{"id":23373,"date":"2019-06-14T14:06:14","date_gmt":"2019-06-14T17:06:14","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23373"},"modified":"2019-06-14T14:06:14","modified_gmt":"2019-06-14T17:06:14","slug":"o-que-esta-por-tras-do-desmonte-bolsonarista-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23373","title":{"rendered":"O que est\u00e1 por tr\u00e1s do desmonte bolsonarista da educa\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/06\/protestos.jpg?w=620&amp;h=413\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Dos cortes \u00e0 censura a temas como g\u00eanero, sexualidade e pol\u00edtica, as mudan\u00e7as recentes na educa\u00e7\u00e3o cumprem uma fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica essencial. A quem ela favorece?<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Mar\u00edlia Moschkovich<\/p>\n<p>O desmonte quase completo da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica que estamos observando tem dois objetivos e este texto \u00e9 uma an\u00e1lise que pretende apresent\u00e1-los ao leitor ou leitora. Venho colocando publicamente peda\u00e7os deste argumento desde 2015 (sim, antes do golpe, quando rolaram os primeiros congelamentos de bolsa e programas de pesquisa ainda na gest\u00e3o da Dilma), com um pouco mais de dramaticidade a partir de 2016 (quando rolou o golpe e os discursos ficaram mais evidentes) e mais evid\u00eancia a partir de 2017 e 2018 (quando ficou \u00f3bvio que n\u00e3o se trata de um projeto de um partido espec\u00edfico da direita, mas algo muito, muito maior \u2013 e as den\u00fancias apresentadas recentemente pelo site The Intercept Brasil s\u00f3 corroboram essa an\u00e1lise).<\/p>\n<p>O primeiro objetivo \u00e9 passar a educa\u00e7\u00e3o todinha, de ponta a ponta, e tamb\u00e9m a pesquisa, para a iniciativa privada. Mas n\u00e3o s\u00f3: passar tudo para a iniciativa privada num modelo bastante espec\u00edfico. Pode at\u00e9 ser que uma ou outra institui\u00e7\u00e3o de excel\u00eancia seja mantida ou at\u00e9 que novas sejam criadas como reduto da forma\u00e7\u00e3o das elites (que por v\u00e1rios motivos n\u00e3o podem contar apenas com as institui\u00e7\u00f5es estrangeiras para matricularem seus filhos), mas a regra geral, mesmo nesses casos, ser\u00e1 a de uma educa\u00e7\u00e3o sem autonomia. \u201cSem autonomia\u201d significa uma educa\u00e7\u00e3o voltada direta, exclusiva e explicitamente aos interesses e necessidades dos diferentes setores privados, que j\u00e1 s\u00e3o acionistas de empresas privadas de educa\u00e7\u00e3o. Entre eu come\u00e7ar a escrever e terminar este texto, por exemplo, o ministro da Educa\u00e7\u00e3o anunciou que a Capes n\u00e3o deixar\u00e1 de existir, mas servir\u00e1 t\u00e3o somente para formar profissionais p\u00f3s-graduados para a ind\u00fastria. Anunciou, inclusive, que o MEC vai come\u00e7ar uma nova modalidade de doutorado, os doutorados profissionais. N\u00e3o por acaso, nenhum dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa que est\u00e3o acompanhando a movimenta\u00e7\u00e3o contra os cortes deu destaque para essa fala, muito menos tornou-a alvo de cr\u00edtica.