{"id":2356,"date":"2012-02-03T01:16:43","date_gmt":"2012-02-03T01:16:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2356"},"modified":"2012-02-03T01:16:43","modified_gmt":"2012-02-03T01:16:43","slug":"comandante-maximo-das-farc-ep-responde-a-carta-do-historiador-medofilo-medina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2356","title":{"rendered":"Comandante m\u00e1ximo das FARC-EP responde \u00e0 carta do historiador Med\u00f3filo Medina"},"content":{"rendered":"\n<p><em>&#8220;N\u00e3o creio que valha a pena debater a sua aprecia\u00e7\u00e3o sobre o que est\u00e1 a acontecer na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 justa e acertada. Apenas poderia acrescentar-lhe uma refer\u00eancia. \u00c9 sobre a sua abordagem aos modelos de esquerda que se implementam no nosso continente. Um, o do Brasil, decididamente inclinado para a assist\u00eancia social, enquanto em tudo o mais se cinge \u00e0 cartilha ditada pelos poderes internacionais do capital, e o outro, o de Cuba e Venezuela, que aponta para a constru\u00e7\u00e3o de um modelo socialista de acordo com as suas realidades nacionais, mas completamente aut\u00f4nomo no que respeita a pol\u00edticas econ\u00f3micas. Como sabe, Lula recebeu inclusive o t\u00edtulo de personagem do ano em 2010, enquanto Castro e Ch\u00e1vez recebem dos c\u00edrculos econ\u00f4micos dominantes o tratamento de dem\u00f3nios.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&gt;Uma luta dur\u00edssima como a que as FARC-EP travam desde 1964 n\u00e3o podia subsistir sem um forte apoio popular e um programa que correspondesse aos anseios da popula\u00e7\u00e3o que lhes garante apoio, cobertura e a renova\u00e7\u00e3o de guerrilheiros e quadros.<\/p>\n<p>Nesta resposta de Tim\u00f3leon Jimenez, Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP, \u00e0 carta-aberta que lhes foi dirigida pelo professor e acad\u00e9mico colombiano Med\u00f3filo Medina, pode o leitor ver &#8211; sem a intermedia\u00e7\u00e3o das ag\u00eancias ao servi\u00e7o do imperialismo &#8211; o que \u00e9 e por que luta a heroica guerrilha colombiana.<\/p>\n<p>Caro Professor:<\/p>\n<p>Com os meus cumprimentos queria comunicar-lhe a vontade, v\u00e1rias vezes expressa, pelo camarada Alfonso Cano de responder \u00e0 sua carta aberta. \u00c9 \u00f3bvio que as circunst\u00e2ncias que o assediavam tornaram imposs\u00edvel a materializa\u00e7\u00e3o deste seu prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Se me permite, morto o Comandante em combate, tentarei despretensiosamente satisfazer parcialmente as suas inquieta\u00e7\u00f5es, salvo o facto de o senhor lhe ter escrito tendo em considera\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o pessoal e pol\u00edtica que tiveram num j\u00e1 long\u00ednquo passado. Por vezes assalta-me a ideia que o senhor quereria mais uma troca de ideias com o antigo camarada do que com as FARC.<\/p>\n<p>\u00c9 que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil nas actuais condi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds relacionar-se connosco. Existe um prisma medi\u00e1tico estabelecido que coloca imediatamente na berlinda quem ouse assumir uma vis\u00e3o diferente da apregoada pelo poder. Esta coisa do pensamento \u00fanico \u00e9 muito mais que uma palavra de ordem. Tem consequ\u00eancias letais, passa pelo ostracismo e o esquecimento, a estigmatiza\u00e7\u00e3o, o fim definitivo do emprego, a intimida\u00e7\u00e3o, a ru\u00edna, o c\u00e1rcere at\u00e9, inclusive, a morte an\u00f3nima.<\/p>\n<p>A sua valentia merece ser reconhecida. Como acad\u00e9mico de pensamento independente arrisca-se a passar da ef\u00e9mera gl\u00f3ria concedida pelo seu franco questionamento, \u00e0 irremedi\u00e1vel condena\u00e7\u00e3o por se ter prestado servir-nos de incauto instrumento. Tudo depender\u00e1 do que os predadores por of\u00edcio possam obter logo que se lancem famintos sobre as nossas considera\u00e7\u00f5es. E isso \u00e9 a \u00fanica coisa que lhes interessa \u2013 um novo flanco para tentarem sangrar-nos.<\/p>\n<p><strong>O porqu\u00ea da guerra<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro subt\u00edtulo da sua carta diz: n\u00f3s colombianos precisamos compreender o porqu\u00ea da guerra, o que nos confirma que o senhor n\u00e3o se encontra s\u00f3 e que um importante sector do pensamento social espera sem reservas o que possamos dizer. O movimento que se intitula Colombianas e Colombianos pela Paz parece t\u00ea-lo decepcionado um pouco, visto que, no seu ponto de vista, terminou absorvido pelas urg\u00eancias emanadas do interc\u00e2mbio humanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o seja conveniente provocar esse tipo de dist\u00e2ncias. Talvez o que ao longo do caminho a senadora Piedad C\u00f3rdoba e outras personalidades compreenderam, \u00e9 que \u00e9 mais frut\u00edfero para a paz na Col\u00f4mbia assumir tarefas pr\u00e1ticas concretas pela vida e a liberdade dos seus compatriotas que envolverem-se em sisudas trocas epistolares que provoquem um mar de especula\u00e7\u00f5es. S\u00e3o pontos de vista, n\u00e3o necessariamente contradit\u00f3rios, e que bem podiam caminhar lado a lado na mesma direc\u00e7\u00e3o. \u00c9 a quest\u00e3o de somar em vez de dividir.<\/p>\n<p>Mas o senhor explana argumentos que s\u00e3o respeit\u00e1veis. O debate aberto e p\u00fablico de opini\u00f5es \u00e0 volta da inevitabilidade da guerra e das possibilidades da paz \u00e9 urgente. Cremos que ele envolve uma discuss\u00e3o ampla sobre as realidades econ\u00f3micas, sociais, pol\u00edticas, culturais, e at\u00e9 ambientais do actual momento contempor\u00e2neo mundial, latino-americano e nacional. Nunca rece\u00e1mos esse debate, pelo contr\u00e1rio, o nosso levantamento em armas obedece ao facto de sempre nos terem sido fechadas as portas para nele participar.<\/p>\n<p>O senhor n\u00e3o o sabe, talvez porque o tipo de vida a que a sua voca\u00e7\u00e3o pela investiga\u00e7\u00e3o social e o ensino o obrigam ser muito diferente do nosso. Mas aquilo a que chama dificuldades pol\u00edticas e t\u00e9cnicas, ou os avatares da guerra que poderiam dificultar um interc\u00e2mbio fluido, significam na realidade que ao longo das vinte e quatro horas do dia somos sobrevoados para localizar o m\u00ednimo sinal el\u00e9ctrico, de r\u00e1dio, telefone ou internet para nos inundarem com bombas. Isto sem falar das enormes opera\u00e7\u00f5es terrestres que procuram exterminar-nos.<\/p>\n<p>Hoje em dia, \u00e9 uma verdadeira fa\u00e7anha conseguirmos comunicar com o resto do mundo. N\u00e3o costumamos falar disto, pois de imediato ficamos expostos \u00e0 furiosa matilha, sempre pronta a escarnecer de n\u00f3s e a pretender passar por v\u00edtimas inocentes. Mas talvez consigam alcan\u00e7ar notoriedade a ponto de os nossos advers\u00e1rios prestarem garantias efectivas para a nossa actividade pol\u00edtica. Valeria a pena, com vista a alcan\u00e7ar a paz, tentarem influenciar a consci\u00eancia daqueles sobre este tema. Mas n\u00e3o acreditamos que as vossas cartas nesse sentido tenham a mesma difus\u00e3o que as que nos s\u00e3o dirigidas.<\/p>\n<p>Muito provavelmente trat\u00e1-los-iam como ing\u00e9nuos \u00fateis. Precisamente, este conflito \u00e9 um debate armado em que uma das partes representada pelo Estado, recorre a todo o g\u00e9nero de recursos com o prop\u00f3sito de impedir a express\u00e3o do pensamento da outra. No meio sempre estiveram os que inclinados para as nossas posi\u00e7\u00f5es terminam como v\u00edtimas de persegui\u00e7\u00e3o (\u2026).