{"id":23450,"date":"2019-06-25T22:40:49","date_gmt":"2019-06-26T01:40:49","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23450"},"modified":"2019-06-25T22:40:49","modified_gmt":"2019-06-26T01:40:49","slug":"socialismo-democratico-ou-social-democracia-envergonhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23450","title":{"rendered":"Socialismo democr\u00e1tico ou social-democracia envergonhada?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/opera-16.jpg\"\/><!--more-->por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Uma edi\u00e7\u00e3o da revista The Economist de fevereiro deste ano causou um certo estardalha\u00e7o nos Estados Unidos e, de quebra, tamb\u00e9m no Brasil. Na capa, a frase \u201cO crescimento do socialismo dos millennials\u201d (The Rise of Millennial Socialism) d\u00e1 o tom do impresso. A primeira mat\u00e9ria que motiva a capa (Millennial Socialism) \u00e9 aberta com uma frase cl\u00e1ssica: \u201cDepois do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1991, [\u2026]\u201d. O tom fukuyamista n\u00e3o \u00e9 deixado de lado: \u201c[\u2026] a batalha ideol\u00f3gica do s\u00e9culo XX parecia ter acabado. Ela mancou em reuni\u00f5es marginais, estados acabados [failed states] e na liturgia do Partido Comunista Chin\u00eas. Hoje, 30 anos depois, o socialismo est\u00e1 em moda de novo.\u201d<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria segue, citando figuras como Alexandria Ocasio Cortez e Bernie Sanders, e enumerando as raz\u00f5es do socialismo \u201cvoltar a estar na moda\u201d e o que esse \u201cnovo socialismo\u201d tem de errado. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a The Economist acerta muito mais na sua cr\u00edtica ao \u201cnovo socialismo\u201d do que na defesa de suas virtudes. E a raz\u00e3o para tal \u00e9 simples: a defini\u00e7\u00e3o absurda de \u201csocialismo\u201d da revista liberal de propriedade de banqueiros \u00e9 igual \u00e0 das figuras mencionadas \u2013 os representantes do \u201cmillennial socialism\u201c.<\/p>\n<p>Um problema de defini\u00e7\u00f5es<br \/>\nAlexandria Ocasio Cortez e Bernie Sanders enfatizam sempre serem \u201csocialistas democratas\u201d ao mesmo tempo em que ambos \u2013 Bernie e Ocasio \u2013 se intitulam \u201cradicais\u201d. O problema que se apresenta \u00e9, primeiramente, um problema de defini\u00e7\u00f5es. Tomemos as palavras de Ocasio Cortez como exemplo:<\/p>\n<p>\u201cA parte dif\u00edcil sobre essa quest\u00e3o, sobre se o capitalismo \u00e9 resgat\u00e1vel, etc., \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil ter essas conversas na sociedade porque todos temos ideias diferentes sobre o que capitalismo e socialismo significam. [\u2026] Capitalismo \u00e9, para mim, uma ideologia do capital, que estabelece a concentra\u00e7\u00e3o de capital como a coisa mais importante, o que significa que buscamos e priorizamos os lucros e a acumula\u00e7\u00e3o de dinheiro acima de tudo. [\u2026] Para mim essa ideologia n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel e n\u00e3o pode ser resgatada [\u2026] Quando n\u00f3s falamos de ideias como, por exemplo, o socialismo democr\u00e1tico, significa colocar a democracia e a sociedade como prioridade ao inv\u00e9s de capital como prioridade; isso n\u00e3o significa colocar outras coisas em rejei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o significa que o conceito do capital como sociedade deva ser abolido ou nada do tipo: \u00e9 uma quest\u00e3o de prioridades. [\u2026] No imagin\u00e1rio do p\u00fablico h\u00e1 uma campanha de medo sobre o que o socialismo democr\u00e1tico significa, que o governo vai tomar o setor privado, quando na verdade a minha opini\u00e3o \u00e9 de que essas duas coisas devem estar separadas.