{"id":2366,"date":"2012-02-04T17:59:19","date_gmt":"2012-02-04T17:59:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2366"},"modified":"2012-02-04T17:59:19","modified_gmt":"2012-02-04T17:59:19","slug":"o-egito-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2366","title":{"rendered":"O Egito real"},"content":{"rendered":"\n<p>01.02.2012 &#8211; A terra dos fara\u00f3s sempre foi muito forte no meu imagin\u00e1rio. Desde bem pequena as hist\u00f3rias de deuses e reis daquele distante lugar na \u00c1frica habitavam em mim por conta de uma \u201cestranha\u201d mania do meu pai, que era a de comprar livros de todos os vendedores que batiam \u00e0s portas de casa. Naqueles livros vinham as mais loucas narra\u00e7\u00f5es dos mundos mais distantes, com seus mitos e belezas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, era essa terra que eu tinha na cabe\u00e7a quando desembarquei no Cairo, tr\u00eas dias antes do anivers\u00e1rio da chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d que dep\u00f4s Hosni Mubarak depois de 30 anos de governo. Muito do que vivia em mim foi fortalecido e outras tantas coisas se agregaram, misteriosas e fortes. O que ficou de saldo foi a certeza de que esse pa\u00eds milen\u00e1rio tem uma gente brava, corajosa, cr\u00e9dula e apaixonada. Nas ruas, homens e mulheres reais falam sobre seus sonhos, suas esperan\u00e7as, seus medos e seus mais secretos desejos de amor. O grande territ\u00f3rio de Misr (nome original do Egito), de mais de um milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados, \u00e9 um espa\u00e7o de esperan\u00e7as, mas sem ilus\u00f5es. As gentes sabem que nada est\u00e1 dado. H\u00e1 ainda muita coisa para conquistar.<\/p>\n<p><strong>O que antes n\u00e3o se fazia<\/strong><\/p>\n<p>A leva de turistas que esperava na entrada do Vale dos Reis, em Luxor, se via diante de uma novidade. O servi\u00e7o de visitas estava parado. Os trabalhadores que dirigem os carrinhos que levam os visitantes at\u00e9 bem perto das tumbas faziam uma greve exigindo aumento no sal\u00e1rio. Havia uma intensa algaravia, como se brigassem entre si, mas, que nada, \u00e9 o jeito eg\u00edpcio de protestar, falando alto e forte. Vinte homens fazem o servi\u00e7o de carregar turistas durante todo o dia em carrinhos a motor, ganhando menos de 20 d\u00f3lares ao m\u00eas, enquanto o estado arrecada um d\u00f3lar por turista. A considerar que o n\u00famero de visitantes pode chegar a cinco mil pessoas ao dia, eles entendem que \u00e9 hora de levar uma fatia maior do quinh\u00e3o. Isso a\u00ed era impens\u00e1vel antes da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora os trabalhadores sentem que t\u00eam direito de protestar e lutar por coisa melhor. A cada hora estoura uma greve no Egito\u201d, comenta Abdelaziz, que trabalha como guia. Mesmo a juventude que vive de vender postais, len\u00e7os e lembrancinhas \u2013 no trabalho informal \u2013 come\u00e7ou a fazer exig\u00eancias.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o do Vale dos Reis \u00e9 o mundo dos artes\u00e3os. Era assim no tempo dos fara\u00f3s, quando dali saiam os mestres que deixaram ao mundo a beleza gravada nas pedras dos templos, e \u00e9 assim agora. Cada uma das casinhas simples que se v\u00ea na paisagem arenosa \u00e9 uma f\u00e1brica e a mesma arte das pir\u00e2mides segue sendo produzida dia ap\u00f3s dia. A diferen\u00e7a \u00e9 que antes faziam seu trabalho para os deuses, agora disputam os d\u00f3lares dos turistas. Naquele lugar a vida parece congelada, como se nada tivesse mudado, mas isso \u00e9 s\u00f3 aparente. Enquanto talham pedras e fazem desenhos, os eg\u00edpcios da regi\u00e3o de Luxor buscam vida melhor. Foi assim com Karim, de 31 anos, que t\u00e3o logo explodiu a luta no Cairo, em janeiro de 2011, deixou tudo para tr\u00e1s e se foi a protestar. \u201cHavia um sentimento nacional contra Mubarak, a morte do blogueiro em Alexandria no m\u00eas de dezembro de 2010 foi o estopim. A mudan\u00e7a j\u00e1 estava em curso e toda a gente queria participar\u201d. Agora, passado um ano o que parece \u00e9 que o Egito ainda est\u00e1 alerta. \u201cNada est\u00e1 acabado. Vamos ter de esperar para ver o que fazem os irm\u00e3os mu\u00e7ulmanos e ainda h\u00e1 que ver Mubarak numa pris\u00e3o de verdade\u201d.