<\/p>\n<p>Que bom seria, para a democracia e a paz, que a sua carta contribu\u00edsse para abrir uma brecha pela qual o cidad\u00e3o normal pudesse conhecer a argumenta\u00e7\u00e3o das FARC, e sopesar a nossa vis\u00e3o actual do pa\u00eds e a nossa proposta de futuro. A generalidade da sua exposi\u00e7\u00e3o parece apostar na ideia de que consegui-lo \u00e9 coisa simples, fundamentalmente ligada a uma quest\u00e3o de vontade pessoal. Assim se depreende da sua ila\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, de acordo com a qual foi justo termos surgido, mas em contrapartida hoje n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para persistir.<\/p>\n<p><strong>A democracia colombiana<\/strong><\/p>\n<p>Deve saber que no universo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o circulam dicion\u00e1rios para uso dos redactores e apresentadores. Neles se define de modo categ\u00f3rico a lista dos termos que podem ser usados e o sentido imperativo em que devem empregar-se. Imperialismo e oligarquia, por exemplo, s\u00e3o palavras em absoluto desuso que devem ser postas no adequado lugar das ridicularias, quando algum transviado porta-voz de extremistas as traga \u00e0 cola\u00e7\u00e3o. S\u00f3 existe um l\u00e9xico admitido, e com a linguagem s\u00f3 algumas realidades s\u00e3o permitidas.<\/p>\n<p>De acordo com estas regras, o sistema multipartid\u00e1rio e de elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas promovido a partir da Casa Branca \u00e9 o m\u00e1ximo ideal democr\u00e1tico alcan\u00e7ado pela humanidade. Em seu nome pode invadir-se e bombardear-se pa\u00edses e povos inteiros, desestabilizar governos n\u00e3o afectos, ou impor pela for\u00e7a autoridades transit\u00f3rias ou definitivas. Sempre com o s\u00e3o e louv\u00e1vel prop\u00f3sito de dar lugar \u00e0s economias de mercado, ao milion\u00e1rio investimento estrangeiro, \u00e0 exaust\u00e3o descarada dos recursos naturais, ao enriquecimento apressado de uma elite privilegiada.<\/p>\n<p>N\u00f3s vemos as coisas de forma diferente. Mais parecida com a do assassinado presidente Lincoln. Governo do povo, para o povo e pelo povo. Resta dizer que o regime colombiano se enquadra mais nas previs\u00f5es difundidas pela Washington de Bush e Obama. Humilha-se perante elas. N\u00f3s acreditamos que os interesses das classes privilegiadas n\u00e3o s\u00e3o coincidentes com os dos milh\u00f5es de destinat\u00e1rios das suas pol\u00edticas. Acreditamos que os de baixo t\u00eam a sua pr\u00f3pria vis\u00e3o das coisas e n\u00f3s identificamo-nos com ela. Promovemos pois um regime diferente. Um regime que parta de uma premissa fundamental, a independ\u00eancia e a soberania nacionais. Na Col\u00f4mbia deve governar um partido ou movimento que se preocupe antes de mais pela sorte dos seus habitantes, por elevar o n\u00edvel de vida dos mais desfavorecidos. Para que isso se torne realidade, talvez seja necess\u00e1rio entrar em choque com os interesses de diversos monop\u00f3lios econ\u00f3micos nacionais e estrangeiros. Mas as decis\u00f5es pol\u00edticas fundamentais, e todas as outras devem apontar para a satisfa\u00e7\u00e3o do interesse da maioria dos colombianos.<\/p>\n<p>Porque a pol\u00edtica como tal, neste pa\u00eds e na maioria das economias de mercado, perdeu completamente a sua ess\u00eancia. N\u00e3o se chega ao poder para cumprir um programa. Chega-se para executar as directrizes emanadas dos grandes poderes internacionais. As economias e os planos de desenvolvimento nacionais e locais est\u00e3o condenadas a cumprir o libreto do FMI, do Banco Mundial e da OMC, entre outras institui\u00e7\u00f5es. Cada pa\u00eds e prov\u00edncia t\u00eam o seu destino tra\u00e7ado numa cimeira pr\u00e9via. Nenhum governo pode sair do gui\u00e3o fixado.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m o pretender ser\u00e1 imediatamente etiquetado como antidemocr\u00e1tico e ficar\u00e1 exposto a perigosas san\u00e7\u00f5es. Definitivamente, esse n\u00e3o pode ser admitido como democracia. O exemplo mais \u00e0 m\u00e3o est\u00e1 na Col\u00f4mbia. Na mais recente campanha presidencial, os candidatos que quiseram ter a m\u00ednima possibilidade de vit\u00f3ria foram obrigados a declarar, cada um no seu estilo, que continuariam com a seguran\u00e7a democr\u00e1tica, a confian\u00e7a aos investidores e a coes\u00e3o social. Essa era a \u00fanica linha considerada democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Nenhuma outra tinha a menor esperan\u00e7a. Recorda-se, certamente, das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es regionais e locais, e o t\u00e3o badalado ex-guerrilheiro que acabou eleito para a alcaidaria de Bogot\u00e1, que teve que romper com o movimento de esquerda de que fazia parte, declarar despudoradamente a sua vontade de se ligar ao projecto de Unidade Nacional do Presidente e at\u00e9 identificar-se com o cad\u00e1ver pol\u00edtico de \u00c1lvaro Gomez. S\u00f3 com t\u00e3o desprestigiante exemplo de sujei\u00e7\u00e3o aos ditames do grande capital podia contar com a sua aquiesc\u00eancia e assim terminar eleito.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia de tudo isto, e acredito que o senhor n\u00e3o se recuse a reconhec\u00ea-lo, o exerc\u00edcio da actividade pol\u00edtica nos termos institucionais de hoje est\u00e1 totalmente despido de conte\u00fado ideol\u00f3gico. At\u00e9 a no\u00e7\u00e3o de ideologia foi proscrita. As campanhas eleitorais reduzem-se a estrat\u00e9gias de marketing, onde o que conta s\u00e3o os capitais investidos na orgia publicit\u00e1ria. Capitais que ter\u00e3o de render os seus lucros a partir das administra\u00e7\u00f5es eleitas. Aspira\u00e7\u00f5es personalistas ligadas aos prop\u00f3sitos mais baixos, e escondidos por discursos floreados que nada dizem.<\/p>\n<p>Perante esta realidade, os de baixo, o povo comum de que \u00e9 costume ser proibido falar n\u00e3o conta com a possibilidade legal de exprimir os seus interesses. Pretende-se arrast\u00e1-lo para o interior de partidos e grupos nepotistas e corruptos que s\u00f3 lhe trar\u00e3o enormes decep\u00e7\u00f5es. Por isso, para fazer valer os seus direitos, as pessoas n\u00e3o t\u00eam outra alternativa sen\u00e3o o apelo \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o das ruas das estradas, \u00e0s greves, aos motins para conseguirem ser ouvidas. \u00c9 nesta estreita faixa, refor\u00e7ada pela viol\u00eancia repressiva e criminal do Estado, que se explica a resist\u00eancia popular \u00e0 repress\u00e3o, e a exist\u00eancia e persist\u00eancia do levantamento armado na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo ir\u00e1 surgir de forma objectiva o conte\u00fado de uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Esta n\u00e3o pode compreender-se como a recoloca\u00e7\u00e3o da ordem existente. N\u00e3o se trata de guerrilheiros arrependidos e extremamente desacreditados entregarem as armas, submeterem-se ao esc\u00e1rnio medi\u00e1tico e jur\u00eddico, para depois, com uma espada presa por um fio pendente sobre a sua cabe\u00e7a, entrarem no mercado da pol\u00edtica partid\u00e1ria para fazerem coro com as mentiras oficiais. Do que se trata \u00e9 de reconstruir as regras da democracia, para que se debatam ideias e programas em igualdade de oportunidades.