e7\u00e3o dos monop\u00f3lios de m\u00eddia \u00e9 ainda mais brutal. O pa\u00eds \u00e9 provavelmente o mais caricaturado do mundo. Volta e meia, aparece nos monop\u00f3lios de m\u00eddia com amplo destaque alguma not\u00edcia fant\u00e1stica sobre a Coreia Popular: o \u201cditador\u201d Kim Jong-Um teria for\u00e7ado todos os habitantes do pa\u00eds a usar o mesmo corte de cabelo; arque\u00f3logos norte-coreanos descobriram a exist\u00eancia de unic\u00f3rnios; os cidad\u00e3os acreditam que a Coreia ganhou a Copa de 2014; Kim Jong-Un mantou matar o tio com um lan\u00e7a m\u00edsseis porque ele dormiu numa reuni\u00e3o (minha preferida!); Kim mandou matar a namorada porque ela falava muito e assim segue. Poucos dias depois, \u00e9 claro, os supostos mortos aparecem vivos e as not\u00edcias falsas, muitas vezes propagandeadas pelo Servi\u00e7o Secreto da Coreia do Sul, n\u00e3o desmentidas s\u00e3o 1% da publicidade da mentira original.<\/p>\n<p>O anticomunismo se combina com o orientalismo e o racismo colonial (s\u00f3 o racismo colonial para fazer uma pessoa achar cr\u00edvel um l\u00edder de Estado matar seu tio com um lan\u00e7a m\u00edsseis porque dormiu numa reuni\u00e3o ou que na Coreia existe um canibalismo onipresente, imagens t\u00edpicas da representa\u00e7\u00e3o europeia da \u00c1sia durante a expans\u00e3o colonial-imperialista do final do s\u00e9culo XIX) para fazer da Coreia do Norte um dos pa\u00edses mais atacados do mundo e um p\u00e1ria que quase ningu\u00e9m no campo intelectual brasileiro abre a boca para defender. Malcolm X disse certa vez que \u201cse voc\u00ea n\u00e3o for cuidadoso, os jornais far\u00e3o voc\u00ea odiar o oprimido e amar o opressor\u201d. Nesse caso, as m\u00eddias no geral, incluindo os jornais, j\u00e1 conseguiram fazer isso com militantes pouco \u201ccuidadosos\u201d.<br \/>\nO que voc\u00ea deveria saber sobre a Coreia Popular, mas n\u00e3o sabe<\/p>\n<p>O importante intelectual canadense Michel Chossudovsky, escreveu um artigo falando sobre as conquistas sociais da Coreia Popular. Usando apenas dados oficiais de fontes ocidentais (esquivando-se assim da eventual \u201cacusa\u00e7\u00e3o\u201d de fazer apologia ao \u201cregime\u201d por usar dados produzidos no pr\u00f3prio pa\u00eds), o pesquisador come\u00e7a mostrando que o relat\u00f3rio da Anistia Internacional que indica uma crise na sa\u00fade da Coreia Popular e uma sistem\u00e1tica falta de m\u00e9dicos e enfermeiros \u00e9 falso. Diz o trecho:<\/p>\n<p>\u201cA Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) diz que o relat\u00f3rio da Anistia Internacional sobre o sistema de sa\u00fade da Coreia do Norte n\u00e3o \u00e9 cient\u00edfico e est\u00e1 desatualizado. A Anistia afirmou que a Coreia do Norte n\u00e3o est\u00e1 conseguindo atender \u00e0s necessidades b\u00e1sicas de sa\u00fade de seu povo. O relat\u00f3rio da Anistia \u00e9 baseado em entrevistas com 40 desertores norte-coreanos e profissionais da sa\u00fade estrangeiros. Em abril, a diretora da OMS [Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade] visitou a Coreia do Norte e disse que seu sistema de sa\u00fade era o motivo de inveja pelo mundo em desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p>Qual seria o motivo da inveja? Chossudovsky cita os dados da Divis\u00e3o Federal de Pesquisas da Biblioteca do Congresso dos EUA, que afirma<\/p>\n<p>\u201cA Coreia do Norte tem um servi\u00e7o m\u00e9dico nacional e um sistema de seguro de sa\u00fade. Em 2000, cerca de 99% da popula\u00e7\u00e3o tinha acesso a saneamento e 100% tinham acesso \u00e0 \u00e1gua, mas a \u00e1gua nem sempre era pot\u00e1vel. O tratamento m\u00e9dico \u00e9 gratuito. No passado, havia um m\u00e9dico para cada 700 habitantes e uma cama de hospital para cada 350 habitantes.