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre sistema educacional e interesses privados (no lugar de interesses p\u00fablicos, ou populares), principalmente da ind\u00fastria, apareceram de diferentes maneiras nos \u00faltimos anos. O fundo que gere a SOMOS (uma f\u00e1brica de apostilas e sistemas apostilados dona tamb\u00e9m de editoras importantes de did\u00e1ticos como Saraiva, \u00c1tica, Scipione, etc.) \u00e9 tamb\u00e9m dono da BrFoods, e recentemente passou para as m\u00e3os da Kroton. Outro exemplo, talvez ainda mais chocante: a JBS (sim, a do Joesley Batista) \u00e9 dona de uma escola. Sim, existe uma escola da JBS, monitorada de perto pelo pr\u00f3prio Joesley (!) que inclusive participa de reuni\u00f5es com os professores. Um dos discursos da escola \u00e9 que ela, sim, prepara para o mercado de trabalho, j\u00e1 que um percentual alto dos alunos s\u00e3o contratados para fun\u00e7\u00f5es de supervis\u00e3o ou ger\u00eancia logo ap\u00f3s a conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio (se tiverem feito \u201cest\u00e1gio\u201d durante os tr\u00eas anos de ensino m\u00e9dio, claro). Um golpe de mestre: a classe m\u00e9dia amedrontada com a calamidade da pobreza crescente investe as cal\u00e7as e paga para seus filhos trabalharem gratuitamente para a empresa, sob a promessa de talvez n\u00e3o passar tanta fome assim quando terminarem a escola. Junte a\u00ed o mito da ascens\u00e3o social e pronto. Afinal, quem sabe aquele adolescente que come\u00e7a como gerente um dia chegar\u00e1 a Joesley.<\/p>\n<p>Quando falamos em educa\u00e7\u00e3o com menos autonomia, portanto, estamos falando n\u00e3o s\u00f3 da censura direta e moral a certos assuntos (g\u00eanero, sexualidade, drogas, etc), mas ao atrelamento do sistema escolar e universit\u00e1rio pura e exclusivamente \u00e0 l\u00f3gica do trabalho, sem nenhum outro ganho (intelectual, cultural, simb\u00f3lico) aos estudantes e, por consequ\u00eancia, aos cidad\u00e3os trabalhadores, e \u00e0 sociedade como um todo. No entanto, a censura moral e o projeto privatista andam juntos. A censura a temas como g\u00eanero, sexualidade e pol\u00edtica nas escolas e universidades, bem representada mas n\u00e3o limitada ao projeto Escola Sem Partido e seus correligion\u00e1rios, n\u00e3o \u00e9 uma mera censura moral. Ela cumpre tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, que \u00e9 a de reconfigurar o papel da escola e da universidade como f\u00e1brica de um tipo espec\u00edfico de m\u00e3o de obra imbecilizada e d\u00f3cil, ref\u00e9m permanente da extrema pobreza que bate \u00e0 porta, agora, sem a m\u00e1scara dos programas sociais e da socialdemocracia. Por meio da pobreza cada vez mais crua e cada vez mais pr\u00f3xima, e do horror do qual o outro \u00e9 v\u00edtima (como os moradores das favelas cariocas alvejados por seu governador do alto de um helic\u00f3ptero), faz-se de ref\u00e9m todo o resto da classe trabalhadora, inclusive aquela melhor remunerada ap\u00f3s obter diplomas de ensino superior e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em universidades p\u00fablicas. Sem ferramentas das ci\u00eancias humanas para questionar esses fen\u00f4menos, eles s\u00e3o mais facilmente (ainda!) naturalizados, e portanto mais dificilmente tornados objeto de reivindica\u00e7\u00f5es populares. J\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil para a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira entender a diversidade de estruturas de financiamento e gest\u00e3o no sistema educacional: de onde vem o dinheiro para cada tipo de escola ou setor da educa\u00e7\u00e3o, como as decis\u00f5es sobre ele s\u00e3o tomadas em cada caso, etc. (algo de que a \u201cbancada Lehmann\u201d se aproveitou na \u00faltima semana, ao mesmo tempo propondo aumento de verba para o FUNDEB mas repasse de parte dessa verba para a iniciativa privada\u2026). Num futuro breve, sem o m\u00ednimo de ferramentas das ci\u00eancias humanas, sem institutos de pesquisa, sem profissionais estudando esses processos, essa tarefa se torna praticamente imposs\u00edvel. Ficamos ref\u00e9ns e t\u00e3o somente ref\u00e9ns.