<\/p>\n<p>Sem correr o risco de ser assassinado ao chegar a casa. Ou de desaparecer e ser torturado por uma misteriosa m\u00e3o negra, que j\u00e1 se anuncia existir, como aquelas for\u00e7as obscuras que exterminaram a Uni\u00e3o Patri\u00f3tica debaixo do olhar impass\u00edvel da classe pol\u00edtica colombiana. \u00c9 justo abrir um debate p\u00fablico e livre sobre estes assuntos, que se possa falar destes temas sem ser arrolados pelos monop\u00f3lios informativos concertados. Porque numa solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tamb\u00e9m se trata de como p\u00f4r um trav\u00e3o \u00e0 intoler\u00e2ncia do unanimismo medi\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>Um cepticismo fundado na experi\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Professor, acredite-me quando lhe digo que admiro a sua coragem. \u00c9 imprescind\u00edvel em qualquer sociedade a ac\u00e7\u00e3o de pessoas que contraditam com eleva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estamos de acordo com tudo o que coloca, mas reconhecemos a sua honestidade e inspira-nos respeito. Ver\u00e1 que a nossa an\u00e1lise da sociedade colombiana n\u00e3o pode restringir-se ao exame das individualidades. Melhor que ningu\u00e9m, o senhor sabe que uma abordagem cient\u00edfica implica o reconhecimento de que os interesses das classes imersas no processo hist\u00f3rico t\u00eam maior relev\u00e2ncia que a actua\u00e7\u00e3o dos personagens.<\/p>\n<p>V\u00e1rios contraditores nossos, oriundos de diferentes espectros, criticam o que chamam a nossa cegueira pol\u00edtica ante os sinais positivos vindos de Juan Manuel Santos desde a sua chegada ao governo. Falam da sua reconcilia\u00e7\u00e3o com Ch\u00e1vez e Correa, da sua concerta\u00e7\u00e3o com as cortes [1], a incorpora\u00e7\u00e3o de Angelino [2], as piscadelas de olho \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, a sua disposi\u00e7\u00e3o para aceitar os direitos humanos, a sua lei das v\u00edtimas e de restitui\u00e7\u00e3o de terras, a sua vontade de paz. Empenham-se em convencer-nos que juntarmo-nos a Juan Santos refor\u00e7a a luta contra a extrema-direita representada por Uribe, e encarreira o pa\u00eds na senda das reformas democr\u00e1ticas. No m\u00ednimo, est\u00e3o confundidos.<\/p>\n<p>Juan Manuel Santos n\u00e3o se distanciou um mil\u00edmetro do interesse das grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais que patrocinou a confian\u00e7a investidora de Uribe. O que nos mostram as suas locomotoras \u00e9 a extrema radicaliza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas neoliberais, a acelera\u00e7\u00e3o descontrolada da d\u00edvida externa, a mais vergonhosa entrega das nossas riquezas naturais, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental em benef\u00edcio dos monop\u00f3lios, a exaust\u00e3o da terra pela agro-ind\u00fastria exportadora em preju\u00edzo da economia camponesa. As dist\u00e2ncias pol\u00edticas que separam \u00c1lvaro Uribe de Juan Manuel Santos n\u00e3o s\u00e3o muito diferentes das que separam Bush de Obama ou Mariano Rajoy de Zapatero.<\/p>\n<p>Tudo isso a par do aprofundamento da guerra, dos bombardeamentos e da multiplica\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es militares nas zonas agr\u00e1rias, das pris\u00f5es massivas silenciadas pela imprensa em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds, do assass\u00ednio de dirigentes sindicais e populares, particularmente dos que reclamam terras, da lei de seguran\u00e7a contra o protesto c\u00edvico, dos programas de multiplica\u00e7\u00e3o prisional, etc. O seu projecto de reforma da justi\u00e7a entrou em choque frontal com as cortes e, em troca, ressuscitou a justi\u00e7a penal militar para refor\u00e7ar ainda mais a impunidade.<\/p>\n<p>E j\u00e1 sabemos como s\u00f3 atrav\u00e9s de uma gigantesca mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil se conseguiu travar o seu projecto de privatiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Talvez o que esteja a influenciar diferentes sensibilidades a sair em sua defesa sejam a crescente burocracia e os acordos de assessoria e assist\u00eancia, isto \u00e9, os contratos proporcionados pela regulamenta\u00e7\u00e3o da lei das v\u00edtimas e a restitui\u00e7\u00e3o de terras, para o que se ostentam milion\u00e1rios or\u00e7amentos que, certamente, inspiram os bons sentimentos em muitos sectores. Por dinheiro at\u00e9 os c\u00e3es dan\u00e7am [\u201cpor la plata baila el perro\u201d] diz o velho ditado colombiano, do qual nos sentimos sincera e radicalmente afastados.<\/p>\n<p>O senhor insiste em que expressemos uma opini\u00e3o alargada sobre aquela lei. Para ser sincero, as expectativas que temos s\u00e3o muito parecidas \u00e0s que inspirou a aprova\u00e7\u00e3o da lei justi\u00e7a e paz, com a qual se pretendeu embrulhar o problema paramilitar e a repara\u00e7\u00e3o em primeira inst\u00e2ncia \u00e0s v\u00edtimas. Ardilosas manobras para neutralizar a opini\u00e3o internacional e cooptar opositores. Os desenvolvimentos posteriores, amplamente conhecidos, s\u00f3 por si, falam das suas falsas bondades. Os mesmos personagens que assumiram a Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o voltam a encabe\u00e7ar esta nova aventura, o que \u00e9 bastante esclarecedor.<\/p>\n<p>Sectores s\u00e9rios da esquerda, j\u00e1 sublinharam repetidamente em diversas publica\u00e7\u00f5es os seus reparos, aos quais indubitavelmente nos juntamos. Seria muito longo explan\u00e1-los aqui. Mas n\u00e3o basta advertir que s\u00e3o os interesses das multinacionais e dos grandes capitais locais os que exigem uma normaliza\u00e7\u00e3o ou legaliza\u00e7\u00e3o das terras em que avan\u00e7am, ou pensam avan\u00e7ar, os seus projectos de investimento agro-industrial. A urg\u00eancia de regras claras obriga a preferir o direito de terceiros ocupantes de boa f\u00e9, com o que os modestos despojados ter\u00e3o de acertar as suas quotas de participa\u00e7\u00e3o, perdendo para sempre a posse da sua terra e o seu projecto de vida.<\/p>\n<p>O direito da v\u00edtima a regressar ao seu lugar de origem ou a reinstalar-se noutra \u00e9 consagrado de forma estranhamente sujeita ao quadro da pol\u00edtica de seguran\u00e7a nacional, o que devia ser preocupante. Chama a aten\u00e7\u00e3o que a exclus\u00e3o do direito \u00e0s v\u00edtimas dos despojos anteriores a 1991, deixe fora do plano os camponeses desterrados em Magdalena Medio durante a investida paramilitar dos anos oitenta. Curiosamente, essa regi\u00e3o compreende as melhores terras do pa\u00eds para a cultura de palma. Como diria \u00abM. La Palisse\u00bb uma coisa s\u00e3o os termos judiciais previstos na lei, e outra bem diferente os reais que se gastam nos longos contenciosos perante os ju\u00edzes. Em rela\u00e7\u00e3o aos sectores extremistas do latif\u00fandio, o paramilitarismo e o pr\u00f3prio empresariado que se op\u00f5em \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de tal lei, \u00e9 bom ter em conta que se n\u00e3o representam uma maioria significativa dos interessados envolvidos na normaliza\u00e7\u00e3o do direito de propriedade, acabar\u00e3o isolados. N\u00e3o poder\u00e3o impedir a realiza\u00e7\u00e3o das urgentes exig\u00eancias do grande capital. Ser\u00e1 este o encarregado de delimitar com o tempo o verdadeiro alcance da norma, e n\u00e3o ser\u00e3o os direitos dos deslocados os que acabar\u00e3o por se impor. A menos que aconte\u00e7a uma reviravolta radical neste pa\u00eds, o que n\u00e3o vai acontecer, h\u00e1 quem julgue que Juan Manuel Santos \u00e9 um santo homem.