\u201d<\/p>\n<p>Ou\u00e7amos agora Sanders, em uma palestra em que defende a \u201ccontinua\u00e7\u00e3o do New Deal\u201d e em que cita Putin e Xi Jinping como exemplos de \u201cregimes autorit\u00e1rios\u201d, comparando-os com a Ar\u00e1bia Saudita (aliada hist\u00f3rica dos EUA, n\u00e3o da R\u00fassia), Rodrigo Duterte (que amea\u00e7ou entrar em guerra com a China), Jair Bolsonaro (\u00e9 preciso dizer algo sobre a rela\u00e7\u00e3o de nosso presidente com a China, R\u00fassia e EUA?), e Viktor Orban:<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s precisamos dar um passo a frente e garantir a todo homem, mulher e crian\u00e7a de nosso pa\u00eds, direitos econ\u00f4micos b\u00e1sicos. O direito \u00e0 sa\u00fade de qualidade. O direito a quantidade de educa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que algu\u00e9m tenha sucesso em nossa sociedade. O direito a um bom trabalho, que pague um sal\u00e1rio com o qual se pode viver. O direito \u00e0 moradia acess\u00edvel. O direito a uma aposentadoria segura. E o direito a viver em um ambiente limpo. N\u00f3s precisamos reconhecer que no s\u00e9culo 21, no pa\u00eds mais rico do mundo, direitos econ\u00f4micos s\u00e3o direitos humanos. E \u00e9 isso o que eu quero dizer quando falo em socialismo democr\u00e1tico.\u201d<\/p>\n<p>Vemos, portanto, que o socialismo democr\u00e1tico do qual falam Ocasio Cortez e Bernie Sanders nada t\u00eam de socialismo. Trata-se de propostas democr\u00e1ticas, no m\u00ednimo, ou social-democratas, no m\u00e1ximo. O socialismo \u00e9, por excel\u00eancia, a ideia de que o \u201co conceito de capital como sociedade deva ser abolido\u201d. Os socialistas n\u00e3o querem \u201cresgatar\u201d ou \u201cdar sustenta\u00e7\u00e3o\u201d ao capital; essa \u00e9 a tarefa autodeclarada dos social-democratas, que assegurando \u201cdireitos econ\u00f4micos b\u00e1sicos\u201d pretendem \u201cracionalizar o capital\u201d. Tomemos as palavras de Keynes, expoente da social-democracia, em carta para o presidente Roosevelt, na qual defendia o New Deal que tanto inspira Bernie Sanders:<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea falhar, a mudan\u00e7a racional ser\u00e1 gravemente prejudicada pelo mundo, deixando a ortodoxia e a revolu\u00e7\u00e3o para lutar contra ela.\u201d<\/p>\n<p>Tomemos agora as palavras de L\u00eanin, em \u201cA Ditadura Democr\u00e1tica Revolucion\u00e1ria do Proletariado e do Campesinato\u201d:<\/p>\n<p>\u201cSubjetivamente, Jaur\u00e8s queria salvar a rep\u00fablica, entrando para isso numa alian\u00e7a com a democracia burguesa. As condi\u00e7\u00f5es objetivas desta \u2018experi\u00eancia\u2019 consistiam em que a rep\u00fablica em Fran\u00e7a era j\u00e1 um fato e nenhum perigo s\u00e9rio a amea\u00e7ava; em que a classe oper\u00e1ria tinha toda a possibilidade de desenvolver uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de classe independente e utilizou insuficientemente esta possibilidade sob a influ\u00eancia, em parte, por conta da farsa parlamentar de seus l\u00edderes; que de fato a hist\u00f3ria apresentava j\u00e1 \u00e0 classe oper\u00e1ria as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o socialista, da qual os Millerands afastaram o proletariado com a promessa de min\u00fasculas reformas sociais. [\u2026] Quanto mais n\u00f3s conquistarmos agora, quanto mais energicamente defendermos o que foi conquistado, tanto menos poder\u00e1 ser retirado em consequ\u00eancia da inevit\u00e1vel rea\u00e7\u00e3o futura, tanto mais breves ser\u00e3o estes intervalos de reac\u00e7\u00e3o, tanto mais f\u00e1cil