<\/p>\n<p>No universo da pesquisa e da ci\u00eancia, esse modelo privatista de pouca autonomia j\u00e1 acontece em v\u00e1rios pa\u00edses. Sob o discurso da \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d (que s\u00f3 \u00e9 celebrada quando permite a otimiza\u00e7\u00e3o de um processo com vistas \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de mais lucro, importante notar), mestrados e doutorados s\u00e3o realizados dentro das empresas. Nos pr\u00f3ximos meses e anos, vamos ouvir muito (se \u00e9 que alguns de n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o estamos ouvindo), figuras p\u00fablicas diversas dizendo que as empresas tamb\u00e9m precisam investir em C&amp;T, em pesquisa (humanas esque\u00e7am, afinal, ningu\u00e9m considera que sejam ci\u00eancia \u2013 discurso esse que tem tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, como estou tentando apontar aqui). Se hoje isso \u00e9 feito por meio de acordos com universidades p\u00fablicas (que cedem as patentes para essas empresas, por exemplo, em troca de dinheiro, fazendo com que uma estrutura p\u00fablica sirva para produzir para o setor privado), a tend\u00eancia \u00e9 que o modelo que vemos em pa\u00edses como Holanda se propague: o mestrando ou doutorando atua na pr\u00e1tica como funcion\u00e1rio da empresa recebendo uma bolsa, e tudo que produz n\u00e3o \u00e9 dele nem do Estado e muito menos da popula\u00e7\u00e3o, mas da empresa. Assim, uma nova vacina que venha a ser desenvolvida, por exemplo, pode ter seu pre\u00e7o afixado por uma empresa que lucra com sua produ\u00e7\u00e3o e compra de doses pelo governo, em vez de ter seu pre\u00e7o regulado pelo Estado (resumindo muito um processo relativamente complexo aqui). Em troca, novamente, para o mestrando ou doutorando, a promessa de contrata\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o cair no desemprego, de n\u00e3o ter que virar Uber e, no presente, de n\u00e3o passar os perrengues que muitos passam hoje em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 infraestrutura dos laborat\u00f3rios, valor das bolsas, etc. Percebem o padr\u00e3o?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m entram em cena iniciativas como o Serrapilheira: uma fam\u00edlia ou pessoa rica resolve ser mecenas\/benfeitor\/etc. e criar um fundo que financie pesquisa, d\u00ea bolsa, etc. mas apenas para as \u00e1reas, temas e tipos de pesquisa que acham (ou que um conselho escolhido a dedo acha) importantes ou promissores (normalmente promissores em termos de, novamente, otimizar processos para aumentar lucro de algu\u00e9m). Se voc\u00eas buscarem pela entrevista em que o Jo\u00e3o Moreira Salles explica por que o Serrapilheira n\u00e3o vai financiar humanidades, \u00e9 capaz de ficarem roxos de vergonha com o malabarismo ret\u00f3rico mal feito. Eu fiquei, mesmo considerando alguns aspectos positivos do funcionamento do novo fundo e o trabalho do Instituto Moreira Salles com a \u00e1rea de artes. O efeito desse tipo de financiamento de pesquisa j\u00e1 \u00e9 conhecido de todo pesquisador, j\u00e1 que \u00e9 comum fora do Brasil, onde o financiamento de pesquisa tem um pesado car\u00e1ter privado, e tende a se acentuar e agravar: n\u00e3o poder fazer a pesquisa que se quer, ou que se v\u00ea necess\u00e1ria (inclusive socialmente) mas sim aquela que est\u00e1 \u201cna moda\u201d ou retorcer o objeto para que caiba nos editais cheios de limita\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas que tendem a surgir. Esse tipo de financiamento pode, em alguns casos, ser at\u00e9 um complemento