\u201d<\/p>\n<p>O acesso a \u00e1gua e saneamento, na Coreia Popular, \u00e9 melhor que no Brasil e que na maioria dos pa\u00edses asi\u00e1ticos (lugar por excel\u00eancia de compara\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o da Coreia). A rela\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos e leitos por n\u00famero de habitantes tamb\u00e9m \u00e9 melhor que a nossa. Ainda no \u00e2mbito da exposi\u00e7\u00e3o de dados, diz o pesquisador \u201cem 2006, a expectativa de vida era estimada em 74,5 anos para mulheres e 68,9 para homens, ou quase 71,6 anos no total\u201d (esses n\u00fameros n\u00e3o combinam com o retrato de um pa\u00eds t\u00e3o sem comida ao ponto de existir um suposto canibalismo onipresente. \u00c9 necess\u00e1rio lembrar que pessoas sem comida n\u00e3o vivem em m\u00e9dia at\u00e9 os 71 anos). E, para concluir, Michel Chossudovsky fala sobre a educa\u00e7\u00e3o na Coreia Popular:<\/p>\n<p>\u201cSegundo a Unesco, a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Popular da Coreia (RPDC) \u00e9 universal e totalmente financiada pelo Estado. De acordo com fontes oficiais do governo americano (Divis\u00e3o Federal de Pesquisa da Biblioteca do Congresso): \u201cA educa\u00e7\u00e3o na Coreia do Norte \u00e9, h\u00e1 11 anos, gratuita, obrigat\u00f3ria e universal dos quatro aos 15 anos de idade nas escolas estatais. A taxa nacional de alfabetiza\u00e7\u00e3o para os cidad\u00e3os com 15 anos de idade ou mais \u00e9 de 99%.\u201d (Biblioteca do Congresso, Divis\u00e3o Federal de Pesquisa, p. 7).<\/p>\n<p>Em 2013, a Vice realizou uma entrevista com Pier Luigi Cecioni, curador respons\u00e1vel pelo site ocidental do Est\u00fadio de Arte Mansudae, em Pyongang (capital da Coreia Popular), provavelmente um dos est\u00fadios com maior produ\u00e7\u00e3o no mundo. A mat\u00e9ria aborda o realismo socialista na Coreia Popular e o papel do Mansudae, que tem quatro mil funcion\u00e1rios e mais de mil artistas. Cecion, respondendo \u00e0s perguntas da jornalista Nadja Sayej, come\u00e7a explicando a produ\u00e7\u00e3o cultural na Coreia:<\/p>\n<p>\u201cA maioria dos melhores artistas do pa\u00eds est\u00e1 no Mansudae. Praticamente todos eles t\u00eam um curso universit\u00e1rio ou forma\u00e7\u00e3o em belas-artes. Quando um estudante se destaca na universidade, ele ou ela \u00e9 convidado a se juntar ao Mansudae. E se um artista se destaca em outro centro, ele ou ela pode ser convidado a entrar para o est\u00fadio. \u00c9 uma grande honra fazer parte do Mansudae.\u201d<\/p>\n<p>Em seguida, o italiano, deixando claro n\u00e3o ser especialista no tema, descreve o que sabe do sistema educacional do pa\u00eds, afirmando que as crian\u00e7as e adolescentes frequentam a escola pela manh\u00e3 e no per\u00edodo da tarde, voluntariamente, podem praticar m\u00fasica, dan\u00e7a, teatro, esportes etc. (bem pouco parecido, infelizmente, com as escolas do Brasil). Responde perguntas sobre a experi\u00eancia da visita dos coreanos \u00e0 Europa e conclui com um balan\u00e7o sobre o realismo socialista na Coreia Popular:<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o diria que o prop\u00f3sito de toda a arte norte-coreana seja mensagem pol\u00edtica. O realismo socialista representa a Coreia do Norte sob uma luz positiva e, num sentido mais amplo, quer inspirar os espectadores a ter sentimentos positivos, patri\u00f3ticos e a celebrar; especialmente as grandes esculturas e pinturas exibidas em espa\u00e7os p\u00fablicos: os l\u00edderes. Os temas est\u00e3o frequentemente relacionados ao trabalho, um assunto que n\u00e3o \u00e9 comum no ocidente. Uma forma particular