{"id":23409,"date":"2019-06-19T11:59:48","date_gmt":"2019-06-19T14:59:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23409"},"modified":"2019-06-19T11:59:48","modified_gmt":"2019-06-19T14:59:48","slug":"um-heroi-sem-nenhum-carater","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23409","title":{"rendered":"Um her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/06\/boneco-moro-blog-iasi.jpg?w=174&amp;h=131&amp;crop=1 \" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<p>\u201cTriste a na\u00e7\u00e3o que precisa de her\u00f3is\u201d<br \/>\nBERTOLT BRECHT<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>O her\u00f3i \u00e9 um arqu\u00e9tipo interessante, desde os prim\u00f3rdios desta aventura de representar a vida em formas ideais, como o Odisseu na velha Gr\u00e9cia ou o her\u00f3i rom\u00e2ntico do drama burgu\u00eas. Este \u00faltimo, conforme a an\u00e1lise de Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros seguindo as pistas de seu mestre Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, seria um personagem que busca realizar em si mesmo o destino de uma \u00e9poca que se apresenta como impossibilidade de realizar esse destino: apresentar-se humano em um mundo desumano, digno em meio \u00e0 indignidade, justo em uma \u00e9poca em que predomina a injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>No Brasil as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem assim. Por estas terras as vers\u00f5es deformam e recriam, engolem e regurgitam outras palavras e representa\u00e7\u00f5es\u2026 \u201cvers\u00e3o brasileira Herbert Richers\u201d. Como analisou em sua obra O espet\u00e1culo das ra\u00e7as, a antrop\u00f3loga Lilia Schwarcz nos lembra que n\u00e3o se trata de mera imita\u00e7\u00e3o, mas de um ato de antropofagia no qual se devora o original e o recria com temperos autoctones. Desta maneira, o fascismo \u00e0 brasileira assume a forma de um simp\u00e1tico gordinho, Get\u00falio Vargas, que se aliou aos EUA para lutar contra o nazifascismo, ou ainda, o Estado de bem-estar social da socialdemocracia assume aqui a forma de uma democracia de coopta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Oswald e M\u00e1rio de Andrade sabiam muito bem isso tudo e formalizaram essas quest\u00f5es, respectivamente, no manifesto antropof\u00e1gico e na figura do cl\u00e1ssico anti-her\u00f3i Macuna\u00edma. Um her\u00f3i de nossa gente, negro como o povo da noite, filho de \u00edndia, malandro e pregui\u00e7oso. Um sujeito que vive criando confus\u00e3o e trai descaradamente quem nele confia. No c\u00e9lebre romance modernista h\u00e1 um momento em que um estudante fala \u00e0s massas sobre nossas mazelas, afirmando o seguinte:<\/p>\n<p>\u201c\u2013 Meus senhores, a vida dum grande centro urbano como S\u00e3o Paulo j\u00e1 obriga a uma intensidade tal de trabalho que n\u00e3o permite-se mais dentro da magnifica entrosagem do seu progresso sequer a passagem moment\u00e2nea de seres in\u00f3cuos. Ergamo-nos todos contra os miasmas delet\u00e9rios que conspurcam o nosso organismo social e j\u00e1\u0301 que o Governo cerra os olhos e delapida os cofres da Na\u00e7\u00e3o, sejamos n\u00f3s mesmos os justi\u00e7adores\u2026\u201d<\/p>\n<p>Que faz Macuna\u00edma (que ali\u00e1s havia criado a pr\u00f3pria confus\u00e3o)? Come\u00e7a a bater boca com o estudante, defendendo seus \u201cmanos\u201d, e acaba agredindo um \u201cGrilo\u201d loiro que s\u00f3 falava em l\u00edngua estrangeira, quase indo preso. A massa, que h\u00e1 pouco estava disposta a linchar algu\u00e9m (Macuna\u00edma ou seus irm\u00e3os), agora defende o her\u00f3i contra o \u201cGrilo\u201d, e seu delegado que quer lev\u00e1-lo para a cadeia.