ser\u00e1 a tarefa para os lutadores prolet\u00e1rios que nos seguem. E aqui surgem pessoas que querem de antem\u00e3o, antes da luta, medir com precis\u00e3o, a metro, \u201c\u00e0 Ilovaiski\u201d, o modest\u00edssimo peda\u00e7o das conquistas futuras, pessoas que antes da queda da autocracia, mesmo antes do 9 de Janeiro, tiveram a ideia de meter medo \u00e0 classe oper\u00e1ria da R\u00fassia com o espantalho da horr\u00edvel ditadura democr\u00e1tica revolucion\u00e1ria! E aspiram estes medidores ao nome de sociais-democratas revolucion\u00e1rios\u2026\u201c<\/p>\n<p>A raz\u00e3o para Sanders e Cortez falarem em \u201csocialismo democr\u00e1tico\u201d ao inv\u00e9s de social-democracia, e de posarem de radicais (\u201cradical significar ir \u00e0 raiz do problema\u201d \u2013 palavras de Ocasio Cortez) quando s\u00e3o por defini\u00e7\u00e3o reformistas, \u00e9 simples: os primeiros dois adjetivos s\u00e3o mais bonitos em um momento de crise e de agravamento da luta de classes do que os dois \u00faltimos. E essa postura marketeira, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, parece florecer como radical e revolucion\u00e1ria, como \u201cnova\u201d (de quantas coisas novas n\u00e3o falou Brecht?) inclusive em mentes que rejeitam o \u201cNew Deal\u201d brasileiro dos governos petistas, por reconhecerem nele, acertadamente, n\u00e3o o socialismo \u2013 mas um capitalismo reformado; n\u00e3o a radicalidade que corta a \u00e1rvore podre \u2013 mas o desejo de aparar seus galhos para dar ao tronco mais vitalidade; n\u00e3o a vit\u00f3ria \u2013 mas a derrota.<\/p>\n<p>O Democratic Socialists of America<br \/>\nNo centro da \u201cnova moda\u201d est\u00e1 o Democratic Socialists of America, partido fundado em 1973 (primeiro como Democratic Socialist Organizing Committee) por Michael Harrington a partir de um racha do Socialist Party of America. \u00c9 a esse partido que pertence Ocasio Cortez, e apesar disso n\u00e3o ser verdadeiro para Bernie Sanders, ele contou com seu apoio nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es \u2013 apesar das alas afro-americanas do partido terem-no rejeitado \u2013 bem como contou John Kerry, em 2004 (aquele mesmo John Kerry que buscava o \u201cuso da for\u00e7a\u201d na S\u00edria) e Obama em 2008.<\/p>\n<p>Entre 2016 e 2018, acredita-se n\u00famero de membros do partido tenha crescido em 7 vezes, chegando a ter cerca de 50 mil membros.<\/p>\n<p>O partido apoiou o processo de liberaliza\u00e7\u00e3o e reformas na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sob Gorbachev, tendo na caneta de seus fundadores \u2013 Michael Harrington e Bogdan Denitch \u2013 uma apologia clara do processo.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo dos democratas e socialistas deve ser ajudar nas chances de uma reforma bem-sucedida no bloco sovi\u00e9tico [\u2026] Enquanto apoiamos a liberaliza\u00e7\u00e3o e as reformas econ\u00f4micas de cima, os socialistas devem ser particularmente ativos em contatar e encorajar os brotos tenros da democracia de baixo\u201d, escreveu Denitch.<\/p>\n<p>Harrington, por sua vez, escreveu no New York Times ao lado de outra lideran\u00e7a do DSA, Barbara Ehrenreich, que:<\/p>\n<p>\u201cNa realidade, muitos l\u00edderes do DSA (Irving Howe dentre os mais proeminentes) t\u00eam vociferado uma consistente oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica por d\u00e9cadas \u2013 seja quanto aos horrores do stalinismo, as inefici\u00eancias do centralismo econ\u00f4mico ou a falta de liberdades b\u00e1sicas como o direito de organizar sindicatos e de participar em elei\u00e7\u00f5es competitivas. H\u00e1 muito tempo entendemos que um estado demasiado centralizado, autorit\u00e1rio e burocr\u00e1tico n\u00e3o pode nem ser eficiente nem justo. N\u00f3s somos a favor do m\u00e1ximo de descentraliza\u00e7\u00e3o que for poss\u00edvel. N\u00f3s rejeitamos a cren\u00e7a de que toda decis\u00e3o econ\u00f4mica pode ser efetivamente planejada por burocratas estatais. O planejamento democr\u00e1tico deve determinar os contornos b\u00e1sicos de nossa economia, embora isso n\u00e3o signifique que n\u00e3o vejamos algum papel para os mercados e o setor privado no futuro.