do realismo socialista s\u00e3o os cartazes. Eles s\u00e3o pintados \u00e0 m\u00e3o, n\u00e3o impressos, e t\u00eam mensagens pol\u00edticas e sociais. Muitos t\u00eam como alvo os Estados Unidos, visto como um agressor do passado e um agressor em potencial. Al\u00e9m do realismo socialista, pinturas de paisagens s\u00e3o muito populares. Assim como pinturas de flores e da natureza em geral. H\u00e1 tamb\u00e9m muitos retratos, principalmente de trabalhadores. Mas h\u00e1 tantos tipos de arte \u2013 escultura, cer\u00e2mica, bordado, v\u00e1rios tipos de pintura, xilografia, caligrafia e algumas outras \u2013 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel generalizar\u201d.<\/p>\n<p>O professor da FGV (Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas) Paulo Ferracioli, especialista em pol\u00edtica de com\u00e9rcio exterior e com vasta experi\u00eancia de pesquisa sobre a Coreia do Sul, fez uma viagem \u00e0 Coreia Popular. Em seu relato de viagem, o professor, que n\u00e3o \u00e9 nenhum f\u00e3 da ideologia Juche, diz que as cidades s\u00e3o limpas, bem organizadas e que em uma quadra da Avenida Paulista voc\u00ea v\u00ea mais pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua do que em toda Pyongyang. Por falar em Pyongyang, continua Ferracioli, \u00e9 poss\u00edvel ver no final da tarde pessoas nos v\u00e1rios jardins e pra\u00e7as p\u00fablicas conversando, rindo, brincando com os filhos (ele destaca que n\u00e3o se v\u00ea nenhuma crian\u00e7a em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, como \u00e9 poss\u00edvel entrar em toda cidade brasileira) ou em estabelecimentos conversando e tomando cervejas.<\/p>\n<p>O leitor pode pensar que estou falando das conquistas sociais mas ocultando a dimens\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds. A Coreia \u00e9 normalmente retratada como uma monarquia, um pa\u00eds dominado por uma fam\u00edlia, uma esp\u00e9cie de stalinismo de maior intensidade. Como costuma ocorrer nos tratamentos dados \u00e0s experi\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o socialista, \u00e9 tomado como um consenso \u00f3bvio que nada existe de democracia, poder popular ou liberdade no pa\u00eds. Bem, primeiro, chamar a Coreia de monarquia \u00e9 uma prova de extrema superficialidade.<\/p>\n<p>O professor Paulo Visentini, um dos autores de um livro recente sobre a Coreia Popular (A revolu\u00e7\u00e3o coreana: o desconhecido socialismo Zuche) \u2013 livro ali\u00e1s ignorado no geral pela milit\u00e2ncia de esquerda (desconhe\u00e7o, por exemplo, qualquer intelectual de esquerda que tenha escrito ou resenha ou tentado refutar as an\u00e1lises de Visentini) \u2013, diz o seguinte sobre a ideia da Coreia ser uma monarquia:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante ressaltar que o sistema pol\u00edtico norte-coreano \u00e9 republicano e bastante complexo, havendo limites ao poder do dirigente e certo grau de lideran\u00e7a coletiva e participa\u00e7\u00e3o popular. Por outro lado, a situa\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o militar externa refor\u00e7a os elementos para a identifica\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o com uma pessoa, cuja lideran\u00e7a de continuidade tamb\u00e9m \u00e9 fundamental para evitar crises sucess\u00f3rias que, no caso da RPDC, seriam, certamente, fatais. A lideran\u00e7a quase sacralizada representa mais um s\u00edmbolo de unidade nacional do que o poder em si mesmo. O povo norte-coreano e sua lideran\u00e7a expressam orgulho por suas realiza\u00e7\u00f5es e n\u00e3o se dobram sequer \u00e0 China, cujos interesses s\u00e3o oscilantes. A ideologia Zuche, de autossufici\u00eancia, representa uma pol\u00edtica de autopreserva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pretende ser imposta a outras na\u00e7\u00f5es, apesar da grande coopera\u00e7\u00e3o existente com dezenas de Estados em desenvolvimento.