<\/p>\n<p>O sentimento de que se pode falar e dizer n\u00e3o ao sistema se expressa at\u00e9 nos lugares mais sagrados. Zizo, morador de um pequeno povoado da regi\u00e3o norte, conta que outro dia, na mesquita, quando o im\u00e3 (sacerdote mu\u00e7ulmano) falava mal dos jovens que haviam morrido nos dias de luta de janeiro de 2011, um rapaz que estava rezando se levantou e gritou: \u201c `n\u00e3o fale de pol\u00edtica no p\u00falpito. Limite-se \u00e0s coisas de Al\u00e1\u00b4. Isso \u00e9 coisa que nunca aconteceu, interpelar um im\u00e3. Agora acontece. Se pode falar\u201d. Nos dias duros da revolu\u00e7\u00e3o 84 pessoas foram assassinadas pelas for\u00e7as de repress\u00e3o. S\u00e3o m\u00e1rtires e ai daquele que ousar dizer que isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p><strong>Nada para celebrar<\/strong><\/p>\n<p>O dia 25 de janeiro \u00e9 um feriado nacional no Egito bem antes da vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o &#8211; celebra-se o dia da vit\u00f3ria das tropas eg\u00edpcias contra o ex\u00e9rcito brit\u00e2nico em 1952 \u2013 mas, hoje, o que era uma festa da pol\u00edcia virou hora da a\u00e7\u00e3o popular. Da\u00ed que por todo o pa\u00eds se armaram protestos e aglomera\u00e7\u00f5es. As marchas come\u00e7aram nesse dia e encerraram no dia 27, sexta-feira, que \u00e9 dia de descanso para os mu\u00e7ulmanos, o que permite que todos possam sair \u00e0s pra\u00e7as para protestar. No Cairo milh\u00f5es de pessoas foram \u00e0s ruas, mas a movimenta\u00e7\u00e3o podia ser vista em cada cidadezinha do pa\u00eds. As coisas ainda est\u00e3o inacabadas e os motivos pelos quais morreram pessoas ainda n\u00e3o se cumpriram.<\/p>\n<p>Muhamad M. tem 33 anos e h\u00e1 12 anos trabalha no com\u00e9rcio de Luxor. \u00c9 formado em hist\u00f3ria, mas a carreira de professor no Egito \u00e9 bastante amarga e ele decidiu atuar no turismo. Nos dias de convuls\u00e3o do janeiro passado tamb\u00e9m fechou seu neg\u00f3cio e se foi ao Cairo. \u201cAqui no Egito existe um dado hist\u00f3rico bem interessante. A cada 100 anos fazemos uma revolu\u00e7\u00e3o. A \u00faltima foi em 1922, contra os ingleses, ent\u00e3o era certo que algo haveria de passar agora\u201d. Ele conta que quando Mubarak assumiu o poder em 1981 o povo do Egito acreditava na sua proposta. As gentes ainda viviam em estado de guerra, por conta dos conflitos contra Israel (primeiro com Nasser, derrotado e depois com Al Sadat, vitorioso), muitos haviam morrido e tudo o que se queria era paz. E foi isso que Mubarak prometeu. \u201cO fato \u00e9 que os primeiros dez anos de governo foram bons.<\/p>\n<p>A guerra acabou, havia paz, ele come\u00e7ou a reestruturar o turismo, o dinheiro come\u00e7ou a entrar, havia contato com o povo, os professores, os jornalistas. Isso foi importante para n\u00f3s\u201d. De qualquer forma todo esse desenvolvimento era promovido pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras estadunidenses e tamb\u00e9m a d\u00edvida externa cresceu muito. Tamb\u00e9m havia o forte apoio pol\u00edtico dos EUA uma vez que tendo Mubarak como aliado era fortalecida a pol\u00edtica de ocupa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da porta oriental.