interessante a um modelo concentrado no financiamento p\u00fablico. Quando o financiamento p\u00fablico inexiste, por\u00e9m, ele se torna perverso. Sua perversidade reside na impossibilidade (ou dificuldade extrema) justamente de financiar pesquisas que inovem ou, mais ainda, que sejam cr\u00edticas ao status quo em qualquer acep\u00e7\u00e3o dessa express\u00e3o e em todas as \u00e1reas. Tamb\u00e9m limita muito a possibilidade de se realizar as chamadas \u201cpesquisas de base\u201d, ou seja, aquelas que parecem in\u00fateis pois n\u00e3o s\u00e3o aplicadas de maneira expl\u00edcita, nem t\u00eam uma utilidade \u201cdireta\u201d para um problema que as pessoas comuns de fora da universidade ou daquela \u00e1rea de pesquisa enxergam. O problema disso \u00e9 que as pesquisas de base s\u00e3o, como diz o nome, a base para a constru\u00e7\u00e3o de pesquisas aplicadas \u2013 seja em humanas, exatas, biol\u00f3gicas, ou em qualquer \u00e1rea do conhecimento. Quando as fontes financiadoras s\u00e3o do exterior h\u00e1 ainda um outro aspecto a ser considerado: a redu\u00e7\u00e3o de autonomia dos pesquisadores, comunidades e sociedade brasileira quanto a definir o que \u00e9 ou deixa de ser necess\u00e1rio investigar e produzir em ci\u00eancias humanas por aqui.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o as principais faces dessa mudan\u00e7a de modelo. Uma reconfigura\u00e7\u00e3o do papel do sistema educacional e de produ\u00e7\u00e3o de pesquisa no que diz respeito a sua fun\u00e7\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o deixa, assim, de manter ainda alguma fun\u00e7\u00e3o social, p\u00fablica, cidad\u00e3, e passa explicitamente a servir para o crescimento das taxas de lucro das empresas e explora\u00e7\u00e3o do trabalho de m\u00e3o de obra docilizada pelo terror de conviver com a possibilidade de n\u00e3o ter meios de subsist\u00eancia, ou de ter de recorrer a meios de subsist\u00eancia t\u00e3o prec\u00e1rios que sequer cumprem o papel de ajudar a subsistir.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a \u00e9 um dos objetivos diretos desse desmonte, mas n\u00e3o o \u00fanico, como disse no in\u00edcio deste texto. Porque ela tamb\u00e9m serve para outra coisa que n\u00e3o ela mesma. Afinal, por que isso est\u00e1 acontecendo (e embora tenha ficado grave agora, n\u00e3o \u00e9 de agora)? De onde vem esse horror diante do qual nos encontramos?<\/p>\n<p>O movimento de desmonte das estruturas p\u00fablicas, seculares, laicas e cient\u00edficas da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Brasil. Na Fran\u00e7a, Macron vem enfrentando nos \u00faltimos anos muita resist\u00eancia popular ao tentar mexer na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de maneira incisiva em dire\u00e7\u00e3o a um modelo de maior influ\u00eancia dos interesses do setor privado. Na \u00c1ustria, os estudos de g\u00eanero foram proibidos nas universidades. Esses s\u00e3o apenas dois exemplos que lembram, ora mais, ora menos, o caso brasileiro, e nos fazem extrapolar o territ\u00f3rio nacional quando pensamos nesse fen\u00f4meno. Para al\u00e9m disso, como mencionei no in\u00edcio do texto, as grandes empresas envolvidas nesse processo s\u00e3o tamb\u00e9m parte de fundos ou conglomerados de capital internacional. A pr\u00f3pria Funda\u00e7\u00e3o Lemann \u00e9 um exemplo excelente: a funda\u00e7\u00e3o faz campanha pela mudan\u00e7a no modelo educacional, enquanto Jorge Lemann senta nos conselhos e mant\u00e9m seu poder econ\u00f4mico por meio de empresas como a AmBev e KraftFoods (dona das marcas Heinz, Burger King e outras mais \u2013 reparem, ali\u00e1s, que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o direta desses fundos com a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, t\u00e3o cara \u00e0 nossa sobreviv\u00eancia\u2026).