\u201d (A revolu\u00e7\u00e3o coreana, S\u00e3o Paulo, Unesp, 2015, p. 23)<\/p>\n<p>E continua em outro momento do livro:<\/p>\n<p>\u201cA compreens\u00e3o do ethos norte-coreano depende do conhecimento das origens da revolu\u00e7\u00e3o (relacionadas \u00e0 guerrilha antijaponesa) e, principalmente, do terr\u00edvel impacto que a guerra teve sobre o pa\u00eds. A luta pela liberta\u00e7\u00e3o nacional foi condicionada pela intensa mobiliza\u00e7\u00e3o de diferentes grupos sociais e pela percep\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as de que a unidade deveria ser constru\u00edda atrav\u00e9s de uma consci\u00eancia nacional. Foi nesse cen\u00e1rio que Kim Il-Sung exp\u00f4s os elementos constitutivos da Ideia Zuche (ou Juche) e a linha revolucion\u00e1ria baseada nessa doutrina, cujos princ\u00edpios j\u00e1 faziam parte das ra\u00edzes do movimento. O Zuche se desenvolveu em um quadro de lutas externas e internas e seria aprofundado como base para a reorganiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds no p\u00f3s-guerra. Fortemente apoiado em uma vis\u00e3o nacionalista, serviu como teoria e m\u00e9todo para o regime consolidado. A Guerra da Coreia foi uma guerra de exterm\u00ednio, com o uso de napalm e bombardeios massivos para destruir todas as cidades e a infraestrutura do pa\u00eds. Houve amea\u00e7a nuclear expl\u00edcita, como visto anteriormente, e chegou a ser defendida a cria\u00e7\u00e3o de um corredor radioativo de at\u00e9 60 km junto \u00e0 fronteira com a China. Como resultado, o pa\u00eds desenvolveu uma mentalidade de bunker e centenas de quil\u00f4metros de t\u00faneis, assim como 15 mil ref\u00fagios profundos foram constru\u00eddos, abrigando dep\u00f3sitos de mantimentos e armamentos, hospitais, f\u00e1bricas, hangares para avi\u00f5es e ref\u00fagios para a popula\u00e7\u00e3o. O medo de um ataque nuclear foi real nesse momento, inclusive porque os EUA estacionaram armas at\u00f4micas na Coreia do Sul e no Jap\u00e3o.\u201d (p. 67)<\/p>\n<p>Visentini desenvolve ainda uma excelente argumenta\u00e7\u00e3o sobre as influ\u00eancias pr\u00e9-revolucion\u00e1rias na estrutura de poder atual da Coreia Popular e a mescla, \u00fanica no mundo, entre elementos da cultura asi\u00e1tica, o neoconfucionismo e o marxismo. N\u00e3o podemos, no \u00e2mbito desta coluna, abordar a complexidade do assunto, mas adiantamos que quem n\u00e3o conhece nada da milenar hist\u00f3ria coreana, das tradi\u00e7\u00f5es estatais e do confucionismo, provavelmente vai cair na tenta\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e pregui\u00e7osa de assimilar a din\u00e2mica da Coreia Popular \u00e0 da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de St\u00e1lin, colocando \u00e0 ambos o r\u00f3tulo f\u00e1cil e que nada diz de culto \u00e0 personalidade.<br \/>\nEm uma fortaleza sitiada, toda dissid\u00eancia \u00e9 trai\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A frase acima \u00e9 de Fidel Castro. O revolucion\u00e1rio e estadista cubano conseguiu compreender o grande problema da transi\u00e7\u00e3o socialista do s\u00e9culo XX, ainda que tardiamente, no final da sua vida. Ao contr\u00e1rio de certa compreens\u00e3o hegem\u00f4nica, pautada diretamente pelos monop\u00f3lios de m\u00eddia e pela ideologia dominante, o grande problema do socialismo no s\u00e9culo passado n\u00e3o foi a falta de democracia ou liberdade, mas o desafio de se conseguir construir uma democracia oper\u00e1ria, superior na forma e no