<\/p>\n<p>Em 1990, quando o Iraque atacou o Kuwait, os Estados Unidos cobraram a fatura e pediram ajuda ao ent\u00e3o presidente. Ele imediatamente se colocou contra a invas\u00e3o e mandou soldados para lutar com o Kuwait. De repente Mubarak se viu procurado por v\u00e1rios chefes de estado, o Egito era um espa\u00e7o estrat\u00e9gico na proposta de destrui\u00e7\u00e3o do Iraque encampada pelos Estados Unidos, e come\u00e7ou a achar que era como um fara\u00f3, filho de deus. Nesse per\u00edodo a d\u00edvida externa de sete bilh\u00f5es de d\u00f3lares foi perdoada e ele se entregou totalmente aos interesses dos Estados Unidos. \u201cFoi nessa \u00e9poca que ele come\u00e7ou a agir como dono do Egito e j\u00e1 a\u00ed come\u00e7aram os protestos. A coisa come\u00e7ou a esquentar mesmo foi no ano 2000 quando Mubarak anunciou que estava preparando seu filho, Gamal Mubarak, para assumir a presid\u00eancia. Ningu\u00e9m queria isso, Gamal era muito jovem, sem experi\u00eancia e havia outras pessoas no Egito mais capacitadas para o cargo. Foi desde a\u00ed que come\u00e7ou a se gestar a revolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ibrahim Y., 44 anos, \u00e9 ativista pol\u00edtico e est\u00e1 na luta contra Mubarak desde o final dos anos 90. Segundo ele, os protestos e as manifesta\u00e7\u00f5es que eram feitas at\u00e9 janeiro de 2011 eram pequenas e restritas aos militantes socialistas ou ligados a movimentos mais radicais como a irmandade mu\u00e7ulmana \u2013 que hoje controla a Assembleia do Povo. \u201cNos anos 90 houve ataques radicais, muita viol\u00eancia do estado, e depois de 2000 j\u00e1 faz\u00edamos protestos nas pra\u00e7as, mas \u00e9ramos quatro ou cinco\u201d. Foi s\u00f3 depois de 2005 (ano da quinta elei\u00e7\u00e3o consecutiva de Mubarak) que, com a expans\u00e3o da internet, uma juventude conectada come\u00e7ou a divulgar nos blogs e nas redes sociais as falcatruas do governo eg\u00edpcio, tornando as informa\u00e7\u00f5es que antes circulavam em ambientes restritos, internacionalizadas.<\/p>\n<p>Mubarak colocou em a\u00e7\u00e3o as for\u00e7as de intelig\u00eancia e de repress\u00e3o at\u00e9 que, em dezembro de 2010, os militares invadiram um caf\u00e9 onde estava um jovem blogueiro- Khaled Saaed, 28 anos \u2013 conhecido nacionalmente por seus escritos cr\u00edticos, e o golpearam at\u00e9 a morte. Foi o estopim que detonou o processo revolucion\u00e1rio. Milhares de pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas em protesto contra a viol\u00eancia das for\u00e7as do governo. \u201cNo come\u00e7o foi um movimento de pura raiva. As pessoas sa\u00edam \u00e0s ruas exigindo justi\u00e7a pelo assassinato de Khaled. Depois, com a for\u00e7a que ia se formando na rua, o movimento come\u00e7ou a se politizar. O povo foi vendo que dava para exigir mais. Mubarak era um ladr\u00e3o, estava esgotando o Egito. Desde aquele momento, os eg\u00edpcios entendiam que era hora de ele deixar o poder\u201d.<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o se cumpriu<\/strong><\/p>\n<p>O que se viu no Egito no m\u00eas de janeiro de 2011 o mundo todo acompanhou. Milh\u00f5es nas ruas, acampamentos gigantescos, revide violento da ordem, at\u00e9 que em fevereiro, depois de muitas mortes, feridos e presos, a for\u00e7a popular logrou depor o homem que governara por 30 anos e que preparava seu filho mais velho para outra fase da \u201cdinastia\u201d.<\/p>\n<p>Desde a\u00ed o pa\u00eds foi se preparando para uma nova fase, com elei\u00e7\u00f5es diretas, escolha de uma Assembleia do Povo e prepara\u00e7\u00e3o de nova Constitui\u00e7\u00e3o. Mas, o que aparecia como uma grande vit\u00f3ria popular foi tendo outras fei\u00e7\u00f5es. Uma junta de governo provis\u00f3ria foi formada por militares, coisa que n\u00e3o agradou ningu\u00e9m. Por conta disso os protestos voltaram a acontecer. Al\u00e9m disso, familiares dos jovens mortos durante o conflito seguem acampados na Pra\u00e7a Tahrir exigindo julgamento e condena\u00e7\u00e3o do ex-presidente. Mubarak, que j\u00e1 tem mais de 80 anos, foi preso, mas, como dizem os eg\u00edpcios, est\u00e1 num \u201cc\u00e1rcere de ouro\u201d, com todas as regalias.