\u201c<\/p>\n<p>A p\u00e1gina \u201cO que \u00e9 o socialismo democr\u00e1tico\u201d no site do partido \u00e9 um pouco mais obscura quanto \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es do DSA, apesar de deixar clara que o legado de Harrington segue vivo na organiza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cOs socialistas democr\u00e1ticos h\u00e1 muito rejeitam a cren\u00e7a de que toda a economia deva ser planejada de maneira centralizada. N\u00f3s acreditamos que o planejamento democr\u00e1tico possa ser respons\u00e1vel pelos principais investimentos sociais como tr\u00e2nsito em massa, moradia e energia, e que mecanismos de mercado s\u00e3o necess\u00e1rios para determinar a demanda para muitos produtos de consumo [..] Os socialistas est\u00e3o entre os mais duros cr\u00edticos dos estados comunistas totalit\u00e1rios. O fato de suas elites burocr\u00e1ticas os chamarem \u201csocialistas\u201d n\u00e3o os fazem; eles tamb\u00e9m chamavam seus regimes de \u201cdemocr\u00e1ticos.\u201d Os socialistas democratas sempre opuseram os partidos-estados dominantes dessas sociedades, bem como opomos as classes dominantes das sociedades capitalistas. N\u00f3s aplaudimos as revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas que transformaram o antigo bloco comunista. No entanto, a melhora das condi\u00e7\u00f5es de vida dos povos requerem democracias reais, sem rivalidades \u00e9tnicas e\/ou novas formas de autoritarismo.\u201c<\/p>\n<p>Um problema pol\u00edtico<br \/>\nA ideia de um \u201cnovo socialismo\u201d, \u201cdemocr\u00e1tico\u201d, s\u00f3 pode surgir a partir da compreens\u00e3o err\u00f4nea de que o socialismo n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico em si. Ou, melhor dizendo: s\u00f3 pode partir do ponto de vista que v\u00ea as sociedades n\u00e3o como campos de batalha de uma luta de classes material e concreta, mas espa\u00e7os de ideias abstratas em disputa. Em verdade, o frenesi com um \u201cnovo tipo de socialismo\u201d \u00e9 um recuo de um problema pol\u00edtico que tem sido central na tradi\u00e7\u00e3o socialista e em sua cr\u00edtica ao capitalismo: a possibilidade de uma classe dominada votar, ser votada ou ser eleita, constitui a garantia do poder pol\u00edtico para esta classe em pa\u00edses em que o poderio econ\u00f4mico \u00e9 moldado por e para a classe dominante?<\/p>\n<p>Quando os \u201csocialistas democr\u00e1ticos\u201d se envergonham do socialismo \u2013 um conceito muito bem definido \u2013 e adicionam \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es uma perfumaria qualquer de \u201cdemocracia\u201d \u2013 um conceito bastante abstrato \u2013 eles est\u00e3o se negando a enfrentar o problema pol\u00edtico central que todos os socialistas atacaram: que todas as sociedades capitalistas, havendo urnas ou n\u00e3o, s\u00e3o moldadas e controladas para e pelas classes dominantes. Assim, nada t\u00eam de democr\u00e1ticas: constituem uma ditadura de uma classe, que se efetivamente amea\u00e7ada utilizar\u00e1 de todas as suas ferramentas para eliminar-nos.