conte\u00fado \u00e0 democracia burguesa, em um estado de guerra permanente durante a tentativa de superar o subdesenvolvimento e a depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Muitas vezes, ao olharmos nossa hist\u00f3ria, deixamos de racionalizar um dado b\u00e1sico: toda experi\u00eancia socialista at\u00e9 hoje passou por uma invas\u00e3o militar imperialista ou teve que enfrentar uma cruel guerra civil antes da conquista do poder e com a revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa. Na imensa maioria das vezes, essa invas\u00e3o militar foi derrotada, mas n\u00e3o sem enormes custos humanos e de riqueza. Toda experi\u00eancia de transi\u00e7\u00e3o socialista, as passadas e as atuais, teve ou tem que despender enormes quantidades de riqueza material para defender sua soberania nacional. E como bem disse Fidel, \u201cem uma fortaleza sitiada, toda dissid\u00eancia \u00e9 trai\u00e7\u00e3o\u201d. O estado de guerra n\u00e3o condiciona o fortalecimento da democracia \u2013 de qualquer forma de democracia, inclusive a burguesa. E quando falamos estado de guerra, a quest\u00e3o n\u00e3o diz respeito apenas a confrontos militares diretos. Mais uma vez, um dado universal, mas pouco estudado: toda experi\u00eancia socialista passada e atual sofreu\/sofre com asfixiantes bloqueios econ\u00f4micos do imperialismo (convido o leitor a refletir: quantos artigos ou livros voc\u00ea j\u00e1 leu sobre bloqueios econ\u00f4micos? Sabe como funcionam? Seus impactos?).<\/p>\n<p>Recentemente o Center for Economic and Policy Research lan\u00e7ou um estudo dirigido por Mark Weisbrot e Jeffrey Sachs \u2013 respectivamente, um jornalista progressista e um economista liberal \u2013 que analisa os impactos das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dos Estados Unidos contra a Venezuela impostas de 2017 at\u00e9 os dias atuais e chega a uma conclus\u00e3o perturbadora: \u201c[as san\u00e7\u00f5es] foram respons\u00e1veis pela morte dezenas de milhares de venezuelanos no bi\u00eanio de 2017-2018 \u2013 uma estimativa de aproximadamente 40 mil pessoas\u201d. Esse estudo n\u00e3o teve qualquer repercuss\u00e3o na m\u00eddia ou entre os intelectuais de esquerda \u2013 inclusive, os \u201ccr\u00edticos\u201d do \u201cautoritarismo de Maduro\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Coreia Popular \u00e9 pa\u00eds mais bloqueado do mundo. A situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds depois do fim da URSS e do campo socialista foi catastr\u00f3fica, com o padr\u00e3o de vida decrescendo em ritmo assustador. A partir dos anos 2000, conseguiu superar a crise econ\u00f4mica e seus efeitos mais agudos, per\u00edodo chamado de \u00c1rdua Marcha, mas n\u00e3o consegue forcar no desenvolvimento econ\u00f4mico e no bem-estar do seu povo. O imperialismo n\u00e3o permite. No \u00faltimo dia 9 de maio, o navio cargueiro \u201cWise Honest\u201d que transportava carv\u00e3o e maquinaria para Coreia Popular foi empreendido por ordem do Departamento de Estado dos EUA em uma manobra \u00fanica, acusando de violar as san\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O blog De Pyongyang a La Habana lan\u00e7ou um estudo completo sobre todos os bloqueios e san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que sofre a Coreia Popular. Esse texto mostra o grau de severidade do bloqueio contra a Coreia Popular \u2013 novamente, um estudo ignorado pela maioria dos militantes brasileiros. J\u00e1 o jornal The New York Times, em mat\u00e9ria de 2017 coloca como t\u00edtulo [tradu\u00e7\u00e3o livre] \u201cA fome na Coreia do Norte \u00e9 devastadora. E a culpa \u00e9 nossa\u201d. Apesar do tom sensacionalista e do uso de alguns dados