<\/p>\n<p>Se por desgra\u00e7a forem esses sectores radicais os que t\u00eam mais peso, o nosso pa\u00eds vai ver-se envolvido numa nova e terr\u00edvel onda criminosa de assaltos, assass\u00ednios e desterros, o que viria a demonstrar que Juan Santos n\u00e3o foi mais do que uma vaga ilus\u00e3o de alguns, no sentido de representar sectores sociais diferentes das m\u00e1fias e do lumpen que defendeu o seu antecessor. \u00c9 pois muito suspeita a proclamada inten\u00e7\u00e3o governamental de aprofundar a guerra total contra n\u00f3s em vez de contra aqueles. Pode sair-se mal quem proclamar o seu apoio a este governo. Seria melhor, acreditamos mesmo que \u00e9 de uma urg\u00eancia imperiosa, denunciar as suas demag\u00f3gicas promessas, sobretudo a sua actua\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao prometido.<\/p>\n<p><strong>Um pouco de hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>A extens\u00e3o dos temas abordados na sua carta briga com as circunst\u00e2ncias e o tempo que nos permite o confronto. O rigor acad\u00e9mico exigiria, na realidade, que os argumentos em que o senhor baseia certas afirma\u00e7\u00f5es acerca do passado hist\u00f3rico fossem expostos com mais l\u00f3gica e amplitude, a fim de pudessem ser sopesados na sua justa dimens\u00e3o. De alguma maneira a natureza do seu texto impede-o, o que pode levar-nos a um in\u00fatil confronto de opini\u00f5es inadequadamente fundamentadas. No entanto, permito-me assinalar alguns factos que, creio, podiam enriquecer ainda mais as suas aprecia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sem diminuir a import\u00e2ncia que merece o estudo da paragem c\u00edvica nacional de 1977, parece-me que a refer\u00eancia b\u00e1sica para a compreens\u00e3o dos desenvolvimentos posteriores da hist\u00f3ria colombiana n\u00e3o deixa de ser o 9 de Abril de 1948 [3]. Da\u00ed surgiu a certeza de que qualquer alternativa pol\u00edtica democr\u00e1tica, progressista, anti-imperialista e popular estava condenada \u00e0 morte pelos sectores econ\u00f3micos e pol\u00edticos dominantes no nosso pa\u00eds. A convic\u00e7\u00e3o de que um levantamento geral das multid\u00f5es insatisfeitas estava condenada ao fracasso se n\u00e3o contasse com uma direc\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, madura, experimentada e consequente. \u00c9 a legitima\u00e7\u00e3o do direito do povo a levantar-se em armas quando a viol\u00eancia oficial e privada se assanha contra ele.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m a inesquec\u00edvel li\u00e7\u00e3o de que, por mais contradi\u00e7\u00f5es que possam existir no seio das classes dominantes do pa\u00eds estas acabam sempre por unir-se numa frente \u00fanica e brutal, quando virem que o povo cresceu corajosamente a reclamar os seus direitos. A pusil\u00e2nime e of\u00eddia atitude da direc\u00e7\u00e3o liberal reunida com Ospina P\u00e9rez no pal\u00e1cio, ocupar\u00e1 sempre a mem\u00f3ria popular quando se trate de demonstrar a trai\u00e7\u00e3o contra uma na\u00e7\u00e3o levantada. Mas h\u00e1 sobretudo um aspecto da hist\u00f3ria nacional que o senhor apenas refere para de alguma maneira o voltar contra n\u00f3s: a perversa interven\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Quase como um gigantesco farol que com o seu facho de luz rompe as trevas para conduzir a bom porto uma embarca\u00e7\u00e3o no meio da noite escura, a correcta interpreta\u00e7\u00e3o do papel desempenhado pela IX Confer\u00eancia Pan-americana no assass\u00ednio de Gait\u00e1n e o posterior apontar do Partido Comunista como autor do facto, evidenciam o tr\u00e1gico destino do nosso pa\u00eds sob a Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional adoptada depois da segunda guerra mundial pelo Estado norte-americano. A teoria do inimigo interno que se encarregariam de inculcar em todas for\u00e7as armadas do continente deixaria uma marca infame. S\u00e3o demasiadas coisas juntas para menosprezar a transcend\u00eancia do acontecimento. \u00c9 claro que com ele se prefigura a sorte da actual Col\u00f4mbia. At\u00e9 nalguns detalhes curiosos, como o de o primeiro designado para a Presid\u00eancia tamb\u00e9m ter o apelido Santos. O mesmo sangue azul dos que passam e voltam a passar a dirigir o pa\u00eds. Havia tamb\u00e9m um Lleras, do mesmo pedigree do actual ministro do interior. E assim, na passada, valeria a pena recordar que o af\u00e3 do fan\u00e1tico falangista Laureano por uma sa\u00edda militar para a crise terminou por servir a Ospina para convencer o liberalismo da conveni\u00eancia dum arranjo amig\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um novo epis\u00f3dio da rivalidade entre essas duas fam\u00edlias conservadoras teve lugar durante a paragem de 14 de Setembro. O chamado ospino-pastranismo ressentido contra a tenaz Alvaro-Lopista que o exclu\u00eda da burocracia, optou por juntar-se \u00e0 convocat\u00f3ria da paragem, incitando a UTC [4] a sair \u00e0 rua para se juntarem aos 3 milh\u00f5es de arrependidos que tinham votado em 74 por Alfonso L\u00f3pez. Era a sua pequena desforra pelo 9 de Abril. Quando o protesto popular se tornou incontrol\u00e1vel, os \u201cgodos\u201d [5] ficaram para tr\u00e1s, interessados apenas como estavam em lugares e contratos. S\u00e3o antecedentes que se esquecem na hora avaliar a sinceridade da vontade de paz de Andr\u00e9s Pastra\u00f1a, quando decidiu brincar ao di\u00e1logo em Cagu\u00e1n.<\/p>\n<p>E h\u00e1 essa da interven\u00e7\u00e3o norte-americana se ter convertido numa atrocidade mundial nos anos sessenta do s\u00e9culo passado. O pavor ao imagin\u00e1rio poderio militar sovi\u00e9tico e a uma outra Cuba, no meio do renascer independentista de \u00c1frica e da \u00c1sia sofisticou a Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional at\u00e9 se transformar no modelo de contra-insurrei\u00e7\u00e3o aprovado por John F. Kennedy. Dela vieram a escalada da agress\u00e3o ao Vietname, a matan\u00e7a de meio milh\u00e3o de indon\u00e9sios em nome do anti-comunismo, o golpe militar contra Juan Bosh e a interven\u00e7\u00e3o militar na Rep\u00fablica Dominicana, o golpe no Brasil contra o governo de Jo\u00e3o Goulart. E o Plano LASO, que envolvia, primeiro, a regi\u00e3o agr\u00e1ria de Marquet\u00e1lia, e depois Riochito e outras zonas do nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o pode comparar-se a natureza dos conflitos agr\u00e1rios em Sumapaz ou em Tequendama, em defesa da vida e da propriedade da terra, contra a voracidade latifundista, com a campanha terrorista anticomunista desencadeada pelo imperialismo em toda a orbe, e aproveitada pela oligarquia liberal conservadora para eliminar a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 sua Frente Nacional. Os interesses em jogo eram totalmente diferentes. Quando os camponeses marquetalianos se dirigiram ao pa\u00eds e ao mundo pedindo solidariedade para evitar serem agredidos como se tramava, ofereceram em troca um di\u00e1logo, logo rejeitado, que se trocou por bombas e metralha. Da\u00ed brotaria o hist\u00f3rico Programa Agr\u00e1rio que definiu o car\u00e1cter da luta.<\/p>\n<p>Tratava-se de uma luta de \u00edndole pol\u00edtica pelo poder para o povo. Nem nesse Programa Agr\u00e1rio, nem, at\u00e9 hoje, em nenhum documento das FARC, se colocou que como organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico militar a nossa meta era a tomada do poder depois de derrotar o Ex\u00e9rcito colombiano numa guerra de posi\u00e7\u00f5es, como repetem, uma e outra vez, todos os que insistem em darem-nos esse objectivo. Desde o nascimento das FARC concebemos o acesso ao poder como uma quest\u00e3o de massas em agita\u00e7\u00e3o e movimento. Tal como com a t\u00e1ctica da combina\u00e7\u00e3o das formas de luta definimos que descart\u00e1vamos nenhuma das vias que as classes dominantes nos permitam ou obriguem a empregar.