<\/p>\n<p>Como nossos \u201csocialistas democr\u00e1ticos\u201d desviam de uma quest\u00e3o t\u00e3o central, medindo o mundo a partir de modelos ideais, n\u00e3o materiais \u2013 (o \u201csocialismo\u201d pode estar estabelecido em uma sociedade em que o capital n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o foi abolido, como ter\u00e1 a possibilidade de voltar ao poder por meio de elei\u00e7\u00f5es; medidas \u201csocialistas\u201d j\u00e1 existiram no passado nos EUA; \u201co capitalismo \u00e9 uma ideologia\u201d; a democracia nunca existiu nos \u201cregimes comunistas\u201d) \u2013 acabam por submeter toda a sua a\u00e7\u00e3o a concep\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas err\u00f4neas: se esquecem que a ditadura do capital \u00e9 moldada precisamente para que, pelo respeito a suas premissas, n\u00e3o possa ser alterada. Mas o caso \u00e9 pior: eles n\u00e3o buscam combater esta ditadura \u2013 nunca falam no dom\u00ednio capitalista como uma \u201cditadura autorit\u00e1ria\u201d, apesar de encherem a boca contra o antigo bloco sovi\u00e9tico \u2013 mas sim estabelecer uma \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d (abstrata) de alguns setores-chave da economia, garantida por um espa\u00e7o democr\u00e1tico tamb\u00e9m abstrato. Como efetivamente chegar\u00e3o a conseguir democratizar esses setores, respeitando os ditames democr\u00e1ticos da sociedade capitalista (no m\u00ednimo h\u00e1 que eleger um presidente, contar com maioria parlamentar, se fortificar contra aventuras militares e vencer a batalha midi\u00e1tica) eles n\u00e3o nos dizem. E como efetivamente poderiam se defender de boicotes internos, golpes, pronunciamentos, ou mesmo de uma campanha eleitoral vitoriosa (j\u00e1 que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cparticipar de elei\u00e7\u00f5es competitivas\u201d) daquela classe de capitalistas que continua a ter controle sobre \u201ca demanda para muitos produtos de consumo\u201d? Eles tamb\u00e9m n\u00e3o nos dizem.<\/p>\n<p>Em grande parte, as luzes do novo que pintam no c\u00e9u j\u00e1 estiveram l\u00e1 antes. No Chile, em 1973, o sonho de um \u201csocialismo democr\u00e1tico\u201d de Salvador Allende (muito diferente do advogado hoje por ditos socialistas democr\u00e1ticos, \u00e9 verdade) foi destru\u00eddo pelos tanques de Pinochet, somado pelo boicote econ\u00f4mico interno. No Pal\u00e1cio de La Moneda, no entanto, Allende estava munido de um fuzil AK-47 e um capacete militar \u2013 n\u00e3o de uma c\u00e9dula de vota\u00e7\u00e3o. O poeta salvadorenho Roque Dalton escreveu em \u201cManeiras de morrer\u201d:<\/p>\n<p>\u201cO comandante Ernesto Che Guevara<br \/>\nchamado pelos pacifistas<br \/>\nde grande aventureiro da luta armada<br \/>\nfoi e aplicou suas concep\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias<br \/>\nna Bol\u00edvia.<br \/>\nNesse teste perdeu sua vida e a de um punhado de her\u00f3is.<\/p>\n<p>Os grandes pacifistas da via prudente<br \/>\ntamb\u00e9m testaram suas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es no Chile:<br \/>\nos mortos j\u00e1 passam de 30 mil.<\/p>\n<p>Pense o leitor no que nos diriam<br \/>\nse pudessem nos falar de sua experi\u00eancia<br \/>\nos mortos em nome da cada concep\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cUma imagem fala mais do que mil palavras\u201d \u00e9 o prov\u00e9rbio popular. E o brilho reluzente do kalashnikov de Allende em La Moneda j\u00e1 nos disse muito. Mas um outro caso est\u00e1 mais pr\u00f3ximo, no espa\u00e7o e no tempo, de n\u00f3s. A Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana iniciada por Ch\u00e1vez na Venezuela tamb\u00e9m se tingiu de democr\u00e1tica, tamb\u00e9m se negou a assaltar o poder, tamb\u00e9m