<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o de um modelo de educa\u00e7\u00e3o que preza pela autonomia das escolas e universidades para um modelo dependente das necessidades do mercado \u00e9 marcada pela vis\u00e3o segundo a qual a fun\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 fornecer m\u00e3o de obra qualificada para empresas, por um lado, e dar uma melhor chance no mercado de trabalho para a popula\u00e7\u00e3o. Basta um pouco de aten\u00e7\u00e3o para observar que, embora a educa\u00e7\u00e3o possa ser transformadora em muitos casos, a obten\u00e7\u00e3o de um diploma n\u00e3o \u00e9 suficiente para garantir um emprego. Um exemplo evidente s\u00e3o os altos n\u00fameros de diplomados em ensino superior no Brasil que seguem desempregados ou vivendo de trabalho informal ou prec\u00e1rio. Ou seja, a ind\u00fastria e as empresas ficam com um sistema gigantesco, constru\u00eddo com investimento de energia, trabalho e dinheiro da sociedade como um todo, e o trabalhador fica com a promessa de um diploma que n\u00e3o lhe garante um emprego. Ao interesse p\u00fablico resta um vazio. Isso sem falar nos casos que talvez passaremos a ver com mais frequ\u00eancia, de escolas diretamente ligadas a grupos empresariais, como o caso da escola da JBL, mencionado anteriormente: a empresa ganha a mensalidade escolar, ganha funcion\u00e1rios de sal\u00e1rio extremamente baixo ou mesmo sem sal\u00e1rio em alguns casos, ganha a possibilidade de construir subjetivamente esse futuro funcion\u00e1rio assalariado, e ganha um aumento na quantidade de pessoas forjadas bem diretamente para exercer o trabalho esperado naquela empresa. N\u00e3o me espantaria se nos pr\u00f3ximos anos surgisse uma lei que replicasse para a educa\u00e7\u00e3o o modelo de repasse de dinheiro p\u00fablico para institui\u00e7\u00f5es privadas que j\u00e1 vemos no SUS e no Prouni, por exemplo, com prioridade para escolas ligadas ao Ita\u00fa, \u00e0 pr\u00f3pria JBS, ao grupo Kroton\u2026 (n\u00e3o por coincid\u00eancia, entre a edi\u00e7\u00e3o deste texto e sua publica\u00e7\u00e3o, foi exatamente o que T\u00e1bata Amaral, deputada pelo PDT, defendeu com os chamados \u201cvouchers\u201d para a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica).<\/p>\n<p>Tudo isso tem um sentido ainda mais amplo: recuperar\u2013 e de prefer\u00eancia aumentar \u2013 as taxas de lucro dos grandes especuladores do capital ap\u00f3s a crise de 2008. Ouvi algumas vezes de economistas marxistas cujas an\u00e1lises respeito muito que a \u00fanica crise do capitalismo parecida com a de 2008 em termos de magnitude e impacto \u00e9 a de 1929. Como parte do processo de recupera\u00e7\u00e3o das taxas de lucro do mundo capitalista ap\u00f3s a crise de 1929, houve uma guerra mundial, que serviu para queimar capital (literalmente, em muitos casos) e para retomar o lucro e o crescimento e desenvolver a ind\u00fastria. O fascismo cumpriu um papel importante, ainda, nesse processo, entre outras coisas, por oferecer trabalho escravo a diversos ramos da ind\u00fastria, o que n\u00e3o poderia ter sido feito sem todo o seu aparato ideol\u00f3gico (sobretudo a cria\u00e7\u00e3o do sentimento de medo, e o direcionamento desse medo para a constru\u00e7\u00e3o de alguns grupos sociais como amea\u00e7as, come\u00e7ando pelos comunistas e expandindo para pessoas LGBT, judeus, estrangeiros, etc. \u2013 qualquer semelhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia).