{"id":23593,"date":"2019-07-17T04:18:22","date_gmt":"2019-07-17T07:18:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23593"},"modified":"2019-07-17T04:18:22","modified_gmt":"2019-07-17T07:18:22","slug":"o-que-e-a-esquerda-liberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23593","title":{"rendered":"O que \u00e9 a esquerda liberal?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/opera-4.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Douglas Rodrigues Barros<br \/>\nRevista Opera<\/p>\n<p>A autonomiza\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros \u2013 assim como o abandono do padr\u00e3o ouro e sua substitui\u00e7\u00e3o pelo d\u00f3lar ainda em 1971 \u2013 deu sinais de que o processo de acumula\u00e7\u00e3o do capital, como um c\u00edrculo expansivo, se deparou com uma barreira dif\u00edcil de transpor. O que se teve, por\u00e9m, ao inv\u00e9s de uma preocupa\u00e7\u00e3o racional dos economistas burgueses, foi uma celebra\u00e7\u00e3o irracional pr\u00f3pria da religiosidade que dominou o pensamento econ\u00f4mico: na apar\u00eancia, com a abertura de cr\u00e9ditos, o dinheiro pode se multiplicar mais rapidamente que o trabalho e sua consequente produ\u00e7\u00e3o. Iniciava-se a\u00ed o dispositivo de gest\u00e3o da barb\u00e1rie que atende pelo nome de neoliberalismo.<\/p>\n<p>Adentramos com os dois p\u00e9s no mundo da especula\u00e7\u00e3o financeira, cada vez mais autonomizada da acumula\u00e7\u00e3o de riqueza concreta. N\u00e3o havia alternativa; a crise do Welfare State foi definitiva. Destacada da produ\u00e7\u00e3o real, a acumula\u00e7\u00e3o de capital tornou-se fict\u00edcia, o seu car\u00e1ter abstrato sobressaiu sobre o car\u00e1ter concreto de gera\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de riquezas. Iniciou-se um jogo de mist\u00e9rios; a f\u00f3rmula m\u00e1gica de multiplicar dinheiro sem valor.<\/p>\n<p>A farra durou exatos 38 anos. Como num jogo de cartas, assistimos, no outono de 2008, \u00e0 queda sequencial dos grandes bancos de investimento em Wall Street. Quando o Lehman Brothers por fim ruiu, sob fic\u00e7\u00e3o solenemente produzida, apresentou-se uma nova esquina da hist\u00f3ria do capital.<\/p>\n<p>A crise iniciada em 2008 manteve um car\u00e1ter perene gra\u00e7as, entre outros motivos, ao desenvolvimento t\u00e9cnico e \u00e0 expans\u00e3o global do capital; o fen\u00f4meno da \u201csatura\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o\u201d imp\u00f4s um limite natural \u00e0 expans\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da taxa de crescimento de capitais; a tecnologia por sua vez imp\u00f4s um limite social ao trabalho como fonte de manuten\u00e7\u00e3o do consumo e processo de circula\u00e7\u00e3o de mercadorias. N\u00e3o fosse o Tesouro Nacional estadunidense, o dinheiro estatal arrecadado por impostos, muitos bancos teriam falido e grandes empresas teriam ido \u00e0 bancarrota.<\/p>\n<p>A orgia financeira continuou. A crise solapou, por\u00e9m, o otimismo dos investidores, acabou com o horizonte crescente dos planejamentos familiares, dinamitou os direitos, que muitos acreditavam ser s\u00f3lidos nas democracias ocidentais, e aos poucos modificou o significado vazio e ideol\u00f3gico de democracia. Mas, como dizia Hegel: uma forma morta mant\u00e9m sua apar\u00eancia por muito tempo.