{"id":2349,"date":"2012-02-01T18:41:19","date_gmt":"2012-02-01T18:41:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2349"},"modified":"2012-02-01T18:41:19","modified_gmt":"2012-02-01T18:41:19","slug":"werneck-sodre-e-a-teoria-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2349","title":{"rendered":"Werneck Sodr\u00e9 e a teoria do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Miguel Yoshida<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em 2011, Nelson Werneck Sodr\u00e9 teria completado 100 anos de vida. Por ter sido importante figura na luta do povo brasileiro ao longo do s\u00e9culo 20, \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia um olhar detido sobre o seu legado te\u00f3rico e suas posturas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Militar de carreira \u2013 ingressa no col\u00e9gio militar no ano de 1924 \u2013, Sodr\u00e9 sempre sustentou posi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas dentro do ex\u00e9rcito brasileiro,\u00a0<strong>o que lhe causou uma constante persegui\u00e7\u00e3o pelas for\u00e7as reacion\u00e1rias<\/strong>. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m foi professor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb) no qual contribuiu juntamente com outros intelectuais brasileiros na reflex\u00e3o sobre a forma\u00e7\u00e3o social brasileira.<\/p>\n<p>Sodr\u00e9 teve uma produ\u00e7\u00e3o intelectual intensa: escreveu ao longo de sua vida mais de 50 livros e aproximadamente 3 mil artigos, nos quais buscou elaborar uma\u00a0<strong>\u201cteoria do Brasil\u201d<\/strong>. Duas caracter\u00edsticas s\u00e3o marcantes em seu pensamento: a busca de compreender a realidade brasileira em seus diversos aspectos sociais, econ\u00f4micos, culturais e pol\u00edticos;\u00a0<strong>e o marxismo como fio condutor de sua interpreta\u00e7\u00e3o. <\/strong>Segundo Jos\u00e9 Paulo Netto, autor do perfil biogr\u00e1fico Nelson Werneck Sodr\u00e9: general da democracia e da cultura: \u201ca unidade de sua obra teve como base o rigoroso empenho, valendo-se dos recursos do marxismo, para compreender a particularidade hist\u00f3rica da forma\u00e7\u00e3o social brasileira (&#8230;) o objeto que imantou todo o seu trabalho (marxista) de pesquisa, por mais de meio s\u00e9culo, foi a hist\u00f3ria do Brasil.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que Sodr\u00e9 n\u00e3o foi o primeiro a construir uma teoria do Brasil; o s\u00e9culo 20 foi marcado por v\u00e1rias formula\u00e7\u00f5es sobre a realidade brasileira, desde conservadores, como Oliveira Vianna e Gilberto Freyre, progressistas, como S\u00e9rgio Buarque de Holanda e Celso Furtado, at\u00e9 marxistas, como Caio Prado Jr.<\/p>\n<p><strong>Experi\u00eancia militar<\/strong><\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o intelectual de Sodr\u00e9 se d\u00e1 n\u00e3o apenas a partir de seu ac\u00famulo te\u00f3rico \u2013 sua bagagem cultural era algo extraordin\u00e1rio \u2013 mas tamb\u00e9m pela sua experi\u00eancia pol\u00edtica como militar. Ainda segundo Jos\u00e9 Paulo Netto, duas experi\u00eancias marcam sua reflex\u00e3o: \u201cseu envolvimento nas elei\u00e7\u00f5es para o Clube Militar e a sua inser\u00e7\u00e3o no Iseb\u201d.<\/p>\n<p>Como decorr\u00eancia da primeira, ele assume a dire\u00e7\u00e3o do Departamento Cultural do Clube Militar, em uma gest\u00e3o constitucionalista e democr\u00e1tica. Apesar disso, as for\u00e7as reacion\u00e1rias, com for\u00e7a e influ\u00eancia consider\u00e1vel na estrutura do ex\u00e9rcito, conseguiram desarticular tal gest\u00e3o e Sodr\u00e9 foi transferido para Cruz Alta, no Rio Grande do Sul. Esse foi o primeiro de outros deslocamentos que ele sofreria ao longo da vida, fruto de ofensivas conservadoras.<\/p>\n<p>Uma de suas principais preocupa\u00e7\u00f5es girava em torno da hist\u00f3ria,\u00a0<strong>n\u00e3o como uma disciplina, mas como uma totalidade, tal qual Marx e Engels postularam<\/strong>:\u00a0<em>\u201cExiste apenas uma ci\u00eancia, a ci\u00eancia da hist\u00f3ria\u201d<\/em>. Ao perscrutar os v\u00e1rios aspectos da forma\u00e7\u00e3o social brasileira, Sodr\u00e9 sempre buscou compreender o seu processo hist\u00f3rico de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o ocasionalmente, suas principais obras s\u00e3o: Hist\u00f3ria da literatura brasileira (Graphia, 2002), Hist\u00f3ria militar no Brasil (Express\u00e3o Popular, 2010), Hist\u00f3ria da Burguesia Brasileira, Hist\u00f3ria da imprensa no Brasil (Ed. PUCRS, 2011).<\/p>\n<p>Apesar de cada um desses volumes \u2013 salvo o primeiro \u2013 terem sido publicados em anos subsequentes, entre 1964 e 1966, todos s\u00e3o frutos de anos de pesquisa; alguns foram concebidos primeiramente como projeto coletivo e depois realizados individualmente por ele, como \u00e9 o caso de Hist\u00f3ria militar no Brasil, idealizado quando foi professor da Escola do Estado-Maior, em finais dos anos de 1940.<\/p>\n<p>Cabe ressaltar que essa preocupa\u00e7\u00e3o em formular uma teoria do Brasil n\u00e3o \u00e9 uma iniciativa individual de Nelson Werneck Sodr\u00e9; o clima de efervesc\u00eancia social e cultural do Brasil das d\u00e9cadas de 1950-1960 \u00e9 algo marcante em seu pensamento.