<\/p>\n<p>Algumas pessoas, compreensivelmente, se mostram confusas. Afinal, para elas os her\u00f3is seriam representa\u00e7\u00f5es de um sentimento de justi\u00e7a tolhido por poderosos interesses, deviam ser amados, n\u00e3o destratados e presos. No entanto, as massas ora os aclamam ora os abandonam, ora os abra\u00e7am com seus infinitos bra\u00e7os ora os lincham. Pois massas s\u00e3o assim mesmo. Pedem para soltar Barrab\u00e1s e depois v\u00e3o chorar aos p\u00e9s da santa cruz. De certa forma, n\u00e3o \u00e9 o her\u00f3i que n\u00e3o tem car\u00e1ter, \u00e9 a na\u00e7\u00e3o que nele se representa que se apresenta como um caldeir\u00e3o de sentimentos contradit\u00f3rios, cindidos e antag\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Lula precisa ir para a cadeia: a raiva dessa injun\u00e7\u00e3o \u00e9 purgada em atos amarelos insanos, adornados com pixulecos inflados, exorta\u00e7\u00f5es \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 ignor\u00e2ncia, com dan\u00e7as pag\u00e3s convocando a volta de velhos fantasmas militares e seus m\u00e9todos medievais, aos gritos que fazem veias saltar dos pesco\u00e7os tensos, bonecos enforcados nos viadutos, \u00f3dio contra meninos alegres que passeiam de m\u00e3os dadas e pedagogos com barbas longas, \u00f3dio contra a cor vermelha e todas as cores do arco \u00edris que n\u00e3o seja o verde e o amarelo\u2026<\/p>\n<p>Toda essa energia se consubstancia num homem que veste preto e julga. Mas lembrem-se: estamos no Brasil. O juiz projeta uma imagem imponente: seu punho firme, seu queixo quadrado e seu cenho s\u00e9rio. Mas quando abre a boca\u2026 vem a voz do Pato Donald. A mais clara express\u00e3o de uma elite culta e sofisticada, o cr\u00e8me de la cr\u00e8me, mas que tem dificuldade em terminar um TCC ou escrever uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, at\u00e9 mesmo de utilizar corretamente o idioma p\u00e1trio. \u00c9 a nata da sociedade, mas talvez seja o leite que coalhou azedo. Ele vai julgar, n\u00e3o teme os poderosos, combater\u00e1 a corrup\u00e7\u00e3o, doa a quem doer, a lei \u00e9 para todos. Nas revistas de fofoca (chamadas de \u201cnoticias\u201d), sua figura aparecer\u00e1 de baixo para cima contra a luz, um gigante, ou com camisa dobrada nos antebra\u00e7os, um esfor\u00e7ado trabalhador incans\u00e1vel, ao lado da bela esposa com vestido chique e muita maquiagem, abra\u00e7ado com artistas e celebridades, rindo com a esc\u00f3ria da pol\u00edtica nacional, um combatente s\u00e9rio\u2026 cenho, queixo, punho\u2026 orgasmos m\u00faltiplos na classe m\u00e9dia reunida na frente do pr\u00e9dio da FIESP em torno de um enorme pato de pl\u00e1stico roubado de um artista holand\u00eas.<\/p>\n<p>Todo Quixote precisa de um Sancho Pan\u00e7a para montar o jumento enquanto o her\u00f3i cavalga o Rocinante. Eis que surge Deltan Dallagnol, com seus \u00f3culos e semblante de garoto virgem em meio \u00e0s quengas do cabar\u00e9. Nosso escudeiro brasilis, contudo, ao contr\u00e1rio da vers\u00e3o original de Cervantes, contudo, n\u00e3o \u00e9 aquele que enxerga o real para apontar as alucina\u00e7\u00f5es do cavaleiro, mas quem agrega seus pr\u00f3prios del\u00edrios evang\u00e9licos \u00e0 cruzada purificadora. Faz jejum e ora quando outros incautos caus\u00eddicos fazem peti\u00e7\u00f5es e embargos infringentes.<\/p>\n<p>A triste na\u00e7\u00e3o precisava de her\u00f3is, mas infelizmente era isso que t\u00ednhamos pra hoje: passamos por um vampiro de linguagem rebuscada e conjuga\u00e7\u00f5es manoelinas, um ex-capit\u00e3o com s\u00e9rios problemas intelectivos, um torturador psicopata falecido, um pretenso fil\u00f3sofo com s\u00edndrome de Tourrete e\u2026 um juiz e seu procurador.