<\/p>\n<p>Hoje, enquanto uma nova crise, ainda mais radical e com poucas alternativas de sa\u00edda gra\u00e7as \u00e0 desestrutura\u00e7\u00e3o dos Estados se avizinha, o horizonte de emancipa\u00e7\u00e3o continua anuviado. As medidas dos especialistas se demonstram falhas, Estados inteiros se leiloam a fim de arrecadarem de volta o que entregaram de m\u00e3o beijada para a iniciativa financeira e para os bancos. Depreda-se o antigo terceiro mundo e degrada-se ainda mais a vida dos seus desgra\u00e7ados trabalhadores superexplorados.<\/p>\n<p>A pobreza compartilhada crescente e evidente, as fal\u00eancias m\u00faltiplas dos \u00f3rg\u00e3os empresariais reduzidos \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a impossibilidade de manuten\u00e7\u00e3o da taxa de lucro, os ideais da modernidade solapados pela desestrutura\u00e7\u00e3o social, Detroit arruinada, a maior crise econ\u00f4mica da hist\u00f3ria [1] e uma massa de trabalhadores endividados acenderam o alarme de inc\u00eandio nos pal\u00e1cios de bilion\u00e1rios cafajestes [2].<\/p>\n<p>A teologia neoliberal finalmente sucumbiu; no entanto, foi preciso continuar seu imp\u00e9rio de destrui\u00e7\u00e3o e cat\u00e1strofe\u2026<\/p>\n<p>A ininterrupta desagrega\u00e7\u00e3o social \u2013 cujo efeito \u00e9 a segrega\u00e7\u00e3o daqueles que vagam pelas ruas, pelas faculdades, pelas favelas \u2013 for\u00e7ou os adoradores do capital, que criam em sua pot\u00eancia ad infinitum, a sair da sua c\u00f4moda posi\u00e7\u00e3o. Muitos economistas, soci\u00f3logos, pol\u00edticos e intelectuais da ordem tiveram que acordar de seu sonho dogm\u00e1tico.<\/p>\n<p>Novamente, os bra\u00e7os e mentes dos curandeiros e te\u00f3logos do capital se uniram, auxiliados pelo dinheiro de algum think-tank, na tentativa de impedir a verdadeira pol\u00edtica. O marginal, o sem futuro, o sem-terra, o estudante eternamente jovem porque n\u00e3o tem posto de trabalho para a vida adulta, o preto, a travesti, o cigano e o ind\u00edgena se tornaram um ponto no radar do estado de s\u00edtio permanente. Os olhares democratas, mais sens\u00edveis aos perigos do seu mundo, foram for\u00e7ados a tomar medidas preventivas.<\/p>\n<p>Era preciso evitar motins, incluir nos espa\u00e7os de poder os eleitos domesticados, criar uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria, que reverberasse em modas tribais e urbanas, tornar o esvaziado valor democr\u00e1tico em dogma e religi\u00e3o. De repente, todo um aparato foi montado. Reformar o capitalismo global; torn\u00e1-lo humano.<\/p>\n<p>Domar a insurg\u00eancia que viria.<\/p>\n<p>Era preciso, no entanto, exportar a gram\u00e1tica do imp\u00e9rio, sua vis\u00e3o de mundo, e com ela formas de a\u00e7\u00e3o que dominassem sutilmente o bloco desorganizado de uma esquerda que, j\u00e1 sem estrutura simb\u00f3lica modernizadora, perdia de vista a imagina\u00e7\u00e3o de uma vida para al\u00e9m do capital e estaria pronta para receber as cartilhas de funda\u00e7\u00f5es rent\u00e1veis muito bem-intencionadas [3].<\/p>\n<p>Um tipo de velho colonialismo com nova roupa: sutil, desagregador, baseado na fragmenta\u00e7\u00e3o da classe, contr\u00e1rio, portanto, a toda consist\u00eancia pol\u00edtica prolet\u00e1ria mais prolongada \u2013 que busca por todos os meios manter a \u00e1lgebra de domina\u00e7\u00e3o contra a topologia dos descontentes \u2013 este colonialismo que muitas vezes se diz descolonizador, mesmo quando financiado pela Open Society \u2013 rapidamente formou um consenso em torno da particularidade estanque, im\u00f3vel e higienizadora. Bancou subalternos para serem bons subalternos.