<\/p>\n<p>O processo de elei\u00e7\u00e3o dos membros da Assembleia do Povo foi demorado e s\u00f3 terminou neste janeiro com a instala\u00e7\u00e3o oficial. O Egito \u00e9 dividido em 27 prov\u00edncias e em cada uma delas as elei\u00e7\u00f5es aconteceram separadamente em v\u00e1rias etapas. A elei\u00e7\u00e3o presidencial s\u00f3 vir\u00e1 em junho, embora haja muita manifesta\u00e7\u00e3o pela antecipa\u00e7\u00e3o do processo. Os eg\u00edpcios n\u00e3o querem mais saber de ser governados por militares.<\/p>\n<p>Por outro lado, coisas muito sutis foram acontecendo durante o ano que passou. Por ser um partido bem mais organizado e com vida anterior muito presente na vida nacional, a Irmandade Mu\u00e7ulmana logrou maioria (71%) nas cadeiras da nova Assembleia do Povo que tem 508 membros, dos quais apenas dez s\u00e3o mulheres. Desse n\u00famero, 100 ser\u00e3o escolhidos para preparar a nova Constitui\u00e7\u00e3o e isso promete novos embates.<\/p>\n<p>Com a vit\u00f3ria avassaladora dos mu\u00e7ulmanos nas elei\u00e7\u00f5es e sua consequente hegemonia h\u00e1 o risco de o pa\u00eds entranhar na vida pol\u00edtica nacional os pressupostos religiosos. Tanto que no dia da instala\u00e7\u00e3o da Assembleia, Mamdouh Ismail, membro do partido salafista Al-Asala fez o seu juramento dizendo: a Assembleia do Povo construir\u00e1 uma nova constitui\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 respeitada, desde que n\u00e3o se coloque contra o Cor\u00e3o (livro sagrado dos mu\u00e7ulmanos). Houve tumultos, gritarias, confus\u00f5es e protestos dos liberais (que det\u00eam 17% das cadeiras), o que mostra que esse n\u00e3o ser\u00e1 um embate f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Comenta-se que os mu\u00e7ulmanos teriam feito um acordo t\u00e1cito com a junta militar garantindo que o parlamento n\u00e3o vai interferir sobre os assuntos do ex\u00e9rcito e em contrapartida que o ex\u00e9rcito n\u00e3o interferiria na reda\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 desconhecido de boa parte dos militantes sociais, mas a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem acesso a essas \u201cfiligranas\u201d do poder. Muita \u00e1gua vai passar por baixo dessa ponte.<\/p>\n<p>Entre os que estiveram nas ruas para depor Mubarak o sentimento \u00e9 de esperan\u00e7a e esses \u201cdetalhes\u201d n\u00e3o parecem importar, at\u00e9 porque as gentes s\u00e3o muito religiosas e n\u00e3o veem mal nenhum que o Cor\u00e3o comande a vida. \u201cN\u00f3s j\u00e1 experimentamos o comunismo (Nasser), n\u00e3o deu certo. Al Sadat n\u00e3o deu certo. Depois tentamos Mubarak, tamb\u00e9m n\u00e3o deu. Agora vamos dar uma chance aos mu\u00e7ulmanos. Se eles n\u00e3o fizerem o que tem de ser feito a gente tira eles\u201d, diz Muhamad.<\/p>\n<p>J\u00e1 entre os militantes de organiza\u00e7\u00f5es sociais mais antigas o ceticismo \u00e9 bem expl\u00edcito. \u201cO povo votou nos mu\u00e7ulmanos porque n\u00e3o teve como conhecer a ideia dos demais grupos. No Egito, o candidato precisa de muito dinheiro para fazer uma campanha pol\u00edtica. Nossos grupos n\u00e3o tiveram como bancar. Como os mu\u00e7ulmanos estavam mais solidamente organizados, tiveram mais recursos. Foi a vit\u00f3ria do dinheiro\u201d, diz Mustafa H. Al\u00e9m disso, os mu\u00e7ulmanos fizeram uma campanha vinculando-se a uma oposi\u00e7\u00e3o ferrenha a Mubarak, coisa que n\u00e3o \u00e9 bem verdade, conta Mustafa. \u201cDurante o governo de Mubarak a irmandade fez muitos acordos, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o assim. Mas, vamos ver o que vai dar. Aguardaremos vigilantes, prontos para atuar\u201d.