<\/p>\n<p>Diga-se que essa \u00e9 outra discuss\u00e3o que sai do tema de que nos ocupamos. Em contrapartida, deixe-me dizer-lhe, Professor, que quando se estudam fen\u00f3menos complexos h\u00e1 que ter os olhos bem abertos para n\u00e3o incorrer no erro de ver apenas um aspecto. Se a desmobiliza\u00e7\u00e3o das guerrilhas liberais e comunistas que sucedeu no pa\u00eds em 1953 n\u00e3o levou \u00e0 paz definitiva, a quem menos pode imputar-se a responsabilidade \u00e9 \u00e0 guerrilha comunista. Os movimentos de auto-defesa do sul de Tolima mudaram-se para oriente desse departamento, para Villarica e seus arredores, iludidos com as promessas oficiais e dispostos a converterem-se em pac\u00edfico movimento agr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Da\u00ed os tiraram \u00e0 for\u00e7a os planos militares da ditadura de Rojas Pinilla, num dos dramas humanos mais terr\u00edveis e comovedores da hist\u00f3ria colombiana. A guerra de Villarica aparece em cr\u00f3nicas da \u00e9poca como um cruel testemunho do tratamento que os donos do poder conferem aos que ingenuamente confiam nas suas palavras. Dessa verdadeira di\u00e1spora terminaram surgindo as col\u00f3nias agr\u00e1rias de Atiari, Guayabero e Duda, perseguidas igualmente com raiva nos anos seguintes. O pequeno foco dirigido por Jacobo Pr\u00edas Alape e Manuel Marulanda V\u00e9lez, que optou por entrar nas profundezas das montanhas e criar a regi\u00e3o de Marquetalia, seria atacado uma d\u00e9cada depois e acusado de rep\u00fablica independente.<\/p>\n<p>O senhor reconhece n\u00e3o ser um especialista das FARC. Ao que parece h\u00e1 especialidades acad\u00e9micas sobre n\u00f3s. Que n\u00f3s saibamos, nunca nenhum c\u00e1 veio para nos entrevistar. \u00c9 o m\u00ednimo que poderia esperar-se dos que escrevem livros ou fazem confer\u00eancias sobre a nossa luta. Coisas da ci\u00eancia social p\u00f3s-modernista\u2026 A desconfian\u00e7a no discurso do poder n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o gratuita. J\u00e1 se falava disso em Villarica. O que tamb\u00e9m aconteceu com Guadalupe Salcedo e outros chefes guerrilheiros desmobilizados. O senhor acredita mesmo que tem alguma credibilidade dizer que o genoc\u00eddio contra a Uni\u00e3o Patri\u00f3tica teria sido evitado pela reac\u00e7\u00e3o \u00e9tica de consider\u00e1veis for\u00e7as de opini\u00e3o, surgidas como reac\u00e7\u00e3o a um nosso abandono das armas?<\/p>\n<p>O exterm\u00ednio da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica (UP) est\u00e1 marcado pela estrat\u00e9gia do denominado conflito de baixa intensidade, uma vers\u00e3o mais avan\u00e7ada da Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional. A UP era um desses partidos antidemocr\u00e1ticos, que segundo o documento de Santaf\u00e9 devia ser neutralizado por promover o estatismo. Se puxar pela mem\u00f3ria, talvez se recorde que n\u00e3o s\u00f3 se perseguiu implacavelmente a Uni\u00e3o Patri\u00f3tica, como com ela pereceram tamb\u00e9m os mais destacados defensores dos direitos humanos, os dirigentes sindicais, camponeses, e populares mais comprometidos na luta contra as rec\u00e9m-aparecidas pol\u00edticas neoliberais. Mais tarde, n\u00e3o s\u00f3 se assassinaram os l\u00edderes, como tamb\u00e9m foi empreendida uma diab\u00f3lica opera\u00e7\u00e3o de exterm\u00ednio generalizado, deslocamentos e terror.<\/p>\n<p>Diz bem, quando afirma que tudo isso \u00e9 o produto de uma impudica alian\u00e7a entre sectores das For\u00e7as Armadas, m\u00e1fias do narcotr\u00e1fico, caciques pol\u00edticos e paramilitares. Mas repare que tudo aquilo que se constituiu numa verdadeira pol\u00edtica de Estado, sob os ausp\u00edcios e consentimento do Pent\u00e1gono. Exclua os mortos da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica ca\u00eddos, na sua opini\u00e3o, por obra da nossa ut\u00f3pica e catastr\u00f3fica decis\u00e3o de nos sentarmos em duas cadeiras. Quantos somam? 5.000? S\u00e3o na realidade uma percentagem m\u00ednima do imenso holocausto a que as classes dominantes submeteram o nosso pa\u00eds. Tiveram algum papel de dique de conten\u00e7\u00e3o as for\u00e7as pol\u00edticas e corporativas que teriam actuado no caso de nos termos desmobilizado?<\/p>\n<p>Professor, o que o nosso pa\u00eds sofreu durante d\u00e9cadas foi a sinistra pr\u00e1tica fascista de seguran\u00e7a nacional mascarada de democracia. Isso n\u00e3o muda por o Presidente ter sido Valencia, Belis\u00e1rio (lembra-se do Pal\u00e1cio da Justi\u00e7a?) Gaviria, Samper, Uribe ou Santos. Enquanto n\u00f3s, colombianos, n\u00e3o tomarmos em conjunto e realmente a decis\u00e3o de apelar a todas as nossas reservas pol\u00edticas, sociais, culturais e \u00e9ticas, a fim de desterrar dos c\u00e2nones constitucionais e legais essa perversa concep\u00e7\u00e3o de Estado, a que encarnam em primeiro lugar as for\u00e7as militares e policiais, o fim do conflito e a paz permanecer\u00e3o distantes. Nesse contexto, a vontade de paz adquire aspectos complexos que superam de longe a decis\u00e3o unilateral de entregar as armas.<\/p>\n<p><strong>Algumas precis\u00f5es necess\u00e1rias<\/strong><\/p>\n<p>Tal como sucede com o desconhecimento da situa\u00e7\u00e3o que suporta nos c\u00e1rceres do pa\u00eds um consider\u00e1vel n\u00famero de colombianos presos por pertencerem \u00e0s FARC, ao lado dos quais um n\u00famero notoriamente maior de compatriotas paga, atr\u00e1s das grades, a sua determina\u00e7\u00e3o para a luta social e a pol\u00edtica, d\u00e1 a impress\u00e3o que para muitas pessoas deste pa\u00eds os guerrilheiros mortos ou feridos em combate n\u00e3o existiram, ou pelo menos que se tratava de seres humanos inferiores, cuja vida desprez\u00edvel pode ser interrompida sem que isso importe a quem quer que seja.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade, Professor. Dentro dos milhares e milhares de v\u00edtimas do fascismo no nosso pa\u00eds, h\u00e1 que incluir tamb\u00e9m as valorosas mulheres e homens que deram a sua vida ou a sua integridade f\u00edsica combatendo-o. E um racioc\u00ednio elementar obriga a faz\u00ea-lo. Trata-se de colombianas e colombianos que compreenderam a necessidade de lutar por um pa\u00eds melhor, e assumiram essa tarefa conscientes dos enormes riscos que enfrentavam. O levantamento armado \u00e9 reconhecido como a forma mais elevada da luta pol\u00edtica, isto \u00e9 faz parte de um aluvi\u00e3o de formas de actividade que perseguem o objectivo do poder para o povo. N\u00e3o lhe \u00e9 alheio ao povo, mais, n\u00e3o poderia existir se n\u00e3o contasse com uma enorme base social de apoio.<\/p>\n<p>Pode parecer engenhoso e at\u00e9 despertar aplausos, mas n\u00e3o \u00e9 convincente tra\u00e7ar uma linha divis\u00f3ria que separe a guerrilha da luta popular, nem reclamar-lhe de forma independente quem pode contar como seus os \u00eaxitos conseguidos a favor das massas oprimidas. As lutas de todos os de baixo formam uma frente e as suas conquistas ou refluxos beneficiam ou atrasam a aproxima\u00e7\u00e3o ao objectivo geral de reden\u00e7\u00e3o social. Desde logo, ver as coisas assim corresponde \u00e0 \u00f3ptica de classe dos explorados. Outras vis\u00f5es, muitas vezes animadas pela ideia de uma neutralidade inexistente, na realidade fazem parte e servem os interesses dos de cima, o sorriso enganador dos sectores dominantes.<\/p>\n<p>A luta popular no seu conjunto conseguiu muitas coisas e s\u00f3 perguntar o qu\u00ea, no m\u00ednimo, destila algum veneno, seja ele de natureza nihilista ou francamente burgu\u00eas. A luta armada de vinte anos que precedeu os Acordos de Uribe, provocou no pa\u00eds efeitos novos, verdadeiramente modernos que implicaram importantes avan\u00e7os. Desde logo porque se uniram aos clamores e reclama\u00e7\u00f5es de muitos outros sectores, como disse atr\u00e1s. N\u00e3o s\u00e3o metas acabadas mas uma esp\u00e9cie de camadas sucessivas para o posterior relevo que levar\u00e1 as coisas para a frente.