se prop\u00f4s nova. Mas sempre teve de se confrontar com os velhos problemas. Em 2002, um golpe efetivamente foi lan\u00e7ado contra Ch\u00e1vez, e depois revertido. O que \u00e9 ir\u00f4nico \u00e9 que as a\u00e7\u00f5es de Ch\u00e1vez em resposta ao golpe foram consideradas por muitos \u201csocialistas democr\u00e1ticos\u201d do primeiro mundo como medidas \u201cautorit\u00e1rias\u201d, ainda que estivessem absolutamente submetidas \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o venezuelana. Bernie Sanders por exemplo disse que Ch\u00e1vez \u00e9 um \u201cditador comunista morto\u201d, e faz quest\u00e3o de se afastar da quest\u00e3o venezuelana sempre \u2013 inclusive, para definir sua posi\u00e7\u00e3o. \u201cQuando eu falo de \u2018socialismo democr\u00e1tico\u2019, eu n\u00e3o estou olhando para a Venezuela ou para Cuba. Estou olhando para pa\u00edses como Dinamarca ou Su\u00e9cia\u201d, declarou durante um debate. No mesmo ano, quando pressionado em uma entrevista, declarou sobre Cuba: \u201c\u00c9 uma sociedade autorit\u00e1ria. Eu apoio suas pol\u00edticas econ\u00f4micas ou sua pol\u00edtica? \u00c9 claro que n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Vereis logo que os programas defendidos por \u201csocialistas democr\u00e1ticos\u201d do primeiro mundo, no terceiro mundo constituem tarefa de punhos firmes \u2013 e quando os punhos tensionam, um pouquinho que seja, logo deixamos de ser companheiros democratas para sermos \u201cditadores comunistas mortos.\u201d Quando n\u00e3o tensionam, s\u00e3o cortados \u2013 como bem demonstrou nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia recente, e como demonstrou tamb\u00e9m o \u201cbem-estar social\u201d europeu e o New Deal. Se poder\u00e1 apontar que essas figuras \u201cao menos s\u00e3o contra o intervencionismo norte-americano nesses pa\u00edses\u201d. E seria verdade. Pra ela, outra: ser contra o intervencionismo norte-americano n\u00e3o significa ser socialista.<\/p>\n<p>Em um artigo cujo t\u00edtulo j\u00e1 exp\u00f5e a falta de realismo de suas concep\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cO que os socialistas fariam na Am\u00e9rica \u2013 Se eles pudessem\u201c, publicado em 1978, na Dissent Magazine, Michael Harrington descreve um processo de \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d global do capitalismo, em que pode haver uma sa\u00edda para socialismo democr\u00e1tico \u201cou um novo tipo de sociedade coletivista e autorit\u00e1ria.\u201d De acordo com ele, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u201cviver com as suposi\u00e7\u00f5es felizes do liberalismo dos anos 60 \u2013 que um crescimento infinito e n\u00e3o-inflacion\u00e1rio n\u00e3o s\u00f3 possibilitaria financiar a justi\u00e7a social como tamb\u00e9m obter lucro dela.\u201d O socialismo democr\u00e1tico portanto nasceria quase que naturalmente de uma sociedade \u201cque n\u00e3o \u00e9 capitalista nem socialista, mas algo no meio, com elementos de ambos.\u201d O autor afirma inclusive que \u201co capitalismo hoje \u00e9 cada vez mais coletivista, ou seja, ele cada vez mais faz suas decis\u00f5es econ\u00f4micas politicamente.\u201d Harrington reconhece que \u201cos dirigentes do estado de bem-estar social precisam se adaptar \u00e0s prioridades corporativas \u2013 \u2018conseguir a confian\u00e7a do mercado&#8217;\u201d, por fim pondo aos olhos do p\u00fablico seu idealismo: \u201cas contradi\u00e7\u00f5es da \u2018socializa\u00e7\u00e3o privada\u2019 eventualmente v\u00e3o requerir mudan\u00e7as estruturais. Elas poderiam nos mover em dire\u00e7\u00e3o a uma sociedade de novo tipo, um coletivismo de tipo burocr\u00e1tico, ou a um novo comunitarismo, um socialismo democr\u00e1tico.