<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2008, com o estado avan\u00e7ado da tecnologia b\u00e9lica, uma guerra nos moldes anteriores n\u00e3o seria poss\u00edvel. S\u00e3o poss\u00edveis, contudo, diversas guerras cotidianas, desastres n\u00e3o naturais (como o ocorrido em Brumadinho), persegui\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, enfim, novas cores para um novo tipo de fascismo que autoriza o exterm\u00ednio e a explora\u00e7\u00e3o ainda mais extrema da classe trabalhadora. A educa\u00e7\u00e3o menos aut\u00f4noma faz parte desse quadro, articulando sua faceta ideol\u00f3gica e sua faceta econ\u00f4mica. O setor privado sequestra os sistemas p\u00fablicos (al\u00e9m da educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade tamb\u00e9m, e a\u00ed temos nas m\u00e3os desses grupos todo o acesso a alimentos, sa\u00fade e bens simb\u00f3licos, ou seja, tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para sobreviver e viver enquanto seres humanos) e com isso elimina parte de um custo, ganha controle e efetivamente ganha dinheiro (num modelo privado como o dos EUA, por exemplo, al\u00e9m do que j\u00e1 foi mencionado anteriormente, s\u00e3o os bancos ligados aos mesmos grupos que v\u00e3o oferecer empr\u00e9stimos para pagar a faculdade, financiar bolsas de pesquisas, etc. e, n\u00e3o raro, tamb\u00e9m t\u00eam seu pezinho na ind\u00fastria farmac\u00eautica e\/ou de planos de sa\u00fade privados). Ao contr\u00e1rio do que a fic\u00e7\u00e3o liberal propaga, por\u00e9m, n\u00e3o se trata de extinguir o Estado completamente \u2013 ele apenas passa a cumprir com exclusividade o seu papel por excel\u00eancia no capitalismo, o de comit\u00ea de media\u00e7\u00e3o e gerenciamento dos neg\u00f3cios privados. Afinal, num contexto de crise, \u00e9 preciso um int\u00e9rprete que, ao mesmo tempo que se interponha entre os variados interesses privados, tamb\u00e9m garanta que o interesse popular n\u00e3o ganhe for\u00e7a. Se preciso for, inclusive, liquidando quando conveniente setores da popula\u00e7\u00e3o. Que cena mais simb\u00f3lica desse processo todo do que o governador do Rio de Janeiro promovendo um v\u00eddeo em que sobe armado em um helic\u00f3ptero para atirar contra a popula\u00e7\u00e3o, e uma escola na mesma cidade com uma placa no telhado implorando (provavelmente em v\u00e3o) para que n\u00e3o a fa\u00e7am de alvo?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, por\u00e9m, vai ainda al\u00e9m. N\u00e3o basta apenas observar como essas empresas e grupos pretendem aumentar lucros no Brasil, mas sobretudo compreender o papel de sua atua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds dentro de um sistema necessariamente global. Com as mudan\u00e7as em curso, o Brasil \u00e9 reposicionado nesse sistema: deixa de ser um centro perif\u00e9rico com ares de pot\u00eancia (vide a constru\u00e7\u00e3o do bloco BRICS nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas) e passa a ser apenas um grande quintal de explora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e0 toa, as medidas que estamos vendo n\u00e3o come\u00e7aram com Bolsonaro, embora tenham se acirrado com ele \u2013 e embora seja poss\u00edvel dizer (agora, com as mensagens entre Moro e Dallagnol escancaradas, com ainda mais evid\u00eancia) que, do impeachment de Dilma \u00e0 elei\u00e7\u00e3o antidemocr\u00e1tica de Bolsonaro, a pol\u00edtica brasileira foi manipulada para que esse projeto de interesse global pudesse ser implementado com velocidade, j\u00e1 que uma das maiores economias do mundo na jogada, a recupera\u00e7\u00e3o