<\/p>\n<p>De certa forma esse ceticismo se expressou muito claro nas manifesta\u00e7\u00f5es do anivers\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o. No dia 27, quando a Pra\u00e7a Tahrir estava tomada por mais de quatro milh\u00f5es de pessoas foi poss\u00edvel observar tr\u00eas grupos bem determinados. O dos mu\u00e7ulmanos, o dos civis\/liberais e os socialistas. Sem sombra de d\u00favidas os dois \u00faltimos formavam maioria. Quando os l\u00edderes mu\u00e7ulmanos tentaram discursar falando em \u201ccelebra\u00e7\u00e3o\u201d, as vozes se ergueram.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 celebra\u00e7\u00e3o. Nada se cumpriu. Mubarak n\u00e3o foi condenado, n\u00e3o teve elei\u00e7\u00e3o presidencial, n\u00e3o tem Constitui\u00e7\u00e3o. \u201cO que h\u00e1 \u00e9 o processo em curso\u201d, insiste Ibrahim. \u201cN\u00f3s n\u00e3o queremos cortar cabe\u00e7as, nem o terror. N\u00f3s queremos paz, mas queremos que os respons\u00e1veis pelos massacres do povo sejam julgados e condenados. H\u00e1 muitos generais de Mubarak ainda por a\u00ed, dentro do ex\u00e9rcito\u201d.<\/p>\n<p>De fato, boa parte dos ministros e estado maior de Mubarak est\u00e1 encarcerado, mas muitos conseguir fugir para os Estados Unidos ou outros pa\u00edses. Um dos mais odiados \u00e9 Zahy Hawas, que durante 15 anos dirigiu o Museu do Cairo, e que est\u00e1 abrigado nos EUA. \u201cEsse homem roubou muitas riquezas do nosso povo, \u00e9 o rei dos ladr\u00f5es. Nos dias de conflito na Pra\u00e7a Tahrir foram seus homens que atearam fogo no museu e foram eles que roubaram objetos valiosos. O que desapareceu do museu foram obras bem espec\u00edficas, muito cotadas, coisa que s\u00f3 ele poderia saber. Ele fugiu para os Estados Unidos, o grande ladr\u00e3o ocidental. Foram os homens de Mubarak que saquearam e incendiaram. N\u00e3o foi o povo\u201d.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que conta Neder Y, de 43 anos. Segundo ele, nos dias de conflito Mubarak mandou soltar da pris\u00e3o centenas de criminosos, os armou e os mandou atuar contra o povo. \u201cNaqueles dias a gente montava barricadas em frente aos monumentos para proteg\u00ea-los, os trabalhadores protegiam os hot\u00e9is, os turistas. O povo foi quem protegeu as riquezas do Egito. Os saqueadores foram os homens de Mubarak, inclusive foram eles que incendiaram a biblioteca. Tem provas. N\u00f3s aqui amamos nossa hist\u00f3ria, respeitamos o patrim\u00f4nio cultural\u201d. Essa prote\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi organizada nesse janeiro de 2012 quando a Biblioteca de Alexandria e o Museu do Cairo estiveram fechados, guardados pelos guias de turismo e gente do povo, visando impedir qualquer ato de vandalismo pelas for\u00e7as aliadas a Mubarak.<\/p>\n<p><strong>A hist\u00f3ria seguir\u00e1 seu curso<\/strong><\/p>\n<p>O Egito \u00e9 um gigante de riquezas e belezas. Sua cultura remonta h\u00e1 mais de cinco mil anos, tem um milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados de territ\u00f3rio bastante cobi\u00e7ado, est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, na entrada do mundo oriental. Det\u00e9m o canal de Suez, tem sa\u00eddas para dois mares, o Mediterr\u00e2neo e o Vermelho, \u00e9 o quinto no mundo em produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s, tem bastante petr\u00f3leo, possui centenas de minas de ouro, produz o melhor algod\u00e3o do mundo, movimenta um fluxo de 14 milh\u00f5es de turistas ao ano.