\u201d<\/p>\n<p>Ora, Harrington claramente v\u00ea um certo \u201cesp\u00edrito do novo tempo\u201d (a \u201csocializa\u00e7\u00e3o privada\u201d, o \u201ccoletivismo capitalista\u201d) como o ponto de partida para uma nova disputa. O fato \u00e9 que esse \u201cnovo esp\u00edrito\u201d n\u00e3o era nada sen\u00e3o a tentativa exitosa do pr\u00f3prio capitalismo em fazer frente \u00e0 luta de classes interna em um contexto de competi\u00e7\u00e3o global, numa esp\u00e9cie de \u201cluta de classes global\u201d \u2013 o bloco sovi\u00e9tico. Em outras palavras, o \u201cnovo ideal\u201d do capitalismo coletivista era a resposta a mudan\u00e7as estruturais e materiais no mundo (o material leva ao ideal), somada \u00e0s demandas internas que nasceram precisamente das crises capitalistas, e n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o de um novo esp\u00edrito nascido da benevol\u00eancia do Deus-Mammon. Como o bloco desmanchou, com o apoio de Harrington e sua trupe de socialistas democr\u00e1ticos, o esp\u00edrito tamb\u00e9m se foi \u2013 fato reconhecido por ele mesmo em seu texto (\u201cos votos na Calif\u00f3rnia mostram que os eleitores querem que o bem-estar social seja cortado, antes de tudo. H\u00e1 muitos outros sinais de uma crescente maldade social\u201d) mas tamb\u00e9m seu partido, que diz: \u201cHoje, executivos corporativos que s\u00f3 respondem a si mesmos e alguns financistas ricos fazem decis\u00f5es econ\u00f4micas b\u00e1sicas que afetam milh\u00f5es de pessoas.\u201d Para onde foi o \u201ccoletivismo capitalista\u201d e a \u201csocializa\u00e7\u00e3o privada\u201d?<\/p>\n<p>\u00c9 um tanto sem raz\u00e3o as cita\u00e7\u00f5es de Harrington de \u201cCr\u00edtica de Programa de Gotha\u201d (a n\u00e3o ser que a raz\u00e3o seja sinceramente falsific\u00e1-lo), j\u00e1 que neste documento dizia Marx:<\/p>\n<p>\u201cEsta fantasia [cria\u00e7\u00e3o de cooperativas de produ\u00e7\u00e3o com a ajuda do Estado, sob o controle democr\u00e1tico do povo trabalhador] de que com empr\u00e9stimos do Estado pode-se construir uma nova sociedade como se constr\u00f3i uma nova ferrovia \u00e9 digna de Lassale. [\u2026] E, al\u00e9m disso, tratando-se de um povo trabalhador que, pelo simples fato de colocar estas reivindica\u00e7\u00f5es perante o Estado, exterioriza sua plena consci\u00eancia de que nem est\u00e1 no Poder, nem se acha maduro para governar! [\u2026] E agora vou referir-me \u00e0 parte democr\u00e1tica [\u2026] A miss\u00e3o do oper\u00e1rio que se libertou da estreita mentalidade do humilde s\u00fadito n\u00e3o \u00e9, de modo algum, tornar livre o Estado. [\u2026] Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista medeia o per\u00edodo da transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da primeira na segunda. A este per\u00edodo corresponde tamb\u00e9m um per\u00edodo pol\u00edtico de transi\u00e7\u00e3o, cujo Estado n\u00e3o pode ser outro sen\u00e3o a ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado. [\u2026] Suas reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m da velha e surrada ladainha democr\u00e1tica: sufr\u00e1gio universal, legisla\u00e7\u00e3o direta, direito popular, mil\u00edcia do povo, etc. S\u00e3o um simples eco do Partido Popular Burgu\u00eas, da Liga pela Paz e a Liberdade. S\u00e3o, todas elas, reivindica\u00e7\u00f5es que, quando n\u00e3o s\u00e3o exageradas a ponto de ver-se convertidas em ideias fan\u00e1ticas, j\u00e1 est\u00e3o realizadas. S\u00f3 que o Estado que as p\u00f4s em pr\u00e1tica n\u00e3o est\u00e1 dentro das fronteiras do Imp\u00e9rio Alem\u00e3o, mas na Su\u00ed\u00e7a, nos Estados Unidos, etc.