question\u00e1veis, a mat\u00e9ria do jornal estadunidense \u00e9 certeira ao apontar que as dificuldades alimentares do pa\u00eds t\u00eam uma origem bem precisa: a sabotagem econ\u00f4mica do imperialismo ocidental. Diz Kee B. Park, que assina a coluna:<\/p>\n<p>\u201cLiderada pelos Estados Unidos, a comunidade internacional est\u00e1 estrangulando a economia da Coreia do Norte. Em agosto e setembro [de 2017], o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU aprovou resolu\u00e7\u00f5es banindo a exporta\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, ferro, chumbo, frutos do mar e t\u00eaxtis e limitando a importa\u00e7\u00e3o de \u00f3leo bruto e derivados de petr\u00f3leo refinado. Os Estados Unidos, o Jap\u00e3o e a Coreia do Sul, cada um, impuseram san\u00e7\u00f5es \u00e0 Pyongyang para isolar ainda mais o pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>A justificativa oficial para essa asfixia econ\u00f4mica, como sabemos, \u00e9 impedir a Coreia Popular de desenvolver seu programa nuclear. Supostamente, o pa\u00eds seria uma amea\u00e7a ao mundo. Um pa\u00eds pequeno sem qualquer hist\u00f3rico de golpes militares, invas\u00f5es ou sabotagens contra seu vizinho, \u00e9 atacado pela \u201ccomunidade internacional\u201d liderada pelos Estados Unidos: pa\u00eds com mais 800 bases militares espalhadas pelo mundo, mais de 50 golpes de estado aplicados com participa\u00e7\u00e3o direta e indireta, uma s\u00e9rie de invas\u00f5es neocoloniais (Iraque, Afeganist\u00e3o, Panam\u00e1, Vietn\u00e3, Guatemala etc., etc., etc.) e a a\u00e7\u00e3o da CIA pelo mundo todo buscando a \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d de projetos pol\u00edticos que buscam algum grau de soberania nacional.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que a guerra \u00e9 um perigo real para o povo coreano. Na guerra de 1950-1953, cerca de 30% da popula\u00e7\u00e3o coreana foi morta e o pa\u00eds completamente destru\u00eddo \u2013 um pa\u00eds j\u00e1 devastado devido \u00e0 guerra de liberta\u00e7\u00e3o contra o colonialismo japon\u00eas. O n\u00edvel de brutalidade por parte dos EUA foi t\u00e3o grande que E ainda depois do cessar-fogo tempor\u00e1rio de 1953, juridicamente, a Guerra da Coreia nunca acabou: al\u00e9m da milenar Na\u00e7\u00e3o Coreana ter sido dividida em duas, os Estados Unidos nunca deixaram de manter uma press\u00e3o militar permanente.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje a Coreia Popular \u00e9 cercada por mais ou menos 20 mil soldados dos Estados Unidos e arsenal at\u00f4mico. N\u00e3o \u00e9 a Coreia Popular que est\u00e1 na fronteira dos EUA buscando uma \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d, mas o contr\u00e1rio. Os l\u00edderes coreanos aprenderam desde muito cedo que o imperialismo s\u00f3 entende a linguagem da for\u00e7a. Quem discorda, basta olhar para L\u00edbia, que de pa\u00eds com melhor IDH e infraestrutura da \u00c1frica passou a um mar de lama e sangue dominado por grupos armados fundamentalistas, contando, inclusive, com o tr\u00e1fico de humanos escravizados.<br \/>\nConclus\u00e3o<\/p>\n<p>Diante de tudo que escrevemos, a conclus\u00e3o \u00e9 inequ\u00edvoca: eu apoio e defendo a Coreia Popular. Esse apoio e defesa n\u00e3o se confunde com uma adora\u00e7\u00e3o acr\u00edtica do pa\u00eds. Mesmo sendo um historiador que dentro dos seus limites estuda a hist\u00f3ria asi\u00e1tica, conhece um pouco as tradi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds e o confucionismo, a forma-pol\u00edtica do Estado coreano n\u00e3o me agrada. Tamb\u00e9m n\u00e3o tenho qualquer simpatia por desfiles militares pomposos e culto de armas. Mas n\u00e3o sou idealista. O mundo n\u00e3o \u00e9, ainda, o que queremos.