<\/p>\n<p>E, no entanto, os procedimentos de controle \u201cdemocr\u00e1tico\u201d mant\u00eam sua inseguran\u00e7a di\u00e1ria, garantida pelo sonho de pacifica\u00e7\u00e3o na ponta de um fuzil do \u201ccaveira\u201d [4] e dos direitos humanos que sempre chegam tarde para reclamar o corpo preto nas favelas cariocas. Sob o olhar do jovem ativista do freedom and democracy, ainda ardem as chamas dos carros queimados devido a mais uma morte de favelado. Sob os sonhos democr\u00e1ticos da ativista \u201cglobal\u201d, o Brasil se tornou o l\u00edder mundial de mortes por armas de fogo [5].<\/p>\n<p>Ainda assim, com essa pacifica\u00e7\u00e3o sangrenta, a democracia, tornada dispositivo internalizado e legalizado do irracional sistema capitalista, pode falhar a qualquer momento, desde que mantenha a taxa de lucro intacta e rumine o \u201ceterno\u201d trabalho abstrato. Pode-se inclusive perder elei\u00e7\u00f5es e assumir cargos presidenciais ou prender um forte advers\u00e1rio pol\u00edtico com crimes inventados por um juiz de quinta categoria [6].<\/p>\n<p>Enfim, dispositivos da contrarrevolu\u00e7\u00e3o norte-americana passaram a funcionar a todo vapor, enquanto s\u00e1bios filantropos deixaram claro que grande parte da esquerda n\u00e3o era propriamente contra o capital [7]. O consenso democr\u00e1tico liberal, que na forma da lei impede qualquer transforma\u00e7\u00e3o social efetiva, fora acatado acriticamente sob a rubrica de defesa acr\u00edtica dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Ergueu-se, pela primeira vez, algo que deixaria at\u00e9 mesmo Bernstein de cabelo em p\u00e9: uma esquerda p\u00e1lida, alaranjada, bem-intencionada, guiando-nos tranquilamente ao inferno dos particularismos identit\u00e1rios que fomentaram, a contragosto da ingenuidade, a xenofobia e a imers\u00e3o na defesa de limpeza \u00e9tnica perante o Outro. E esse \u00e9 s\u00f3 um dos bra\u00e7os do empoderamento liberal, justificado pelo empreendedorismo de si na bicicleta do iFood ou na transforma\u00e7\u00e3o das baianas do acaraj\u00e9 em empreendedoras empoderadas.<\/p>\n<p>Fundou-se a esquerda liberal, um paradoxo tornado for\u00e7a material ao ser propagandeado como \u00fanico caminho efetivo. E gra\u00e7as aos diversos financiamentos e apoios de uma burguesia cautelosa, tornou-se for\u00e7a hegem\u00f4nica, defensora de \u201cmudan\u00e7as graduais, pac\u00edficas, democr\u00e1ticas, representativas\u201d. Dentro da ordem que assassina e violenta o corpo negro invisibilizado.<\/p>\n<p>Noutras palavras, formou-se uma pol\u00edcia que vigia diuturnamente os descontentes, ataca a viol\u00eancia dos violentados pelo Estado, suga a energia da juventude para projetos que respeitem a Lei de responsabilidade fiscal, educa o sonho \u201ctresloucado\u201d de mudan\u00e7as radicais para a gest\u00e3o da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>A obviedade dos resultados se revela no cotidiano \u00e1spero de um pa\u00eds de desigualdade brutal e paz total. Uma pacifica\u00e7\u00e3o garantida com mortes financiadas pelo Estado, via sua pol\u00edcia assassina. Invisibiliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra uma epiderme espec\u00edfica, afastada dos pr\u00e9dios e condom\u00ednios.<\/p>\n<p>Desse modo, coletivos genu\u00ednos rapidamente se transformam em ONGs rent\u00e1veis, cursos populares passaram a ter por finalidade a inclus\u00e3o pela inclus\u00e3o e mesmo o radical jovem comprou o sonho de ser representado pela atriz global. \u201cN\u00e3o h\u00e1 alternativas, temos que negociar\u201d, \u00e9 o mote funesto.