<\/p>\n<p>Bom, eis que entra em cena um jornalista l\u00e1 do primeiro mundo \u2013 justamente da terra do Tio Sam e do Superman \u2013, casado, pai de dois filhos, e joga merda no ventilador. A s\u00edntese do que saiu at\u00e9 agora (ao que se sabe, h\u00e1 mais por vir): o juiz combinou com o promotor os procedimentos e condi\u00e7\u00f5es para condenar o cara que segundo todas as pesquisas ganharia as elei\u00e7\u00f5es \u2013 e isso independente de terem provas e evid\u00eancias consistentes \u2013, garantindo assim a vit\u00f3ria do capit\u00e3o caverna que por sua vez lhe concedeu um superminist\u00e9rio\u2026 o da justi\u00e7a. Estava no esquema a rede Globo, que literalmente \u201ccobriu\u201d a trama toda. O ministro, com aquela voz que lhe confere credibilidade, jurou para a loira do banheiro que n\u00e3o fez nada de errado e ela, l\u00f3gico, acreditou.<\/p>\n<p>O interessante, al\u00e9m de ver a rede Globo tentando fazer de conta que o m\u00edssil abaixo de sua linha d\u2019\u00e1gua n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o s\u00e9rio assim, \u00e9 que as massas (lembram delas?) n\u00e3o entendem o porqu\u00ea de tanto alarido. Afinal, o her\u00f3i pegou o bandido, fez o que tinha que fazer, acelerou os tr\u00e2mites, burlou processos legais de defesa, botou escuta nos escrit\u00f3rios dos advogados de defesa \u2013 h\u00e1 inclusive a possibilidade de pessoas terem sido mortas (o delegado que apurava a morte de Teori Zavaski foi assassinado etc.) \u2013, vazou \u00e1udios que n\u00e3o podia, livrou a mulher do Cunha (que sempre esteve de olhos bem abertos durante toda a crise), tirou foto junto com o F\u00e1gner. Qual o problema? Qual \u00e9 a desse \u201cGrilo\u201d?<\/p>\n<p>O cara tem nome de trama internacional: Glenn Greenwald. \u00c9 jornalista reconhecido e corajoso, premiado com o Pulitzer e outras honrarias da profiss\u00e3o, enfrentou o maior imp\u00e9rio do mundo hoje. Mas os \u201cjornalistas\u201d brasileiros \u2013 mais conhecidos como leitores de teleprompter, ou aqueles \u201cespecialistas\u201d em cobertura pol\u00edtica que acreditam que isso significa ir tomar caf\u00e9 no Congresso com suas fontes para saber das \u00faltimas fofocas dos bastidores e que \u201colhar para o outro lado\u201d n\u00e3o quer dizer buscar o contradit\u00f3rio, mas fazer vista grossa \u2013 tentam desqualificar o jornalista do Intercept para tentar salvar seus pr\u00f3prios rabos.<\/p>\n<p>O ministro neste momento deve estar na casa do Queiroz tentando, sem sucesso, lavar sua cueca de uma marca indel\u00e9vel de batom com Vanish Oxi Action. O que dir\u00e3o as massas, pelo menos por um tempo? Que ele est\u00e1 sendo perseguido, que as for\u00e7as internacionais do bolivarianismo e da ditadura gaysista est\u00e3o sabotando a Lava Jato, que Paulo Freire hackeou os telefones do Dallagnol? A Damares h\u00e1 de achar uma passagem em algum livro did\u00e1tico que ensina as crian\u00e7as a ser jornalistas investigativos\u2026<\/p>\n<p>Enquanto isso, tem um estudante em cima de um carro, denunciando o corte de verbas nas universidades, o ataque aos povos ind\u00edgenas e aos negros e a destrui\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia como direito. Conclui ent\u00e3o que uma vez que o governo fecha os olhos e delapida os cofres da na\u00e7\u00e3o, est\u00e1 na hora de sermos n\u00f3s os justi\u00e7adores.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma, no entanto, responde: ai que pregui\u00e7a.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n<p>https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/<wbr \/>2019\/06\/19\/um-heroi-sem-nenhum-carater\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23409\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-23409","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-65z","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23409","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23409"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23409\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}