<\/p>\n<p><strong>Proximidade com o PCB<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias as pol\u00eamicas em torno da vida e da obra de Nelson Werneck Sodr\u00e9, desde sua n\u00e3o declarada vincula\u00e7\u00e3o com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) at\u00e9 suas interpreta\u00e7\u00f5es marxistas da realidade brasileira. No que toca ao primeiro ponto, \u00e9 poss\u00edvel perceber a sua aproxima\u00e7\u00e3o ao PCB, principalmente ap\u00f3s a Declara\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de 1958, na qual se adota uma nova orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do partido, ampliando o seu leque e alian\u00e7as e o horizonte pol\u00edtico.\u00a0<strong>\u00c9 nesse marco que Sodr\u00e9 re\u00fane elementos pol\u00edtico-te\u00f3ricos de membros do PCB para seguir em sua formula\u00e7\u00e3o de uma teoria do Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>No que toca ao segundo ponto, \u00e9 conhecida a pol\u00eamica instaurada entre ele e Caio Prado Jr. sobre o car\u00e1ter da forma\u00e7\u00e3o social brasileira; enquanto o primeiro analisa o processo de coloniza\u00e7\u00e3o sobre o prisma da coexist\u00eancia de um escravismo e de elementos de regress\u00e3o feudal em algumas \u00e1reas espec\u00edficas do territ\u00f3rio brasileiro,\u00a0<strong>o segundo afirma o car\u00e1ter capitalista mercantil do Brasil desde a sua coloniza\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Dessas longas pol\u00eamicas, deve-se ressaltar a postura de Nelson Werneck Sodr\u00e9 que, sem nunca abandonar suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-te\u00f3ricas,\u00a0<strong>sempre buscou apreender as cr\u00edticas que recebia e incorpor\u00e1- las \u00e0 sua teoria.<\/strong> N\u00e3o cabe aqui a discuss\u00e3o do acerto ou n\u00e3o de sua teoria do Brasil, entretanto, a compreens\u00e3o de seu pensamento \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para todos aqueles que buscam entender a realidade brasileira em seus diversos aspectos com o intuito de transform\u00e1-la.<\/p>\n<p><strong>Centen\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Por muito tempo Nelson Werneck Sodr\u00e9 sofreu grande isolamento por parte de v\u00e1rios setores da academia. Ele era injustamente considerado por muitos como um marxista mecanicista e ortodoxo. Esse isolamento come\u00e7a a se romper em finais da d\u00e9cada de 1980. Desde 2009 h\u00e1 um esfor\u00e7o de re-edi\u00e7\u00e3o de suas principais obras e um reavivamento de seu pensamento dentro da universidade e sua divulga\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dela.<\/p>\n<p>Em 2011, ocorreram v\u00e1rias atividades em comemora\u00e7\u00e3o ao centen\u00e1rio de Sodr\u00e9 em universidades, centros culturais etc. No Rio de Janeiro, o Instituto Casa Grande, juntamente com a Escola Nacional Florestan Fernandes \u2013 nos marcos de comemora\u00e7\u00e3o dos 45 anos do Teatro Oi Casa Grande \u2013, realizou duas sess\u00f5es de debate sobre a vida e a obra de Nelson Werneck Sodr\u00e9, sendo que uma delas contou com a presen\u00e7a da filha e curadora de sua obra, Olga Sodr\u00e9, e a outra com intelectuais comunistas pr\u00f3ximos, como Marly Vianna, Carlos Nelson Coutinho e Jos\u00e9 Paulo Netto.<\/p>\n<p><strong>Marly Vianna ressaltou a influ\u00eancia do PCB no pensamento de Sodr\u00e9 e a preocupa\u00e7\u00e3o que ele nutria com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 compreens\u00e3o da hist\u00f3ria para a transforma\u00e7\u00e3o social.<\/strong> Segundo Carlos Nelson Coutinho, Sodr\u00e9 \u2013 assim como Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes \u2013 elabora uma imagem marxista do Brasil, ou seja, busca compreender a forma\u00e7\u00e3o social brasileira com uma vis\u00e3o global, extrai ra\u00edzes de nosso passado para contribuir na compreens\u00e3o do futuro em seus v\u00e1rios aspectos que a comp\u00f5em. Para Jos\u00e9 Paulo Netto, s\u00e3o ineg\u00e1veis as transforma\u00e7\u00f5es ocorridas no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20 e na primeira do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>O Brasil interpretado e analisado por Nelson Werneck Sodr\u00e9 certamente n\u00e3o \u00e9 o mesmo de hoje, entretanto, sem compreendermos o Brasil de meados do s\u00e9culo 20, dificilmente conseguiremos compreender nossa realidade hoje.<\/p>\n<p><em><strong>Miguel Yoshida \u00e9 mestrando em letras pela Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>GRIFO MEU (PK)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><em>FONTE:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/8686\">http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/8686<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Brasil de Fato\n\n\n\n\n\n\n\n\n\u00c9 de fundamental import\u00e2ncia um olhar detido sobre o legado te\u00f3rico e as posturas pol\u00edticas do historiador centen\u00e1rio\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2349\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2349","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-BT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2349"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2349\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}