<\/p>\n<p>Mas como refletir sobre os pressupostos dessa esquerda? Como demonstrar os limites de sua atua\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da empiria?<\/p>\n<p>Essa esquerda afirma a subjetividade particularizada para depois dilu\u00ed-la na falsa pol\u00edtica liberal. Ao se imbuir de particularismos e esfor\u00e7ar-se pela manuten\u00e7\u00e3o do lugar, e n\u00e3o pela sua implos\u00e3o, opta-se pela diferen\u00e7a determinada pelo aparato social sob a \u00e9gide da mercadoria. Em termos mais simples, criam-se, sob o r\u00f3tulo de pol\u00edtica, nichos de mercados pr\u00f3prios \u00e0 teologia neoliberal.<\/p>\n<p>A esquerda liberal, esse oximoro s\u00f3 poss\u00edvel pelas derrotas hist\u00f3ricas da classe trabalhadora, clama por um lugar no espa\u00e7o alg\u00e9brico do poder, e n\u00e3o pela implos\u00e3o desse lugar pela topologia do negativo imposta pela classe. Acredita no rosto humano do capital e na posi\u00e7\u00e3o apol\u00edtica que tomou a forma de parlamento. Vive sob o imp\u00e9rio da lei como se esta n\u00e3o fosse resultado da luta de classes e luta contra qualquer transgress\u00e3o aos seus ideais. Sobretudo, sabota o futuro emancipat\u00f3rio pelo apego reduzido ao eterno agora.<\/p>\n<p>Seus elementos s\u00e3o facilmente identific\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, uma boa resposta contra essa hegemonia talvez resida no fato de que a luta pela universalidade concreta \u2013 aquela que fundamenta no real a possibilidade de um desenvolvimento efetivo das potencialidades do indiv\u00edduo forjada atrav\u00e9s do fim da desigualdade social \u2013 n\u00e3o elimina a subjetividade; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 a \u00fanica forma de garanti-la. A posi\u00e7\u00e3o de uma esquerda antiliberal deve ser aquela de igualdade social radical e imanente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a quest\u00e3o da invisibilidade proposta por leituras da realidade que corroboram a no\u00e7\u00e3o de rebeli\u00e3o nos traz algo de suma import\u00e2ncia: a quebra da sujei\u00e7\u00e3o, ao ser dilu\u00edda a identifica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao poder. A luta contra os espa\u00e7os demarcados na estrutura alg\u00e9brica do poder fundamentado nas diferen\u00e7as sociais historicamente produzidas. Isso implica o trabalho de toupeira sem apostar nos dispositivos institucionais.<\/p>\n<p>Da\u00ed se destaca que o proletariado pensado por Marx n\u00e3o \u00e9 apenas uma no\u00e7\u00e3o objetiva, mas tamb\u00e9m subjetiva. A no\u00e7\u00e3o de proletariado n\u00e3o \u00e9 uma identidade, mas a quebra da identidade. O proletariado n\u00e3o \u00e9 uma particularidade, sen\u00e3o uma universalidade abstrata que quer se concretizar. Pode ser qualquer um, encarnar em qualquer corpo, \u00e9 a classe universal que n\u00e3o se define por um lugar, sen\u00e3o por uma consci\u00eancia topol\u00f3gica \u2013 isto \u00e9, que se p\u00f5e para fora do jogo institu\u00eddo \u2013, por uma implos\u00e3o do lugar.<\/p>\n<p>Por isso, a nega\u00e7\u00e3o abstrata do Estado, a luta contra as opress\u00f5es, sem a luta complementar contra o capital, levam a ind\u00edcios de obscurantismo rom\u00e2ntico na pr\u00f3pria cr\u00edtica e por sua vez \u00e0 tentativa de instaura\u00e7\u00e3o de uma lei do cora\u00e7\u00e3o que impulsiona esse pr\u00f3prio Estado, quer dizer: a disputa parlamentar como fim em si mesma permanece no registro do capital e \u00e9 muito bem-vinda. Al\u00e9m disso, uma ideia de opress\u00e3o sem sua constitutiva fomenta\u00e7\u00e3o pelo mundo econ\u00f4mico-social \u00e9 uma den\u00fancia vazia. Um politicismo gerencial.