<\/p>\n<p>A quem na Col\u00f4mbia parece hoje toler\u00e1vel que o Presidente da Rep\u00fablica designe, um a um, os governadores e depois, um a um, os alcaides? N\u00e3o foram por acaso os tiros e as sonoras den\u00fancias das guerrilhas colombianas quem p\u00f4s no centro do debate nacional o tema dos direitos humanos? Depois construiu-se toda uma lenda \u00e0 volta da s\u00e9tima papeleta [6] que supostamente serviu de origem \u00e0 convocat\u00f3ria de uma Assembleia Constituinte. N\u00e3o foi o clamor mil vezes repetido ao pa\u00eds por Jacobo Arenas, sobre a necessidade de convocar uma Assembleia Constituinte que substitu\u00edsse a velha Constitui\u00e7\u00e3o de 86?<\/p>\n<p>Aos militares colombianos deve custar-lhes como uma bofetada, principalmente agora que se preparam para que o Congresso santista lhes ressuscite o foro militar, o que as FARC denunciam tamb\u00e9m com tiros, que desempenharam um papel determinante na concep\u00e7\u00e3o restritiva, que terminou por ser aceite no nosso pa\u00eds, sobre essa jurisdi\u00e7\u00e3o especial patrocinadora de escandalosa impunidade. Plinio Apuleyo Mondoza ou Jos\u00e9 Obdulio Gaviria vivem amargurados, censurando os restantes colombianos por permitirem que a guerrilha se cole em tudo. N\u00e3o \u00e9 guerrilha, senhores trogloditas, s\u00e3o os avan\u00e7os democr\u00e1ticos da luta popular.<\/p>\n<p>E os estado de s\u00edtio? E o acantonamento [arrinconamiento] do paramilitarismo fascista? Ser\u00e1 realmente verdade que as armas nas m\u00e3os do povo n\u00e3o tiveram um papel consider\u00e1vel nisso? A lista, que poder\u00edamos ir acrescentando, \u00e9 muito longa, professor. Inclusive, poderia tornar-se um importante tema de estudos de \u00e2mbito universit\u00e1rio. Novamente o tempo e o espa\u00e7o me impendem de me alargar. Al\u00e9m de que ao faz\u00ea-lo, de boa f\u00e9 e sem inten\u00e7\u00e3o de prejudicar ningu\u00e9m, poderia aumentar o desgosto de personagens e sectores extremamente perigosos para a sa\u00fade dos her\u00f3icos compatriotas que, em diferentes momentos e lugares, levantaram t\u00e3o dignas bandeiras.<\/p>\n<p>At\u00e9 uma determinada etapa da luta armada, anterior \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o da t\u00e1ctica estatal de nos combater com a f\u00f3rmula de tirar a \u00e1gua ao peixe, a nossa presen\u00e7a e combatividade em muitas regi\u00f5es do pa\u00eds fez com que nas altas esferas do Estado se tivessem inteirado da exist\u00eancia dessas pessoas e das extremas adversidades que passavam. No af\u00e3 de as isolar de n\u00f3s, e quase sem querer, chegaram a muitos povoados, com vias pelas quais s\u00f3 podia circular um carro de linhas, escolas para as crian\u00e7as poderem educar-se, postos de sa\u00fade onde pelo menos uma profissional lhes prestava uma assist\u00eancia elementar.<\/p>\n<p>At\u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o actual, que as for\u00e7as armadas apregoam praticar em catorze zonas do pa\u00eds, implicaram a aten\u00e7\u00e3o de algumas das necessidades angustiantes das pessoas. Mal far\u00edamos n\u00f3s se sobrestim\u00e1ssemos este aspecto em rela\u00e7\u00e3o aos deslocamentos, aos encarceramentos massivos, \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es, aos crimes e ao terror generalizado que imp\u00f5e a ocupa\u00e7\u00e3o militar de extensas \u00e1reas, tal como o repovoamento delas com pessoas da sua confian\u00e7a. A assist\u00eancia social atrav\u00e9s de programas como o Fam\u00edlias em Ac\u00e7\u00e3o, que faz parte do que fal\u00e1mos antes, n\u00e3o deixa de ter o sabor amargo de que jamais teria surgido se a guerrilha n\u00e3o tivesse antes posto ali o p\u00e9. Isto parece indigno, mas n\u00e3o deixa de ser \u00fatil para dimensionar a mesquinhez dos planos oficiais.<\/p>\n<p>Na sua recente viagem a Londres [N.do T.: 21 e 22 de Novembro de 2011] Juan Santos tornou-se uma presa de ca\u00e7a dos media por se ter atrevido a falar da despenaliza\u00e7\u00e3o das drogas. No Plen\u00e1rio do Estado-Maior Central de 2000, em pleno processo de Cagu\u00e1n, as FARC colocaram oficialmente ao povo norte-americano, ao seu Congresso e ao governo dos Estados Unidos a quest\u00e3o da legaliza\u00e7\u00e3o das drogas. E os camponeses deste pa\u00eds h\u00e1 d\u00e9cadas que falam do assunto em diferentes espa\u00e7os. E se tal eventualidade se tornar um dia realidade, a historiografia oficial encarregar-se-ia de incensar o actual Presidente como o art\u00edfice de t\u00e3o transcendental medida. N\u00e3o seria a primeira vez que as classes dominantes colombianas se apropriam de velhos anseios populares para os apresentar como seus, e negar na passada o papel dos despojados na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>A sincera vontade de paz<\/strong><\/p>\n<p>Falando de Cagu\u00e1n, convido-o Professor a realizar um despreconceituoso estudo hist\u00f3rico dos Acordos que possibilitaram a zona de evacua\u00e7\u00e3o e os di\u00e1logos ali realizados. \u00c0 luz das regras acordadas com Pastrana, fazendo caso omisso das mal-intencionadas campanhas da imprensa, n\u00e3o pode encontrar um s\u00f3 facto da nossa parte que signifique uma viola\u00e7\u00e3o das mesmas. Foi o Estado quem fez valer a sua tese de dialogar no meio do conflito, o que queria dizer que fora da zona de evacua\u00e7\u00e3o a guerra continuaria com toda a sua crueldade. A pr\u00f3pria Defesa do Povo [7] se encarregou de declarar que as supostas pistas, que Pastrana mostrou em fotografias para justificar o fim da zona de evacua\u00e7\u00e3o, eram na verdade antigas estradas.<\/p>\n<p>Mas a investida medi\u00e1tica contra n\u00f3s adquiriu tal dimens\u00e3o que Osama Bin Laden ou Hussein seriam figuras angelicais se comparadas connosco. O que nenhum analista objectivo se deteve a analisar foi a atitude do governo, que na Mesa falava uma linguagem e fora dela dizia o contr\u00e1rio. Um dos Acordos fundamentais chamou-se Agenda Comum para a Mudan\u00e7a para uma Nova Col\u00f4mbia, a rela\u00e7\u00e3o precisa dos temas que ocupariam as discuss\u00f5es na Mesa de Conversa\u00e7\u00f5es: o conte\u00fado dos acordos de paz, a doutrina militar, as reformas democr\u00e1ticas no sistema pol\u00edtico, o modelo de desenvolvimento econ\u00f3mico, o regime tribut\u00e1rio, o emprego e os cuidados sociais, a terra, a pol\u00edtica de explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, as rela\u00e7\u00f5es internacionais e o tratamento social do problema do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas anos de conversa\u00e7\u00f5es, o governo teve o descaramento de nem sequer um desses pontos ser abordado nos di\u00e1logos. Na meia centena de audi\u00eancias p\u00fablicas em que participaram mais de 30.000 colombianos com as suas propostas sobre os temas espec\u00edficos das convocat\u00f3rias, e num sem n\u00famero de formais Mesas Redondas com sectores da produ\u00e7\u00e3o e da academia, foram debatidos temas de transcend\u00eancia para a vida e o futuro do pa\u00eds. Era de supor que a Mesa de Di\u00e1logos se encarregasse do exame do que se concluiu. Nisso consistia o processo de concilia\u00e7\u00e3o com as regras previamente acordadas. Nem uma s\u00f3 vez, rigorosamente nem uma, o governo possibilitou a inscri\u00e7\u00e3o na ordem do dia das reuni\u00f5es desse assunto.