<\/p>\n<p>Dentro do pa\u00eds est\u00e1 o rio mais longo do mundo, o Nilo, det\u00e9m a quarta maior represa e o maior lago artificial do planeta, o Nasser, com 500 quil\u00f4metros de largura. Dos seus 85 milh\u00f5es de habitantes, 67% est\u00e3o na faixa et\u00e1ria de 18 a 40 anos. \u00c9 feito de gente jovem e \u00e1vida de mudan\u00e7as. \u201cN\u00f3s vamos dar uma chance aos mu\u00e7ulmanos. Vamos esperar dois anos. Ver o que fazem. N\u00e3o vamos tolerar alian\u00e7as com os Estados Unidos, eles roubam nossas riquezas e nos deixam d\u00edvidas. N\u00f3s queremos trabalhar, produzir, desenvolver o pa\u00eds. Queremos uma vida melhor para nossos filhos e netos. Esse \u00e9 o desejo dos eg\u00edpcios. Simples assim\u201d.<\/p>\n<p>Para os que ainda seguem vigilantes nos protestos, nas pra\u00e7as, nas ruas, \u00e9 fato de que o Egito est\u00e1 vivendo uma nova fase, apesar de todas as inc\u00f3gnitas. \u201cN\u00f3s mudamos tudo, tiramos os pol\u00edticos, os jornalistas, os professores. Come\u00e7amos uma nova \u00e9poca. Estamos ensinando nossas crian\u00e7as a partir de novos pressupostos, vamos recome\u00e7ar, vamos fundar a Segunda Rep\u00fablica\u201d, diz Ibrahim. Ele mostra que conhece a pol\u00edtica internacional e diz gostar muito de Lula (ex-presidente brasileiro). \u201cA n\u00f3s, falta um l\u00edder como Lula, que unisse o pa\u00eds. Mas, ainda assim, se houvesse um, n\u00e3o permitir\u00edamos que cometesse o erro que Lula cometeu. Lula deu dinheiro para os pobres (bolsa-fam\u00edlia), e isso n\u00e3o \u00e9 certo. N\u00e3o somos animais para s\u00f3 comer. Precisamos \u00e9 de oportunidade, trabalho. Garanta o trabalho e n\u00f3s seguimos em frente\u201d.<\/p>\n<p>E assim segue o Egito, cheio de esperan\u00e7as e contradi\u00e7\u00f5es. Junho j\u00e1 est\u00e1 \u00e0s portas, muitos s\u00e3o os pr\u00e9-candidatos \u00e0 presid\u00eancia, mas a l\u00f3gica eleitoral \u00e9 bastante viciada. Como \u00e9 o dinheiro quem d\u00e1 as cartas parece quase certo que aqueles que comandaram o processo de mudan\u00e7a, inclusive dando as vidas, n\u00e3o ser\u00e3o os que hegemonizar\u00e3o o poder. O que vir\u00e1 ser\u00e1 uma nova experi\u00eancia que os eg\u00edpcios enfrentar\u00e3o com a valentia de quem acredita no \u201cmaktub\u201d (destino).\u00a0\u00a0Embora nas ruas se possa perceber claramente que existe uma juventude disposta a fazer o destino acontecer com as pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.eteia.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">www.eteia.blogspot.com<\/a> Am\u00e9rica Latina Livre &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.iela.ufsc.br\/\" target=\"_blank\">www.iela.ufsc.br<\/a> Desacato &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.desacato.info\/\" target=\"_blank\">www.desacato.info<\/a> Pobres &amp; Nojentas &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pobresenojentas.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">www.pobresenojentas.blogspot.com<\/a>Agencia Contestado de Noticias Populares &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.agecon.org.br\/\" target=\"_blank\">www.agecon.org.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: newsitead\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor elaine tavares \u2013 jornalista\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2366\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-2366","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Ca","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2366","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2366"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2366\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2366"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2366"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2366"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}