das taxas de lucro encontraria obviamente grandes limites. Desde o segundo mandato de Dilma foi poss\u00edvel observar no notici\u00e1rio e no debate p\u00fablico brasileiro uma s\u00e9rie de press\u00f5es no sentido da implanta\u00e7\u00e3o desse modelo. Mesmo Dilma fez uma s\u00e9rie de concess\u00f5es para atender a tais interesses \u2013 o fim da Secretaria de Pol\u00edticas para Mulheres (SPM) e da Secretaria de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o de Igualdade Racial (SEPPIR), a volta atr\u00e1s com os kits escolares anti-homofobia, congelamento de bolsas de pesquisa no exterior, etc. \u2013 talvez na esperan\u00e7a de seguir com o projeto socialdemocrata das gest\u00f5es anteriores o mais intacto o poss\u00edvel. N\u00e3o foi o suficiente e, quando o governo Temer foi instaurado com um golpe, o desmonte se acelerou. A destrui\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista foi o ponto alto, assim como a reforma do Ensino M\u00e9dio. A Base Nacional Curricular Comum (BNCC) do Ensino M\u00e9dio foi direcionada para o mesmo projeto que a reforma, ligando a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de maneira direta com a fun\u00e7\u00e3o empregat\u00edcia e desempregat\u00edcia dos filhos da classe trabalhadora. Ambas as mudan\u00e7as flexibilizam ao extremo a estrutura do Ensino M\u00e9dio, ao mesmo tempo em que n\u00e3o garantem (por limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, geogr\u00e1ficas, estruturais e ideol\u00f3gicas) autonomia para os professores e comunidades escolares como um todo. Al\u00e9m disso, ao flexibilizar demais os par\u00e2metros e orienta\u00e7\u00f5es para o Ensino M\u00e9dio, extingue-se, na pr\u00e1tica de um sistema extremamente desigual, a garantia m\u00ednima de acesso aos bens simb\u00f3licos e ao patrim\u00f4nio cultural e intelectual\/cient\u00edfico da humanidade para a imensa maioria dos estudantes. Isso implica um acirramento da desigualdade na educa\u00e7\u00e3o, que bem ou mal vinha sendo reduzida (ainda que timidamente) com algumas pol\u00edticas p\u00fablicas importantes das \u00faltimas d\u00e9cadas como a obrigatoriedade do ensino de Hist\u00f3ria da \u00c1frica na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, ou a pol\u00edtica de cotas em universidades federais ou, ainda, o pr\u00f3prio Sistema de Sele\u00e7\u00e3o Unificada (SISU).<\/p>\n<p>O principal problema do governo Temer para a implanta\u00e7\u00e3o do projeto privatista da educa\u00e7\u00e3o, parece ter sido sua pouca legitimidade popular e pol\u00edtica, al\u00e9m do hist\u00f3rico de longas rela\u00e7\u00f5es com diversos setores olig\u00e1rquicos brasileiros, um \u201crabo preso\u201d que impedia certas radicalidades. O mesmo n\u00e3o pode ser dito sobre Bolsonaro que, embora numa elei\u00e7\u00e3o de campanhas constru\u00eddas \u00e0 base de fraudes muito intensas at\u00e9 mesmo para os padr\u00f5es das elei\u00e7\u00f5es burguesas, foi eleito para ocupar a presid\u00eancia da rep\u00fablica. Bolsonaro responde diretamente aos financiadores de sua campanha e \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de um projeto de devasta\u00e7\u00e3o da institucionalidade estatal extremamente radical, com cheiro e cores de um fascismo que serve aos grandes grupos do capital internacional \u2013 esses que det\u00e9m o poder sobre os mecanismos ligados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, ao atendimento \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a tr\u00edade m\u00e1gica da nossa sobreviv\u00eancia e da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o dos corpos que trabalham e dos