<\/p>\n<p>Disso chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica continua sendo o pressuposto de toda cr\u00edtica. \u00c9 no entendimento dos pressupostos econ\u00f4micos que fundamentaram a sociedade moderna que se compreende a emerg\u00eancia do Estado sem essencializ\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Se a ideia de comum se coloca como uma necessidade radical para salvar o pr\u00f3prio planeta, a Ideia Comunista permanece se reatualizando \u00e0 sombra dos processos de destrui\u00e7\u00e3o criativa do capitalismo tardio. Uma hip\u00f3tese entendida aqui longe dos fantasmas da caserna e com o acerto de contas com o \u201csocialismo realmente existente\u201d. Enfim, a Ideia Comunista \u00e9 a \u00fanica possibilidade de salvaguardar pressupostos concretos de transforma\u00e7\u00e3o social efetiva [8].<\/p>\n<p>Trazer isso \u00e0 tona \u00e9 fundamental para pensarmos sob a l\u00f3gica de uma pol\u00edtica efetiva. Ora, \u00e9 o encontro com a diferen\u00e7a radical que possibilita a abertura naquilo que aparecia como uma sucess\u00e3o fechada, democraticamente segura, porque desnuda a limita\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o alg\u00e9brico do poder institu\u00eddo pela explora\u00e7\u00e3o do capital. Da mesma forma, s\u00e3o os limites socialmente impostos que permitem uma abertura para a a\u00e7\u00e3o subjetiva. Oportunidade, em todo caso, efetivada a partir da capacidade de se indignar com tais limites.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica emerge justamente no dissenso inegoci\u00e1vel. O fantasma do comunismo que volta a assombrar as consci\u00eancias celibat\u00e1rias do capital n\u00e3o \u00e9 algo \u00e0 toa; a Ideia Comunista continua sendo a \u00fanica possibilidade efetiva de pol\u00edtica dos condenados; a tomada de parte dos que n\u00e3o t\u00eam parte; os portadores do novo que, como dizia a velha Internacional, nada sendo em tal mundo, ser\u00e3o tudo.<\/p>\n<p>Foi a esquerda liberal, no entanto, que se recusou a descer para o campo aberto da pol\u00edtica quando buscou conciliar interesses inconcili\u00e1veis e gerir a crise que se tornou dispositivo de governo. Foi a extrema-direita que, se aproveitando da domestica\u00e7\u00e3o proposta por essa mentalidade, se insurgiu, dominou as ruas e imp\u00f4s a agenda neoliberal aproveitando-se de uma insatisfa\u00e7\u00e3o legitimamente popular e, assim, armou uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o permanente mesmo que n\u00e3o tenha existido horizonte revolucion\u00e1rio algum.<\/p>\n<p>Diante do bom mocismo da esquerda global, o jeito Trump de governar, esse populismo \u00e0s avessas, tornou-se conivente com os interesses do capital e uma forma concreta de domina\u00e7\u00e3o e lucro. Atualmente, muitos pa\u00edses t\u00eam um tipo de Trump na presid\u00eancia ou disputando cargo, embora os olhares dos educados liberais e suas bocas torcidas queiram dizer o contr\u00e1rio, Trump \u00e9 uma necessidade.<\/p>\n<p>No momento em que nunca houve tanta riqueza, mais e mais a mis\u00e9ria torna-se o \u00fanico bem comum nos quatro cantos do globo. A tecnologia que serviria para libertar-nos do trabalho apenas criou um ex\u00e9rcito de desempregados, rem\u00e9dios que ofereceriam a cura s\u00e3o exclu\u00eddos de prateleiras por n\u00e3o serem rent\u00e1veis, a irracionalidade se expressa como nunca se viu na recente hist\u00f3ria do capitalismo e \u00e9 adorada.