{"id":23633,"date":"2019-07-22T00:52:43","date_gmt":"2019-07-22T03:52:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23633"},"modified":"2019-07-23T06:20:01","modified_gmt":"2019-07-23T09:20:01","slug":"dinarco-reis-o-tenente-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23633","title":{"rendered":"Dinarco Reis, o Tenente Vermelho"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-mZHfXj0-24s\/V8IXR-7HOkI\/AAAAAAAAGP8\/_e7BTEFwaWsAcojLB3GmJch3Z8eB3qHtACLcB\/s320\/Dinarco-Reis.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis<\/p>\n<p>No dia 22 de julho de 1904, nascia Dinarco Reis, no Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital do pa\u00eds, no bairro de Vila Isabel, na Pra\u00e7a que hoje \u00e9 chamada de Bar\u00e3o de Drumond. Seu pai era afinador de pianos e sua m\u00e3e seguia a regra da mulher da \u00e9poca, cuidando dos afazeres dom\u00e9sticos. Cedo, o casal se separou. Por causa da pobreza em que sua m\u00e3e ficou, adoeceu e foi levado, ainda menino, para Belo Horizonte pelos tios, que o criaram. Era no in\u00edcio do s\u00e9culo. Governava o Brasil, em 1904, Rodrigues Alves.<br \/>\nSe a inf\u00e2ncia apresentara obst\u00e1culos ao jovem carioca, a mocidade os agravou. Precocemente, teve que trabalhar: j\u00e1 aos 14 anos sustentava-se como eletricista. Apesar das dificuldades, conseguiu fazer o curso prim\u00e1rio.<\/p>\n<p>Aos 19 anos e sem op\u00e7\u00f5es, sentou pra\u00e7a na Escola de Avia\u00e7\u00e3o Militar, no Campo dos Afonsos. Como soldado, participou da luta contra o movimento paulista de 1924, por meio do qual o tenentismo fizera outra tentativa para derrubar o governo e realizar uma pol\u00edtica liberal, imposs\u00edvel sob o dom\u00ednio das oligarquias.<\/p>\n<p>Em 1925, foi promovido a cabo. Em 1926, Dinarco, j\u00e1 como terceiro sargento, torna-se instrutor de voo e mec\u00e2nico chefe de manuten\u00e7\u00e3o. A oportunidade surgiu, com o movimento armado de 1930: o sargento Dinarco sequestrou um avi\u00e3o, levando-o para Minas Gerais e juntando-se \u00e0s for\u00e7as rebeldes que acabariam por triunfar. Comissionado tenente, teve de matricular-se na Escola Militar do Realengo, para confirmar o comissionamento e, em 1934, tornava-se segundo-tenente da avia\u00e7\u00e3o militar.<\/p>\n<p>A Escola Militar, tradicionalmente envolvida nos movimentos pol\u00edticos, j\u00e1 apresentava um pequeno grupo de alunos que voltava as suas aten\u00e7\u00f5es para o marxismo e via no movimento comunista e no PCB a sa\u00edda para uma pol\u00edtica capaz de resolver os problemas brasileiros.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia ensinara ao jovem oficial que o caminho n\u00e3o era aquele dos golpes militares conduzidos por uma minoria. Ele j\u00e1 recusara a sa\u00edda anarquista, que lhe fora apresentada por um colega.<\/p>\n<p>Em 1926, lera o cl\u00e1ssico de John Reed, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, livro que deixou nele profunda impress\u00e3o. A leitura do Manifesto Comunista, em 1932, mostrou o seu caminho para o resto da vida. Ingressou no PCB em 1933, ainda na Escola Militar.<\/p>\n<p>O Brasil atravessava uma fase conturbada. O movimento de 1930 n\u00e3o abrira aquelas perspectivas que o povo brasileiro esperava, e o Governo Provis\u00f3rio se mostrava incapaz de superar a luta interna em que se debatia.<\/p>\n<p>A Alian\u00e7a Nacional Libertadora (ANL), ent\u00e3o, apresentou-se como a sa\u00edda capaz de proporcionar aquelas solu\u00e7\u00f5es at\u00e9 a\u00ed n\u00e3o alcan\u00e7adas. Foi um movimento de massas que chegou a ganhar for\u00e7a, embora insuficiente para a tarefa revolucion\u00e1ria a que se propunha. Dinarco, como os demais companheiros de Partido, integrou-se \u00e0 ANL, em cuja dire\u00e7\u00e3o havia in\u00fameros militares.