<\/p>\n<p>Contrariamente aos compromissos assumidos na Mesa, publicamente declarava constantemente que temas como o Plano Col\u00f4mbia, os acordos com o FMI, o Plano Nacional de Desenvolvimento, as reformas constitucionais do tipo regime de transfer\u00eancias, ou legais como o novo c\u00f3digo mineiro n\u00e3o faziam parte de nenhum debate com a guerrilha. Ou seja, n\u00e3o cumpria os compromissos assinados com Manuel Marulanda V\u00e9lez, amplamente difundidos pela imprensa nacional. E no entanto ningu\u00e9m falava disso. Era como se n\u00e3o estivesse a acontecer. O que se dizia todos os dias ao pa\u00eds era que as FARC n\u00e3o tinham a menor vontade de paz, que estavam constantemente a violar os acordos.<\/p>\n<p>Assim ficava evidente a verdadeira inten\u00e7\u00e3o oficial, a \u00fanica coisa que nos reservava era a rendi\u00e7\u00e3o incondicional. O governo estava consciente que mesmo que o n\u00e3o conseguisse, pelo menos ganhava o tempo que precisava para reorganizar as for\u00e7as armadas para a guerra de exterm\u00ednio. Nenhum estudioso do tema pode deixar passar em claro as muito significativas express\u00f5es do ent\u00e3o Comiss\u00e1rio da Paz, Victor G. Ricardo, ao jornalista Hollman Morris, no seu documento sobre o encontro O DI\u00c1LOGO \u00c9 O CAMINHO feito em Barranca, em Agosto passado: Se as FARC nesse momento tivessem sabido que o Estado n\u00e3o tinha com que comprar um cartucho, n\u00e3o se teriam sentado para dialogar em Cagu\u00e1n.<\/p>\n<p>\u00c9 o reconhecimento de que se enganava n\u00e3o s\u00f3 a n\u00f3s mas a comunidade nacional e internacional que acompanhava o processo. A grande imprensa desempenhava com profus\u00e3o de detalhes o seu nefasto papel nessa conspira\u00e7\u00e3o contra a Col\u00f4mbia. Do que se tratava era, na realidade, de aniquilar, de uma vez por todas, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas neoliberais impostas pela banca transnacional e aceites de bom grado pela oligarquia governante. Basta ver os que integravam a equipa governamental de Pastrana e os que a integram hoje. \u00c9 o mesmo grupo de tecnocratas formados e devotos da Escola de Chicago, cujas realiza\u00e7\u00f5es fazem hoje correr a \u00e1gua em todo o mundo. \u00c9 por isso que n\u00e3o se encontram diferen\u00e7as entre o que se nos exigia por baixo da mesa uma d\u00e9cada atr\u00e1s e o que hoje se nos intima a fazer com a famosa chave oculta de Juan Santos. H\u00e1 dez anos, al\u00e9m disso, falava-se com admira\u00e7\u00e3o do claro dom\u00ednio dos falc\u00f5es no governo norte-americano. A reconhecida alian\u00e7a entre o poderio militar desse pa\u00eds e as grandes corpora\u00e7\u00f5es industriais e financeiras, que s\u00e3o normalmente chamadas de complexo militar industrial do Pent\u00e1gono, abriam as suas fauces belicosas ansiosas de mais neg\u00f3cios por conta da guerra em qualquer rinc\u00e3o da terra onde tal for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Vale a pena perguntar como se contabilizam aqui as centenas, os milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares de ajuda norte-americana \u00e0 guerra. Far\u00e3o parte do super\u00e1vit na balan\u00e7a de pagamentos? Influir\u00e3o na cifra de crescimento do investimento estrangeiro? Reflectem-se no aumento do PIB? O que estudiosos muito s\u00e9rios defendem \u00e9 que t\u00e3o grande avalanche de recursos provenientes dos impostos pagos pelos cidad\u00e3os dos Estados Unidos constitui, na realidade, um escandaloso chorrilho de subs\u00eddios \u00e0s grandes empresas ligadas ao sector b\u00e9lico. Os dinheiros nunca entram na Col\u00f4mbia, mas com eles pagam-se todas as armas e equipamentos que fabricam esses polvos empresariais e que se transferem para aqui com o ang\u00e9lico nome de ajuda.<\/p>\n<p>Mais que ningu\u00e9m e animados pela sat\u00e2nica ideia de guerra contra o terrorismo, esses polvos pressionavam a escalada do conflito colombiano. A guerra total contra as guerrilhas serviria, na concep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a nacional, para atacar indistintamente o movimento social e popular que enfrenta decidido as medidas neoliberais de privatiza\u00e7\u00e3o, flexibiliza\u00e7\u00e3o laboral e livre com\u00e9rcio. Como \u00e9 cada dia mais evidente, todas elas nos condenam cada vez mais ao saque descarado dos nossos recursos naturais, \u00e0 eterna corda na garganta do crescimento da d\u00edvida e, sobretudo, \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o acelerada dos servi\u00e7os p\u00fablicos e direitos conquistados pelos trabalhadores em tempos passados, sem possibilidade de andar para a frente.<\/p>\n<p>N\u00e3o anunciam j\u00e1 um novo regime de reformas que eleva ainda mais a idade para ter direito a uma pens\u00e3o? Como v\u00ea Professor, isso que o senhor e muitos colombianos interiorizaram como o s\u00edndroma de Cagu\u00e1n, e que os levou num arroubo emocional a tombarem para a extrema-direita que representava Uribe, n\u00e3o passa de uma f\u00e1bula, se a examinarmos objectivamente, ligando-a com os outros aspectos da realidade. Apontar-nos o dedo como respons\u00e1veis directos, sobretudo a partir da respeit\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o de intelectualidade bem pensante, \u00e9 um desprop\u00f3sito t\u00e3o bem elaborado que seria merecedor de um galard\u00e3o de ouro atribu\u00eddo aos publicistas e propagandistas da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal.<\/p>\n<p>Vou dizer-lhe uma coisa que a muita gente parecer\u00e1 inadmiss\u00edvel. Se o vencedor das elei\u00e7\u00f5es de 2002 na Col\u00f4mbia tivesse sido Horacio Serpa [8], teria sido ele o encarregado de desenvolver, com ligeiras diferen\u00e7as de matiz, o Plano Col\u00f4mbia, o Patriota e a consolida\u00e7\u00e3o. Teria sido ele a assinar o Tratado de Livre Com\u00e9rcio (TLC) com os Estados Unidos e percorrido com af\u00e3 o mundo por mais acordos de com\u00e9rcio livre e seria apontado, tal como Juan Santos, como um campe\u00e3o da democracia. Estes nossos Estados encontram-se condenados a desempenhar um papel subordinado no meio dos interesses do grande capital transnacional. \u00c9 por isso que reassume toda a urg\u00eancia a recupera\u00e7\u00e3o da soberania e independ\u00eancia nacionais, tal como a necessidade de integra\u00e7\u00e3o sul-americana que nos permita enfrentar com sucesso o monstro.<\/p>\n<p><strong>Uma breve olhadela \u00e0 nossa volta<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o creio que valha a pena debater a sua aprecia\u00e7\u00e3o sobre o que est\u00e1 a acontecer na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 justa e acertada. Apenas poderia acrescentar-lhe uma refer\u00eancia. \u00c9 sobre a sua abordagem aos modelos de esquerda que se implementam no nosso continente. Um, o do Brasil, decididamente inclinado para a assist\u00eancia social, enquanto em tudo o mais se cinge a cartilha ditada pelos poderes internacionais do capital, e o outro, o de Cuba e Venezuela, que aponta para a constru\u00e7\u00e3o de um modelo socialista de acordo com as suas realidades nacionais, mas completamente aut\u00f3nomo no que respeita a pol\u00edticas econ\u00f3micas. Como sabe, Lula recebeu inclusive o t\u00edtulo de personagem do ano em 2010, enquanto Castro e Ch\u00e1vez recebem dos c\u00edrculos econ\u00f3micos dominantes o tratamento de dem\u00f3nios.