<\/p>\n<p>\u00c9 somente pela cr\u00edtica da economia pol\u00edtica que foi poss\u00edvel observar que o neoliberalismo tinha como princ\u00edpio a tomada de lugares estrat\u00e9gicos do antigo Estado de bem-estar social para que houvesse possibilidade de investimentos com margem de lucro alta pelos manipuladores do mercado financeiro. E para tanto precisou incutir uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria com o intuito de ganhar cora\u00e7\u00f5es e mentes; identificar e manter no lugar os corpos violentados e p\u00e1rias. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Gramsci \u00e9 hoje um dos comunistas mais citados pela direita.<\/p>\n<p>Isso significa que: a) embora haja um projeto pol\u00edtico e ideol\u00f3gico no neoliberalismo balizado pelo consenso de Washington, ele s\u00f3 existe por uma necessidade imposta pelo capital e n\u00e3o o contr\u00e1rio; b) a retomada do desenvolvimentismo por parte da esquerda liberal revela-se, portanto, como um v\u00e9u que encobre um componente altamente desagregador do capital tardio: a crise como forma de governo e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o permanente como garantia de lucro.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o apenas est\u00e1 inserido na economia global como \u00e9 joguete nas vacila\u00e7\u00f5es e oscila\u00e7\u00f5es do capital. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 sequer poss\u00edvel dizer que, em algum momento em sua hist\u00f3ria de capital dependente, houve algum lastro de Welfare State, o que torna a sua situa\u00e7\u00e3o ainda mais tr\u00e1gica. Parte dessa esquerda enxerga, contudo, a \u201calternativa\u201d no enquadramento da economia por interm\u00e9dio de reformas com um papel preponderantemente politicista, como se fossem as leis que imp\u00f5em ao capital seu movimento e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ignora, contudo, que s\u00e3o as novas tecnologias que diminu\u00edram o trabalho necess\u00e1rio para a produ\u00e7\u00e3o de diversos tipos de bens e t\u00eam impedido um processo de circula\u00e7\u00e3o supostamente sadio que atenda \u00e0 demanda de consumo. Ignora uma alternativa existente para al\u00e9m do parlamento com uma imposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de classe. Busca defender um capital social dentro da ordem vigente e tenta relacionar aspectos democr\u00e1ticos liberais como se a hist\u00f3ria pudesse voltar atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que parte desse pensamento estabelece uma disputa que fica entre um capitalismo neoliberal, maligno, etc., e outro de \u201crosto humano\u201d. Acredita que a democracia n\u00e3o funcionou bem, quando na verdade a democracia liberal \u00e9 isso mesmo: morte dos indesej\u00e1veis, exclus\u00e3o da maioria dos centros dos acontecimentos e Estado de exce\u00e7\u00e3o permanente contra os pobres.<\/p>\n<p>\u00c9 muito mais f\u00e1cil afirmar a identifica\u00e7\u00e3o, o lugar subalterno, do que destruir qualquer possibilidade de subalternidade. Mas, tamb\u00e9m, \u00e9 muito mais dist\u00f3pico e tem nos conduzido \u00e0 barb\u00e1rie. No entanto, quem o faz n\u00e3o \u00e9 um sujeito sen\u00e3o um simples sujeitado. Como a esquerda liberal se aferra a tais pressupostos para tentar garantir col\u00f4nias rent\u00e1veis, corpos de explora\u00e7\u00e3o representativa, vencedores da mis\u00e9ria, tornou-se uma simples sujeitada do processo antipol\u00edtico liberal, logo, passou a n\u00e3o interessar para ningu\u00e9m sua perspectiva de classe m\u00e9dia sen\u00e3o aos seus crentes.