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o da ditadura Vargas levou o movimento ao caminho aparentemente mais f\u00e1cil: a insurrei\u00e7\u00e3o armada, que se deu em novembro de 1935. Com a derrota, vieram a pris\u00e3o e a expuls\u00e3o das For\u00e7as Armadas, uma vez que participara ativamente do movimento, tentando levantar a Escola de Avia\u00e7\u00e3o Militar. Dinarco veria abrir-se nova etapa em sua vida \u2013 seria, da\u00ed por diante, um lutador comunista, disposto a sacrificar-se pelos seus ideais, a eles dedicando-se de corpo e alma.<\/p>\n<p>Foi na pris\u00e3o que conheceu dirigentes do movimento comunista nacional e internacional, recebendo ensinamentos te\u00f3ricos que permitiram que ele verificasse o acerto de sua decis\u00e3o: a sa\u00edda estava no socialismo. Fora cassado e at\u00e9 \u201cmorto\u201d, para efeitos legais. Ali\u00e1s, esses \u201cmortos-vivos\u201d constitu\u00edram espet\u00e1culo curioso e amargo da vida brasileira. Dinarco jamais conheceu a anistia, jamais foi \u201cressuscitado\u201d.<\/p>\n<p>Com a \u201cMacedada\u201d (uma lei limitada de anistia), foi libertado depois de 17 meses de pris\u00e3o, juntamente com grande quantidade de presos pol\u00edticos, contra os quais nada fora imputado como crime.<\/p>\n<p>No entanto, era preciso prosseguir, at\u00e9 porque abrira-se um novo campo de luta: a Espanha se debatia numa guerra interna em que o fascismo e o nazismo jogavam todas as cartas. Impunha-se a defesa da Rep\u00fablica Espanhola.<\/p>\n<p>De todo o mundo partiram volunt\u00e1rios para a luta na pen\u00ednsula. Os brasileiros n\u00e3o podiam faltar. Da\u00ed, como volunt\u00e1rio, Dinarco foi para a Espanha, em defesa da Rep\u00fablica, incorporando-se \u00e0 Brigada Garibaldi, que se destaca na Batalha de Ebro.<\/p>\n<p>Vencidos os republicanos, Dinarco, como centenas de outros, passou \u00e0 Fran\u00e7a, onde foi preso e internado num campo de concentra\u00e7\u00e3o. Cabia-lhe, agora, o trabalho for\u00e7ado nas obras da Linha Maginot, com que a Fran\u00e7a esperava conter as for\u00e7as alem\u00e3s na guerra que se aproximava.<\/p>\n<p>Aproveitando-se do clima conturbado provocado pela guerra, Dinarco empreendeu fuga espetacular para Paris, onde entrou em contato com membros da Resist\u00eancia Francesa, juntando-se a outros brasileiros.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de perip\u00e9cias diversas, conseguiu voltar ao Brasil no final de 1942. Aqui, com a maior parte dos companheiros presos e a dire\u00e7\u00e3o do PCB destru\u00edda, a tarefa principal consistia em reconstruir o Partido. Dinarco participou ativamente desse esfor\u00e7o, viajando por diversos estados brasileiros. Na chamada Confer\u00eancia da Mantiqueira (1943), em que foram tra\u00e7ados os rumos para a dif\u00edcil etapa que se iniciava, foi eleito para o Comit\u00ea Central.<\/p>\n<p>Em 1946, j\u00e1 finda a guerra, com a derrota do nazifascismo, o Brasil se encaminhou para novos rumos, com a Constituinte reunida e, nela, uma significativa bancada do PCB.<\/p>\n<p>Tudo parecia anunciar uma fase de calma e democracia. Mas o surgimento da \u201cGuerra Fria\u201d, de que o governo Dutra, no Brasil, foi a representa\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica, fez gorar as esperan\u00e7as: o PCB foi atirado \u00e0 clandestinidade, e a sua bancada parlamentar teve os direitos cassados.