quais, portanto, se extrai mais-valia. Uma evid\u00eancia disso s\u00e3o os atuais \u201crachas\u201d entre setores que haviam apoiado Bolsonaro anteriormente. O governo Bolsonaro n\u00e3o foi instaurado e financiado para durar, nem para governar qualquer coisa fazendo media\u00e7\u00f5es e concess\u00f5es a quaisquer interesses que n\u00e3o os de quem pagou para que ele estivesse l\u00e1. Bolsonaro serve e serviu, desde sempre, para arrasar a terra com velocidade suficiente para que qualquer reconstru\u00e7\u00e3o seja demasiado longa e trabalhosa \u2013 e, enquanto isso, serviremos com nossas vidas (agrot\u00f3xicos liberados e SUS privatizado, armamento liberado e seguran\u00e7a p\u00fablica destro\u00e7ada, fim da previd\u00eancia, e por a\u00ed vamos), por puro desespero, \u00e0s empresas que se colocaram como \u00fanicas solu\u00e7\u00f5es imediatas poss\u00edveis. Estamos diante de uma bomba at\u00f4mica e, para que as taxas de lucro e perdas da crise de 2008 possam se recuperar, \u00e9 necess\u00e1rio que estejamos munidos apenas de uns poucos palitos de dente e, com sorte, alguma cola superbonder, tentando reconstruir o que sobrar ap\u00f3s a explos\u00e3o. Essa \u00e9 a cara da terceira guerra mundial, e ela j\u00e1 come\u00e7ou. A nossa \u00fanica sa\u00edda \u00e9 nos olharmos e nos reconhecermos enquanto classe e, enquanto classe, agirmos de maneira organizada. A greve do dia 14 de junho deve ser apenas o come\u00e7o. Fa\u00e7amos n\u00f3s por nossas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Mar\u00edlia Moschkovich \u00e9 soci\u00f3loga, mestra e doutora em educa\u00e7\u00e3o pela Unicamp, tendo trabalhado tamb\u00e9m no Museu de Antropologia da Universidad Nacional de C\u00f3rdoba (UNC), na Argentina, e na \u00c9cole des Hautes \u00c9tudes en Sciences Sociales (EHESS), em Paris. Autora do posf\u00e1cio \u00e0 nova edi\u00e7\u00e3o de A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado (Boitempo, 2019), atualmente reside em Berlim onde \u00e9 Research Fellow da Funda\u00e7\u00e3o Alexander von Humboldt em parceria com o festival de cinema Berlin Feminist Film Week, dedicando-se a pesquisa sobre n\u00e3o-monogamia, g\u00eanero e viol\u00eancia dom\u00e9stica. Compartilha os resultados desse projeto em suas redes sociais e no podcast Libre, lan\u00e7ado no segundo semestre de 2019. Tamb\u00e9m \u00e9 poeta (Gaveta, Urutau: 2017) e editora (Editorial Linha a Linha). Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), escreve e faz coment\u00e1rio pol\u00edtico online desde 2010 (Blogueiras Feministas, Biscate Social Clube, Outras Palavras). No YouTube, Instagram, Twitter, Medium e outras redes sociais \u00e9 @MariliaMoscou. Escreve mensalmente para o Blog da Boitempo, \u00e0s ter\u00e7as-feiras.<\/p>\n<p>Foto: Em Curitiba, estudantes e professores se unem em ato contra medidas do governo Bolsonaro na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o. 15 mai. 2019. Foto: Rodolfo Buhrer\/Reuters.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/06\/11\/o-que-esta-por-tras-do-desmonte-bolsonarista-da-educacao\/\">O que est\u00e1 por tr\u00e1s do desmonte bolsonarista da&nbsp;educa\u00e7\u00e3o?<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23373\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[60],"tags":[221],"class_list":["post-23373","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c71-educacao","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-64Z","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23373"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23373\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}