<\/p>\n<p>Lembremos: o poder igualmente tem fundamenta\u00e7\u00e3o social e \u00e9 s\u00f3 dela que emerge sua verdade. A forma do Estado burgu\u00eas e de sua antipol\u00edtica parlamentar nem sempre existiu e pode desaparecer. Ali\u00e1s, no atual est\u00e1gio, ele cumpre a fun\u00e7\u00e3o m\u00ednima de desviar a riqueza produzida socialmente para os bolsos da elite e socializar os preju\u00edzos.<\/p>\n<p>Isso indica, portanto, que a morfologia de seu funcionamento est\u00e1 se esgotando, desnudando um problema interessante: se Capital e Estado se complementam, o esgotamento de um, ao mesmo tempo, pode ser o de outro, implicando uma emerg\u00eancia revolucion\u00e1ria. A crise que se aproxima dir\u00e1.<\/p>\n<p>Se pensarmos em Marx, e fugirmos dos pressupostos redutores da sociologia, observaremos ent\u00e3o, parodiando Badiou em sua Teoria do sujeito, que a classe s\u00f3 existe enquanto processo, \u00e9 um fora-de-lugar que precisa abolir todo lugar em que possa surgir a no\u00e7\u00e3o de classe. O projeto do proletariado \u00e9 a desapari\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de classe. Desaparecimento que tornar\u00e1 as diferen\u00e7as indiferentes e, portanto, pass\u00edveis de se desenvolverem livremente. O lugar deve ser implodido pelo fora-de-lugar, n\u00e3o para a manuten\u00e7\u00e3o do lugar, mas pela cria\u00e7\u00e3o efetiva de um n\u00e3o-lugar em que a multiplicidade seja regra geral e a partilha do comum seja efetiva.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] \u2013 A esse respeito ver o livro Enigma do capital de David Harvey.<br \/>\n[2] \u2013 https:\/\/diplomatique.org.br\/perdemos-detroit\/<br \/>\n[3] \u2013 https:\/\/www.correiodobrasil.com.br\/fundacoes-ultradireita-apoiam-setores-esquerda-brasil-reforcam-golpe\/<br \/>\n[4] \u2013 Policial do BOPE.<br \/>\n[5] \u2013 Pesquisa Global de Mortalidade por Armas de Fogo (Global Mortality from firearms, 1990 \u2013 2016), do Instituto de M\u00e9tricas e Avalia\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade (Institute for Health Metrics and Evaluation), o pa\u00eds soma 43.200 mortes.<br \/>\n[6] \u2013 Aqui estamos falando da elei\u00e7\u00e3o de Trump e da pris\u00e3o de Lula.<br \/>\n[7] \u2013 https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-44338827<br \/>\n[8] \u2013 Aqui nos baseamos em dois livros de Badiou: A teoria do sujeito, que infelizmente n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas e Hip\u00f3tese comunista, que saiu pela Boitempo.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"snWSTtNuJK\"><p><a href=\"https:\/\/revistaopera.com.br\/2019\/07\/07\/o-que-e-a-esquerda-liberal\/\">O que \u00e9 a esquerda liberal?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&#8220;O que \u00e9 a esquerda liberal?&#8221; &#8212; Revista Opera\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/revistaopera.com.br\/2019\/07\/07\/o-que-e-a-esquerda-liberal\/embed\/#?secret=snWSTtNuJK\" data-secret=\"snWSTtNuJK\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23593\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[223],"class_list":["post-23593","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s7-formacao-politica","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-68x","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23593","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23593"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23593\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}