<\/p>\n<p>Fidel e Ch\u00e1vez s\u00e3o considerados os piores ditadores internacionais pelas ag\u00eancias de imprensa norte-americanas e europeias. Na Col\u00f4mbia, entre as classes dominantes e os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, o processo revolucion\u00e1rio venezuelano \u00e9 visto com a mesma raiva e rep\u00fadio com que o olha a catorze vezes derrotada oposi\u00e7\u00e3o daquele pa\u00eds. A imperiosa necessidade econ\u00f3mica imp\u00f4s o acordo de Juan Santos com Ch\u00e1vez, no qual um se comprometia a respeitar o que o outro fazia no seu pa\u00eds. Mas todos n\u00f3s, colombianos, sabemos o que na realidade pensam Juan Santos e a sua corte. Todos, em un\u00edssono, se juntaram ao coro de felicidade pelo golpe de 11 de Abril de 2002. A atitude continua a mesma. N\u00e3o nos enganemos.<\/p>\n<p>Eis um exemplo significativo do que significam as pol\u00edticas neoliberais que Cuba e a Venezuela n\u00e3o admitem. Encontra-se em Guajira e chama-se Cerrej\u00f3n. H\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas que se anunciava a milagrosa reden\u00e7\u00e3o que seria a explora\u00e7\u00e3o, a c\u00e9u aberto, da maior mina de carv\u00e3o do mundo. A realidade vale mais que mil palavras. Os milhares e milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares foram para outro lado. E os Way\u00fa? E o aqueduto de Riohacha? E a mis\u00e9ria galopante na regi\u00e3o? No princ\u00edpio at\u00e9 tivemos uma empresa mineira carbon\u00edfera associada com a transnacional. Tamb\u00e9m a engoliram. A est\u00f3ria das locomotoras \u00e9 mais do mesmo. Seria bom perguntar-lhe sobre a sua pela guerra total em vez da paz.<\/p>\n<p><strong>O eterno sambenito [9]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o o culpo. Fizeram-nos muito mal com isso. \u00c9 mais c\u00f3modo estigmatizar-nos e lan\u00e7arem bombas sobre n\u00f3s que deixar que falemos e exponhamos o nosso pensamento e a nossa proposta de pa\u00eds em igualdade de condi\u00e7\u00f5es. \u00c9 a sua vantagem competitiva, como eles dizem. Terem o apoio dos meios imperiais e locais para constru\u00edrem o que quiserem. A coopta\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia. A pris\u00e3o e a cova para os que sustentam o contr\u00e1rio. Revejo-me sem hesita\u00e7\u00f5es no que expressou o Camarada Alfonso Cano sobre as FARC e o narcotr\u00e1fico. Sem manhas de prestidigitador. Vou apenas acrescentar uma coisa, dada a gentileza de nos ter escrito. Imagino os adjectivos que isso me acarretar\u00e1.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 of\u00edcio ingrato e malquerido \u00e9 o de agente do fisco. Criar um imposto que incida sobre os compradores de pasta de coca significa cobr\u00e1-lo. Sucede que quem envia os seus emiss\u00e1rios a buscar a mercadoria, palavra do jarg\u00e3o deles, \u00e9 a m\u00e1fia que cresceu \u00e0 sombra do Estabelecido. Trata-se de pessoas que escolheram uma decis\u00e3o de vida, a de fazer a maior quantidade de dinheiro no menor tempo poss\u00edvel, seja a que pre\u00e7o for. Para passar uma vida t\u00e3o boa como os capitalistas que v\u00eaem no cinema e na televis\u00e3o. \u00c0queles tamb\u00e9m os salvam os capitais em tempos de crise econ\u00f3mica. Tratar com gente assim n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Os seus emiss\u00e1rios ter\u00e3o sempre o prop\u00f3sito oculto de nos enganar. N\u00e3o restava outro rem\u00e9dio sen\u00e3o sair-lhes ao caminho com algumas medidas, como fixar os locais exclusivos de venda, entre outros.<\/p>\n<p>Sobre propostas deste tipo \u00e9 que os nossos inimigos edificaram a lenda. Na realidade n\u00f3s cobr\u00e1vamos \u00e0s m\u00e1fias por entrarem a comerciar nas \u00e1reas sob nossa influ\u00eancia. Esse tipo de rela\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o precisamente a de bons amigos, converte-nos em dem\u00f3nios. A outros, com rela\u00e7\u00f5es de prop\u00f3sitos muito mais reprov\u00e1veis, corre-lhes melhor a carreira econ\u00f3mica, pol\u00edtica e militar. O governo dos Estados Unidos sim, esses sabem fazer a coisa, como se viu no famoso esc\u00e2ndalo Ir\u00e3o-Contras. O problema connosco tem motiva\u00e7\u00f5es muito diferentes. O semear e colher folha de coca obedecem a situa\u00e7\u00f5es suficientemente explicadas neste pa\u00eds. O resto s\u00e3o cantigas, como disse Alfonso.<\/p>\n<p>Antes de me despedir queria expressar-lhe os meus agradecimentos. Ainda que com muitas interrup\u00e7\u00f5es, o esfor\u00e7o para responder de algum modo \u00e0s suas prementes inquieta\u00e7\u00f5es, que honradamente espero n\u00e3o terminar de modo algum numa ofensa, foi para mim um enorme prazer. No meio das nossas diferen\u00e7as, que n\u00e3o creio sejam tantas como poderia pensar-se \u00e0 primeira vista, vejo-me obrigado a reconhecer no senhor um homem francamente preocupado pela realidade e o futuro do nosso pa\u00eds, um colombiano farto da viol\u00eancia que faz enormes esfor\u00e7os para contribuir que se abram as portas do di\u00e1logo e a sa\u00edda civilizada do conflito. S\u00f3 este facto torna-o credor do nosso fraterno abra\u00e7o,<\/p>\n<p>Cordialmente<\/p>\n<p>Timole\u00f3n Jimenez<\/p>\n<p>Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP<\/p>\n<p>Montanhas da Col\u00f4mbia, Dezembro de 2011.<\/p>\n<p><em>Notas do Tradutor:<\/em><\/p>\n<p><em>[1] As cortes s\u00e3o a entidade judicial encarregada de zelar pelo cumprimento da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>[2] Ex-secret\u00e1rio-geral da Central Unit\u00e1ria dos Trabalhadores (CUT) entre 1981 e 1990; vice-presidente da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica at\u00e9 1990; depois de um per\u00edodo de nojo aceitou, em 2000, ir para ministro de Andres Pastra\u00f1a\u2026 Continuou a deslizar no plano inclinado e em 7 de Agosto de 2010 tomou posse como vice-presidente da Col\u00f4mbia, apoiado por Juan Manuel Santos.<\/em><\/p>\n<p><em>[3] Foi a data do assass\u00ednio de Gait\u00e1n (Jorge Eliecer Gait\u00e1n), o que provocou uma grande revolta popular conhecida como o Bogotazo.<\/em><\/p>\n<p><em>[4] Uni\u00e3o dos Trabalhadores Colombianos fundada pelos Jesu\u00edtas em 1946\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>[5] Godos \u00e9 como, depreciativamente, se designam os espanh\u00f3is em alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/em><\/p>\n<p><em>[6] Movimento estudantil que fez uma proposta em 1990 para que governadores e alcaides passassem a ser eleitos.<\/em><\/p>\n<p><em>[7] Organismo criado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1991 para defender os direitos humanos<\/em><\/p>\n<p><em>[8] Pol\u00edtico colombiano, candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 1998, 2002 e 2006 pelo Partido Liberal Colombiano.<\/em><\/p>\n<p><em>[9] \u00abH\u00e1bito, em forma de saco, de baeta amarela, que se enfiava pela cabe\u00e7a e que se vestia aos condenados que iam ser queimados nos autos-de-f\u00e9\u00bb.<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Este texto foi originalmente publicado dia 17 de Janeiro de 2012 em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.farc-ep.co\/?p=1005%3C\" target=\"_blank\">www.farc-ep.co\/?p=1005<\/a><\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2365\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2365<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nTimole\u00f3n Jimenez*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2356\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2356","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-C0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2356","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2356"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2356\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}