<\/p>\n<p>Da\u00ed, em revide, o sectarismo desvairado passou a dominar o PCB. O chamado Manifesto de Agosto, que passou a orientar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Partido, levou-o a derrotas pol\u00edticas irrepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>A sa\u00edda residiu na chamada Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o, que abriu novas perspectivas \u00e0 luta pol\u00edtica, rompendo com o sectarismo e privilegiando a luta de massas, apesar de refor\u00e7ar a perspectiva reformista, com a consolida\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia nacional democr\u00e1tica, em que se previa a alian\u00e7a com uma pretensa burguesia nacional para combater o imperialismo e o atraso interno representado pelo latif\u00fandio. Dinarco, com outros companheiros de Partido, esteve entre aqueles que defenderam a Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o.<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o de documentos com pesadas cr\u00edticas ao per\u00edodo de St\u00e1lin, durante o XX Congresso do PC sovi\u00e9tico, entretanto, traria uma crise interna de graves consequ\u00eancias, que deveria ser enfrentada e superada. Dinarco retornava ao Comit\u00ea Central ao ser eleito no V Congresso do PCB, ascendendo \u00e0 Executiva, vendo suas responsabilidades crescerem. Mas nunca lhe faltou \u00e2nimo para enfrentar as novas condi\u00e7\u00f5es de luta.<\/p>\n<p>Os anos iniciais da d\u00e9cada de 1960 foram marcados pela ascens\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, sindical e de massas, com v\u00e1rios setores e categorias sociais se mobilizando em defesa de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e sal\u00e1rio, conquista de direitos e mudan\u00e7as profundas de que o Brasil necessitava, despertando o povo para apoiar as chamadas \u201creformas de base\u201d propostas pelo Governo Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o da direita n\u00e3o poderia perdoar esses avan\u00e7os democr\u00e1ticos: veio o golpe de 1964. Cumpria ao PCB preservar a sua dire\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a decis\u00e3o de transferir ao exterior uma parte dela. Dinarco partiu, em 1971, tendo, antes da partida, sido respons\u00e1vel pela vida de v\u00e1rios outros companheiros. Antes disso foi respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a do VI Congresso do PCB, em 1967.<\/p>\n<p>Foi dos primeiros a voltar, assim que permitiram as condi\u00e7\u00f5es. Com a chamada \u201cabertura\u201d, o PCB voltou \u00e0 legalidade e enfrentou v\u00e1rias crises internas. Em todos os epis\u00f3dios da vida partid\u00e1ria, Dinarco assumiu a posi\u00e7\u00e3o que convinha \u00e0 unidade e \u00e0 busca de um Partido forte e unido.<\/p>\n<p>Passados os oitenta anos, com a carga das pris\u00f5es e dos ex\u00edlios, continuou a ser o mesmo lutador coerente, l\u00facido e capaz, \u00e0 altura de um verdadeiro dirigente comunista de renome internacional. Escrevendo e proferindo confer\u00eancias, n\u00e3o foi s\u00f3 uma privilegiada testemunha da hist\u00f3ria: foi um protagonista atuante das lutas do nosso povo pelas liberdades democr\u00e1ticas, pela soberania nacional e pelo poder popular, no rumo do socialismo.<\/p>\n<p>Um exemplo para os comunistas brasileiros.<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/fdinarcoreis.org.br\/fdr\/2012\/03\/23\/dinarco-reis-o-tenente-vermelho\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23633\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[231],"tags":[224],"class_list":["post-23633","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fdr","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-69b","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23633"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23633\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}