<\/p>\n<p>No mundo real, temos uma experi\u00eancia revolucion\u00e1ria que desde que nasceu n\u00e3o consegue se desenvolver livremente. \u00c9 atacada, caluniada, cercada, perseguida, asfixiada economicamente. Todo esse bloqueio do imperialismo gera deforma\u00e7\u00f5es e certo n\u00edvel de burocratiza\u00e7\u00e3o pouco agrad\u00e1vel a algu\u00e9m que defende uma democracia oper\u00e1ria. Mas a prioridade quando o assunto \u00e9 a Coreia Popular, \u00e9 defender o pa\u00eds do imperialismo. Agitar a bandeira da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, contra o uso de armas nucleares e da reunifica\u00e7\u00e3o pac\u00edfica na pen\u00ednsula.<\/p>\n<p>Temos uma experi\u00eancia igualit\u00e1ria (ainda que com privil\u00e9gios corporativos), fundamentada no ide\u00e1rio socialista e com um povo com ardentes sentimentos anti-imperialistas. \u00c9 uma experi\u00eancia nossa, do nosso campo, com todos seus erros e acertos, gl\u00f3rias e caricaturas, e eu a abra\u00e7o sem reservas envergonhadas ou t\u00edmidas geradas por sentimentos liberais, anticomunistas ou orientalistas.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho medo de ser chamado de dogm\u00e1tico, stalinista, fan\u00e1tico ou qualquer coisa do tipo por manifestar meu apoio a um povo que deseja ser livre. Meu maior medo, quando o assunto \u00e9 a Coreia Popular, \u00e9 ver esse povo terminar como o l\u00edbio ou o palestino. Mas isso, tenho certeza, n\u00e3o ir\u00e1 acontecer. A Revolu\u00e7\u00e3o Coreana segue firme. E o imperialismo, por mais amea\u00e7ador que pare\u00e7a, \u00e9 um tigre com dentes de papel!<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Vale a pena conferir a participa\u00e7\u00e3o de Jones Manoel na mesa de YouTubers marxistas que encerrou a Festa de Anivers\u00e1rio do Marx organizada pela Boitempo em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos e Marielle Franco. Junto com Sabrina Fernandes (Tese Onze), Humberto Matos (Saia da Matrix), Larissa Coutinho (Revolushow) e Debora Baldin (media\u00e7\u00e3o), ele falou sobre \u201cComo come\u00e7ar a ler Marx?\u201d, tema do debate, e muito mais\u2026<br \/>\nNotas<\/p>\n<p>1 Vin\u00edcius Moraes, \u201cA Propaga\u00e7\u00e3o Hegem\u00f4nica: como as ag\u00eancias globais e a m\u00eddia ocidental cobrem a geopol\u00edtica (parte 2)\u201d, Revista \u00d3pera, 23 abr. 2019.<br \/>\n2 Caio Navarro de Toledo, \u201cA modernidade democr\u00e1tica da esquerda: adeus \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o?\u201d, em: Cr\u00edtica Marxista n. 1, 1994.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da hist\u00f3ria de Borborema a entrar em uma universidade p\u00fablica). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de hist\u00f3ria na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil at\u00e9 2016, hoje atua no movimento sindical e na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o popular. Mestre em servi\u00e7o social, atualmente \u00e9 professor de hist\u00f3ria, mant\u00e9m um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/05\/29\/sim-eu-apoio-a-coreia-do-norte-notas-sobre-anticolonialismo-imperialismo-e-hegemonia\/\">Sim, eu apoio a Coreia do Norte! Notas sobre anticolonialismo, imperialismo e&nbsp;hegemonia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23367\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[36],"tags":[234],"class_list":["post-23367","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c41-unidade-comunista","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-64T","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23367\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}