\u201d<\/p>\n<p>Deixarei um trecho, por fim, para que o leitor tome a r\u00e9gua em suas m\u00e3os e me\u00e7a por si mesmo as propostas de Harrington frente a pena de Marx. Disse o \u00faltimo:<\/p>\n<p>\u201cNo Estado do futuro, j\u00e1 existente na Su\u00ed\u00e7a, esta reivindica\u00e7\u00e3o [impostos progressivos] est\u00e1 quase realizada. O imposto sobre a renda pressup\u00f5e as diferentes fontes de receita das diferentes classes sociais, isto \u00e9, a sociedade capitalista. [\u2026] Em que pese a toda sua fanfarronice democr\u00e1tica, o programa est\u00e1 todo ele infestado at\u00e9 a medula da f\u00e9 servil da seita lassalliana no Estado; ou \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 muito melhor \u2013 da supersti\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica; ou \u00e9, mais propriamente, um compromisso entre estas duas supersti\u00e7\u00f5es, nenhuma das quais nada tem a ver com o socialismo.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 certo que \u00e9 o pr\u00f3prio capitalismo, nas suas contradi\u00e7\u00f5es, \u00e9 quem d\u00e1 de mamar ao infante socialismo \u2013 mas ele o d\u00e1 precisamente pelas suas contradi\u00e7\u00f5es, ele fomenta a base de sua derrocada, que n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada por um desejo infantil de \u201creforma\u201d. \u00c0 medida que cresce, que passa a pensar, que aprende a caminhar, a crian\u00e7a tem de tomar o destino em suas m\u00e3os, rasgando o cord\u00e3o umbilical e deixando de se sujeitar \u00e0s regras impostas pela genitora. Caso contr\u00e1rio, a crian\u00e7a logo se converte em m\u00e3e, dando luz a uma nova gera\u00e7\u00e3o que rejeita sua apar\u00eancia herdada mas mant\u00e9m os princ\u00edpios essenciais da genetriz: ontem social-democratas, hoje socialistas democr\u00e1ticos. Lassallianos ontem, Harringtonianos hoje. Como eles bem reconhecem, nem tudo o que se diz sobre si mesmo \u00e9 verdade. \u201cO fato de suas elites burocr\u00e1ticas os chamarem \u201csocialistas\u201d n\u00e3o os fazem; eles tamb\u00e9m chamavam seus regimes de \u201cdemocr\u00e1ticos.\u201d O fato do socialismo democr\u00e1tico, o novo socialismo, se pintar de socialista, de democr\u00e1tico ou de novo tamb\u00e9m n\u00e3o o faz: nem socialista, nem democr\u00e1tico, nem novo. E Brecht segue ecoando: \u201cAssim marchou o Velho, travestido de Novo, mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho.\u201d<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"I7yuf2lgEV\"><p><a href=\"https:\/\/revistaopera.com.br\/2019\/06\/20\/socialismo-democratico-ou-social-democracia-envergonhada\/\">Socialismo democr\u00e1tico ou social-democracia envergonhada?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&#8220;Socialismo democr\u00e1tico ou social-democracia envergonhada?&#8221; &#8212; Revista Opera\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/revistaopera.com.br\/2019\/06\/20\/socialismo-democratico-ou-social-democracia-envergonhada\/embed\/#?secret=I7yuf2lgEV\" data-secret=\"I7yuf2lgEV\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23450\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[227],"class_list":["post-23450","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-66e","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23450","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23450"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23450\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23450"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23450"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23450"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}